terça-feira, 6 de março de 2012

O futebol explica o mundo?


A resposta à pergunta do Literatura na Arquibancada pode ser encontrada de maneira mais do que clara no livro espetacular escrito pelo jornalista norte-americano Franklin Foer, “Como o futebol explica o mundo” (Jorge Zahar Editores, 2005). A tese defendida por Foer é a de que o mundo da bola pode explicar as mazelas e as maravilhas da globalização.

Como está na sinopse da obra: “O futebol é mais do que um esporte, ou mesmo um modo de vida; abrange questões complexas que ultrapassam a arte do jogo. Envolve interesses reais – capazes de arruinar regimes políticos e deflagrar movimentos de libertação. Os clubes de futebol espelham classes sociais e ideologias políticas, e freqüentemente inspiram uma devoção mais intensa que as religiões”.

Franklin Foer
E para relatar um tema tão complicado como este, Foer foi longe, bem longe... “Viajou o mundo – da Itália ao Irã, do Brasil à Bósnia, analisando o intercâmbio entre o futebol e a nova economia global. Foer derruba mitos ao verificar que em vez de destruir culturais locais, como preconizava a esquerda, a globalização deu nova vida ao tribalismo, e que, longe de promover o triunfo do capitalismo apregoado pela direita, fortaleceu a corrupção”.

Mas para melhor compreender as reflexões de Franklin Foer, Literatura na Arquibancada traz abaixo uma resenha pra lá de especial, feita por quem entende do assunto, o professor das Faculdades de Economia e Comunicação da FAAP, Antonio Sérgio Bichir. A resenha foi publicada originalmente na Revista de Economia & Relações Internacionais da FAAP, em 2006.

Como o futebol explica o mundo:
um olhar inesperado sobre a globalização
Por Antônio Sérgio Bichir

Nós, brasileiros, somos – em geral – pessoas afáveis. Numa perspectiva bastante generosa e francamente imprecisa, arrisco alguma antropologia de algibeira. Gostamos de reconhecer o mérito dos outros (mesmo que às custas de alguma inveja ou ressentimento); sentimo-nos, até, um pouco inferiorizados em relação a outros povos, como, por exemplo, os norte-americanos ou os europeus, em sentido amplo; somos prestativos e aconselhadores... Mas não nos sentimos melhores que os outros.

No futebol – tradicional cavalo de batalha da nacionalidade tantas vezes conspurcada, vilipendiada e redimida – ora estamos no topo, ora estamos no chão. Conquistamos o quinto campeonato mundial de futebol, mas, antes do início da última Copa, amargamos derrotas vergonhosas diante das seleções de Honduras e do Equador. Aqui, porém, todos entendem de futebol, sejam jornalistas pernas-de-pau, sejam filósofos “cabeças-de-bagre”.

Esse parece ser o caso de um jovem jornalista perna-de-pau: o autor de Como o futebol explica o mundo. Embora se trate de um grosso assumido (“No futebol, sou um perna-de-pau”), Franklin Foer tem muito a dizer sobre o mais popular esporte do planeta (como gostam de relembrar, sempre que possível, fanáticos “jornalistas-torcedores”).

A rigor, não é preciso ser craque para palpitar, ou melhor (?), para chegar a técnico de nossa seleção... Felipão conduziu o time ao pentacampeonato e, até prova em contrário, foi ruim de bola – Parreira, o atual ocupante do cargo mais cobiçado do país (depois da presidência da República, talvez), nem sequer jogou profissionalmente.

Clube Atlético Paulistano, equipe que preferiu
deixar o futebol a ter que se profissionalizar
no final da década de 1920. 
Aristóteles notou que o dinheiro não poderia se transformar num fim em si e para si mesmo, corrompendo sua natureza instrumental (meio para alcançar algum fim). Muitos dizem que, no Brasil, o verdadeiro futebol acabou em 1933, com a implantação do profissionalismo. “O dinheiro tomou conta de tudo”, dizem os mais velhos e saudosistas. Ainda se diz que há 30 anos se jogava futebol como nunca, ou seriam 20, 40? De fato, cada época guarda suas saudades e suas verdades. Seus mitos.

Aprender a pensar em perspectiva constitui, de algum modo, um imperativo/uma necessidade – mais que uma conveniência ou um modismo. É possível filosofar sobre assunto tão banal como o futebol? Parece que sim. Ser capaz de combinar uma instigante análise do esporte bretão com o modo de ser do capitalismo globalizado não sugere uma tarefa fácil. Mas o jornalista Franklin Foer enfrentou o desafio com finura e coragem: olhar para o futebol como expressão da cultura (modo de sentir, pensar e agir) de alguns povos.

