domingo, 11 de março de 2012

A mulher (literariamente) no futebol


Ele é um mestre da literatura brasileira. Mauro Rosso é professor, pesquisador, ensaísta, escritor e autor de “Lima Barreto versus Coelho Neto – Um Fla-Flu Literário” (Difel, 2010). Está sempre “antenado” nas reflexões propostas pelo Literatura na Arquibancada. E lá de Petrópolis, onde mora, ele nos escreveu sugerindo: “Nesta semana da mulher, ou melhor, neste mês, muito se tem veiculado inclusive matérias na mídia (televisiva, impressa, digital, etc) sobre "mulheres no futebol", como torcedoras, atletas, etc, etc. Então, minha sugestão, sob esse mesmo tema, num lance 'alternativo' (um passe de letra?), diferenciado, focalizar a mulher no futebol só que literariamente, isto é, em dois contos de Lima Barreto e uma crônica de Coelho Neto, que estão em meu livro Lima Barreto versus Coelho Neto: um fla-flu literário.”

Sugestão mais do que aceita mestre Mauro Rosso. Os leitores do Literatura na Arquibancada só tem a agradecer.

A mulher (literariamente) no futebol

Lima Barreto
O ideal
[Lima Barreto Careta 02.10.1915]

Assim que Irene soube que a sua amiga Inês se havia casado, imaginou logo que o tivesse feito com um grande poeta, uma jovem notabilidade.

Irene estava em Paris há muitos anos e raramente se correspondia com sua amiga, de forma que não podia fazer um juízo certo de quem fosse o marido de Inês.

Entretanto, sabia aquela das idéias de casamento de sua antiga colega. No colégio em que ambas cursaram, quando tratavam desse assunto palpitante para o coração das moças o casamento era hábito de Inês dizer à amiga: Eu me hei de casar com um grande poeta.

 Ao que a amiga respondia:
 Esta gente não serve para marido; são estroinas, volúveis...
 Qual! Nem todos... E mesmo que assim seja, eu quero que o meu nome corra mundo junto ao nome do meu marido...

Lima Barreto
Moça feita, Inês sempre se interessou por essas coisas de letras e seguia todos os poetas que surgiam, com vagar, ardor e uma ingênua admiração.

Conferência deste ou daquele não era anunciada que lá não estivesse; aos salões da literatura elegante e decorativa, estava sempre presente.

 Muitos esperaram dela uma literata e houve um ironista que a crismou mesmo de próxima futura poetisa ou... romancista.

Tudo isto fez ver à sua amiga Irene que ela se houvesse casado com um jovem poeta de grande talento.
Aconteceu que o marido desta última, com medo dos azares da guerra, deixasse a sua residência em Paris e viesse para o Rio.

 Logo que as duas se avistaram, Irene imediatamente perguntou pressurosa: - Já vi que o teu marido é um grande poeta.
Não; é campeão de football!
                                                                                                           
*********

Quase ela deu o "sim"; mas...
[Lima Barreto Careta 29.10.1919 ]

Lima Barreto
João Cazu era um moço suburbano, forte e saudável, mas pouco ativo e amigo do trabalho.
Vivia em casa dos tios, numa estação de subúrbios, onde tinha moradia, comida, roupa, calçado e algum dinheiro que a sua bondosa tia e madrinha lhe dava para os cigarros.

Ele, porém, não os comprava; "filava-os" dos outros. "Refundia" os níqueis que lhe dava a tia, para flores a dar às namoradas e comprar bilhetes de tômbolas, nos vários "mafuás", mais ou menos eclesiásticos, que há por aquelas redondezas.

O conhecimento do seu hábito de "filar" cigarros aos camaradas e amigos, estava tão espalhado que, mal um deles o via, logo tirava da algibeira um cigarro; e, antes de saudá-lo, dizia:
Toma lá o cigarro, Cazu.
Vivia assim muito bem, sem ambições nem tenções. A maior parte do dia, especialmente a tarde, empregava ele, com outros companheiros, em dar loucos pontapés, numa bola, tendo por arena um terreno baldio das vizinhanças da residência dele ou melhor: dos seus tios e padrinhos.

Contudo, ainda não estava satisfeito. Restava-lhe a grave preocupação de encontrar quem lhe lavasse e engomasse a roupa, remendasse as calças e outras peças do vestuário, cerzisse as meias, etc., etc.

