domingo, 4 de março de 2012

Lupicínio Rodrigues e a Liga da Canela Preta


Ele é um dos maiores compositores da história da música brasileira e um dos precursores  do tema “dor de cotovelo”. Lupicínio Rodrigues, o “Lupi”, como os amigos o tratavam também era apaixonado pelo futebol. O autor de canções famosas como “Se acaso você chegasse” e “Nervos de Aço” não deixou de eternizar com seu talento musical uma composição para o clube de coração. Lupi era gremista de coração e deixou para os tricolores gaúchos uma verdadeira declaração de amor. O hino composto por ele é um dos mais belos entre os grandes clubes brasileiros.

Coluna de Lupicínio Rodrigues, no
jornal Última Hora, de Porto Alegre.

Lupi sabia do que escrevia. 

Desde menino aprendeu a gostar de futebol e era um atento observador dos problemas que aconteciam neste universo. 

Em 1963, quando assinava uma coluna no extinto jornal Última Hora, deixou para a literatura esportiva um texto em que explica as verdadeiras razões de ter se tornado um gremista. 

Uma história que explica muito mais do que a pura paixão, mas um tema recorrente no futebol brasileiro nas primeiras décadas do século 20: o preconceito racial.








Equipe da Liga da Canela Preta.

É neste período, no sul do país, que surge a “Liga da Canela Preta”. Nas reflexões de Lupi ele só não conta que o pai fora também um jogador da tal Liga, e que o maior rival do Grêmio, o Inter seria o “culpado” de seu pai não ter brilhado ainda mais no futebol gaúcho. Tudo porque, o clube colorado teria sido um dos clubes a vetar a participação dos clubes oriundos da Liga da Canela Preta em meados da década de 1920 quando a Federação Gaúcha de Futebol tentou unificar as diversas ligas existentes.  Lupi teria então ficado com ódio mortal do rival e daí a escolha pelo Grêmio. O texto abaixo foi publicado no dia 6 de abril de 1963, na coluna batizada de “Roteiro de um boêmio”.

Por que sou Gremista
Por Lupicínio Rodrigues


“Domingo, estive em um churrasco, da Sociedade Satélite Prontidão, onde se reúne a “Gema” dos mulatos de Porto Alegre. Lá houve tudo de bom, bom churrasco, boa música e boa palestra. Mas, como sempre, nestas festas nunca falta uma discussão quando a cerveja sobe, lá também houve uma, e, esta foi a seguinte. Uma turma de amigos quis saber porque, sendo eu um homem do povo e de origem humilde, era um torcedor tão fanático do Grêmio. Por sorte, lá estava também o senhor Orlando Ferreira da Silva, velho funcionário da Biblioteca Pública, que me ajudou a explicar, o que meu pai já havia me contado.


Em 1907, uma turma de mulatinhos, que naquela época já sonhava com a evolução das pessoas de cor, resolveu formar um time de futebol. Entre estes mulatinhos estava o senhor Júlio Silveira, pai do nosso querido Antoninho Onofre da Silveira, o senhor Francisco Rodrigues, meu querido pai, o senhor Otacílio Conceição, pai do nosso amigo Marceli Conceição, o senhor Orlando Ferreira da Silva, o senhor José Gomes e outros. O time foi formado. Deram-lhe o nome de “RIO-GRANDENSE” e ficou sob a presidência do saudoso Julio Silveira. Foram grandes os trabalhos para escolher as cores, o fardamento, fazer estatutos e tudo que fosse necessário para um Clube se legalizar, pois os mulatinhos sonhavam em participar da Liga, que era, naquele tempo, formada pelo Fuss-Ball, que é o Grêmio de hoje, o Ruy Barbosa, o Internacional e outros.

Grêmio, com negros na equipe.

Este sonho durou anos, mas no dia em que o “RIO-GRANDENSE” pediu inscrição na Liga, não foi aceito porque justamente o Internacional, que havia sido criado pelo “Zé Povo”, votou contra, e o “RIO-GRANDENSE” não foi aceito. Isso magoou profundamente os mulatinhos, que resolveram torcer contra o Internacional e, sendo o Grêmio seu maior rival, foi escolhido para tal. Fundou-se, por isso, uma nova Liga, que mais tarde foi chamada de “Canela Preta”, e quando estes moços casaram, procuraram desviar os seus filhos do clube que hoje é chamado o “CLUBE DO POVO”, apesar de não ser ele o primeiro a modificar seus estatutos, para aceitar pessoas de cor, pois esta iniciativa coube ao “ESPORTE CLUBE AMERICANO”, e vou explicar como: A Liga dos “Canelas Pretas” durou muitos anos, até quando o “ESPORTE CLUBE RUY BARBOSA”, precisando de dinheiro, desafiou os pretinhos para uma partida amistosa, que foi vencida pelos desafiados,ou seja os pretinhos.


O segundo adversário dos moços de cor foi o Grêmio, que jogou com o título de “Escrete Branco”. Isso despertou a atenção dos outros clubes que viram nos “Canelas Pretas” um grande celeiro de jogadores e trataram de mudar seus estatutos, para aceitarem os mesmos em suas fileiras, conseguindo levar assim, os melhores jogadores, e a Liga teve que terminar. O Grêmio foi o último time a aceitar a raça porque em seus estatutos, constava uma cláusula que dizia que ele perderia seu campo, doado por uns alemães, caso aceitasse pessoas de cor em seus quadros. Felizmente, essa cláusula já foi abolida, e hoje tenho a honra de ser sócio honorário do Grêmio e ter composto seu hino que publico ao pé desta coluna.

Hino do Grêmio, de Lupicínio Rodrigues:

I

Até a pé nós iremos
Para o que der e vier
Mas o certo é que nós estaremos
Com o Grêmio onde o Grêmio estiver


II

Cinquënta anos de glória
Tens imortal tricolor
Os feitos da tua história
Enche o Rio Grande de Amor


III

Nós como bons torcedores
Sem hesitarmos sequer
Aplaudiremos o Grêmio
Aonde o Grêmio estiver


IV

Para honrar nossa bandeira
Para o Grêmio ser campeão
Poremos nossa chuteira
Acima do coração”.



A letra do Hino do Grêmio teria sido composta por Lupicínio Rodrigues em meio a uma greve de bondes na cidade de Porto Alegre e daí a razão dos versos “até a pé” iria “onde o Grêmio estiver”...Naquele tarde, o Tricolor gaúcho jogava no estádio Olímpico.

Lupi faleceu em 27 de agosto de 1974. Vinte anos depois, seu filho Lupicínio Rodrigues Filho, lançou o livro “Foi Assim: o cronista Lupicínio Rodrigues”(L&PM Editora, 1995) uma seleção com as melhores crônicas escritas pelo pai no jornal “Última Hora” entre 1962 e 1963.


Para terminar, vale a pena ver e ouvir uma das canções mais famosas de Lupicínio Rodrigues, “Nervos de aço”, gravada na voz mágica de Paulinho da Viola, que explica no início do vídeo uma história curiosa sobre a maneira correta de interpretar esta música.

No vídeo abaixo, o jeito que Lupicínio cantava a sua "Nervos de Aço".


E o hino do Grêmio, um dos mais belos entre os clubes brasileiros.






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