Anatol Rosenfeld
De fato, não é nova a aproximação do futebol e da sociologia, por assim dizer. Vale mencionar que uma das mais agudas análises do futebol brasileiro data de 1956: um ensaio de Anatol Rosenfeld (crítico cultural multifacetado que migrou da Alemanha nazista para o Brasil nos anos 30) sob o título Das Fussballspiel in Brasilien  (O Futebol no Brasil), publicado na famosa Revista Argumento, da Editora Paz e Terra, em 1974. Sua elegância e perspicácia ajudaram a ampliar a percepção do esporte, evitando sua simplificação e banalização. É a primeira obra de um não-brasileiro a tratar das veredas comuns do futebol e das festas populares mais antigas (seu caráter dionisíaco é ressaltado pelo autor); a importância do futebol como fator de inserção e ascensão sociais ou a hegemonia dos afro-brasileiros na prática do esporte (ambas já destacadas por Gilberto Freyre no clássico Casa-Grande & Senzala). O futebol começava a ser pensado como fenômeno social, como parte integrante da cultura de um povo que nele, talvez, sentisse a possibilidade de realizar um etnocentrismo “dependente”.

O livro de Franklin Foer pertence à linhagem de uma literatura que eleva e aprimora o espírito. Sua linguagem simples e precisa, sem deixar de ser elaborada, reflete sua condição profissional: o jornalismo deve ser objetivo e investigativo.

Como jornalista político (o autor trabalha para a New Republic, em Washington), ele se acostumou a exercer o ofício de “muito com pouco”. E, tudo indica, foi bem-sucedido nessa mais recente empresa.

Seu livro é composto por dez capítulos, todos indicados com o provocativo bordão “Como o futebol explica...” e, segundo ele próprio, dividido em três partes:


Silvio Berlusconi
A primeira tenta explicar o fracasso da globalização em reduzir ódios antigos ainda presentes nas grandes rivalidades em torno do esporte. É a parte hooligan (grifado no original) do livro.

A segunda usa o futebol para abordar questões econômicas: as conseqüências da migração, a persistência da corrupção e a ascensão de novos oligarcas poderosos como Silvio Berlusconi, presidente da Itália (sic)* e do Milan.

Por fim, o livro usa o futebol para defender as virtudes do nacionalismo ao estilo antigo – uma forma de evitar o retorno do tribalismo (p.10).

Alguns títulos são muito interessantes e oferecem uma síntese notável do que virá a seguir: “Como o futebol explica o paraíso dos gângsteres”; “Como o futebol explica a questão judaica”; “Como o futebol explica o discreto charme do nacionalismo burguês”; ou “Como o futebol explica a esperança do Islã.”

O autor buscou generoso apoio em diversos jornalistas espalhados pelo mundo para realizar sua obra, inclusive no Brasil (Juca Kfouri, por exemplo). E essa peregrinação parece ter favorecido a construção de um texto cosmopolita e civilizado. Saliente-se, a propósito, o fio que conduz toda a obra, isto é, globalismo versus localismo. Há fortes indícios de que os times de futebol dos países europeus (os times de ponta, principalmente) convivem pacificamente com o multiculturalismo e com uma visão “paroquial” do mundo, típica dos nacionalismos estreitos e dogmáticos do século XX (que tantas atrocidades geraram ou asseguraram).

Torcedores do Chelsea
Contudo, discute até que ponto as culturas nacionais podem sobreviver ao inevitável fluxo da internacionalização. Qual o desafio que se coloca para esses povos (as etnias) diante da modernidade? As palavras de ordem continuam as mesmas? Unificação versus fragmentação?

Segundo o autor, um de seus personagens (em “Como o futebol explica um hooligan sentimental”), Alan Garrison, torcedor do Chelsea (rival do Tottenham em West London), de origem judaica, ofende seus adversários com insultos antisemitas; ele também tem saudades de quando seu time levava “dez mil ao estádio”, dos quais “seis mil dispostos a brigar...” Aquele Chelsea nostálgico acabou?

Sem saber, Alan sintetizou a essência do argumento cultural contra a globalização (...): o capitalismo das multinacionais priva as instituições locais de seu caráter local, homogeiniza, destrói tradições e destitui proletários e camponeses nativos das coisas de que mais gostam. (p.89)

Alan já não consegue ocupar os lugares que ele e seus amigos hooligans ocupavam no estádio; boa parte do time está nas mãos de banqueiros e muitas mulheres freqüentam, hoje em dia, os campos, para não falar do conforto e segurança que seguem o rastro dos grandes investimentos no esporte. Mas que times de futebol no Brasil poderiam se “orgulhar” de sua modernidade? Contam-se nos dedos de uma só mão...

O autor – voluntariamente ou não –, em seu belo texto, remonta ao dilema fundamental do homem: mudança versus tradição. Princípio do prazer e princípio do desempenho? A longa e penosa marcha do homem rumo ao seu destino.
Qual? Civilização ou barbárie.

