domingo, 25 de março de 2012

Economia e futebol: uma dobradinha fácil de explicar


Um tema praticamente raro, especialmente, na literatura esportiva, a economia, tem um livro obrigatório para aqueles que querem refletir e aprender sobre os diversos aspectos que envolvem o futebol mundial. No Brasil, a editora Tinta Negra teve a ousadia de trazer para os leitores do país a tradução de uma obra de referência mundial, “Soccernomics”, um livro escrito por uma dupla perfeita para transformar um assunto espinhoso em leitura prazerosa e importante. O trabalho feito pelos ingleses, o jornalista esportivo Simon Kuper, e o economista esportivo, Stefan Szymanski é impecável.

Literatura na Arquibancada traz, além da sinopse da Editora Tinta Negra, o primeiro capítulo da obra. Um texto que mostra como os dois autores construíram essa fascinante história..

Sinopse

Livro-sensação em vários países, Soccernomics tem sido aclamado como uma das mais reveladoras obras sobre o futebol. E também como uma espécie de equivalente futebolístico do célebre  Freakonomics

Além da óbvia inspiração do título, afinal, a obra também aplica princípios socioeconômicos na explicação de fenômenos cotidianos – no caso, da rotina que envolve o mundo da bola – o livro é, como o primo-irmão que se tornou best-seller planetário, recheado de ideias revolucionárias, provadas por meio de um vasto aparato de dados e análises.

Com estatísticas impressionantes e verdadeiros furos de reportagem, a dupla (formada por dois ingleses, um jornalista esportivo, Simon Kuper, e um economista, Stefan Szymanski) apresenta dados espantosos, todos eles provados com tabelas, gráficos e estudos de caso.

O subtítulo resume a carga de polêmica e as doses de profecias que habitam suas páginas: “Por que a Inglaterra perde, a Alemanha e Brasil ganham, e os Estados Unidos, o Japão, a Austrália, a Turquia — e até mesmo o Iraque — podem se tornar os reis do esporte mais popular do mundo”.

Fato é que, num terreno minado por tantas paixões e superstições, a dupla de autores deu forma a um dos mais cerebrais, meticulosos e envolventes estudos sobre o mercado do futebol. Em uma tacada só, Kuper e Szymanski juntaram a análise de dados, a estatística, o jornalismo, a economia e a sociologia para compreender o futebol em suas diferentes facetas. E com isso deram origem ao mais completo e interessante registro dos bastidores do esporte mais popular do mundo.

O futebol inglês discrimina os negros? Por que os clubes não ganham dinheiro? Torcedores são polígamos? As pessoas saltam do alto de prédios quando seus times perdem? Os pênaltis são realmente injustos? São perguntas como essas que norteiam Soccernomics. Os autores justificam: “Queremos introduzir novos números e novas ideias no futebol: números de suicídios, de gastos em salários, de populações de países, de tudo que ajude a revelar novas verdades sobre o esporte”.

Algumas das informações reveladas em  Soccernomics derrubam mitos antigos em torno do futebol. É o caso da velha ideia de que mais pessoas cometem suicídio durante a Copa do Mundo; Szymanski e Kuper provam exatamente o contrário – o futebol, em vez de estimular suicídios, impede que milhares de pessoas se matem.

Romário, no PSV da Holanda.
Muitos desses estudos de caso interessam especialmente a nós, brasileiros, protagonistas de muitas páginas de Soccernomics, que ganhou conteúdo exclusivo para a edição brasileira, mais completa e polêmica que a original. O livro comenta as dificuldades que os jogadores brasileiros têm de se adaptar à cultura europeia, sobretudo quando são comprados por times do Norte. E revelam como essas dificuldades provocam impactos em suas atuações. Por outro lado, relembram histórias pitorescas de nossos craques – como os atacantes Romário, Ronaldo, Robinho, e o goleiro Marcos, por exemplo. E tocam, ainda, num tema crucial para o país: o que podemos esperar das próximas Copas do Mundo, como competidores e como anfitriões.

Soccernomics expõe, ainda, os principais motivos do fracasso de alguns técnicos. Analisa o papel dos mais importantes campeonatos de futebol do mundo. Aborda os efeitos que os principais preconceitos que gravitam sobre o esporte exercem sobre as atuações de jogadores e times. Mostra a evolução e o impacto da audiência em diferentes países, o resultado das pressões das torcidas sobre os clubes. E traça um mapa atualizado da geopolítica do futebol.

