quinta-feira, 29 de março de 2012

Medo e Terror nas Arquibancadas


Há três anos a literatura esportiva mundial ganhou uma obra de referência, tanto para leitores “comuns” como para estudiosos e pesquisadores acadêmicos e jornalistas esportivos que se interessam pelo fenômeno da violência e “poder” das torcidas organizadas em todo o mundo.

Ainda mais, após os eventos ocorridos no jogo entre Boca Juniors e River Plate, válido pela Libertadores.

E não há exemplo melhor para ilustrar a que ponto podem chegar certas torcidas organizadas como o caso da maior organizada do clube Boca Juniors, da Argentina. O livro em questão é do jornalista Gustavo Grabia, obra editada pela editora Panda Books, “La Doce”.

O livro espetacular descreve a escalada de violência no futebol argentino desde 1925, quando um torcedor foi morto. La Doce, a maior torcida do Boca, ganhou “poderes” superespeciais infiltrando-se no mundo do crime e agindo nos bastidores extorquindo jogadores e técnicos. Virou um “poder paralelo” no clube argentino chegando a ter uma ONG para “lavar” o dinheiro que ganhava ilicitamente.


Antes de falarmos especificamente do livro de Gustavo Grabia, Literatura na Arquibancada obteve autorização para a publicação do “Dossiê La 12”, um artigo escrito por Leonardo Ferro para o site Futebol Portenho (www.futebolportenho.com.br) criado e editado por Thiago Henrique. Se você quer conhecer melhor a história do futebol argentino, tão rico e bem documentado, esse é o espaço.



Dossiê La 12: 
Quando o futebol dá lugar ao sangue, guerra e terror
Por Leonardo Ferro

De Buenos Aires – A história da “La 12”, tradicional e poderosa barra brava do Boca Jrs, é digna de um filme. Do estilo mafioso à la “O Poderoso Chefão”, o roteiro incluiria traições nas sucessões de poder, dinheiro sujo em negociatas, assassinatos, acertos com a polícia e ligações com as mais importantes autoridades da Argentina. Ingredientes que não faltam na consagrada trilogia de Francis Ford Coppola.

Durante os anos 60, era Enrique Ocampo ou “Quique el Carnicero” quem ditava as regras nas arquibancadas da Bombonera. Era uma época distinta e os níveis de agressividade dos torcedores ainda não eram tão elevados como os de hoje.

Mas, mesmo neste tempo de relativa tranquilidade, Quique inaugurou alguns costumes que perduram atualmente, como a participação em reuniões do clube e a exigência de certa quantidade de entradas para os membros do seu grupo. Seu reinado a frente da “12” durou aproximadamente 20 anos quando foi destituído do comando por aquele que viria a ser o líder mais violento que a barra brava do Boca Jrs já conheceu: José Barrita ou “El Abuelo”.

O segundo mandante da facção foi o responsável pelo período mais tenebroso e temido da “12”. Governava a arquibancada com extrema violência e não se privava da companhia do inseparável revólver calibre 38. O mesmo com o qual obrigou seu antecessor a abrir mão do poder.

Ganhou o apelido por seu cabelo grisalho que o destacava dentro da “12”. Não havia quem o detivesse dentro do clube e era costume que fosse pessoalmente exigir melhor desempenho dos jogadores. Anos atrás, Maradona contou a um canal de televisão seu primeiro encontro com o temido chefe da barra, quando ainda era uma jovem promessa.

Seu período como líder da mais poderosa torcida argentina termina após sua prisão por  ataques à tiros a um caminhão que transportava torcedores do River Plate antes de um superclássico em 1994.

Neste momento assume o controle Rafa Di Zeo, braço direito de Abuelo até então. Em muitas fotos do período anterior a prisão, pode se ver Abuelo ombreado por Rafa Di Zeo nas arquibancadas da Bombonera Rafa tratou de assegurar uma base que não ameaçasse seu poder. Arquitetou alianças importantes e tirou de cena o único que poderia afrontar seu comando: o próprio Abuelo. Quando tentou se reaproximar da barra após sair da prisão, Abuelo foi alvo de um atentado à tiros, mas escapou ileso. Depois disso não retornou mais ao estádio onde foi por anos figura inquestionável.

