quarta-feira, 14 de março de 2012

Carlos Heitor Cony e o futebol


Ele é um dos maiores escritores do país e completa no dia 14 de março, 88 anos de uma vida quase inteira dedicada ao jornalismo e a literatura brasileira. Carlos Heitor Cony trabalhou em diversas redações de jornais brasileiros além de ter escrito vários romances e livros de crônicas. Nunca deixou o “dia a dia”, participando de programas de rádio e escrevendo colunas para jornais.

E o futebol sempre esteve presente nas reflexões de Cony. Chegou até mesmo a cobrir Copas do Mundo para o jornal Folha de S. Paulo. Mas Cony não é daqueles autores consagrados que chegam em cima da hora dos grandes eventos para falar como um “famoso da literatura”, mas como quem já viu em campo como torcedor e fã, craques do passado.

Didi

Para ele, Didi, ex-jogador da seleção brasileira é o maior e melhor jogador de todos os tempos do futebol brasileiro. Com tantas estrelas consagradas no futebol brasileiro, Cony nunca teve dúvida de fazer tal afirmação. E explica, como veremos na crônica logo abaixo que ele escreveu. A paixão por Didi é tão grande que ele chegou a dizer para a repórter Juliana Krapp, em artigo publicado pelo Jornal do Brasil em 19 de julho de 2008, ano em que completou 50 anos de carreira profissional, a seguinte frase:

– Eu o considero o melhor jogador que já vi. Quando ele foi do Fluminense para o Botafogo, comecei a perder o interesse pelo futebol. Vi Pelé, Garrincha, Zico, vários jogadores bons. Mas igual ao Didi não houve. Não com aquela imponência, elegância. O Armando Nogueira dizia que os passes de Didi eram oblíquos e dissimulados, como os olhos de Capitu. E Didi era mesmo uma Capitu do futebol.”


Cony declara na crônica abaixo que deixou de curtir o futebol como no passado depois que o craque dele, Didi, acabou deixando o Fluminense para jogar pelo Botafogo. Parece exagero, mas é a mais pura verdade:

“Que Pelé, Garrincha, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Zico, Rivelino, Gérson, Zizinho e Romário me perdoem. Mas o maior jogador que vi jogar foi Waldir Pereira, o Didi, que conheci com a camisa tricolor do Madureira e, mais tarde, com a camisa tricolor do meu time, o Fluminense.


Vestiu outras camisas, inclusive aquela desbotada da antiga seleção nacional, quando foi bicampeão mundial. Em 1958, na Suécia, Pelé foi o herói. Em 1962, no Chile, foi Garrincha. Mas nas duas ocasiões, o maestro, o eixo sobre o qual o time girava, era Didi.

Nunca houve jogador elegante como ele. A imagem que Nelson Rodrigues criou é definitiva: o Príncipe de Rancho, o Príncipe Etíope que desfilava arrastando um manto de arminho e púrpura.


Devo a Didi o meu afastamento da torcida em campo. Quando o Fluminense vendeu seu passe para o Botafogo, jurei nunca mais assistir a jogo do meu time. Com raríssimas exceções, cumpri o juramento.

A história oficial garante que ele inventou a folha-seca num jogo da seleção contra o Peru, em busca da classificação para a Copa do Mundo. Não foi bem assim. Foi numa partida do Fluminense contra um time suíço, cujo nome, traduzido, era "gafanhoto" (Grasshopper). A camisa dos caras era verde, daí o nome.

Foi no Maracanã, nas balizas que foram dedicadas a Ghiggia, quando deviam ser dedicadas a Didi. Ali ele marcara o primeiro gol no estádio, num amistoso Rio e São Paulo. Ali ele fizera a primeira folha-seca, o chute que fazia da bola uma pluma ao vento, tal como a mulher, segundo o Duque de Mântua no "Rigoletto": mudava de inflexão e de pensamento.


Entrevistei-o uma vez, em sua casa na Ilha do Governador. Ele não era elegante apenas em campo. Nunca entrevistei o Aleijadinho nem o Machado de Assis. Mas acho que já entrevistei um artista genial.

Por quem dobram os sinos de Hemingway? Agora sei: Dobram por Didi...”


A paixão de Cony pelo futebol, do passado pelo menos, levou-o a fazer uma das declarações mais famosas, encontradas aos montes pela web em sites de “frases famosas”. Cony, um ex-seminarista que em muitos de seus livros famosos traz a memória de suas vivências religiosas, profetizou, em depoimento dado ao escritor Paulo Perdigão:

– Deixei de acreditar em Deus no dia em que vi o Brasil perder a Copa do Mundo no Maracanã. Duzentas mil pessoas viram quando Ghiggia fez o segundo gol do Uruguai. Foi um lance claríssimo, sem qualquer confusão que pudesse suscitar dúvidas: havia apenas Ghiggia, Bigode, Juvenal e Barbosa. Pois bem: depois do jogo, não encontrei uma só pessoa que descrevesse aquele lance da mesma maneira. Então, como acreditar na versão de meia dúzia de apóstolos, os poucos que viram Cristo ressuscitar, meio na penumbra, num local ermo e obscuro?


