quarta-feira, 28 de março de 2012

Maurício Noriega: paixão pelo jornalismo esportivo


Ele tem apenas 45 anos e já tem uma carreira sólida no jornalismo esportivo. Maurício Noriega é filho de um dos maiores narradores esportivos do país, Luiz Noriega. Assim como o pai, Noriega, ou melhor, “Nori”, como é carinhosamente tratado pelos amigos e companheiros de trabalho, tratou de crescer na profissão de repórter aprendendo de tudo um pouco sobre as diversas modalidades esportivas. É por isso que acabou se transformando em um dos jovens comentaristas mais bem informados do país. Não é à toa que nos últimos sete anos, faturou cinco prêmios da Aceesp, a Associação dos Cronistas Esportivos de São Paulo.

A visibilidade obtida, tanto no canal fechado SPORTV e no aberto, na TV Globo, tem um custo. Vive viajando pelo país e pelo mundo, o que acaba limitando o sonho de fazer algo que tanto gosta: literatura esportiva. 
Mesmo assim, Nori já é autor de um livro e está com outro quase pronto...O tema ? A biografia de um dos maiores técnicos do futebol brasileiro, um universo que ele conhece muito bem. Confira o bate-papo com Maurício Noriega.

Literatura na Arquibancada:
Relembre matérias e produções marcantes para você como repórter (e outras funções) nos tempos do Diário de SP (e na TV e outras mídias).

Maurício Noriega:
Felizmente, são muitas. Algumas marcantes. Recordo uma reportagem no Diário Popular com a Filó, ex-jogadora de vôlei, na qual ela assumia que era usuária de drogas e afirmava até ter roubado para comprar entorpecentes. Ela se recuperou completamente, um exemplo fantástico de vida. Outra foi a explicação da mudança tática do time brasileiro de vôlei masculino na Olimpíada de Barcelona. Até o Zé Roberto falou sobre isso numa entrevista naquela época. Na TV foram marcantes algumas entrevistas com o Zico, por exemplo, com o Felipão, um programa muito legal que fizemos com celebridades torcedoras às vésperas da rodada dos clássicos no Brasileiro. Teve também o programa Seleção SporTV, que apresentei em 2006, durante a Copa do Mundo, que foi muito legal.

L.A:
Agora que é comentarista esportivo na TV, do que sente mais falta em relação ao trabalho em jornais?

Noriega, Milton Leite e Lédio Carmona.
MN:
Da convivência com alguns amigos que fiz para toda a vida. Também sinto falta de escrever, de poder pensar e desenvolver um texto mais elaborado, longo, uma grande entrevista. Mas estou completamente adaptado à rotina da TV.

L.A:
Como avalia o atual trabalho da imprensa do jornalismo diário nos diversos veículos de comunicação?

M.N:
Mudou muita coisa em relação à época em que atuei como repórter. Hoje há muito imediatismo. Nisso a internet é boa e ruim. Boa porque ampliou o leque de cobertura, ruim porque é superficial e apressada.

Paulo César Vasconcelos,
Milton Leite e Noriega.
Hoje falta reportagem, falta fuçar. Mas parece que brigam para saber quem publicou uma nota às 12 horas e um minuto e não no minuto seguinte. E há uma mistura muito grande de entretenimento com comunicação, com Jornalismo. Ou é um ou é outro. Uma coisa é fazer Jornalismo solto, alegre, que entretém, outra é fazer só entretenimento. Aí passa a ser show.

L.A:
Você já participou das coberturas de grandes eventos esportivos. Relembre os mais importantes e destaque momentos pessoais marcantes nessas coberturas.

M.N:
Foram muitos. Mundiais de vôlei, basquete, Copa, Pan, Olimpíada, Fórmula 1. Lembro, por exemplo, de entrevistar o Schumacher antes de ele ser o maior campeão da história, no box da Jordan, em Interlagos. De entrevistar o Nigel Mansell caminhando pela pista de Interlagos, uma exclusiva. Do jogo Gana e Uruguai na Copa da África.

Paula, campeã mundial de basquete em 1994.
De ser um dos dois únicos jornalistas (o outro era o Juarez Araújo) a acompanhar o embarque da seleção de basquete feminino para o Mundial de 1994 e a fantástica Paula ter recordado disso no retorno, com o título nas mãos. Muita coisa, felizmente. Também recordarei por toda a vida uma entrevista que fiz com o grande Adhemar Ferreira da Silva, no Canal de São Paulo, uma pequena TV por assinatura. Foi algo maravilhoso. O Adhemar era um gênio da raça.

L.A:
Qual o seu diferencial como comentarista esportivo?

M.N:
Isso quem deve dizer é o telespectador. Mas algo digo: eu me preparo, e eu gosto e pesquiso sobre muitos esportes, não apenas sobre futebol. Já cobri atletismo, tênis, basquete, vôlei, handebol, iatismo, boliche, automobilismo. Por isso me considero jornalista esportivo e não apenas comentarista de futebol.

Noriega recebendo o prêmio Aceesp.
L.A:
Como é sua rotina de trabalho (no dia a dia e na cobertura de grandes eventos)? Além de comentarista, desenvolve atividades paralelas?

