segunda-feira, 12 de março de 2012

O ceguinho de Nelson Rodrigues


Faltam cinco meses para o centenário de Nelson Rodrigues (23/08) e Literatura na Arquibancada na série especial que começou no início de 2012, traz hoje uma crônica que pode deixar muita gente em dúvida sobre a existência ou não do personagem de Nelson na história.

Não sou Tricolor e nunca morei no Rio de Janeiro para confirmar a história que Nelson Rodrigues relata abaixo. 

Mas o que gera a dúvida é que todos sabem que Nelson tinha sérios problemas de visão e, daí, como grande contador (e “inventor”) de histórias não seria impossível admitir que o “Ceguinho” de Nelson fosse ele mesmo.

Independentemente da existência do Ceguinho, o texto de Nelson Rodrigues revela a “humanidade” de seus personagens. 

E quando este fosse um Tricolor assumido e apaixonado como ele, aí que a história ficaria ainda melhor, sensível e belo.

A crônica foi publicada no Jornal dos Sports, quando se disputava a Taça Guanabara no ano de 1968.

A grande noite do ceguinho

Amigos, na minha crônica de ontem, apresentei o único torcedor ceguinho do mundo. É tricolor de não sei quantas encarnações. E não perde uma do Fluminense. Mete-se nas arquibancadas com a sua bengalinha branca. 

Torce, como ninguém, os noventa minutos. Discute impedimentos, acusa pênaltis não marcados, é mais opinante do que ninguém. E quando aparece, todos dizem: “Olha o Ceguinho! Olha o Ceguinho!”. E uma coisa eu digo: todos podem trair o Fluminense, menos o Ceguinho.

Pois bem. O meu artigo saiu ontem e vocês não imaginam: logo de manhã, choveram telefonemas. 

Todos queriam saber: “Como é? O Ceguinho não enxerga e vê?”. 

Tive de explicar que há uma óptica do amor. Não existe nada mais límpido do que a visão do sentimento. Uma leitora insinuou a dúvida: “Não é triste um Ceguinho na torcida tricolor?”. Esclareci que não há ninguém mais alegre do que o Ceguinho do Fluminense.

A leitora fez espanto: “Alegre?”. E eu, taxativo: “Alegre como o pardal da manhã”. É esta, justamente, a sensação que me dá o Ceguinho. Lembro-me de uma passagem de minha infância profunda. Certa manhã, ao acordar, olhei para a janela e lá estava, pulando no peitoril, um pardal. Era a alegria da vida em forma de passarinho.

Tanto falei da alegria do Ceguinho que, por fim, a leitora se convenceu. Outro que, desde o primeiro momento, se interessou pelo comovente pó-de-arroz foi o Antônio Egídio, da publicidade do Jornal dos Sports. Quando cheguei na Redação, ele veio me falar, e com vibração. Repetia, de olho rútilo: “E o Ceguinho? E o Ceguinho?”. Parecia-lhe que o Ceguinho era uma figura tão encantada quanto o Gravatinha. Também o Antônio quis que eu contasse coisas sobre o Ceguinho.

Fiz-lhe a vontade. Disse ao Antônio que a alegria está ao alcance de qualquer um. O Ceguinho é feliz e por quê? Há príncipes, reis, rainhas, duques, potentados que ainda não descobriram a doçura da vida. Eis o que eu queria dizer: a felicidade do Ceguinho chama-se Fluminense. Com o Tricolor, sua vida passou a ter um sentido. Não sentiu mais nenhuma solidão. Foi como se, de repente, a sua treva se enchesse de estrelas.

Por isso, já disse e vivo repetindo que não há torcida como a do Fluminense. Temos tudo. Há ministros na massa tricolor; paus-de-arara; e grã-finas; e marias-cachuchas; e presidentes; e veterinários e crioulões.

Fluminense tricampeão de 1919.
Falei em “presidentes”. Em 1919, quando decidimos com o Flamengo, lá estava, na Tribuna de Honra, Epitácio Pessoa, de fraque. Era presidente e, ao lado de dona Guilhermina Guinle, viu o Tricolor golear o Rubro-Negro por 4 x 0. Se duvidarem, encontraremos um mandarim, ou um esquimó, entre os que sonham com as nossas vitórias.

Mas faltava um Ceguinho. Por coincidência, sentei-me ao seu lado, no jogo do Fluminense x Bonsucesso. E, quando o pó-de-arroz entrou em campo, o Ceguinho gritou: “Ademar está mais magro”. E quando acabou o jogo, o Ceguinho levantou-se. Vou repetir a imagem que usei acima. O Fluminense ganhara de 4 x 0. E a noite do Ceguinho encheu-se de estrelas.

Um comentário:

  1. Ahahahah adorei a história, e ele foi demais! Um intelectual maluco por futebol e "colega" de muitos de vocês!
    bj CON

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