sexta-feira, 30 de março de 2012

Mário de Andrade era corintiano?


Ele tinha tudo para verdadeiramene odiar o futebol, mas acabou sendo um dos intelectuais a dar nas primeiras décadas do século 20 enorme visibilidade ao esporte. Mário de Andrade nasceu em 1893 e quando completou 20 anos sofreu um trauma familiar que teria feito qualquer um nunca mais querer ouvir falar sobre futebol. Em 1913, ele perde o irmão Renato de uma maneira estúpida. Em um jogo de futebol, Renato recebe uma cabeçada que acabaria lhe tirando a vida dias depois.

Mário de Andrade que já havia iniciado a carreira na poesia (escreveu o seu primeiro poema quando tinha apenas 11 anos) e na música, entra em uma profunda crise emocional. 
Acaba mudando-se de São Paulo para o interior paulista, na cidade de Araraquara, em uma fazenda família, desiste da carreira musical devido a suas mãos terem se tornado trêmulas.  
Se não conseguia mais tocar, voltou para São Paulo e virou professor de música. E foi nessa condição que apenas dois anos depois da tragédia familiar, em 1922, já como professor catedrático de História da Música e Estética, participa de maneira decisiva da famosa Semana de Arte Moderna de 1922.

Foi nesse exato momento que ele publicou, talvez, seu primeiro texto referente ao futebol em «Pauliceia Desvairada » onde reproduz um domingo de futebol na cidade :

“Hoje quem joga ?…
O PaulistanoPara o Jardim América das rosas e dos pontapés !
Friedenreich fez goal ! Corner ! Que juiz !
Gostar de Bianco ? Adoro. Qual Bartô…
E o meu xará maravilhoso !…
– Futilidade, civilização…”


Mário de Andrade e os amigos Modernistas.
Desde então, Mário de Andrade nunca mais deixou de curtir o futebol daquelas primeiras décadas do século 20. Integrado ao grupo de artistas conhecido como « Modernistas », Mário ficou na memória de vários deles. Paulo Mendes Campos, por exemplo, em uma de suas maravilhosas crônicas, « Passe de Letra », escreveu :

«Em crônica antiga, Rubem Braga descreve a manhã de sol que levou às areias da praia escritores de Copacabana e Ipanema, uns contra os outros. Também tomei parte no hilariante cotejo, no time de Copacabana.

Brandão, centromédio do Corinthians.
Mário de Andrade era um entusiasta do futebol. 

Queixava-se dos trezentos e cinqüenta compromissos que o impediam de ser assíduo aos estádios. 

Em seus livros, há algumas referências ao futebol, sempre com excelente conhecimento técnico. Mário tinha especial predileção pelo estilo do famoso centromédio Brandão. Dizia, com sua inflexão enlevada: ‘É um ma-ra-vi-lho-so bailarino!’”.

E sendo fã de Brandão, podemos deduzir que Mário de Andrade seria corintiano, pois o centromédio jogava na equipe alvinegra. Brandão foi o primeiro corintiano a disputar uma Copa do Mundo, em 1938.


Argentina, campeã da Copa Roca de 1940.
Mas no ano seguinte, em 1939, Mário de Andrade acabou escrevendo o texto definitivo sobre sua paixão pelo futebol brasileiro, só que não para exaltar a atuação de seu ídolo corintiano, mas a de uma seleção que fez história no futebol mundial nas décadas de 1930 e 1940. A Argentina naquele período era praticamente imbatível com uma seleção repleta de craques. O Brasil não ficava muito atrás. A Argentina havia chegado a uma final olímpica (1928) e uma final de Copa do Mundo (1930), enquanto o Brasil havia acabado de conquistar um honroso3º lugar na Copa do Mundo da França, em 1938.

Capa de O Globo Sportivo, de 1940.
Desses confrontos, com certeza, surgiu a grande rivalidade entre as duas seleções. E Mário de Andrade soube como ninguém captar esse momento de pura magia dos “hermanos” platinos. No dia 22 de janeiro de 1939, ele escreveu a crônica “Brasil-Argentina”, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, exatamente uma semana após a seleção brasileira disputar e perder a Copa Roca em pleno estádio de São Januário. Foram dois jogos, o primeiro no dia 15/01 e o segundo no dia 22/01. Vencemos o segundo por 3 a 2, mas no primeiro, o jogo que Mario de Andrade se refere na crônica abaixo, o Brasil sofreu uma goleada histórica por 5 a 1:

“Na véspera, o meu amigo uruguaio confessou que viera torcer pelos argentinos. Arroubadamente, com excessos de boa – educação, fui afirmando logo que isso não fazia mal, que diabo! Etc... Ficou desagradável foi quando ele se imaginou no direito de explicar porque torcia pelos argentinos:

Brasil x Argentina, Copa Roca de 1939,
no estádio de São Januário, RJ.
- Você compreende, amigo, nós, uruguaios, temos muito mais afinidade com os argentinos, apesar de já termos feito parte do Brasil. Até por isso mesmo!... Por mais que se explique historicamente o que levou um tempo o Uruguai a participar do Brasil, nós não sentimos (repare que emprego o verbo “sentir”), não sentimos a coisa como se tivéssemos participado do Brasil, e sim como tendo pertencido a ele. A modos de colônia... E isso, por mais esforços que a gente faça, irrita bem. Quanto a afinidades com os argentinos, há muitas... muitas...

Aqui meu amigo uruguaio parou de supetão. Percebi que não queria me machucar. Mas nesse terreno de boa-educação ninguém ganha de brasileiro, não insisti. Não ousei dar uma liçãozinha de humanidade no meu hóspede, falando na minha simpatia igual por argentinos, turcos e australianos, e outras invencionices maliciosas. Me preocupei apenas em disfarçar a ansiedade que me enforcava por causa do jogo.

