quinta-feira, 22 de março de 2012

Parabéns, Jorge Ben Jor


Quando esteve há alguns anos em visita ao Brasil, o presidente norte-americano Barak Obama citou uma frase que pode explicar muito bem o prestígio que o homenageado de hoje do Literatura na Arquibancada tem por aí: “Vocês, como cantou Jorge Ben Jor, são um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”.

Jorge Ben Jor está completando 71 anos de vida dedicados à música e a outra grande paixão em sua vida: o futebol. Quer dizer, ao futebol não, ao Flamengo!!! Em uma de suas entrevistas recentes para responder a pergunta sobre como se autodefinia, não titubeou: “Sou brasileiro e meu time é o Flamengo”.

Paixão que vem de berço. Paixão que não se resumiu às diversas músicas que compôs em sua longa trajetória musical, mas dos tempos em que sonhou ser jogador do Flamengo. Em 1995, convidado pelo programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, Ben Jor relembrou como tudo começou:

“Comecei na escolinha do Flamengo, quando se jogava ainda no campinho do lado. O Flamengo tinha um campinho, hoje melhorou, mas jogávamos no campinho, tinha uma lixeira, a gente começou a jogar ali. Até passar depois para a quadra onde jogava-se o futebol de salão. Eu comecei no infanto-juvenil e fui até o juvenil”.

Nesta mesma entrevista Ben Jor disse algo que talvez muitos flamenguistas não saibam, um desejo quase sonho que até agora não se realizou. Ben Jor quer, um dia, ser presidente do Flamengo:

“Eu até já comprei um título para poder fazer parte do conselho. Eu quis fazer parte do conselho. Eu acho que tem a maioria que tem essa ideia junto comigo. 

Muita gente da minha época, nós, torcedores, muita gente está comprando seu título para poder entrar no conselho e poder me apoiar ou eu poder apoiar alguém que tenha ideias diferentes. Mas é a única presidência que eu gostaria de tentar”.

Ben Jor ainda não realizou nenhum dos dois sonhos (ser jogador de futebol e presidente do Flamengo), mas com o imenso talento musical escreveu e cantou músicas inesquecíveis sobre o tema futebol e Flamengo. Até hoje, no círculo musical não houve alguém com tanta familiaridade para transformar em versos e ritmo o futebol brasileiro.

Em artigo publicado no site da “Revista Lateral”, o cruzeirense, editor do blog O Trânsito e mestre em Comunicação, Victor Guimarães resume muito bem essa trajetória de amor e paixão de Ben Jor pelo futebol:

“A mais célebre delas tem uma história peculiar. Fio Maravilha foi lançada no disco Ben, de 1972, e homenageava o mineiro João Batista de Sales.

O atacante desengonçado do Flamengo era conhecido por driblar os zagueiros e perder gols feitos, mas ganhou o curioso apelido após marcar o gol da vitória em um jogo contra o Benfica. No auge do sucesso radiofônico, por obscuras razões ligadas aos direitos autorais, a canção teve de ser rebatizada e ganhou o insosso título de “Filho Maravilha”. Na discografia de Jorge, aparece apenas três vezes com o nome original, contra cinco regravações com a alcunha imposta.

Mas por uma dessas ironias da sociedade do espetáculo, do mundo da música e do futebol, Jorge e João voltaram a se encontrar numa matéria do Esporte Espetacular de 2007, na qual o ex-atacante flamenguista, agora entregador de pizzas sob o sol californiano de São Francisco (cidade pela qual se apaixonou e pela qual abandonou o futebol), volta atrás em sua decisão e autoriza o cantor a usar novamente o título original da canção.

O disco África Brasil, de 1976, traz outra grande composição de Jorge dedicada ao futebol: Ponta de Lança Africano (Umbabarauma) exalta o atacante decidido, homem gol, que pula, cai, levanta, cabeceia, chuta e agradece. Em regravação recente do clássico, o santista Mano Brown acrescentou à letra original a descrição musicada do gol de Serginho Chulapa contra o Corinthians, na final do Paulista de 1984.

Mas nem só os artilheiros têm espaço no panteão futebolístico de Ben Jor. Aos zagueiros, ele pede que arrepiem, limpem a área e saiam jogando. E define o bom defensor como aquele que não pode ser muito sentimental, e que tem que ser sutil, elegante, malandro, leal e ciumento – para ganhar todas as divididas.


Ouça as músicas Zagueiro e Umbabarauma.

Aos goleiros, avisa que não se pode falhar, nem ficar com fome na hora de jogar (senão é um frango aqui, um frango acolá). Aos juízes, rende também homenagem, quando reclama veementemente de um erro de arbitragem em Cadê o Pênalty. E até aos cartolas oferece a ironia, ao fazer piada das transferências de jogadores em Troca-Troca.

Sou Flamengo

Mas se Ben Jor homenageou o atleta do século em O nome do Rei é Pelé, e fez sua própria versão do “Pra Frente Brasil” em Camisa 12, não foi a seleção brasileira que lhe rendeu os melhores frutos musicais. Jorge teve a sorte de ser flamenguista durante a época áurea do clube carioca. Ainda nos anos 70, já dedicava canções ao time do coração, que seria imortalizado na década seguinte, sob a batuta de Zico. Além de ter gravado o Hino Oficial do Clube de Regatas Flamengo, o compositor se deixou irrigar mansamente por aquele lendário escrete rubro-negro, que contava ainda com Adílio, Carpegianni, Júnior e Cláudio Adão.