Primeiro capítulo

DIRIGINDO COM UM PAINEL DE INSTRUMENTOS
Em busca de novas verdades sobre o futebol

Simon Kuper
Este livro começa no Hilton de Istambul. De fora é um lugar pesado e brutal, mas assim que os homens da segurança verificam seu carro em busca de bombas e o deixam passar, o hotel é tão relaxante que você nunca mais quer voltar para casa. Após fugir da cidade de 13 milhões de pessoas, o único estresse é sobre o que fazer a seguir: um banho turco, um jogo de tênis ou continuar a comer demais enquanto o sol se põe sobre o Bósforo? Para os aficionados há também uma vista perfeita do estádio de futebol do Besiktas ao lado. E a equipe é muito legal, eles são ainda mais amigáveis do que o turco comum.

Os dois autores de Soccernomics, Stefan Szymanski (economista esportivo) e Simon Kuper (jornalista) se conheceram aqui. O clube Fenerbahce estava comemorando seu centenário promovendo o Congresso de Esporte e Ciência do Centenário, e trouxera os dois para palestras.

Stefan Szymanski
A de Simon foi a primeira. Ele disse que tinha boas notícias para o futebol turco: à medida que a população do país aumentava e a economia crescia, a seleção nacional provavelmente se tornaria melhor. Então foi a vez de Stefan. Ele também tinha boas notícias para a Turquia: à medida que a população do país aumentava e a economia crescia, a seleção nacional provavelmente se tornaria melhor. É possível que tudo isso não tenha sido compreendido pela plateia não muito anglófona.

Nós dois nunca havíamos nos encontrado antes de Istambul, mas tomando cerveja no bar do Hilton confirmamos que de fato pensávamos o futebol basicamente da mesma forma. Por ser economista, Stefan é treinado para torturar os dados até que eles confessem, enquanto Simon, como jornalista, entrevista pessoas, mas essas são diferenças apenas superficiais. Também pensamos que muito no futebol pode ser explicado, até mesmo previsto, estudando dados — especialmente dados externos ao futebol.

Manchester United, campeão da
Liga dos Campeões da Europa.
Por muito tempo o futebol driblou o Iluminismo. Os clubes ainda são em sua maioria comandados por pessoas que fazem o que fazem porque sempre procederam da mesma forma.

Essas pessoas costumavam saber que jogadores negros “careciam de determinação”, e assim pagavam salários maiores a jogadores brancos medíocres. 

Hoje eles discriminam treinadores negros, compram os jogadores errados e então deixam esses jogadores cobrarem pênaltis do modo errado. (Nós, aliás, podemos explicar por que o Manchester United venceu a disputa de pênaltis na final da Liga dos Campeões em Moscou. 

É uma história que envolve um bilhete secreto, um economista basco e os poderes de detecção de Edwin van der Sar.)

Roman Abramovich, magnata russo do Chelsea.
Empreendedores que entram nos negócios do futebol também continuam cometendo os mesmos erros. Eles compram clubes prometendo administrá-los “como empresas”, e desaparecem algumas temporadas depois com o mesmo desprezo popular que os donos anteriores. Torcedores e jornalistas também não são inocentes. Muitas manchetes se baseiam em premissas falsas: “Newcastle contrata astro da Copa do Mundo” ou “Copa do Mundo trará prosperidade econômica”. O futebol está cheio de clichês não verificados: “Os jogos estão ficando chatos porque os grandes clubes sempre ganham”, “Futebol é um grande negócio” e, talvez o maior mito do futebol inglês, “A seleção inglesa podia ter feito uma campanha melhor”. Nenhum desses lugares-comuns foi testado a partir de dados.

A maioria dos esportes coletivos masculinos é tomada pelo mesmo excesso de confiança em crenças tradicionais. O baseball também era até muito pouco tempo um velho jogo repleto de velhas histórias. Desde priscas eras, jogadores tomaram bases, rebateram com sacrifício e foram avaliados por suas médias de rebatidas. Todos no baseball simplesmente sabiam que tudo isso era certo.

Mas isso foi antes de Bill James. Como Dorothy em O mágico de Oz, James saiu do interior do Kansas. Ele não tinha feito muita coisa na vida além de produzir as estatísticas da pequena liga local e vigiar as fornalhas em uma fábrica de enlatados. Contudo, no tempo livre ele havia começado a estudar estatísticas de baseball com um novo olhar, e descobrira que “uma grande parcela do conhecimento tradicional do esporte é baboseira ridícula”.

Bill James
James escreveu que desejava estudar o baseball “com o mesmo tipo de rigor e disciplina intelectual normalmente aplicados por cientistas renomados e desconhecidos, na tentativa de solucionar os mistérios do Universo, da sociedade, da mente humana ou do preço de sacos de estopa”.