Em resumo: ele queria uma mulher, uma esposa, adaptável ao seu jeito descansado.Tinha visto falar em sujeitos que se casam com moças ricas e não precisam trabalhar; em outros que esposam professoras e adquirem a meritória profissão de "maridos da professora"; ele, porém, não aspirava a tanto.


Apesar disso, não desanimou de descobrir uma mulher que lhe servis convenientemente.Continuou a jogar displicentemente, o seu football vagabundo e a viver cheio de segurança e abundância com os seus tios e padrinhos.

Certo dia, passando pela porteira da casa de uma sua vizinha mais ou menos conhecida, ela lhe pediu:
"Seu" Cazu, o senhor vai até à estação?
Vou, Dona Ermelinda.
Podia me fazer um favor?
Pois não.
É ver se o "Seu" Gustavo da padaria "Rosa de Ouro", me pode ceder duas estampilhas de seiscentos réis. Tenho que fazer um requerimento ao Tesouro, sobre coisas do meu montepio, com urgência, precisava muito.
Não há dúvida, minha senhora.

Cazu, dizendo isto, pensava de si para si: “É um bom partido. Tem montepio, é viúva; o diabo são os filhos!" Dona Ermelinda, à vista da resposta dele, disse:
Está aqui o dinheiro.

Conquanto dissesse várias vezes que não precisava daquilo - o dinheiro - o impenitente jogador de football e feliz hóspede dos tios, foi embolsando os nicolaus, por causa das dúvidas.

Fez o que tinha a fazer na estação, adquiriu as estampilhas e voltou para entregá-las à viúva.

De fato, Dona Ermelinda era viúva de um contínuo ou cousa parecida de uma repartição pública. Viúva e com pouco mais de trinta anos, nada se falava da sua reputação.

Tinha uma filha e um filho que educava com grande desvelo e muito sacrifício.
Era proprietária do pequeno chalet onde morava, em cujo quintal havia laranjeiras e algumas outras árvores frutíferas.

Fora o seu falecido marido que o adquirira com o produto de uma "sorte" na loteria; e, se ela, com a morte do esposo, o salvara das garras de escrivães, escreventes, meirinhos, solicitadores e advogados "mambembes", devia-o à precaução do marido que comprara a casa, em nome dela.

Assim mesmo, tinha sido preciso a intervenção do seu compadre, o Capitão Hermenegildo, a fim de remover os obstáculos que certos "águias" começavam a pôr, para impedir que ela entrasse em plena posse do imóvel e abocanhar-lhe afinal o seu chalézito humilde.

De volta, Cazu bateu à porta da viúva que trabalhava no interior, com cujo rendimento ela conseguia aumentar de muito o módico, senão irrisório montepio, de modo a conseguir fazer face às despesas mensais com ela e os filhos.

Percebendo a pobre viúva que era o Cazu, sem se levantar da máquina, gritou:
Entre, "Seu" Cazu.
Estava só, os filhos ainda não tinham vindo do colégio. Cazu entrou.
Após entregar as estampilhas, quis o rapaz retirar-se; mas foi obstado por Ermelinda nestes termos:
Espere um pouco, "Seu" Cazu. Vamos tomar café.

Ele aceitou e, embora, ambos se serviram da infusão da "preciosa rubiácea", como se diz no estilo "valorização".

A viúva, tomando café, acompanhado com pão e manteiga, pôs-se a olhar o companheiro com certo interesse. Ele notou e fez-se amável e galante, demorando em esvaziar a xícara. A viuvinha sorria interiormente de contentamento. Cazu pensou com os seus botões: "Está aí um bom partido: casa própria, montepio, renda das costuras; e além de tudo, há de lavar-me e consertar a roupa. Se calhou, fico livre das censuras da tia..."

Essa vaga tenção ganhou mais corpo, quando a viúva, olhando-lhe a camisa, perguntou:
"Seu" Cazu, se eu lhe disser uma cousa, o senhor fica zangado?
Ora, qual, Dona Ermelinda?
Bem. A sua camisa está rasgada no peito. O senhor traz " ela" amanhã, que eu conserto "ela".
Cazu respondeu que era preciso lavá-la primeiro; mas a viúva prontificou-se em fazer isso também. O player dos pontapés, fingindo relutância no começo, aceitou afinal; e doido por isso estava ele, pois era uma "entrada", para obter uma lavadeira em condições favoráveis.

Dito e feito: daí em diante, com jeito e manha, ele conseguiu que a viúva se fizesse a sua lavadeira bem em conta.
Cazu, após tal conquista, redobrou de atividade no football, abandonou os biscates e não dava um passo, para obter emprego. Que é que ele queria mais? Tinha tudo...

