segunda-feira, 5 de março de 2012

Luizinho, o Pequeno Polegar


Pequeno Grande homem
Por André Ribeiro

Pequenino, mas um gigante para o torcedor corintiano que conheceu sua história dentro do Corinthians. Luiz Trochillo, o Luizinho, tinha apenas 1,64m e daí o diminutivo no nome. Recebeu dos torcedores do Timão um apelido que justifica a lenda original: “Pequeno Polegar”. No dia 07 de março ele completaria 84 anos de vida.


Se na lenda surgida na Europa o filho caçula de uma família pobre de lenhadores, abandonado pelos pais em uma floresta, conseguiu sobreviver as malvadezas de um ogro, com Luizinho não houve lenda, mas a realidade de se tornar um ícone para a imensa e fanática torcida corintiana.

Para muitos, especialmente os que o viram jogar, Luizinho é ainda o maior ídolo do clube. Não é para menos. Foram 606 jogos, 172 gols em 15 anos de carreira dentro do Corinthians.


Alguns desses gols ficaram marcados para sempre na história do clube. Como em 1954, quando o Pequeno Polegar fez o gol do título do 4º Centenário da cidade de São Paulo contra o Palmeiras. Sua identificação com o Corinthians impressiona qualquer um. Jogou 606 partidas com a camisa do clube, um recorde superado somente nos anos 1980 pelo lateral esquerdo Wladimir (803).

Para se ter a dimensão de sua importância nos anos 1950, o presidente do Corinthians na época, Alfredo Ignácio Trindade foi obrigado a recusar uma proposta milionária (1 milhão de dólares, uma infinidade de dinheiro para a época) do Atlético de Madrid que queria comprá-lo a todo custo. E o argumento do presidente corintiano para justificar a negativa faz sentido: “Se vendê-lo, a torcida me mata e incendeia o Parque São Jorge”.


Luizinho era a “cara” do Corinthians. Cresceu na Zona Leste e lá morreu, no bairro do Tatuapé. 

Quando encerrou a carreira, virou técnico do Corinthians. E até hoje o torcedor do clube pode vê-lo diariamente no busto que o eternizou na galeria dos grandes ídolos do Timão.

Mas tudo isso não foi tão simples assim de se conquistar. Esse post do Literatura na Arquibancada hoje é especial, diferente, porque você leitor deve assistir ao programa especial produzido por esse que vos escreve, André Ribeiro, para o Grandes Momentos do Esporte da TV Cultura. 

Fiquei imensamente feliz quando descobri que esse especial sobre Luizinho estava disponível no Youtube.


Para mim esse programa, apesar de tantos outros documentários e reportagens especiais feitos durante os 13 anos em que trabalhei no departamento de Esportes da TV Cultura tem um significado extremamente especial. E aqui explico a razão.

O programa surgiu de um desafio que me foi proposto pela equipe do GME: conseguir uma entrevista com Luizinho, o Pequeno Polegar, figura que havia quase 20 anos não falava para nenhum veículo de comunicação. Muitos tentaram sem sucesso. 

Você verá um Luizinho completamente diferente do que eu conheci antes das gravações.


Primeiro, para conseguir chegar a ele foi uma aventura que exigiu paciência e persistência. Durante uma semana, fiz praticamente um plantão nas imediações de sua casa. A informação era a de que Luizinho seria facilmente encontrado na praça que ficava ali, bem perto de sua residência. Todos os dias ele e vários aposentados passavam horas ali, jogando baralho, dominó e conversando sobre os bons tempos do ex-craque corintiano.

Mas a realidade foi bem outra. Quando descobriu que havia um repórter atrás dele tentando uma entrevista, Luizinho simplesmente desapareceu, da casa e da praça. Todos os dias, eu repetia o ritual: apertava a campainha de sua casa e conversava com um de seus filhos tentando convencê-lo de que o pai nos desse a tal entrevista. Nada feito. Até que um dia, talvez cansado da minha insistência, o filho me deu uma dica valiosa: “Você quer encontrar o meu pai? Então tem que ir a padaria 'tal' que fica próxima daqui. Ele toma café ali todos os dias”.


Quando dizem que todo repórter (ou produtor como neste caso) tem que ter também uma boa dose de sorte, o que aconteceu comigo foi exatamente isso. Cheguei bem cedo à padaria. Sentei-me em um banco qualquer próximo ao balcão e aguardei sua chegada comendo pão com manteiga e o tradicional “pingado”. Foram três dias de espera, até que Luizinho aparecesse. E a sorte conspirou porque o Pequeno Polegar, só mesmo Deus poderia explicar, resolveu sentar-se bem ao meu lado quando na padaria existiam vários outros lugares desocupados.