No campo me acalmei com segurança. Estávamos em pleno domínio do “nacioná”, com algumas bandeiras argentinas por delicadeza. Mas na verdade, por causa daquele jogo,
estávamos todos odiando os argentinos e a Argentina ali. E dizem que futebol estreita relações, estreita nada! Mas aqueles milhares de brasileiros, que piadas cariocas!
brilhavam na certeza da vitória. Desconfio que em casa os ilhados nos bondes, também tinham sentido a mesma inquietação que eu disfarçava, mas a unanimidade é um
estupefaciente como qualquer outro. De forma que nem bem cada brasileiro se arranjava em seu lugar, olhava em torno, tudo era nacional! e a certeza vinha: Vamos ganhar na maciota.

E foi nessa atmosfera de vitória que principiou o famoso jogo Brasil-Argentina, de que certamente não tiraremos nenhuma moral. Os nacionais escolheram o lado pior do campo, com uma ventania dos diabos contra, varrendo tudo, calor, bola e argentino contra o nosso gol. Principiou o jogo. Os argentinos pegaram com os pés na bola e... Mas positivamente não estou aqui para descrever jogo de futebol. Só quero é comentar. 

Sastre, craque argentino.
Ora, o que é que se via desde aquele início? 

O que se viu, se me permitirem a imagem, foi assim como uma raspadeira mecânica, perfeitamente azeitada, avançando para o lado de onze beijaflores. 
Fiquei horrorizado. Procurei disfarçar, vendo se me lembrava a que família da História Natural pertencem os beijaflores, não consegui! Nem sequer conseguia me lembrar de alguma citação latina que me consolasse filosoficamente! 
Enquanto isso, a raspadeira elétrica ia assustando quanto beijaflor topava no caminho e juque! fazia mais um gol. 

Era doloroso, rapazes.


José Manuel Moreno.
Mas era também admirável. Quem já terá visto uma força surda, feia mas provinda duma vontade organizada, que não hesita mais, e diante de um trabalho começado não há transtorno político, financeiro, o diabo! que faça parar!... Eram assim os argentinos, naquela tarde filosófica. Não que eles se alardeassem professores de ordem, de energia ou de coisíssima nenhuma. Se alguém desejar saber exatamente o que eu senti, eu senti a Grécia, a Grécia arcaica, no tempo em que se fazia a futura grande Grécia. Dezenas de tribo diferentes se organizando, se entrosando, recebendo mil e uma influências estranhas, mas aceitando dos outros apenas o que era realmente assimilável e imediatamente conformando o elemento importado em fibra nacional.


Pedernera (esq) e Moreno.
Quem quiser me compreender, compreenda, mas no fim do quarto gol eu tinha me naturalizado argentino e estava francamente torcendo pra que... nós fizéssemos pelo menos uns trinta gols. 

Mas logo bem brasileiramente desanimei, lembrando que seria inútil uma lavada exemplar. 

Não serviria de exemplo nem de lição a ninguém. Ao menos meu amigo uruguaio foi generoso comigo, não teve o menor gesto de piedade. Comentava navalhantemente:
– Era natural que vocês perdessem... Os brasileiros “almejaram” vencer, mas os argentinos “quiseram” vencer, e uma coisa é almejar, outra é querer. Vocês... é um eterno iludir-se sem fazer o menor gesto para ao menos se  aproximar da ilusão.


Masantonio, outro craque da seleção argentina.
Sim, os argentinos escalaram o quadro e este se preparou para o jogo; mas o que a gente percebe é que, na verdade, há trinta anos que os argentinos vêm se preparando para o jogo de hoje. A força verdadeira de um povo é converter cada uma das suas iniciativas ou tendências, em norma quotidiana de viver. Vocês?... nem isso... Os argentinos, desculpe lhe dizer com fraqueza, mas os argentinos são tradicionais.

Eu é que já estava longe, me refugiado na arte. Que coisa lindíssima, que bailado mirífico um jogo de futebol! Asiaticamente, cheguei até a desejar que os beijaflores sempre continuassem assim como estavam naquele campo, desorganizados mas brilhantíssimos, para que pudessem eternamente se repetir, pra gozo dos meus olhos, aqueles hugoanos contrastes.

Sastre
Era Minerva dando palmada num Dionísio adolescente e já completamente embriagado. 

Mas que razões admiráveis Dionísio inventava pra justificar sua bebedice, ninguém pode imaginar! Que saltos, que corridas elásticas! Havia umas rasteiras sutis, uns jeitos sambísticos de enganar, tantas esperanças davam aqueles volteios rapidíssimos, uma coisa radiosa, pânica, cheia das mais sublimes promessas! E até o fim, não parou um segundo de prometer... Minerva porém ia chegando com jeito, com uma segurança infalível, baça, vulgar, sem oratória nem lirismo, e juque! fazia gol.”


Seleção Brasileira que perdeu a Copa Roca de 1940.
A derrota por 5 a 1 acabou sendo a maior goleada entre as duas seleções, pelo menos até aquele dia em que Mário de Andrade assistiu àquela partida. O que ele não poderia imaginar (ou talvez imaginasse por tudo que viu com os próprios olhos) era que na Copa Roca seguinte, em 1940, os argentinos seriam ainda mais impiedosos aplicando a maior goleada na história do clássico sul-americano: 6 a 1.

Mário de Andrade não teve tempo de curtir o futebol e nos deixar mais de seus belos escritos. Morreu jovem, com apenas 52 anos.

Para saber mais sobre Mário de Andrade, acessar:

Um comentário:

  1. q delícia de texto. Amo Mário, amo Corinthians...

    Esse blog ainda existe? a idealizadora, ou o idealizador ainda escrevem por outros ares?

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