Na redondeza, passavam como noivos; mas não eram, nem mesmo namorados declarados.
Havia entre ambos, unicamente um "namoro de caboclo", com o que Cazu ganhou uma lavadeira, sem nenhuma exigência monetária e cultivava-o carinhosamente.

Um belo dia, após ano e pouco de tal namoro, houve um casamento na casa dos tios do diligente jogador de football. Ele, à vista da cerimônia e da festa, pensou: "Porque também eu não me caso? Porque eu não peço Ermelinda em casamento? Ela aceita, por certo; e eu..."

Matutou domingo, pois o casamento tinha sido no sábado; refletiu segunda e, na terça, cheio de coragem, chegou-se à Ermelinda e pediu-a em casamento.
É grave isto, Cazu. Olhe que sou viúva e com dois filhos!
Tratava "eles" bem; eu juro!
Está bem. Sexta-feira, você vem cedo, para almoçar comigo e eu dou a resposta.

Assim foi feito. Cazu chegou cedo e os dous estiveram a conversar. Ela, com toda a naturalidade, e ele, cheio de ansiedade e, apreensivo.
Num dado momento, Ermelinda foi até à gaveta de um móvel e tirou de lá um papel.
Cazu disse ela, tendo o papel na mão você vai à venda e à quitanda e compra o que está aqui nesta "nota". É para o almoço.

Cazu agarrou trêmulo o papelucho e pôs-se a ler o seguinte:
1 quilo de feijão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .600 rs.
1/2 de farinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
1/2 de bacalhau . . . . . . . . . . . . . . . . . .   1.200 rs.
1/2 de batatas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360 rs.
Cebolas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .200 rs.
Alhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .100 rs.
Azeite . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300 rs.
Sal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .100 rs.
Vinagre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .200 rs.
           . . . . . . . . . . . . . . .  3.260 rs.
Quitanda:
Carvão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280 rs.
Couve . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .200 rs.
Salsa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Cebolinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
           tudo: . . . . . . . . . . . 3.860 rs.

Acabada a leitura, Cazu não se levantou logo da cadeira; e, com a lista na mão, a olhar de um lado a outro, parecia atordoado, estuporado.
Anda Cazu, fez a viúva. Assim, demorando, o almoço fica tarde...
É que...
Que há?
Não tenho dinheiro.
Mas você não quer casar comigo? É mostrar atividade meu filho! Dê os seus passos... Vá! Um chefe de família não se atrapalha... É agir!

João Cazu, tendo a lista de gêneros na mão, ergueu-se da cadeira, saiu e não mais voltou...

**********
Um trágico e irônico episódio, referente à “senhora Albina e seu marido senhor Washington”, ocorrera em março de 1920, um caso real de suicídio da mulher do carteiro Washington Neves que sensibilizara intensamente a opinião pública, e Lima Barreto registrara na crônica “Uma conferência esportiva”, em Careta, 01.01.1921, onde escreveu:

“(...)

Há tempos o Jornal do Commercio noticiava o fato de uma senhora, Dona Albina casada com o Senhor Washington, tentar suicidar-se, porque o seu esposo era um apaixonado do futebol.
O venerando órgão assim narra a ocorrência:

O marido de Albina, que é carteiro de terceira classe da Repartição dos Correios, diariamente deixava a casa onde residia com a esposa, na Rua Honório, 339, em Caxambi, no Méier e lá ia, rumo do campo de football, antes de iniciar o seu serviço nos Correios. A mulher diariamente lhe repreendia por esse fato. Achava ela que esse não devia ser o comportamento de um bom marido. Ainda ontem tal cena se repetiu. O marido não quis atendê-la. A mulher tomada de desgosto resolveu, por tão pouco, acabar com a vida. Para isso muniu-se ela de um vidro, etc., etc.

Afirma ou não semelhante fato a sedução formidável que tão glorioso exercício físico está exercendo sobre os espíritos de elite da nossa sociedade? Essa senhora que tentou suicidar-se – essa é um coração fraco que não está ao par das conquistas modernas da civilização. Vejam como as “torcedoras” dos grandes clubes usam um vocabulário viril, até o próprio calão, para animar os do seu partido ou desnortear os do adverso!
É mais uma conquista do futebol, essa da civilização vocal das senhoras e senhoritas.

(...)