Di Zeo implementou uma visão “empresarial” dos negócios ilícitos da “12”. Recebia ingressos do clube e também garantiu uma parte do dinheiro daqueles vendidos nas bilheterias. Uma das maiores demonstrações de poder foi o direito de administrar o estacionamento da rua Del Valle Iberluzea, uma das principais que dão acesso ao estádio do Boca.

Rafa Di Zeo
“Não sou poderoso, mas tenho o telefone dos poderosos” diz Rafa. Sua rede de contatos atingia inclusive a funcionários do governo portenho. Tinha acerto com os policiais da 24ª Delegacia, sediada no bairro de La Boca e inclusive compartilhava com eles, os mesmos advogados. Um dos fatos inusitados é o casamento de Rafa Di Zeo com a secretária particular de Felipe Solá, à época governador de Buenos Aires. Também foi o homem forte no Boca de Maurício Macri, atual governador da província, quando este era presidente do clube. Foi preso em 2007 em função de uma emboscada que armou contra torcedores do Chacarita durante uma partida amistosa na Bombonera. As câmeras de segurança filmaram todas as ações de Di Zeo e seus comparsas.

Mas, tal como sucede nos melhores filmes de máfia, depois que Di Zeo é preso, assume o poder seu braço direito: Mauro Martín. Com a promessa de devolver o comando da barra quando Rafa saísse da prisão. Neste ano Di Zeo foi solto e em uma entrevista exclusiva a um canal de televisão aberta no final de agosto (confira a entrevista ao fim da matéria), avisou que queria sua barra de volta.

Tal retorno, com prometido, aconteceu no último fim de semana. Na partida contra o Rafaela. E, para o mal do futebol argentino, algo inédito marcou o retorno de Di Zeo aos estádios. Duas torcidas, duas barras bravas na Bombonera. Uma atrás de cada gol, olhando-se frente a frente e insultando-se. Pura demonstração de poder e intimidação. O futebol é mais uma vez deixado de lado.

Di Zeo chegou pelo lado oposto ao que sempre se acostumou a frequentar a Bombonera. Entrou pelo gol do Riachuelo, onde fica a torcida visitante. Com aproximadamente 900 seguidores, vindos em mais de 30 ônibus e peruas, estendeu a tradicional bandeira com os dizeres: “La Barra de José”, numa tentativa de ganhar o apoio do torcedor comum que assistia a tudo sem acreditar.

Do lado de Mauro, “La 12”. Bumbos, bandeiras e faixas, uma delas com os dizeres: “Mauro = La 12”. Os canais de televisão por momentos esqueciam-se dos jogadores no campo e do que acontecia no palco principal, para filmar as duas personalidades penduradas nas arquibancadas. Inclusive com tela dividida e close nos novos protagonistas da tarde.

Mauro Martín
Com o final da partida, a polícia resolveu mudar o esquema usual de saída de torcedores nos estádios argentinos. Saíram os visitantes e logo depois os torcedores comuns do Boca, ficando dentro de uma Bombonera de luzes quase apagadas, as duas facções da mesma barra, medindo-se e cantando ameaças para o próximo jogo contra o Vélez, quando teriam que dividir o mesmo espaço na arquibancada destinada aos visitantes.

Na saída do estádio e nos programas de televisão conhecidos como “terceiro tempo”, o que se via não era entrevistas a jogadores ou técnicos, mas um primeiro quadro de Rafa Di Zeo caminhando com sua gente e dois microfones de redes distintas captando todas suas falas: “Isso vai acabar como eles quiserem que acabe”, declarava.

Dentre os diversos fatores que envolvem essa briga pelo poder, o único que pode ser descartado é o próprio Boca Jrs. Perto das eleições no clube, a serem realizadas em dezembro, o aparecimento de Di Zeo neste momento não poderia ser mais oportuno para a oposição.

O lado de Mauro Martín exibiu no último domingo, uma bandeira do ex-presidente Néstor Kirchener, e deixou claro que o kirchenismo está com eles e apoia o atual mandatário e candidato a reeleição, Jorge Amor Ameal. Rafa Di Zeo, conturbando todo o cenário que poderia ser de calmaria em função do atual momento do time, parece estar alinhado com a oposição encabeçada por Daniel Angelici e apoiado pelo macrismo. Antiga associação dos tempos que o atual governador de Buenos Aires era o presidente do Boca e Rafa o chefe da “12”.

