segunda-feira, 26 de março de 2012

Febre de Bola


Depois dos trágicos incidentes de ontem (e vários “ontem” já ocorridos no país) envolvendo torcedores de Corinthians e Palmeiras, bem que essa turma poderia começar a ler e se inspirar na história de um livro que em 2012 completa 20 anos e continua a encantar leitores nos quatro cantos do planeta. Febre de Bola, de Nick Hornby é um modelo para que torcedores não confundam paixão com violência. Quando foi lançado, em 1992, o livro ficou seis meses entre os 10 mais vendidos da Inglaterra e em vários países do mundo.

Nick Hornby
Febre de Bola conta a história de um “fanático” torcedor do Arsenal, de Londres, e sua paixão pelo clube de coração. 

Paixão de verdade, a ponto de o personagem (inspirado na vida real do autor Nick Hornby) agendar seus compromissos de acordo com a tabela do campeonato. Bem diferente dos torcedores de Corinthians e Palmeiras (e vários outros pelo país), que “agendaram” encontro para matar e morrer.

O livro fez e ainda faz estrondoso sucesso mesmo passadas duas décadas. Ganhou diversos prêmios, virou peça de teatro e tema de dois filmes. 

O primeiro, lançado em 1997, uma comédia romântica, com o mesmo nome do livro. 

E o segundo, em 2005, uma adaptação de Hollywood, “Amor em jogo”, onde o futebol do Arsenal é trocado pelo beisebol do Boston Red Sox.

Confira abaixo a sinopse da Editora Rocco, responsável pela publicação brasileira e ainda o texto de abertura de Nick Hornby para “Febre de Bola”.

Sinopse

Futebol é coisa séria, não importa o quanto alguns insistam em dizer o contrário. Também ignore quem repita sempre que é apenas um jogo. Não é. Se fosse, não seria futebol. Alguns sabem disso. Nick Hornby é um deles. O autor de Um grande garoto e Alta fidelidade agora oferece Febre de bola. Ele mesmo lembra que livros de futebol existem aos montes. Mas este, se pararmos para pensar, não é sobre futebol, necessariamente.

Ele trata muito mais do torcedor. Por essa figura - o torcedor - não se entenda aquele que fica contente quando descobre pelo porteiro do prédio que seu time ganhou. O torcedor, segundo Hornby, é o cara que sofre, rumina cada derrota, cada cruzamento por trás do gol e passe errado de seu time. Aquele que se irrita profundamente com as campanhas patéticas da equipe, mas que ainda assim não consegue ficar sem assistir aos jogos. É mais forte que ele. O futebol, para este torcedor, é mais forte que tudo.

Torcedor fanático do Arsenal, Nick Hornby admite que sua relação com a equipe é obsessiva. E assim ele vai lembrando da sua vida de acordo com várias partidas que viu. A coisa é tão séria que Hornby chegou a acreditar que a sorte de sua vida variava de acordo com as campanhas do Arsenal. Quando o time ia bem, as coisas davam certo para ele. O problema é quando a equipe ia mal. E olha que, nos últimos 30 anos, o Arsenal teve muito, mas muito mais baixos do que altos.

Enquanto se lê Febre de bola a identificação com o autor é comum. Não importa que ele seja freqüentador assíduo do estádio de Highbury (onde o Arsenal joga suas partidas) e você passe seu tempo sofrendo no Maracanã ou no Beira-Rio. 

A raiva, a tristeza, a frustração e a indignação pela perda de um campeonato numa final contra um time da terceira divisão (aconteceu com o Arsenal) é igual em Wembley e no Morumbi.

Febre de bola vale a pena por, no mínimo, dois motivos. O primeiro deles, claro, é a qualidade do texto do autor. O segundo é que, como informa Hornby na introdução, "este livro é para torcedores como nós e para quem tiver curiosidade de saber como é a nossa vida".

