domingo, 18 de março de 2012

Alguém tem que ficar no gol


Como bom mineiro, o escritor Jorge Fernando dos Santos trabalha quieto. Mas trabalha muito, mas muito mesmo pela literatura brasileira. Já são mais de 40 obras publicadas e só neste ano tem quatro títulos prontinhos para entrarem em cena. Seu trabalho não se limita ao mundo dos livros, também faz teatro, música e de vez em quando ainda ataca como roteirista de televisão.

Entre os livros que deve lançar nos próximos meses, um deles traz o tema futebol como elemento central da trama. Literatura na Arquibancada bateu um papo com o escritor Jorge Fernando, mas antes confira a resenha que a editora SM faz da obra “Alguém tem que ficar no gol”:

“A derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1950, no Maracanã, foi o maior trauma do nosso futebol. 

O escrete nacional chegou à final contra o Uruguai precisando apenas do empate. O placar estava em 1X1, quando o atacante uruguaio Ghiggia avançou feito um touro bravo pela grande área brasileira, driblou os beques e chutou uma bomba, enganando o goleiro vascaíno Barbosa. 

Nossa rede sacudiu aos 38 minutos do segundo tempo, silenciando a torcida e enterrando por 2X1 a esperança de conquistarmos em casa nosso primeiro campeonato mundial.

O que ninguém esperava, no entanto, é que uma revanche seria marcada para ter início à zero hora de 21 de dezembro de 2012. O local escolhido seria o campo gramado da chácara onde Frederico mora com a mãe e o padrasto, num condomínio-fechado perto de Belo Horizonte. O reencontro das duas lendárias seleções tem a ver com a profecia maia, povo que praticava um futebol ritualístico chamado pok-ta-pok. Segundo sua mitologia, o Sol e a Lua foram criados pelos deuses após uma partida na qual derrotaram o mundo subterrâneo. Classificado em segundo lugar no 7º Prêmio Baco a Vapor, Alguém Tem que Ficar no Gol fala do amor pelo futebol, da importância do perdão e da superação, das relações familiares e das profecias como um alerta para que o homem aprenda a respeitar a natureza.”
(fonte: editora SM) 

Então, vamos ao papo com Jorge Fernando dos Santos.
Literatura na Arquibancada:
Como surgiu a ideia de utilizar a Copa de 1950 como "ponto de partida" em seu novo livro?

Jorge Fernando:
Não conheço nenhum livro sobre a Copa de 1950 e julgo que esse foi o momento mais traumático do nosso futebol. Com a proximidade da Copa de 2014, fui tentado a resgatar a imagem do grande Barbosa, a figura mais injustiçada do futebol - segundo Armando Nogueira. Por outro lado, existem poucos livros ou filme inspirados no futebol. Curiosamente, os americanos têm muitos livros e filmes sobre os esportes que praticam e essa também foi outra influência.

LA:
Por que a escolha utilizada em sua trama, de um condomínio fechado em Belo Horizonte, e a data tão específica de 21 de dezembro, para a realização do jogo revanche da final da Copa de 1950?

JF:
A escolha de um condomínio fechado como cenário da trama obedece a uma tendência atual. O sonho da classe média é morar num lugar desses, em total segurança e isolada da poluição da cidade. Mas fico pensando na solidão das crianças que moram num condomínio. Eu fui criado na rua, jogando bola em terrenos baldios e campos de várzea, convivendo com gente de todo jeito. Acho que a vida num condomínio deve ser solitária e antinatural. 

LA:
Por que em sua trama o reencontro das duas seleções que disputaram a final da Copa de 1950, tem a ver com a profecia maia?

JF:
Pois é... Todo dia a gente vê na televisão documentários sobre o fim do mundo e a profecia dos maias. Curiosamente, esse era um povo que praticava uma espécie de futebol.

O mundo teria surgido de uma partida na qual os deuses da luz venceram os senhores do mundo subterrâneo. Imaginei que talvez, durante o alinhamento do sol com o coração da galáxia, em 21 de dezembro deste ano, os deuses possam voltar a disputar uma partida. E assim se repetiria o confronto entre as seleções brasileira e uruguaia da Copa de 1950, dois times de deuses do futebol que ficaram para sempre na memória dos torcedores.

LA:
Fale um pouco sobre alguns dos personagens da trama, Frederico, sua mãe e padrasto (e outros que achar necessário).

JF:
Frederico é um garoto que torce para o Clube Atlético Mineiro. O pai dele é locutor esportivo, a mãe jornalista e o padrasto também foi jornalista, agora aposentado. Fred é um garoto imaginativo e adora jogar bola. Teve que deixar a escolinha de futebol para ir morar no condomínio com a mãe separada e seu novo companheiro. Ele tem imaginação fértil e seu único amigo é o cãozinho Aranha, que o pai lhe deu ainda filhote. Justamente por se sentir só num lugar estranho, próximo da natureza, ele desenvolve o dom de ver e ouvir coisas que os adultos não percebem. E assim se dará seu encontro com o fantasma do goleiro Barbosa, por ele chamado de gigante.

Barbosa
LA:
Qual a justificativa para o título: "Alguém tem que ficar no gol"?