Em Didi, Cony jamais deixou de acreditar. Tanto que em uma crônica polêmica, publicada em 2010, durante a cobertura da Copa da África do Sul, ele voltaria para justificar sua teoria de que Didi era o maior jogador do futebol brasileiro, mais do que Pelé e Garrincha !!!  

“Tempos atrás qualifiquei Garrincha e Pelé, principalmente Garrincha, como praticantes de um futebol provinciano, de pelada suburbana. Se tivesse metido o malho nas instituições pátrias ou no Verbo Unigênito teria ofendido a menos gente.

Não me preocuparia com isso, não fosse a opinião de alguns amigos a quem muito quero e que passaram a rosnar bons dias cavernosos, de cabeça baixa, sem o calor gostoso e habitual.
Não vou revogar o que disse. Considero Garrincha e Pelé jogadores excessivamente individuais, sem noção de homogeneidade do jogo que é, acima de tudo, associação.


Considero Didi o maior jogador que o futebol brasileiro produziu. Se seu nome não constar na enciclopédia britânica, ela não valerá nada.

Mas além de enciclopédias, há o futebol. E nele, pela observação de alguns anos, quando atravessava a baía para ver Carlyle fazer gol de bicicleta no Canto do Rio ou quando despencava com a arquibancada de Bariri -percebi o que qualquer um perceberia: as duas vertentes do futebol nacional.

Uma, de raízes populares, onde o indivíduo se sobrepõe ao conjunto; outra, onde o indivíduo se sacrifica, e muitas vezes chega à mutilação, em favor do conjunto. Nasci nas proximidades do campo do América, e vi Carola driblar defesas inteiras, voltar ao meio de campo, driblar o time contrário todo.

Tim

Vi Tim, Elba de Pádua Lima no civil, driblar toda a defesa da seleção argentina e dar um passe para Hercules digno de antologia. Tomás Soares da Silva, celebrado e famoso como Zizinho, empolgava essa mesma parcela de torcedores que mais tarde dedicaria a Garrincha seu generoso incenso.

Não se pode qualificar de prejudicial o jogo de Garrincha-Pelé. Seria mais que uma injustiça: uma tolice. Mas pode-se contar pelo número de dedos as vezes em que, em partidas duras, com fatores adversos, esses dois resolveram qualquer coisa. Se o jogo é fácil, o show é inevitável, eles fizeram ou ajudaram a fazer um resultado empolgante.

Mas quem nunca viu Pelé inerte no meio do campo diante de um marcador mais rigoroso? Sem o conjunto, Pelé era um pássaro ferido. Em Montevidéu, vi uma vez o Peñarol encher o Santos. Os torcedores uruguaios saíram de campo sem entenderem a fama de Pelé.

Garrincha foi, fora de qualquer dúvida, o maior driblador que o futebol já gerou. Mas futebol e drible são coisas diferentes. Principalmente quando o drible busca as laterais ou procura mais um adversário para mais um drible. Isso é província.


Durante anos ele ia driblando até esbarrar na bandeirinha do corner, depois melhorou, tinha noção de área, quando corria, procurava entrar onde realmente interessava entrar, mas ainda se dispersava em jogadas laterais que empolgavam os torcedores, mas prejudicavam "os soberanos interesses do seu quadro" -como diria um cronista esportivo que gostava de falar difícil.

Esse tipo de futebol está em decadência. As recentes Copas do Mundo provaram, entre outras coisas, uma constatação elementar: futebol é associação. Sou daqueles que consideram este tipo de esporte uma ciência onde devem entrar, pela ordem, a cabeça, o coração e o jeito.
Jeito apenas não basta, ainda que aliado ao coração. Somente com estes três elementos se obtém o verdadeiro jogador, aquele que alia o artesanato específico (o jeito) ao amor e, sobretudo, à cabeça. Quando um jogador é muito ruim, não se diz que se trata de um entrevado ou de um apático. Diz-se que é um "cabeça" de bagre.


Sob certos aspectos, futebol é tão racional quanto o xadrez. Assim o Brasil pode se dar ao luxo de produzir Garrinchas e Pelés. Pois seu futebol já possui uma infraestrutura que coloca um Didi na mesma linha em que há um Garrincha, na mesma linha de um Pelé. (Falo de jogadores antigos para não ferir as preferências atuais.)