Portanto, Febre de bola é perfeito para se passar o tempo durante uma semana, esperando o jogo do próximo domingo. Nesse caso, marque a página em que você parou e vá assistir à partida. O futebol vem sempre em primeiro lugar: você e Nick Hornby sabem disso.

Apresentação de Nick Hornby

A coisa está lá dentro o tempo todo, procurando um jeito de sair. Acordo por volta de 10 horas, faço duas xícaras de chá, trago-as para o quarto e coloco uma de cada lado da cama. Ficamos bebericando pensativamente; logo depois de acordar há uns intervalos longos e sonhadores entre nossos comentários ocasionais sobre a chuva lá fora, sobre a noite anterior, sobre fumar no quarto e minha promessa de parar de fazer isso. Ela pergunta o que vou fazer essa semana, e eu penso: 1) Vou me encontrar com Matthew na quarta-feira. 2) Matthew ainda está com o meu vídeo de Os Campeões. 3) Lembro que Matthew, um torcedor puramente nominal do Arsenal, não vai a Highbury há dois anos e por isso não pôde observar as aquisições mais recentes em carne e osso. Eu fico imaginando o que ele achou de Anders Limpar.

Anders Limpar
E em três estágios simples, 15 ou 20 minutos depois de acordar, já começo a viajar. Vejo Limpar correndo em direção a Gillespie, desviando para a direita e caindo: PÊNALTI! DIXON MARCA! 2 a 0!... 0 toque de calcanhar de Merson e o chute de pé direito de Smith entrando no canto oposto, ainda na mesma partida... Merson dando um pequeno empurrão na bola e desviando-a de Grobbelaar, lá em Anfield... 0 giro e a bomba de Davis contra o Villa... (E isso, lembrem-se, é uma manhã de julho, nosso mês de folga, quando os clubes de futebol estão de férias.) Às vezes, quando deixo que este estado sonhador tome conta de mim completamente, vou recuando cada vez mais, passando por Anfield em 1989, Wembley em 1987, Stamford Bridge em 1978, com toda a minha vida futebolística passando num clarão diante dos meus olhos.

No que você está pensando? - pergunta ela.

A essa altura eu minto. Não estava pensando nem um pouco em Martin Amis, em Gérard Depardieu ou no Partido Trabalhista. Mas é que nós, obsessivos, não temos escolha; temos de mentir em ocasiões como essa. Se disséssemos a verdade todas as vezes, seríamos incapazes de manter um relacionamento com qualquer pessoa do mundo real. Apodreceríamos sozinhos com nossos programas do Arsenal, nossas coleções de discos de rótulo azul originais da Stax ou nossos spaniels Ray Charles, enquanto nossos devaneios de dois minutos se alongavam; aí perderíamos nossos empregos e pararíamos de tomar banho, fazer a barba e comer; acabaríamos deitados no chão em meio à nossa própria imundície, voltando a fita sem parar na tentativa de decorar todos os comentários, inclusive a análise profissional de David Pleat, sobre a noite de 26 de maio de 1989. (Vocês acham que eu tive de verificar essa data?) A verdade é a seguinte: durante trechos alarmantemente grandes de um dia normal, sou um retardado.

Charlie George
Não quero sugerir que assistir a um jogo de futebol seja por si só um uso impróprio da imaginação. David Lacey, o principal cronista esportivo do The Guardian, é um ótimo escritor e um homem obviamente inteligente, e presumivelmente dedica ao futebol uma parte de sua vida interior até maior do que a que eu dedico. A diferença entre mim e Lacey é que poucas vezes penso. 

Eu me lembro, fantasio, tento visualizar cada gol de Alan Smith, conto nos dedos o número de estádios da Primeira Divisão que já visitei; vez ou outra, quando não conseguia adormecer, tentei até contar cada jogador do Arsenal que já vi. (Quando era garoto, eu sabia os nomes das esposas e das namoradas do time que ganhou a Dobradinha; hoje em dia só consigo me lembrar que a noiva de Charlie George se chamava Susan Farge, e que a esposa de Bob Wilson se chamava Megs, mas até essa lembrança parcial é apavorantemente desnecessária).

