quarta-feira, 7 de março de 2012

A polêmica do "chute no traseiro" de Valcke


Nos últimos dias o noticiário sobre a Copa do Mundo no Brasil só fala de uma coisa: o “pé na bunda” mandado pelo secretário geral da Fifa, Jérôme Valcke aos dirigentes, políticos e porque não, ao povo brasileiro. A infeliz declaração do cartola ainda está gerando enorme polêmica e não se sabe onde, como e quando vai parar. A Dra. Katia Rubio acaba de publicar em seu blog http://blog.cev.org.br/katiarubio/ um artigo espetacular com reflexões sobre essa polêmica. Palavras de quem já sentiu na própria pele esse mesmo tipo de “arrogância internacional”.  

As palavras mal-ditas
Por Katia Rubio

Dra. Katia Rubio
Em julho do ano passado postei um texto no meu blog denominado “Do imperialismo linguístico ao imperialismo acadêmico” para denunciar uma situação ocorrida em um desses muitos congressos que vamos por aí onde o idioma oficial é o inglês. Convencionou-se adotá-lo como oficial porque assim nos foi imposto pelos detentores do poder acadêmico e não houve ninguém, nem nenhum movimento, que se organizasse que maneira eficaz o suficiente para contrapor essa “convenção”. E assim nos habituamos a buscar professores, cursos, tradutores para tentar ficar lado a lado com os donos do poder, afinal precisamos disso em nossas carreiras. E muitas vezes, por mais que nos esforçássemos nunca éramos bons o suficiente para sermos compreendidos no âmago de nossas questões mais urgentes ou mais pungentes. Afinal, diziam os menos respeitosos, isso são detalhes da língua que pouco e nada contribui para a construção ou ampliação do conhecimento. E quantas vezes não mordemos os lábios por nos sentirmos desrespeitados não só na nossa condição de pesquisadores, mas de cidadãos de um país ou do mundo.

Ouvi por muito tempo que o mundo era assim mesmo. Os mais fortes apontam, determinam e os mais fracos obedecem. E nessa ordem estavam não apenas pessoas com mais conhecimento, dinheiro, poder ou tudo isso junto, mas também a relação entre as instituições e seus instituídos, os países e a geopolítica. Sendo eu originária de um país colonizado isso então ganhava contornos mais agressivos. Até bem pouco tempo atrás eu era cidadã do Terceiro Mundo, depois passei a pertencer a um país em desenvolvimento, para depois ser emergente e hoje ser uma respeitada professora da sétima maior economia do mundo.

Caramba! E isso tem menos de 50 anos… o que representaria isso para a História?

Representa a possibilidade de ver uma mudança de jogo em que já não admito ouvir uma referência a mim com as expressões sudaca ou brazuca. Desculpem os atrevidos, descolados ou ainda informais. Eu sou brasileira. Aquela que já foi tudo aquilo do parágrafo anterior, que pedia desculpas ao abrir uma palestra em língua inglesa por não ter domínio total daquele idioma e que via meus textos serem rejeitados nas revistas internacionais por não serem escritos por um “nativo”, afinal nossas traduções nunca eram boas o suficiente para estar ao lado de orgulhosos produtores de conhecimentos nativos.

Acompanho desde o último sábado dia 03 de março a polêmica causada por uma declaração infeliz do secretário geral da FIFA a respeito das obras da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Disse ele que o Brasil precisava de um chute no traseiro para que as obras andassem a um ritmo mais acelerado…

Como cantaria Noel Rosa: Quem é você que não sabe o que diz. Meu deus do céu que palpite infeliz…

É muito provável que na escola onde o senhor Jérome Valcke estudou não havia disciplinas bem dadas de antropologia e pouco tenha discutido o conceito de eurocentrismo, ou francocentrismo mais especificamente, que tanto atropelou o mundo ao longo de incontáveis séculos, embora no Brasil, e mais especificamente na Universidade de São Paulo onde sou professora, se tenha o maior respeito pelo Prof. Claude Lévi-Strauss.

Sua fala aponta o quanto está impregnado no pensamento de pessoas como ele a superioridade de sua casta, de seus antepassados que se referiam aos povos das Américas, da África, da Ásia e até de alguns da própria Europa, como aqueles selvagens, bárbaros ou coisa que o valha. Na posição que ele ocupa, de um quase representante de Estado (afinal de contas a FIFA conta com mais países associados do que a própria Organização das Nações Unidas), não se admite esse tipo de expressão, mesmo em uma roda de amigos dos mais íntimos, quanto mais em uma coletiva de imprensa. Que coisa lamentável. Que falta de preparo. Que falta de cuidado. Que desconhecimento das coisas que passam no mundo contemporâneo.