Di Zeo já declarou que La Bombonera é sua casa e se sente bem nela. Mas será que essa casa, é apenas sua? Somente a sua paixão pelo Boca é a que vale? Essa casa é de todo torcedor do Boca Jrs. Membro da “12” ou não. Todos têm o direito de sentir-se cômodos em sua própria casa e isso não é o que está acontecendo hoje.

Fonte:

Sinopse do livro “La Doce”, de Gustavo Grabia, que acaba de ser lançado no Brasil.

La Doce

O futebol é capaz de aflorar no público os sentimentos mais variados possíveis. Amor, ódio, alegria e frustração são apenas alguns deles. Provavelmente foi por isso que o tornou o esporte mais popular do mundo. Em muitos países, os apaixonados pelo futebol se organizam para acompanhar seu clube de coração ou até mesmo sua seleção. A partir daí nasce uma torcida organizada, que no início tinha seu lado romântico, assim como o próprio futebol.

Os anos se passaram e essas organizações incluíram em seus currículos um histórico de violência, sangue e morte. Os hooligans na Inglaterra ganhavam fama e temor pelas cidades do Reino Unido e restante da Europa. Virou até tema de filme. Na América do Sul, as torcidas organizadas brasileiras também não ficam atrás. A cada ano sempre vemos nos jornais notícias de morte entre torcedores de equipes rivais. Mas nada se compara à torcida do Club Atlético Boca Juniors, de Buenos Aires. A “La Doce”, sem dúvida, é a hinchada mais temida do mundo.

Sabedor desses fatos, o jornalista Gustavo Grabia pesquisou a fundo a história da torcida que criou laços políticos dentro da Argentina, extorque homens públicos, empresários e jogadores e criou uma organização idêntica a de máfia. Brigas com torcedores rivais parece ser apenas a parte mínima de seu currículo.  O resultado desse brilhante trabalho ganhou o mesmo nome da barra brava, ”La Doce”. Conheça a origem, o crescimento, os comandantes e como atua hoje a organizada mais temida do mundo.

Trechos do livro:

“La Doce é a torcida que tem mais contatos políticos, que trabalhou tanto para o justicialismo como para o radicalismo, e chegou a participar de operações políticas montadas pela Side, antiga Secretaria de Inteligência do Estado. É a única torcida do mundo que criou uma fundação legal para a lavagem de dinheiro proveniente da extorsão de políticos, empresários e desportistas, bem como o financiamento sem escrúpulos pela revenda de bilhetes, a gestão de ônibus para levar os torcedores ao interior, o estacionamento nas ruas de La Boca cada vez que havia uma partida, e o merchandising. Isso sem contar a porcentagem arrecadada pelas concessões feitas a barracas de alimentos e bebidas no estádio.”

“Quando eu era criança, o plano de ir ao estádio era muito mais que ir a um jogo de futebol. Era um lugar de conexão para pais e filhos, para amigos do bairro, um mundo cheio de sensações confortáveis que excediam, e muito, o que acontecia no gramado. Esse mundo foi quebrado a partir da violência das barras bravas. E a La Doce é o símbolo mais generalizado dessa violência.”



Sobre o autor
Gustavo Grabia nasceu em 12 de novembro de 1967, em Buenos Aires. É formado em ciências da comunicação pela Universidad de Buenos Aires e pelo Círculo de Periodistas Deportivos, iniciando sua carreira na Editorial Abril, passando pela Editorial Garcia Ferré, pela revista 13/20 e pelos jornais La Razón e El Expreso. Desde 1996, trabalha no jornal esportivo Olé, em que atualmente ocupa o cargo de editor, ganhando prestígio como o maior especialista argentino em violência no futebol. Também atua como colunista dos programas de rádio de Ernesto Tenembaum (Primera manãna, na rádio Mitre) e Roberto Pettinato (El show de la noticia, na FM 100). Este é seu primeiro livro publicado no Brasil.

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