Em volumes mimeografados por ele mesmo disfarçados de livros, o primeiro dos quais teve 75 cópias vendidas, James começou a derrubar os mitos do esporte. Ele descobriu, por exemplo, que a estatística mais importante em rebatidas era o raramente mencionado “percentual na base” — com que frequência um jogador consegue chegar à base. James e seus seguidores (estatísticos do baseball que passaram a ser conhecidos como sabermetriciam) mostraram que as boas e velhas rebatidas difíceis e as roubadas de base eram estratégias terríveis.

Seu anuário Baseball Abstracts se transformou em livros de verdade; acabaram chegando às listas dos mais vendidos. Certo ano, a imagem de capa mostrava um macaco posando como o Pensador de Rodin, estudando uma bola de baseball. Como James escreveu em um Abstract, “Isto é externo ao baseball. Este é um livro sobre como o baseball é se você se distanciar dele e o estudar intensa e atentamente, mas a distância”.

Alguns jamesianos começaram a ingressar no baseball profissional. Um deles, Billy Beane, o impressionantemente bem-sucedido diretor do pequeno Oakland A’s, é o herói do revolucionário livro de Michael Lewis Moneyball. (Falaremos mais sobre as brilhantes estratégias de Beane no mercado de transferências e suas lições para o futebol.)

Theo Epstein
No final, até mesmo as pessoas de dentro do baseball começaram a ficar curiosas sobre James. Em 2002, o Boston Red Sox o nomeou “conselheiro sênior de operações de baseball”. No mesmo ano, o Red Sox contratou um dos discípulos de James, Theo Epstein, de 28 anos, como o mais jovem gerente geral da história das grandes ligas. O clube “maldito” rapidamente ganhou dois mundiais.

Agora o futebol está pronto para sua própria revolução jamesiana.

UM JOGO DE NÚMEROS

É estranho que o futebol seja tão avesso ao estudo de dados, porque uma das coisas que atrai torcedores para o esporte é exatamente a paixão pelos números.

O homem a quem devemos questionar isso é Alex Bellos. Ele escreveu o magnífico Futebol: O Brasil em campo, mas também é matemático e seu livro de matemática para leigos foi lançado em 2010. 

“Os números são incrivelmente prazerosos”, nos diz Bellos. “O mundo não tem ordem, e a matemática é uma forma de ordená-lo. 

As tabelas comparativas de campeonatos têm uma ordem. E os cálculos que você precisa fazer para elas são muito simples: nada além de sua tabuada do três”.

Alex Bellos
Embora a maioria dos torcedores provavelmente negue, o amor pelo futebol com frequência está ligado a um amor pelos números. Há os resultados do jogo, as datas famosas e o prazer especial de sentar em um bar num domingo “lendo” a tabela do campeonato. Campeonatos de futebol virtuais são, em última instância, jogos de números.

Em Soccernomics queremos introduzir novos números e novas ideias no futebol: números de suicídios, de gasto em salários, de populações de países, de tudo que ajude a revelar novas verdades sobre o esporte. Embora Stefan seja um economista de esportes, este não é um livro sobre dinheiro. O objetivo dos clubes de futebol não é dar lucro (ainda bem, já que quase nenhum deles dá), e nós também não estamos particularmente interessados em quaisquer lucros que eles possam obter. Em vez disso, queremos usar as habilidades de um economista (e mais um pouco de geografia, psicologia e sociologia) para compreender o jogo no campo e os torcedores fora dele.

Algumas pessoas podem não querer ver sua relação emocional com o futebol estragada por nossos cálculos racionais. Por outro lado, na próxima vez em que a Inglaterra perder uma disputa de pênaltis nas quartas de final de uma Copa do Mundo, essas mesmas pessoas provavelmente jogarão seus copos de cerveja na TV, quando poderiam reduzir seu desapontamento com algumas reflexões sobre a natureza da teoria binomial das probabilidades.

Achamos que este é um bom momento para escrever este livro. Pela primeira vez no futebol há muitos números a garimpar. Tradicionalmente os únicos dados que existiam no esporte eram gols e tabelas de campeonatos. (Os jornais publicavam o número de espectadores, mas eles não são confiáveis.) No final dos anos 1980, quando Stefan começou na economia do esporte, só haviam sido publicados cerca de vinte ou trinta ensaios acadêmicos sobre futebol. Hoje são inúmeros. Muitas das novas verdades que eles contêm ainda não chegaram à maioria dos torcedores.

