sábado, 3 de março de 2012

Parabéns, Dadá Maravilha



4 de março, aniversário de um dos jogadores mais irreverentes do futebol brasileiro. Dario José dos Santos, o popular Dadá é dono de umas histórias mais ricas do esporte que enlouquece o torcedor brasileiro. Infância problemática – chegou até a ser preso – viu a mãe atear fogo no próprio corpo, mas deu a volta por cima na vida.


Chegou onde poucos imaginavam. Seu jeito alegre, apesar de todos os dramas passados na vida transformaram Dada numa figura lendária. 

Se no futebol criou frases de efeito (veja algumas no final deste post) que até hoje são lembradas, os “causos” vividos nos bastidores do esporte sempre foram sua especialidade.

Dario foi um andarilho do futebol brasileiro. Jogou e conquistou títulos em grandes equipes como Internacional, Flamengo, Atlético Mineiro, Bahia, Sport Recife e Náutico. 

Parou de jogar em 1986 entrando para a história do futebol brasileiro como o terceiro maior artilheiro com 1026 gols.


E foram muitos desses gols que acabaram levando Dadá Maravilha para a Seleção Brasileira. E não foi qualquer seleção, mas a seleção tricampeã do mundo de 1970. 

Sua convocação gerou uma das maiores polêmicas do futebol brasileiro, pois quem a teria “imposto” ao técnico brasileiro na época, João Saldanha, seria nada menos do que o presidente do Brasil, o temido militar Emílio Garrastazu Médici.


Literatura na Arquibancada apresenta abaixo uma história que só mesmo Dadá, com seu jeitão poderia protagonizar. 

O depoimento faz parte de um projeto maravilhoso, “Futebol, Memória e Patrimônio”, organizado e tocado pela parceria CPDOC da Fundação Getúlio Vargas e o Museu de Futebol de São Paulo.


A entrevista com Dadá, gravada no dia 10 de julho de 2011 foi feita por Fernando Herculiani, do CPDOC/FGV e José Carlos Asbeg, pelo Museu do Futebol. 

Vale a pena acessar e ler na íntegra esse depoimento histórico de Dadá e de vários outros heróis brasileiros em Copas do Mundo.






Trecho da entrevista:


J.A. – Como é que era, Dadá, o Brasil vivia um dos períodos mais duros da repressão do período da Ditadura. E ao mesmo tempo o Brasil era o país do futebol. Quer dizer, e vocês eram o alvo de um lado e do outro lado. Eram a esperança do título, mas aquele título que era o circo do pão que não vinha.  

Ou seja, não havia liberdade e vocês eram, naquele momento, a esperança de um grito de liberdade, vamos chamar assim. Como é que isso chegava até vocês? Vocês comentavam internamente? Vocês discutiam alguma coisa da situação política, o que vocês representavam naquela hora?


D.S. – Não. Na realidade nós fomos válvulas de escape. Porque o Brasil vivia aquele regime hostil, todo mundo coagido. E os políticos se aproximaram do futebol para dar moral ao futebol e o povo esquecer o sofrimento do dia a dia. Consequentemente as pessoas mais inteligentes, mais estudadas, o que eles achavam? Que nós estávamos do lado da Ditadura. E muitos tinham até raiva de nós.

Então, nós sabendo que tínhamos pouco que resolver, a não ser ganhando a Copa do Mundo, porque nós só seríamos ídolos se ganhássemos a Copa do Mundo – nós já estávamos sendo feridos, porque estavam dizendo que a Ditadura estava usando o futebol. Então, tinham muitas pessoas que não gostavam de nós. Se perdêssemos essa Copa, eu não sei não, talvez a cabeça do Dadá estivesse em uma bandeja agora, ainda mais eu, que era tido como o ídolo do presidente. 


Se perde aquela Copa eu não sei se voltava para o Brasil. Porque iam dizer que o Dadá era peixinho do homem, eu estava frito! Não só eu, como todos nós. Então, nós fomos uma válvula de escape, ganhamos uma Copa do Mundo, a Ditadura ficou com a gente e nós ficamos com o povo, também. Porque a nossa situação era terrível, era vencer ou vencer. Se a gente perde aquela Copa, nós não teríamos direito nem de beijar nossos filhos. Foi uma situação drástica pra gente.