M.N:
Escrevo uma coluna semanal no Diário de S.Paulo e faço algumas apresentações de eventos. A rotina depende da escala. Sou como piloto de avião, vou aonde a escala me mandar. Também tem os comentários para o Bom Dia São Paulo, da Globo, sempre bem cedinho, começando o dia, geralmente às segundas e quintas. Fora isso, é estudar muito para os jogos e eventos, viajar, ir aos estádios, pesquisar.  Nos grandes eventos eu vivo uma espécie de imersão. Aí não tem jeito, você respira Copa, Euro, Pan, Olimpíada. É muita coisa, então é preciso estar conectado 24 horas.

L.A:
O que se vê que o telespectador/torcedor não vê na cobertura dos treinamentos de clubes? Existem “fontes” dentro destes clubes? Como funciona esse bastidor? E como você utiliza essas informações em seus comentários?

Adriano Gabiru, comemorando o gol
do Mundial Interclubes.
M.N:
Tenho algumas fontes que construí em muitos anos de atividade. Telefono, converso, troco e-mails. Muitas vezes as próprias fontes me procuram para falar algo, o que denota respeito e credibilidade e me orgulha muito. Já utilizei muitas vezes em comentários informações obtidas junto a essas fontes. Já tenho mais de 20 anos de carreira, então não sou paraquedista. Tem treinador que eu entrevistei quando era jogador e o cara sabe da minha isenção e da minha seriedade. Isso ajuda bastante. Eu vi milhares de treinos na minha vida de repórter. E eu sempre gostei de ver o treino, de prestar atenção numa jogada, na movimentação do time, do sistema de jogo, da movimentação tática. Geralmente eu ia para a arquibancada ver o treino, tinha uma visão melhor. Tem muita coisa também interessante, como observar quem se posiciona como nas jogadas de bola parada, nos escanteios. Um exemplo: antes da final do Mundial de Clubes de 2006, acompanhei o treino do Inter, treinado pelo Abel Braga. Foi um treinamento voltado para marcação e a aposta em uma jogada: o lançamento longo para o alto, com o desvio de um jogador de cabeça e a entrada em velocidade de outro. Veja o gol do Gabiru, que deu o título ao Inter. É exatamente o que foi treinado à exaustão um dia antes.

L.A:
Como surgiu a ideia de escrever livros? Fale sobre seus projetos já publicados e também se pensa em outros títulos.

M.N:
Eu sempre sonhei em escrever um livro um dia. Como respondi antes, eu adoro escrever e quero sempre me aperfeiçoar nisso. Estou trabalhando há um bom tempo em um livro, um perfil do grande treinador Oswaldo Brandão. Fui tentar vender o projeto para a editora Contexto e o dono, professor Jaime Pinsky, me ofereceu a oportunidade de escrever um livro que abriria uma série. Era o livro Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro. Felizmente, foi super bem, teve duas edições, vendeu bem para um escritor novato e um tema sem grande penetração entre o pequeno público que lê regularmente no Brasil. Depois escrevi outros dois livretos, voltados para o público infanto-juvenil, pequenas biografias dos jogadores Kléber, hoje no Grêmio, e do Marques, quando estava no Atlético Mineiro. É um aprendizado maravilhoso. Jornalista tem essa arrogância de achar que sabe escrever, mas literatura, ainda que com viés jornalístico, é outra história. Aprendi demais e gostei muito da experiência. O livro do Brandão está andando, espero poder publicar ainda este ano.

L.A:
Qual foi o processo de produção utilizado para a produção do livro sobre “Os 11 melhores técnicos”, da Editora Contexto?

Noriega e Pepe, durante o lançamento de
"Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro". 
M.N:
A ideia foi da editora e tive total liberdade para executá-la. É um livro de opinião, que parte de um conceito particular para contar a história de 11 grandes técnicos de futebol. Eu utilizei como critérios a minha opinião de analista, é claro, e detalhes históricos. O principal deles, dentro do meu conceito como analista, foi o fato de o Brasil ter vencido a primeira Copa do Mundo em 1958 e os primeiros campeonatos de alcance nacional terem começado em 1959. A partir daí tabulei inovações, títulos, ineditismo e outras coisas. Mas não tenho a pretensão de achar que os 11 que eu escolhi são intocáveis. É uma opinião que ganhou as páginas de um livro.

L.A:
Cite 5 livros nacionais sobre futebol de sua preferência e 5 estrangeiros (já traduzidos no Brasil).

M.N:
O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho; 

Gigantes do Futebol Brasileiro, de Marcos de Castro e João Máximo; 

O Jogo Bruto das Copas do Mundo, de Teixeira Heizer; 

Itinerário da Derrota, de Ruy Carlos Ostermann; 

Estrela Solitária, Um Brasileiro Chamado Garrincha, de Ruy Castro.

De fora: Futebol e Guerra, de Andy Dougan; 

O Futebol ao Sol e à Sombra, de Eduardo Galeano; 

Soccer Tactics and Teamwork, de Charles Hughes; 

Cuentos de Fútbol Argentino, seleção de contos de vários autores; 

Los Cuadernos de Valdano, de Jorge Valdano.


Sobre Maurício Noriega:

Jornalista, atualmente comentarista e eventualmente apresentador do canal SporTV. 

Também é comentarista do Bom Dia São Paulo, telejornal da TV Globo. Ganhador do Prêmio Ford/Aceesp por cinco vezes (2005, 2006, 2007, 2010 e 2011). 

Noriega também mantém o blog: http://blogdonori.blogspot.com.br/

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