A outra nova fonte de conhecimento é a crescente literatura sobre futebol. Quando Pete Davies publicou All Played Out: The Full Story of Italia’90, provavelmente havia apenas vinte ou trinta bons livros sobre futebol. 

Hoje — em parte graças a Davies, que foi descrito como o João Batista do Jesus de Nick Hornby — há milhares.

Muitos desses livros (incluindo o Futebol de Bello) contêm verdades sobre o esporte que tentamos apresentar aqui.

O fluxo de dados se tornou tal que até mesmo pessoas que trabalham no mundo do futebol finalmente estão começando a estudá-los. 

Michael Lewis, o autor de Moneyball, escreveu no jornal The New York Times em fevereiro de 2009: “O vírus que infectou o baseball profissional nos anos 1990 e o uso de estatísticas para descobrir formas novas e melhores de valorizar jogadores e estratégias encontrou seu lugar em todos os grandes esportes.

Não apenas basquete e futebol americano, mas também futebol, críquete, rúgbi e, pelo que sei, sinuca e dardos —, todos eles agora sustentam uma subcultura de pessoas inteligentes que os veem não apenas como um esporte a ser praticado, mas como um problema a ser resolvido”.


Arsène Wenger
No futebol um desses homens inteligentes (é parte das “baboseiras ridículas” do esporte que todos tenham de ser homens) é Arsène Wenger. Economista de formação, Wenger é praticamente viciado em estatísticas, como o número de quilômetros percorridos por cada jogador em uma partida. 

O que o torna um dos ídolos de Soccernomics é sua compreensão de que no futebol de hoje você precisa de dados para avançar. Se você estudar os números, verá mais e ganhará mais.

Pouco a pouco os colegas de Wenger também estão deixando de confiar apenas no instinto. Eles cada vez mais usam programas de computador como Prozone para analisar jogos e jogadores. 

Outro precursor da iminente tomada jamesiana do futebol é o Milan Lab. A equipe médica interna do AC Milan descobriu logo que apenas estudando o salto de um jogador poderia prever com 70% de precisão se ele corria risco de contusão.

Milan Lab
Assim, ela reuniu milhões de dados sobre cada um dos jogadores da equipe e nesse processo tropeçou no segredo da eterna juventude. (Ainda é segredo: nenhum outro clube tem um Milan Lab, e ele não divulga suas descobertas, motivo pelo qual a maioria dos jogadores dos outros clubes normalmente está acabada quando chega aos 30 anos.)

A maioria dos onze titulares do Milan que derrotaram o Liverpool na final da Liga dos Campeões de 2007 tinha 31 anos ou mais: Paolo Maldini, o capitão, tinha 38, e Filippo Inzaghi, que marcou os dois gols do Milan, tinha 33. 
Aquele troféu foi conquistado em grande parte pelo Milan Lab e sua base de dados. É outra versão da história do Triunfo dos Gregos.

À medida que nós dois conversamos e pensamos mais sobre futebol e dados, começamos a formular várias perguntas. Será que conseguiríamos números para mostrar qual país gostava mais de futebol? Será que o jogo poderia de algum modo impedir as pessoas de se matar? E talvez pudéssemos fazer uma aposta prevendo quais clubes e países — a Turquia, mais provavelmente, talvez até mesmo o Iraque — dominariam o futebol no futuro. Stefan mora em Londres e Simon em Paris, de modo que passamos um ano disparando números e histórias de um lado para o outro do canal.

Jean-Pierre Meersseman, Wim Brussee e Bob Bonnemayers.
Enquanto isso, desconfiamos de todo o antigo folclore do futebol, e o confrontamos com números. Como nos disse o belga Jean-Pierre Meerseman, o diretor fumante compulsivo do Milan Lab: “Você pode dirigir um carro sem painel de instrumentos, sem qualquer informação, e isso é o que acontece no futebol. Há excelentes motoristas, excelentes carros, mas se você tiver um painel de instrumentos isso torna tudo um pouquinho mais fácil.

Fico pensando em por que as pessoas não querem mais informação”. Nós queremos.

Sobre os autores:

SIMON KUPER 
Um dos maiores cronistas de futebol reconhecido internacionalmente. Seu livro  Soccer Against the Enemy ganhou o prêmio William Hill de Livro de Esportes do Ano, na Inglaterra. Kuper é colunista esportivo do Financial Times. 

O autor vive em Paris.

STEFAN SZYMANSKI 

Professor de economia da Cass Business School, emLondres, é considerado um dos maiores economistas esportivos do mundo. 

O autor vive em Londres.



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