terça-feira, 13 de março de 2012

Grandezas e Misérias do futebol brasileiro


Desde a renuncia de Ricardo Teixeira, o ex-todo poderoso presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a expectativa era sobre os "novos rumos" que poderiam ser dados à casa que comanda o futebol brasileiro. Difícil acreditar nessa hipótese, como vários fatos já comprovaram em curto espaço de tempo da "nova administração" e ainda mais após ler a história que relatamos abaixo.

Antes mesmo do futebol se tornar “profissional”, os bastidores políticos do esporte estava impregnado pela sujeira e corrupção de dirigentes, cartolas e “empresários”. Com exceção de pesquisadores e estudiosos do futebol, talvez poucos saibam da existência de um livro que comprova que desde as suas origens o esporte estava afundado em um mar de lama. Em 1933, um livro entrou para a história porque seu autor era um jogador de futebol.

Floriano Peixoto Corrêa escreveu “Grandezas e Misérias do nosso futebol” (Flores & Mano Editores) que acabou publicado no ano de 1933, às vésperas da batalha política nos bastidores pela profissionalização do esporte no país. Floriano nasceu em 1903, no município de Itapecerica, na região oeste de Minas Gerais. Mudou-se jovem para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1919, onde pretendia seguir a carreira militar, mas a bola acabou lhe roubando o destino. Era considerado um craque para a época. Jogou nas principais equipes de Porto Alegre, entre elas a do Grêmio. Do sul do país, foi para o Rio de Janeiro, em 1924 e aí que começa a “saga” de Floriano no futebol.

Em seu livro histórico, Floriano descreve histórias inacreditáveis, porém, com o atual noticiário esportivo transbordando informações e fatos negativos sobre os comandos do futebol brasileiro, fica fácil entender porque chegamos à atual situação.

O começo no Fluminense, em 1924.

“O clangor dos clarins da vitória fizeram-me esquecer da vida pratica. Era um órfão que precisava, acima de tudo, olhar para o meu futuro que se me mostrava sombrio. 

O futebol desviara-me dos estudos e não seria com vitórias futebolísticas que iria assegurar minha tranqüilidade. Fiz sentir isso aos meus amigos do clube, mas esses tinham sempre uma promessa para as minhas elocubrações. 

E, confiado nessas promessas, dediquei-me ao clube. Vieram outros jogos e, desamparado do lado pratico da vida, prossegui embalado pelos triunfos futebolísticos. 

Entreguei o destino nas mãos daqueles que se diziam meus amigos. Amador de futebol não tinha emprego. Dormia na sede do clube e era socorrido pelos diretores Lais e Ramiro Pedrosa, que, para que me dedicasse por inteiro ao Fluminense, trataram, primeiro, de conseguir minha baixa do Exército.

Equipe do Fluminense de 1926, com Floriano, em pé,
a direita, com a cabeça baixa.
Livre da farda passei a desfrutar uma vida de capitalista sem capital. Para acompanhar a sociedade carioca subi para Petrópolis, afim de fazer a estação estival. Fui abrigado, à convite de Ramiro Pedrosa, no seu palacete da rua Bolivar. Comigo subiram igualmente Nilo e Zezé. Parecia um sonho, mas era verdade! Estava autenticamente instalado num suntuoso palácio, tendo a disposição automóvel de luxo e montarias fogosas. Enquanto isso meu futuro continuava a ser um enigma. E fumando charutos e bebendo bons vinhos às vezes meditava naquele contraste flagrante que ironicamente me levara a uma morada luxuosa, quando meu guarda-roupa se resumia n um modesto terno de casimira marrom, surrado e cedido por empréstimo pelo milionário Ignácio Nogueira, torcedor ferrenho do Fluminense, o qual, encantado com as minhas atuações achou de bom alvitre prestar-me esse obséquio, que aliás me custou ainda alguns cobres num alfaiate retalhista da rua 2 de Dezembro. E assim vestido freqüentava os salões chics do Bridge, do Capitólio Clube, onde as fichas de 500$ andavam pelas mesas como as cinzas dos charutos nos cinzeiros.”

(...)
Driblando para sobreviver...