Marx já sublinhara, há muito tempo, que o capitalismo trazia em seu germe a destruição do tradicional (arcaico?) e a construção do novo. Isso não foi (e não é) indolor. Isso não é uma novidade trazida pela globalização, como pensam alguns. Mas outros fatos chamam a atenção de Franklin Foer, e ele os retrata com senso crítico, bom humor e sofisticação. Tome-se, por exemplo, o tema do anti-semitismo. O autor assegura que o tema, na Europa unificada, não está entre os mais cotados no repertório racista.

Equipe do MKT, década de 1970.
Segundo ele, a bola da vez são negros, turcos, árabes etc. Na Hungria, porém, a torcida do Ferencvaros costuma tratar seus adversários húngaros de “judeus sujos”;  um de seus alvos prediletos é o MTK, clube vencedor que, apesar de seu sucesso, não consegue atrair mais torcedores: o produto é bom, mas não conquista adeptos.  Sua base de apoio é pequena. Foi fundado por empresários judeus em 1888 e, durante um bom tempo, ser judeu na Hungria não representava qualquer risco; pelo contrário, eles estavam entre os mais fervorosos nacionalistas húngaros (informa o autor). Mas, “depois da queda do Império dos Habsburgo e da desastrosa experiência da revolução comunista de 1919**, essa confortável coexistência chegou ao fim. Os judeus passaram a ser vistos pelos políticos nacionalistas como os bodes expiatórios preferidos. Esses políticos e seus jornais transformaram o MTK num poderoso símbolo do caráter pernicioso do judeu (...)” (p.81).

O livro de Franklin Foer é uma bela oportunidade de pensarmos nas ricas e complexas relações entre o esporte e a cultura (no sentido mais amplo possível) e em alguns mitos que teimam em invadir mentes desinformadas e preconceituosas. Ou o que dizer da idéia recorrente e enraizada de que a globalização (ou a internacionalização intensificada do capital) representa a quebra da tradição, a destruição de estruturas específicas, o fim de laços de identificação em comunidades, etc. e tal? O livro de Foer nos convida a refletir de modo menos ingênuo: a lógica do capital teria, antes, contribuído para reforçar e preservar a diferença, em lugar de eliminá-la. Seria isso bom?

É difícil julgar o nacionalismo (e me detenho no tema porque me parece central na obra do autor). Em termos políticos, ele não representa, necessariamente, uma força reacionária ou progressista. O nacionalismo é flexível e se adaptou a diferentes posições políticas em momentos históricos diferentes.

Por vezes, ele se apresenta como tentativa de construir uma nova formação cultural ou política (o caso das nações que emergiram da desintegração da URSS é exemplar; novas nações como um passaporte para a modernidade, isto é, a União Européia...). O sucesso da Europa, muito antes da própria idéia de unificação, se deve sobretudo ao sucesso em preservar a unidade de etnias distintas sob um mesmo teto cultural e territorial, sem esmagá-las. Não há, no mundo moderno, como ter uma única identidade. Para não pôr em risco a própria sobrevivência de uma comunidade, a questão da identidade deve ser encarada como um jogo aberto, complexo e infindável de reconstrução. É como se mover em direção ao futuro sob o olhar judicioso do eterno retorno do passado.

Se nos perguntarmos o que a globalização trouxe de bom para o futebol brasileiro, bem que a resposta poderia ser: aprendemos que, mesmo perdendo para o Equador ou para Honduras, podemos vencer um campeonato mundial.

Aprendemos com os nossos erros, mas aprendemos com os erros dos outros.

Nossos jogadores descobriram o mundo e por ele foram descobertos. Nosso futebol melhorou, também, pelo fato de que nossos craques deixaram de se achar os melhores e tiveram de provar que eram os melhores. Onde? Nas terras dos pernas-de-pau (em regra, é claro!).
O livro de Foer nos ajuda a entender a nós mesmos, entendendo os “outros”.

E isso não é pouco...

Notas referências:
*(De fato, Silvio Berlusconi era à época primeiro-ministro italiano.138 Revista de Economia & Relações Internacionais, vol.5(8), jan.2006

** Também conhecida como Comuna de Budapeste, liderada pelo chefe do Partido Comunista Bela Kun. Vítima de uma violenta repressão, a Comuna foi destruída e a Hungria tornou-se, lentamente, um dos governos mais reacionários da Europa no período entre-guerras, sob a ditadura do Almirante Horthy.


Sobre Antônio Sérgio Bichir:
Formado em Ciências Sociais e Direito pela USP. 
É mestre em Integração da América Latina pelo Programa de Integração Latino-Americana da USP (Prolam). É professor das Faculdades de Economia e Comunicação da FAAP.

2 comentários:

  1. Oi querido.
    O tema me interessa, e muito.
    Sabe me dizer se é possível adquirir na editora, se não está esgotado?
    De qualquer foma, vou especular.
    Beijo.

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    1. Não sei se está esgotado. Acho q não. Tenta no site das grandes livrarias. Brasília tem FNAC, Cultura? Ou pelo site deles tb...bj

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