Agora, aquela Copa foi fantástica na familiaridade. Porque eu nunca vi um ambiente... Eu vou ser sincero, eu amo meus filhos, sou agarrado nos meus filhos, mas não sou tão agarrado com meus filhos, quanto aquela Seleção de 70 foi agarrada. Aquilo ali foi um exemplo, porque nós apanhávamos, era paulada o dia todo, a imprensa: “Essa Seleção é uma droga, não vai ganhar, não tem condições”. Era só isso que nós ouvíamos. A gente nem lia jornal, não tinha essa tecnologia de hoje, era por telefone.


A minha alegria é que eu era o rei da correspondência, a torcida do Atlético mandava carta para mim eu saia correndo, a gente recebia carta e saía correndo com a carta e mostrando: “Aqui, ganhei carta!”. Olha só que bobeira, hoje iam chamar a gente de louco. Então, era... A tecnologia zerada, não é? 

Então, pegávamos uma carta e saíamos correndo, mostrando para todo mundo: “Aqui, olha! A torcida do Atlético, eu sou o rei da torcida! Eu sou o campeão de cartas, de correspondência!” Olha o que nós vivíamos naquela época, então foi terrível. Foi uma válvula de escape.


J.A. – Você teve algum encontro pessoal, assim, contato direto com o Médici?

D.S. – Tive.

J.A. – O que vocês falaram?

D.S. – Não, o negócio é o seguinte, inclusive eu dei uma gafe, não é? Quando nós fomos embora, o presidente convidou, no Palácio das Laranjeiras, para um almoço de confraternização. E eu não sabia... Eu conhecia o presidente, mas não sabia quem era a esposa dele, quem era a filha, quem era nada. E os discursos foram se alongando e a barriga roncando. E todo mundo morrendo de fome, eu estava vendo a hora em que eu ia comer minha mão. E os políticos falando, falando... Eu falei: “Esses caras tem que parar de falar, eu estou morrendo de fome”. Aí na hora que liberou eu arranquei, peguei meu prato, fiz um prato na raiva, e os jogadores: “Dario filho da mãe, você não tem educação, não?”.


Falei: “Aqui, vou ficar na fila para pegar um pouquinho, para pegar um pouquinho depois? Eu vou é encher o prato!”. Daqui a pouco vem uma senhora me pedir autógrafo: “Ah, me dá um autógrafo”. Eu peguei o prato: “Por favor, minha senhora, segura o prato”.  E estou dando o autógrafo, está todo mundo rindo e eu não estou sabendo. A esposa do Médici, eu dei o
prato assim, olha, não dava nem para ver meu rosto. Eu entreguei para ela aqui, e ela segurando assim, saiu na imprensa [risos]. Aí depois ficaram: “Dario filho da mãe! Aquela é a mulher do presidente!”. Falei: “Ah! Ela pediu um autógrafo, eu estava com o prato na mão, vou fazer o quê?”


Foi a maior gafe da minha vida, essa. E o presidente riu a pampa, porque ele estava vendo, depois contaram para o presidente. Aí depois ele veio conversar comigo, aí eu abracei o presidente, bati na barriga do presidente. Aquilo deu uma fofoca tremenda, bati na barriga do presidente, uma liberdade!”

Fonte:
SANTOS, Dario José dos.  Dario José dos Santos (depoimento,
2011). Rio de Janeiro, CPDOC/FGV, 2011.  59 p.


E para quem quiser conhecer melhor a vida de Dadá, vale a leitura de sua biografia “Dadá Maravilha” (Editora Del Rey, 1999), escrita por Lúcio Flávio Machado.

Frases de Dadá:

Se minha estrela não brilhar, eu passo lustrador...”.

Pelé, Garrincha e Dadá tinham que ser curriculum escolar”.

Só existe três poderes no universo: Deus no Céu, o Papa no Vaticano e Dadá na grande área”.


Não existe gol feio, feio é não fazer gol”.

Somente três coisas param no ar: o beija-flor, o helicóptero e eu”.

Não me venham com a problemática que eu tenho a solucionática”.

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