JF:
Eu sempre fui ruim de bola. Quando era garoto, jogava sempre no gol. E acho que me punham no gol pelo simples fato de que eu era o dono da bola. (risos) E quando reclamava, me diziam: Alguém tem que ficar no gol... Por coincidência, havia terminado o livro que tinha um título provisório. Minha filha Bárbara, que é estudante de Letras, odiou o título. Enquanto eu estava mostrando a ela alguns capítulos, ouvia um disco do Erasmo Carlos que tem uma música sobre corrupção cuja letra diz "alguém tem que ficar no gol". Ela me olhou e disse: "Olha aí o título do seu livro". Foi tiro e queda. Acho que os deuses do futebol me ajudaram nessa hora.


Jorge Fernando dos Santos
LA:
Você fala em sua obra da importância do perdão e da superação. O futebol não perdoa?

JF:
A saga do Barbosa é um exemplo de que o torcedor padrão é muito exigente e pouco dado ao perdão. No entanto, o perdão foi o grande ensinamento de Jesus e de Buda, que pregava a compaixão. Pouco antes de morrer, Barbosa declarou a um jornalista que a pena máxima para um criminoso no Brasil é de 30 anos e que seu calvário já ultrapassava mais de quatro décadas. Isso me sensibilizou e ali comecei a pensar num livro que pudesse resgatar sua imagem daquela derrota pela qual ele não teve nenhuma culpa. Foi tudo uma fatalidade, só isso.

LA:
Quando você afirma que sua trama também serve como "alerta para que o homem aprenda a respeitar a natureza", quer dizer o que com isso?

JF:
Marcelo, o padrasto do Fred, planeja plantar eucaliptos no campo gramado da chácara onde moram, no condomínio Flor do Campo. O eucalipto é uma planta alienígena, vinda da Austrália, e o seu plantio tem sido exagerado em alguns pontos do Brasil, principalmente no Norte de Minas. Daí, essa questão abre espaço para uma discussão ecológica, tendo a profecia maia como uma espécie de alerta. Afinal, a humanidade está seguindo um caminho perigoso na medida em que destrói a natureza. As gerações futuras é que vão pagar o preço dessa irresponsabilidade.

LA:
Este não é seu primeiro livro onde você usa o tema futebol como viés de uma trama. Fale sobre o "O Rei da Rua", um livro que fez enorme sucesso, inclusive com adaptação para uma minissérie de TV.

JF:
"O Rei da Rua" é meu livro que mais vende. Já está na 20ª edição e foi escrito em 1988. Atualmente está na Editora Atual, do grupo Saraiva, e tem sido muito adotado em escolas em diferentes cidades do país.

Escrevi esse livro muito depressa, pois remonta às minhas memórias de infância, quando o futebol realmente fazia parte das nossas vidas. Todo moleque jogava peladas na rua e sonhava um dia se tornar um craque do futebol. O livro narra o confronto entre duas turmas do bairro Caiçara, em BH, onde vivi dos seis aos 55 anos. De certa forma, é um hino de amor ao bom futebol que hoje se torna cada vez mais raro.

LA:
A literatura esportiva, especialmente os livros relacionados ao futebol, paixão número um de quase todo brasileiro, poderia explorar melhor as várias temáticas (conto, poesia, crônicas, romance, etc) como forma de aprendizado da literatura geral e ainda como forma de tratar diversos assuntos do cotidiano da sociedade?

JF:
Curiosamente, no Brasil, existem poucos livros e raríssimos filmes sobre o futebol. No entanto, como você sabe, trata-se da grande paixão dos brasileiros. Veja o exemplo dos americanos: outro dia contei mais de dez filmes sobre boxe e uma infinidade sobre futebol americano, basebol e basquete. Não temos ainda o grande romance do futebol e poucos bons filmes foram feitos a respeito dele. Talvez fosse uma forma de melhor retratarmos a realidade e os sonhos do brasileiro médio. Por isso o tema me interessa, embora, mesmo sendo atleticano, não sou torcedor fanático nem peladeiro de fins de semana. Já passei da idade. (risos)

LA:
Pensa em utilizar o tema futebol em outras obras que, com certeza, irá escrever?

JF:
Não sei... Pode ser que sim. Ou talvez fale de outros esportes, por que não? Mas não sou eu que escolho os temas, eles é que me escolhem. De repente, vem aquela ideia que começa a corroer minha imaginação.

De uma pra outra, começo a escrever e me surpreendo com o resultado. Tem sido assim quase o tempo todo. Não sigo métodos e gosto de me arriscar em gêneros e técnicas narrativas das mais variadas possíveis. Escrevo romances, novelas, contos, poemas, cordéis, letras de música e até haicais. Praticamente não tenho muito controle sobre aquilo que escrevo. Só mesmo nas sucessivas revisões é que me dou conta dos detalhes, dos gêneros e dos temas sobre os quais escrevo.



Sobre Jorge Fernando dos Santos:
Nasceu e sempre morou em Belo Horizonte. Escritor, compositor e jornalista, tem  40 livros publicados, entre eles Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa de romance e tese de mestrado na Itália) e O Rei da Rua, ambos publicado pela Editora Atual e adaptados para minisséries de TV. Seu livro-disco ABC da MPB, lançado pela Paulus, ganhou o selo “altamente recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Teve 10 peças teatrais encenadas e mais de 60 músicas gravadas, a maioria em parceria com outros compositores. Escreveu um Você Decide para a Rede Globo e foi pesquisador e redator do programa Nos Braços da Viola, pela TV Brasil. Publica este ano Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), Ave Viola - Cordel da viola caipira (Paulus), O Menino e a Rolinha O menino que perdeu a sombra (Positivo). Organizou para a editora Miguilim a antologia de contos Adolescência & Cia e é curador da Festa Literária de Pouso Alegre, programada para junho deste ano.

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