E já que estamos com a mão na massa, um lembrete: a coisa na África do Sul não vai ser mole. Todos estão motivados para vencer, joga-se o fino quando se pode e o grosso quando se faz necessário. No fundo, os finalistas serão os mesmos de sempre: Brasil, Itália, Alemanha e Argentina. Haverá sempre um azarão e uma decepção. Que não seja o Brasil.


Cony também não deixou o tema futebol de fora de alguns de seus livros mais famosos e importantes. Dois deles em que resgata na memória suas vivências como ex-seminarista. Primeiro, em 1961, no livro “Informação ao Crucificado”, e mais tarde, em 1995, no livro que o consagraria definitivamente na literatura brasileira “Quase Memória”, onde Cony mistura ficção e a realidade da realidade vivida com o pai, e dele, como ex-seminarista. São várias as passagens:


(...)
Não é essa a primeira vez - nem será a última – que, inconscientemente ou não, associo o pai ao Padre Cipriano. Um continuou o outro e, apesar das diferenças e contrastes, eram mais que semelhantes.

Cony, ex-seminarista.
Crédito: www.carlosheitorcony.com.br

(...)
Houve outro lance em que o pai e padre Cipriano estiveram unidos, um em cada ponta da corda, corda que me sufocava de raiva contra o mundo, não contra eles. Padre Cipriano havia feito caprichada mesa de futebol de botão. E como tinha a mania organizar campeonatos (até campeonato de odes latinas ele fez, foi meu professor durante seis dos oito anos que passei no Seminário), estabeleceu que cada aluno arranjasse um time completo, o que equivalia a dez botões, sem contar o goleiro, que podia ser uma caixa de fósforos. Quando o pai soube da nova e inesperada necessidade do filho, tratou de se virar.

(...)
Comprou-me um jogo de botões de plástico, enormes, já com o escudo do Fluminense (meu time) na parte de cima. Diante dos times que apareceram no campeonato, o meu era até covardia. De tão grandes e altos eles bloqueavam o campo de tal maneira que seria impossível o adversário fazer gol contra mim. Mas nem cheguei a estreá-los, embora padre Cipriano não tivesse, apesar de seus três doutorados na Gregoriana de Roma, um argumento válido para confiscá-lo em nome do Eclesiastes, que garantia ser tudo vaidade das vaidades. Ele mandou que guardássemos os botões num armário que havia nos fundos do recreio e cuja chave ficava em seu poder.

Cony, ex-seminarista, em 1938.
Crédito: www.carlosheitorcony.com.br

(...)
No dia seguinte, quando padre Cipriano abriu o armário, todos os botões lá estavam, todos os times, menos o meu. Alguém os roubara. Havia um empregado do Seminário que morava numa pequena casa...

(...)
Ele tinha um filho, não me lembro se era ele ou o filho que tinha o apelido de Bem-Te-Vi. Para todos os efeitos, o Bem-Te-vi-filho era inconteste filho desse BemTe-vi-pai, e ambos, pai e filho, foram acusados de terem roubado os botões. Padre Cipriano assumiu o papel de Grande Inquisidor, acusando-os pública e genericamente, mas aconselhando a que nada comentássemos, pois monsenhor Lapenda, como reitor, teria de chamar os Bem-Te-vis ambos às falas, Bem-Te-vi-pai poderia perder o emprego, e a caridade cristã, como pregava são Paulo, tudo devia perdoar.

(...)
No dia em que fui apanhar a bola de vôlei no quarto do padre Cipriano, não foi só o pote de brilhantina que lá estava: lá estavam, também, meus botões de plástico, enormes, inúteis, com o escudo do Fluminense coberto pela Estrela Solitária do Botafogo – padre Cipriano, quando jogava futebol conosco, fazia questão de usar por baixo da batina a camisa do Botafogo. Seu grande ídolo, naquela época, era um beque chamado Nariz.

Para saber mais sobre Carlos Heitor Cony, acessar:




2 comentários:

  1. Cony é um pisciano que nasceu exatamente no mesmo dia que eu - 14 de março.
    Ele é um grande escritor e deve ser uma delícia sentar ao seu lado e bater um papo com ele. Lamento que quando morava no Rio, não tive tempo para procurar conviver por perto dele, naquela época eu estava em outro momento da minha vida. Um grande escritor, e deve ser um grande cara.

    ResponderExcluir
  2. Cony é um patrimônio imaterial-político-literário-crítico-cronista brasileiro.
    Será que existe isso?!
    Se não, fica criado.
    Beijo.

    ResponderExcluir