E o caso levou até Coelho Neto a publicar um surpreendente artigo satírico à paixão pelo futebol:

Bola a goal !
[A Noite, 25.03.1920]

Coelho Neto
Que uma mulher se mate porque o marido a despreza por outra, porque a maltrata com injúrias e bordoada ou porque não lhe dá o necessário à vida, deixando-lhe o lar sem fogo, a despensa vazia, sem ao menos, o pão e a laranja, que são os últimos recursos, no dizer do povo, é um pouco violento, enfim, compreende-se, mas que, em gesto desprendido e trágico, emborque a taça do veneno por causa de uma bola de couro, é muito!

Pois foi o que se deu ali num subúrbio.

Certa dama, ainda na flor dos anos, desgostou-se da vida e dissolveu-a num vidro de lysol, porque o marido, que aqui ficou, viúvo, dando as cartas, por ser correio, ao deixar a mala da correspondência, em vez de atirar-se amorosamente nos braços da criatura, enfiava os calções e ia para o campo shootar a goal com o seu team.
A mulher tentou, a princípio, chamá-lo à ordem com boas palavras para que ele fizesse goals em casa, no seio da família.

O homem prometeu, jurou, mas não houve meio – sempre que investia em arremetida ao gol era certo achar-se off-side. A mulher revoltava-se, queixando-se de que ele jogava sem atenção, distraído. O pobre homem coçava a cabeça, prometia emendar-se, mas não ia lá das pernas e, no melhor da festa, o juiz apitava: off-side.

Desesperada, a mulher revoltou-se:
– Isto assim não está direito. Todo o mundo faz goals em casa, só você é que não pode. Por que?
– Não sei. Bem que eu shooto, mas é aquela certeza. Não me ajeito no campo. Não sei se é falta de treino ou o que é. Lá, não perco bola; aqui, é isto. Quem sabe se não é por causa da grama? Campo muito gramado não serve: a gente shoota, a bola emperra, engasga e é isto. Você fica zangada, mas a culpa não é minha. Eu só queria que você me visse jogar lá no outro campo. É um gosto. E não é dizer que jogo só como center-half; não. Jogo em qualquer posição. E aqui é uma vergonha. Você tem razão, não digo o contrário, mas que hei de fazer?

A esposa mísera queixava-se a todos o abandono do marido. O homem não pensava em outra coisa – era só a bola, o goal no tal campo, os trancos, um inferno!

Às vezes, alta noite, punha-se a berrar, a esmurrar os travesseiros. Ela despertava-o e o monstro, em vez de agradecer-lhe a solicitude carinhosa, ficava aborrecido, amuava:
– Ora você... Que mania! Eu estava quase entrando com a bola e você acorda-me!
– Ai! não havia de acordar... Para os vizinhos pensarem que estávamos brigando e começarem a dizer por aí que vivemos como gato e cachorro. Pois você estava berrando como um danado... Não, tem paciência. Isto não pode continuar assim. Ou você endireita ou eu tomo uma resolução e acabo de uma vez com isto. Estamos casados há três anos e que é da bola? Nem sinal. Não, isto assim não está direito. Não sou exigente, mas também não quero passar por tola. Se você não jogasse, por isto ou por aquilo, eu não me zangava, mas jogando como você joga lá fora... Não, tenha paciência.

O pobre homem fazia das tripas coração, esbofava-se, mas qual! no momento havia sempre alguma coisa que o atrapalhava – shootava fora, na trave ou perdia a bola no melhor momento.

Há casos assim e o pobre explicava:
– Olha, filha, o Chrispim é uma fera no Bangu, ninguém pode com ele, aquilo é goal um em cima dos outros; vai jogar em outro campo, não dá nada. Eu sou assim. Que hei de fazer? Você pensa que é má vontade, não é. Nem que eu faça força, não vai. Jogo é o diabo. Quando se está de sorte, tudo pega, mas quando se está de azar, é escusado.
– Então, não?
Vamos ver.
E tentava. Nada! A pobre criatura desesperou e o desespero levou-a ao suicídio.
Dirão os que não conhecem a “alma humana” que ela era uma tola, por isto ou por aquilo. Eu não discuto, lastimo a pobrezinha. Perguntem a um torcedor se há coisa que enfeze mais do que estar a ver o adversário fazer goals e a gente... nada.

Sobre Mauro Rosso:
É professor e pesquisador de literatura brasileira, ensaísta e escritor. Palestrante e conferencista em universidades e entidades culturais. Escreve textos, artigos e ensaios sobre literatura brasileira para revistas acadêmicas e sites de literatura. Desenvolve projetos e programas de pesquisa literária para entidades acadêmicas.

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