                                             Hino do Flamengo cantado por Jorge Ben Jor

São dessa safra Camisa 10 da Gávea, que descreve as habilidades insubstituíveis do Galinho de Quintino, craque de chutes maliciosos, que eram como flashes eletrizantes; e Flamengo, que faz jus aos outros gênios, pedindo-lhes que não batam na bola com desprezo, mas que a toquem com razão. Isso sem contar a magnética País Tropical, que inclui a paixão pelo Flamengo entre os dados biográficos mais significativos do eu-lírico.

O futebol está para as canções de Jorge Ben Jor como o mar está para as de Dorival Caymmi. Não é apenas um tema abordado e uma fonte de homenagens, mas uma presença que se faz sentir em composições sobre os mais variados assuntos. Às vezes, um motivo futebolístico torna-se o estopim para toda uma canção sobre o inverno, o sorriso, a namorada e a paz (Eu vou torcer). Noutras, a paixão pela bola aparece de supetão, tal qual um Luiz Suarez aos quarenta e cinco do segundo tempo, e bagunça todo o coreto. Se depois de Tereza, bem depois, só o Flamengo, Cassius Clay tem a cadência de uma escola de samba e o 4-3-4 de um time de futebol”.

                                         Ben Jor e Diogo Nogueira na festa do Hexacampeonato
                                         brasileiro conquistado pelo Flamengo.

Em entrevista à repórter Bela Megale, da Isto É Gente, é o próprio Ben Jor que nos brinda com explicações das origens de várias de suas composições históricas sobre o futebol. Em clima de Copa do Mundo da África do Sul, Ben Jor fala do carinho que tem por aquele povo e continente:

Como surgiu a ideia de regravar a música “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”? 
Meu filho Gabriel (produtor do projeto) me abordou em setembro do ano passado com a ideia de fazer um trabalho visando a Copa do Mundo e a África. Sempre gostei de futebol e esse clima contagiante de Copa do Mundo.

Clique no link abaixo e veja o clip imperdível desta versão de Ponta de Lança Africano com Mano Brown:
O que o levou a escrever músicas como “Fio Maravilha” e “Umbabarauma”? 
Sobre “Fio Maravilha”, sempre admirei o estilo do futebol do Fio. Quando ele metia um golaço, eu imaginava o Maracanã exaltado gritando: “Fio Maravilha, nós gostamos de você”. Já Umbabarauma me inspirou pelo fato de ser o primeiro jogador africano a jogar na Europa, numa época em que o racismo era maior no futebol europeu. 

                                         A versão "acústico" de "Filho Maravilha", espetacular.

É possível comparar a emoção que sente no palco à de assistir a um jogo? 
São emoções diferentes, mas ambas energéticas e maravilhosas. Já joguei muito futebol, gosto da sensação de entrar em campo e fazer gol. Já no show, você sente o público. Não gosto de tocar as músicas por ordem, gosto de sentir a energia e ver todo mundo dançar.

Como é o Jorge Ben Jor torcedor? É fanático por futebol?
É lógico que sou. E sou fanático pelos estádios. Adoro conhecer todos eles. Fui, na última Copa, para a Alemanha com meu filho e gostei muito do design da Allianz Arena, em Munique. Sou brasileiro e meu time é o Flamengo. Onde ele estiver estarei. Raça, amor e paixão.

Qual seu maior ídolo? 
Zico foi um grande jogador que inspirou uma música minha chamada “Camisa 10 da Gávea”. O futebol dele foi surreal. Ele foi um exímio cobrador de faltas na entrada da área.

Vale a pena clicar abaixo e assistir o vídeo de Ben Jor para Zico:

O que faz durante a Copa? Gosta de ver os jogos sozinho, acompanhado? 
Amo ver todos os jogos que consigo. Gosto da Copa, o clima, as surpresas. Como disse, meu filho Gabriel me levou para a Copa na Alemanha, em 2006. Lá assistimos Brasil x Gana e Brasil x França. Depois que o Brasil foi eliminado, vimos Portugal x França. Espero estar em breve na África do Sul.

Já teve de deixar de assistir a um jogo decisivo e por ter de fazer um show no mesmo horário? 
Já tive que deixar de assistir a vários jogos do Flamengo por esse motivo. As partidas da Seleção na Copa eu sempre vi. Mas quando não consigo assistir a um jogo fico ansioso pelo resultado.

O que espera para a Copa do Mundo que será sediada no Brasil?
Pretendo ir a todos os jogos da Seleção! A Copa no Brasil tem tudo para ser a melhor. Já imagino o Brasil e a Argentina no Maracanã lotado em uma bela tarde de domingo! Já vi decisões clássicas em diversos estádios em todo mundo, mas não há emoção igual a um Maracanã lotado.

O que acha de a África sediar pela primeira vez a Copa do Mundo? 
É um tremendo progresso, uma grande vitória. Espero que esse maravilhoso evento alavanque não só a África do Sul, mas todo o continente africano. A África tem um lugar especial no meu coração.

Nenhum comentário:

Postar um comentário