Após alguns minutos, puxei conversa com ele da maneira que muitos do bairro faziam: “Você não é o Luizinho, o Pequeno Polegar?”. Ele se virou para mim, e com aquela voz de italiano da Móoca e com toda a simplicidade e humildade que Deus lhe deu, respondeu: “Sou eu mesmo”. Para não assustá-lo, preferi não me identificar como o repórter que ele sabia estar a sua “caça” e de quem ele fugia nos últimos dias. Falamos sobre o Corinthians, sobre jogos do passado, sobre o grande craque que ele foi. Ficamos ali de prosa pelo menos uns 10 minutos. Suas respostas explicavam a razão de correr dos repórteres. Parecia rancoroso com o lugar que a história havia lhe reservado. Para ele, o Corinthians havia o esquecido completamente. E era a mais pura verdade.


Até que chegou o momento dele se despedir agradecendo a conversa. Foi quando disse a ele quem na verdade eu era: o tal repórter chato que estava em seu encalço, como um zagueiro adversário. Brinquei com ele com essa metáfora dizendo que agora sim entendia porque os zagueiros tinham dificuldade de marcá-lo. Surpreendentemente, ele sorriu. O mesmo sorriso que você verá ao longo do documentário. E, finalmente, sem perder aquele gesto de abertura, perguntei: “Podemos conversar sobre tudo isso que falamos aqui em sua casa?”.

E antes que respondesse, reforcei o pedido com o seguinte argumento: “Você não precisa me responder agora. Assista ao programa, no próximo sábado, o Grandes Momentos do Esporte, e veja como tratamos ex-jogadores como você”. Ele respondeu: “Eu conheço o programa. Vou pensar. Não sei se vale a pena mexer com essas coisas do passado”. Antes de ganhar o caminho da rua, de volta para os amigos da praça que ele finalmente poderia rever sem ser incomodado novamente, virou-se de repente e falou: “Passe amanhã lá em casa e a gente conversa”. Não era um sim definitivo, mas na manhã seguinte, estávamos lá com a equipe a postos para um possível sim dele para a gravação.

                                     1ª parte do especial, Luizinho o Pequeno Polegar.

É neste momento que entra a participação sempre decisiva do repórter que fazia a maioria das grandes reportagens do programa: Helvídio Mattos, hoje, na ESPN Brasil. Helvídio tinha (e continua a ter) algo que cativava os entrevistados que nunca ninguém soube explicar. Quando tocamos a campainha da casa de Luizinho, ele se assustou e falou: “Mas o que é isso? Falei pra você vir aqui, mas o que é toda essa gente?”. Entramos eu e Helvídio para conversar com ele. Em meia hora conseguimos convencê-lo e a entrevista que havia 20 anos ele não dava começava a ser feita.

                                      2ª parte do especial, Luizinho, o Pequeno Polegar.

É o que você pode conferir aqui neste post. Tornei-me grande amigo de Luizinho, uma amizade que até hoje me emociona, pelo carinho e respeito que ambos passaram a ter um pelo outro. O resultado final do programa realmente foi magnífico, mas alguns detalhes fizeram com que eu e ele nos tornássemos tão amigos, mesmo que sempre “distantes”. Durante a gravação, você que assistir ao programa perceberá que no fundo do local onde ele está sentado existe um armário de madeira. Tínhamos o hábito de sempre pedir aos entrevistados material gravado em filmes antigos. Luizinho respondeu assim ao nosso pedido: “Tem uns rolinhos ali naquela gaveta. Pode levar, só me tragam de volta porque não faço nem idéia do que tenha aí”. Quando copiamos o material, descobrimos que os tais “rolinhos” eram a festa de casamento dele e imagens inéditas de um amistoso que o Corinthians fez na Alemanha, contra o Bayer, em 1959. Até aquele dia, as imagens de Luizinho em campo, jogando, driblando, correndo pra lá e pra cá, mostrando o seu talento, eram raríssimas. Um filme com aquela qualidade então nem se fale. Até ele se emocionou em rever aquelas cenas.

                                   3ª parte do especial, Luizinho, o Pequeno Polegar.

No final da gravação também há um momento marcante para todos da equipe que participaram das gravações e para ele, Luizinho. Ele aceitou nosso convite de ir até o estádio do Pacaembu para gravarmos algumas cenas dele. Havia anos que Luizinho não pisava novamente naquele gramado. Sua reação, você poderá comprovar ao assistir o programa, foi pura emoção. Sem pedir nada a ele, Luizinho levantava os dois braços para as arquibancadas vazias do Pacaembu, como se pedisse para que todos se levantassem em reverência a ele. Uma reação espontânea que nos deixou impressionados, porque para ele, Luizinho, parecia existir ali, todas sentadas, as quase 50 mil pessoas que costumavam aplaudi-lo aos domingos. A sensação para nós que acompanhávamos a cena era a de que Luizinho realmente estava vendo essas milhares de pessoas. E isso, ele me confidenciou mais tarde: “Elas estavam ali mesmo”...

                                     4ª parte do especial, Luizinho, o Pequeno Polegar.