Equipe campeã do Fluminense em 1924.
“Evidentemente o processo de gorjeta ao “amadorismo” não podia solver meus compromissos, nem dar-me o dinheiro necessário para as despesas do traje, num clube chic como era o Fluminense. Precisava andar decentemente trajado. Mesmo assim, havia muita gente que bancava o chiquê para falar comigo. Eu era um simples jogador de futebol, um “cavalo” de raça para ser admirado na pista gramada e nada mais. Cavalo de cartaz, que punha em evidência sua coudelaria. Por isso, leitores, vocês vão ter conhecimento de um caso que define perfeitamente as misérias do nosso futebol. Dois anos haviam passado e nada do emprego. Veio o desempate do grande Campeonato Brasileiro de 1925. Vexado de pedir dinheiro aos que me deviam oferecer espontaneamente, tomei naquele dia a iniciativa de negociar algumas cadeiras numeradas. Ia fazer o cambista. Seria uma operação perfeitamente honesta, como a dos cambistas profissionais. Jogaria na sorte. Preferira trabalhar a exigir o dinheiro de que precisava; exigi-lo, sim, em ocasião propícia quando desfrutava prestígio de eixo do scratch carioca. Era chegado, leitores, o momento de apertar a corda no pescoço daqueles que mais tarde me venderam. De resto, não seria um caso virgem, porque de fatos idênticos o futebol do Rio e de São Paulo estavam cheios.

Estádio das Laranjeiras.
Mas tenho sentimento e preferi fazer negócio honesto de cambista a sujar a honra.
Assim, consegui adquirir a crédito das mãos do Sr. Henrique Artou, naquela época tesoureiro do Fluminense, sob cujo controle estava o movimento das bilheterias, 15 cadeiras numeradas. No dia do jogo desempate Rio x São Paulo, acabada a preliminar, segundo o que já havia estabelecido com Trancoso, dei a este as cadeiras. Trancoso foi para a rua vendê-las, enquanto fiquei do lado de dentro das grades para fiscalizá-lo. A cotação estava alta, disse-me de fora o Trancoso. A hora do grande encontro se aproximou. As arquibancadas estavam repletas; nas gerais, uma massa compacta berrava:
– Tá na hora!
– Cariocas! Paulistas! Fortes! Floriano! Neco! Amilcar!
Uniformizado andava eu de um lado para outro, preocupado com a venda das entradas e com o início do jogo. Como iria Trancoso lá fora? Estaria passando as entradas a bom preço ou as teria vendido ao custo? E os teams? Já estariam em campo? Eram as perguntas que formulava a mim mesmo, enervado por aquela torturante expectativa, com os ouvidos atentos ao apito do juiz. Acomodada no estádio, a multidão gritava. Palmas. Os quadros entravam em campo. Cheguei no momento justo de começar o prélio, mas tive tempo de relancear as cadeiras da letra “A” e vê-las ocupadas. Tranquilizei-me. Os adversários se aninharam e a luta dos gigantes começou. O resultado é conhecido. Venceram os cariocas por 3 a 2.

Estádio das Laranjeiras.
Saí do campo aos empurrões, apertado nos braços tentaculares do povo. Estava satisfeito, mas queria ver Trancoso. Vimo-nos depois e ele passou-me o dinheiro honestamente ganho. Foram seiscentos e poucos mil réis. Durante longo tempo a multidão hululou frenética. Delírio da vitória. Morteiros, foguetes, bombas e hurrahs.
Quando o crepúsculo caiu amortalhando tudo, os vencedores exaustos descansavam em confortáveis poltronas no bar do Fluminense, ouvindo as loas e os ditirambos dos torcedores e dos sócios dos clubes que contribuíram para a seleção.
O fla-flu tinha saído melhor do que a encomenda. E vieram evocações de aspectos da partida, comentários chistosos, gargalhadas, ironias. No meu ombro cavalheiros distintos e desconhecidos batiam afetuosamente, repetindo sempre a frase:
– Você foi um colosso, Floriano!
O champagne correu generosamente, açulando a alegria que culminou com a chegada do Sr. Eugênio Mergulhão, tesoureiro da Amea, que discreta e elegantemente fez a distribuição do indefectível “bicho” que os heróis aceitaram a título de condução...”

Floriano (direita) e Telê, companheiros no América carioca.
Em 1927, Floriano foi acusado por dirigentes e torcedores de ter se vendido em um jogo decisivo contra o América. Acabou nos tribunais da federação carioca, mas conseguiu “provar” sua inocência no episódio. Em uma entrevista “bombástica” dada ao diário “Rio Esportivo”, Floriano revelava detalhes de como jogadores eram subornados e como viviam praticamente na miséria, de favores de dirigentes esportivos da época. Prometia que um dia escreveria sobre tudo isso. Mas a mancha de jogador que teria aceitado suborno ficaria para sempre. Como resultado do episódio vergonhoso, Floriano pediu demissão do Fluminense no dia 25 de outubro de 1927. Pior ainda, foi contratado pelo América, o clube contra o qual jogara e fora acusado de entregar o jogo. Dois anos depois, em 1929, ele era novamente acusado de ter entregado um jogo decisivo, desta vez contra o Vasco, na disputa do título estadual. No último jogo, na série melhor de três partidas, o América perdeu por 5 a 0. Floriano pediu para deixar o campo antes do final da partida alegando cansaço físico. Agora era a torcida americana que o chamava de venal. Nessa época, Floriano já carregava também o apelido carinhoso de “Marechal da Vitória”, que com o segundo suposto episódio de suborno passou a ser considerado o “soldado mercenário”.