Essa notícia me pega em um momento em que tenho ouvido de atletas olímpicos o mesmo sentimento diante da tentativa de imposição da submissão por parte de alguns atletas, dirigentes ou mandatários do esporte mundial e o quanto eles têm que ser firmes em seus princípios e convicções para não sucumbirem diante de uma profecia autorrealizadora de fracasso iminente.

Desde outubro do ano passado acompanho a posição do governo brasileiro diante das determinações da FIFA e do COI em relação à lição de casa brasileira para recepção dos dois maiores mega eventos esportivos da atualidade. Passada a euforia inicial de entrar para o mapa dos grandes eventos planetários veio a ressaca das negociações relacionadas a obras, soberania nacional e outras questões que esses eventos hoje contemplam. Sabe-se sim que é necessário conceder em parte para receber de outra, mas isso tudo é muito recente ao repertório do povo brasileiro que historicamente teve que dobrar os joelhos diante de interesses fossem eles econômicos, políticos, sociais ou qualquer outra categoria de análise.

Confesso que temi à concessão pura e simples das exigências impostas pelos donos dos espetáculos. Aguardei ansiosa pelo desfecho do desrespeito com que a presidenta Dilma foi tratada ao não ser recepcionada pelos altos dirigentes para negociar a Lei Geral da Copa. Pensei comigo que sendo ela a mulher que é e com o passado que tem não poderia tolerar de forma resignada às ordens ardilosas de pessoas como o senhor Valcke que punham em risco e em jogo a nossa soberania e algumas conquistas históricas.

Fui levada a crer que sua postura conciliadora naquele momento fazia parte de uma estratégia que buscava o instante exato de levar à mesa de negociação os nossos interesses. Mas, pelo que vejo, os negociadores da Copa do Mundo não fizeram a mesma análise de conjuntura que o time brasileiro. E uma vez mais se puseram em campo vestidos da arrogância dos civilizadores que invadiram a América, a Ásia e a África proclamando ao mundo não a sua tomada, e sim o seu descobrimento. E não contentes com a imposição da própria cultura sobre a cultura local determinaram ainda padrões de comportamento, de pensamento e até de fé sobre os “nativos”, “desalmados” e “aculturados”. Esqueceram-se apenas esses senhores que se passaram mais de 500 anos desde que isso ocorreu e que as ciências humanas se desenvolveram ao ponto de nos proporcionar inclusive a condição de poder avaliar e julgar o comportamento dos colonizadores.

Que felicidade a nossa, senhor Valcke, e infelicidade a sua, de ter diante de si cidadãos capazes de se orgulharem de fazer parte de um momento da história do Brasil de resgate da dignidade, da capacidade de se ter figuras de projeção e de identidade que estão dentro do próprio país e não em continentes distantes com muito mais anos de existência que o nosso. Que erro de avaliação, senhor, ao acreditar que um saquinho cheio de promessas de projeção internacional seria suficiente para lhe dar o direito de tratar com a arrogância e o desrespeito não apenas um interlocutor do governo, mas toda uma nação.

Volto a dizer. Vivo no Brasil, trabalho para sua transformação porque também tenho a noção exata de nossos problemas, de nossas limitações, mas isso não dá a mim, nem a qualquer sujeito nesse mundo que não tenha direito a voto, de determinar os rumos que devemos tomar.

Parabéns ministro Aldo Rebelo. Sua atitude firme e imediata de responder à forma desrespeitosa como fomos tratados, de como me senti tratada e desrespeitada, me leva a crer que podemos ter uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos diferentes. Não apenas sendo campeões, trazendo medalhas, mas podendo erguer a cabeça e afirmando que desejamos receber a quem quiser ver esses espetáculos no Brasil, com o orgulho de ser um país diferente, cheio de imperfeições, mas com dignidade, dignidade essa que pode ter faltado a outros que pagaram um preço muito mais alto do que o lucro resultante dos espetáculos. Pagaram com o desrespeito a sua soberania.

E não tente, senhor Valcke, querer usar a mesma e velha desculpa comum ao meio acadêmico para justificar o desastre que causou: foi um erro dos tradutores que não compreenderam a intenção do que foi dito!

Sobre Katia Rubio:
Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.

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