Nada disso é pensar, no sentido correto da palavra. Não há em absoluto nenhuma análise, autoconsciência ou rigor mental, porque aos obsessivos é negada qualquer espécie de perspectiva diante da própria paixão. Num certo sentido, é isso que define um obsessivo (e também serve para explicar por que tão poucos deles se reconhecem como tal. 

Um colega torcedor, que na temporada passada foi assistir sozinho a um jogo entre os reservas do Wimbledon e do Luton numa tarde gélida de janeiro - não por espírito competitivo ou por uma espécie de brincadeira juvenil e autoirônica, mas por estar genuinamente interessado - há pouco tempo negou enfaticamente que fosse excêntrico sob qualquer aspecto).

Febre de Bola é urna tentativa de entender um pouco melhor a minha obsessão. Por que razão esse relacionamento, que começou como uma mera gamação de colegial, já dura quase um quarto de século, mais do que todos os relacionamentos que travei por vontade própria? (Amo meus familiares de coração, mas eles foram meio que impostos a mim, e já perdi contato com os amigos que tinha antes de fazer 14 anos - exceto o único outro torcedor do Arsenal na escola). E por que essa afinidade consegue sobreviver aos meus periódicos sentimentos de indiferença, tristeza e ódio bastante reais?

Em parte, o livro é também um exame de certas coisas que o futebol parece representar para muitos de nós. Para mim já ficou bastante claro que essa devoção é reveladora do meu caráter e do meu histórico pessoal, mas a organização e a estrutura do esporte parecem oferecer diversas informações sobre a nossa sociedade e a nossa cultura.

(Alguns amigos meus verão nisso uma bobagem pretensiosa e autocomplacente, o tipo de explicação insustentável que era mesmo de se esperar de um homem que passa uma parte enorme de suas horas livres sofrendo no frio. Eles são particularmente resistentes a essa ideia porque tendo a superestimar o valor metafórico do futebol, e por conseguinte a introduzi-lo em conversas em que ele simplesmente não cabe. Hoje em dia já aceito que o futebol não tem relevância alguma para o conflito das Falclands, o caso Rushdie, a Guerra do Golfo, o parto de crianças, a camada de ozônio, o imposto per capita etc. etc., e gostaria de aproveitar esta oportunidade para me desculpar com todos os que já foram obrigados a escutar minhas analogias pateticamente forçadas.)

Por fim, Febre de Bola fala do que é ser torcedor. Já li livros escritos por gente que obviamente adora futebol, mas isso é coisa inteiramente diferente; e já li livros escritos por, à falta de palavra melhor, hooligans, mas pelo menos 95% dos milhões de pessoas que assistem a jogos todo ano nunca bateram em ninguém na vida. Portanto, este livro é para torcedores como nós, e para quem tiver curiosidade de saber como é a nossa vida. Embora os detalhes aqui pertençam unicamente a mim, espero que ressoem dentro de todos os que já se tenham surpreendido devaneando - no meio de um dia de trabalho, um filme ou uma conversa - sobre um voleio de canhota no canto superior direito ocorrido dez, quinze ou vinte anos antes.

Sobre o autor
Nick Hornby nasceu em 1957 e trabalhava como professor antes de se tornar escritor em tempo integral. Febre de bola, livro de estreia escrito em 1992, e Alta Fidelidade (1995) obtiveram sucesso absoluto de público e de crítica. 

Um grande garoto (1998), retrato sutil e preciso do homem contemporâneo, revelou um Nick menos sardônico, mas nem por isso menos instigante. O filme Febre de bola, com roteiro de Hornby, foi lançado em 1997. O autor mora na Zona Norte de Londres.

Nenhum comentário:

Postar um comentário