Equipe do Santos, em 1932. Floriano é o segundo da
esquerda para a direita, agachado.
Floriano foi parar no Santos Futebol Clube e sempre o tema suborno envolvendo a sua figura. Desta vez, ele e outro famoso jogador santista, Feitiço, teriam participado de um “esquema” arquitetado por empresários e até mesmo do presidente santista para um jogo contra a modesta equipe do Juventus, do bairro da Móoca, em São Paulo.  No livro ele revela detalhes de como não teria participado do tal esquema, mas sua imagem mais uma vez estava manchada. Na época, era comum os jogadores trabalharem em empresas para garantir algum rendimento fixo no final do mês. Com as novas denúncias e mesmo nos tribunais sendo inocentado, Floriano acabou demitido da empresa em que trabalhava. Decidiu partir de Santos, rumo à cidade de Barretos. Voltou no ano seguinte, em 1932, para o mesmo Santos. Com o início da revolução constitucionalista de 1932, Floriano foi para o front de batalhas. Lutou como solado em um regimento paulistano.

Dedicatória de Arthur Friedenreich, no livro
"Grandezas e Misérias", de Floriano. Fried também
foi combatente na Revolução de 1932.
Logo após o fim da luta armada de 1932, Floriano se viu em outra batalha. Desta vez, em 1933, pelo fim do “amadorismo” no futebol brasileiro. Juntou-se à vários jornalistas que queriam ver o profissionalismo instituído no país. No ano seguinte, em 1933, decidiu que era o momento de colocar no papel tudo que sabia do submundo do futebol das primeiras décadas do século passado. Escreveu “Grandes e Misérias do nosso futebol”,considerado um livro “bomba” na época. Tornou-se arma fundamental para que os jornalistas de Rio e São Paulo conseguissem o que queriam. “Qualquer semelhança com o que estamos vivendo atualmente no futebol brasileiro é mera coincidência”, adverte o Literatura na Arquibancada.

Floriano revela detalhes incríveis de dezenas de casos envolvendo jogadores de diversos clubes brasileiros, usados, aproveitados e “comprados” por muitos homens chamados à época de “empresários” ou representantes de clubes e ainda dirigentes, presidentes e cartolas.

O livro de Floriano é um documento histórico que até o momento de ir às livrarias correu risco de não chegar aos leitores:

“...Agora, que chego ao fim, devo dizer a todos vocês que também este livro tem uma história. Entregue os originais a Rogério Pongetti, rasgada a anunciação do livro na imprensa do Rio e de São Paulo – “a história do suborno Vasco x América”, idem, idem, do “match Juventus x Santos” – começo a receber ameaças. Uma delas, de morte, buzinada de Santos, dizia que meu velho camarada Athié Jorge Curi estava disposto a me dar um tiro. Enquanto as linotipos engoliam os capítulos, no Rio, meu velho amigo Lauro Magalhães ia dizer a Flores & Mano, interessados na distribuição do livro, como fora procurado por um diretor de clube carioca, ansioso por saber quanto eu queria levar para desistir de publicar as MISÉRIAS...

Terminada a composição, já a obra paginada, um dos empregados daquela livraria perde as provas de páginas 91 a 167, no trajeto Ouvidor-Mem de Sá. Por coincidência estavam no maço perdido a parte final do suborno Vasco-América, e todo o suborno Juventus-Santos. (...) Hoje, segunda-feira, 10 de julho de 1933, encontro-me nas oficinas da Avenida Mem de Sá, 78, a fazer a última revisão deste livro. Rogério Pongetti está com uma pressa enorme de entregar a obra ao público. Garante-me que a expectativa é aguda de todos os lados.”

Floriano, no Atlético MG.
Depois de lançar o polêmico livro, Floriano seguiu para o futebol mineiro. Foi jogador do Atlético Mineiro durante as temporadas de 1933, 1934 e 1935. Em 1936, virou técnico do Galo conquistando o primeiro título de expressão do clube o de “Campeão dos Campeões”. Dois anos depois, retornou ao Rio de Janeiro onde acabou contraindo tuberculose pulmonar. Para se tratar, foi para a Europa, na França e depois para o Senegal e Marrocos. Morreu jovem, neste mesmo ano de 1938 no dia 19 de setembro. Terminou assim a batalha de Floriano no futebol brasileiro.

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