Nunca mais me esqueci dessa cena e suas palavras. E como uma forma de homenageá-lo, prometemos que lhe faríamos uma surpresa. Fomos atrás de caminhos para que a diretoria corintiana da época lhe prestasse uma homenagem, como por exemplo, a construção de um busto para ser colocado no Parque São Jorge. Sensíveis ao apelo, a direção corintiana não teve dúvidas e o busto está lá, desde 1994 e até hoje.

                                     5ª parte do especial, Luizinho, o Pequeno Polegar.

Mas o momento mais marcante para mim, como produtor e repórter foi ter dele, Luizinho, a humildade da gratidão. Logo dele, um ídolo que jamais precisaria ter de pedir por isso. Todos os finais dos poucos anos que ele teria de vida pela frente (a entrevista foi gravada e exibida em 1993 e ele morreu cinco anos depois), Luizinho sempre me ligava para me desejar boas festas e agradecer o que fizemos por ele. Não adiantava lhe dizer que aquilo não precisava ser feito pois tudo que acontecera, ou seja, reverenciá-lo eternamente, era mais do que obrigação, nossa e de toda a mídia. E o Pequeno Polegar nunca deixou de ligar.

Busto de Luizinho, no Parque São Jorge.

Em 1996, ele recebeu outra homenagem inesquecível. Na estréia de Edmundo com a camisa 8 do Corinthians, Luizinho jogou 5 minutos entre os titulares. 

Para ele, certamente, não só pisar, mas jogar novamente no Pacaembu lotado foi eterno.

                                    O reencontro de Luizinho com a FIEL torcida.

Até que o dia 17 de janeiro de 1998 se tornasse um dos dias mais tristes de minha vida como repórter e ser humano.

Eu estava em férias, com a família, na praia do Guarujá, litoral sul de São Paulo. O telefone tocou e um amigo sabendo do carinho e respeito que tinha por Luizinho falou com jeito: “Se prepare, tenho uma notícia triste. O Pequeno Polegar morreu”.


Há coisas inexplicáveis na vida de um homem. Para mim que já havia sofrido recentemente a dor da perda do próprio pai (falecido em 1992), sentir novamente aquele mesmo vazio incrível pela perda de uma pessoa seria impossível. Mas não...ela voltou a acontecer. Criou-se entre nós algo que a maioria dos seres humanos esquecem na vida: o respeito e a admiração. Buscando na memória naquela fração da dor pela notícia recebida, lembrei-me da resposta que ele me dera a primeira vez quando lhe perguntei porque ele tornara-se tão grato a mim pelo programa, a homenagem do busto, etc...E sua resposta explica a dor que senti: “Você fez algo por mim que nem minha família e amigos próximos conseguiram fazer. Você me trouxe de volta a vida. Agora eu posso morrer feliz”.


Quem poderia se esquecer de algo assim e não sofrer por tal perda? Luizinho havia me confidenciado que chegara a perder parte do estômago devido às decepções sofridas com o esquecimento corintiano, pelo menos até o dia em que decidimos entrevistá-lo e transformar aquele encontro no especial que você vai assistir aqui.

Um momento eterno. Um craque e homem que descansa em paz porque em vida pode reviver com honra e orgulho tudo aquilo que fez pelo time que tanto amava.

3 comentários:

  1. sou Corinthiano,palavras são fazias para explicar tal amor por um time, portanto acho que o minímo meu dever é conhecer sua história.tenho 32 anos mas sem falsa modéstia acredito conhecer bem a nossa histíria .dito isto não tenho a menor dúvida que Luiz Trochillo É O MAIOR JOGADOR DA HISTÓRIA DO CORINTHIANS.como sou admirador de Luizinho e sua Historia eu já conhecia os videos publicados neste post.Me considero um prevílegiado por ter conhecido Luiz Trochillo. nas mesma padaria discrita no Post. que se localiza na esquina da av. celso garcia x Antonio de barros (padaria rio de janeiro)pegava ônibus no ponto em frente a padaria.e realmente ele sempre teve uma aparência fechada e rancorosa tentei me aproximar dele por vezes e foi muito dificil ,rsrsrs. mas depois de muito insistir ele abaixo a guarda e tive varias conversas saborosas com ele . sobre corinthians , sleção brasileira. etc.obrigado por fazer tal homenagem para o maior de toda nossa rica historia.

    ResponderExcluir
  2. Ele foi o culpado de me tornar Corinthians ....o maior maior jogador que. Vi jogar com a número 8....inesquecível grande reportagem

    ResponderExcluir
  3. Certa vez na sua solidão foi indagado por um repórter "Seus parentes todos no exterior você aqui na solidão o que o faz permanecer assim", respondeu " Olha moço nesta vida nunca vi nada mais bonito do que Sport Clube Corinthians Paulista", até hoje me emociono ao lembrar desse relato...

    ResponderExcluir