sábado, 31 de março de 2012

O centenário do Santos Futebol Clube


O Santos Futebol Clube entra a partir do próximo dia 14 de abril para a lista de clubes centenários do futebol brasileiro. E quanta história esse clube fez. A vocação para revelar jovens talentos transformou o Santos em símbolo do futebol que todo torcedor gosta de ver: com gols, muitos gols...Foi assim na década de 1920 formou o primeiro ataque batizado de  "linha dos 100 gols", formado por Siriri, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista.

O primeiro título estadual demorou, mas chegou no ano de 1935, 23 anos após sua fundação. 

Vinte anos depois, viveu um período que entrou não somente para a história do futebol brasileiro, mas para o mundo com o surgimento da “geração Pelé”.

Na década de 1970, viu surgir novamente uma geração de garotos bons de bola com “Os meninos da Vila”. 

Quebrando o velho ditado popular que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes, o Santos ressurgiu no início do século 21 com uma nova garotada craque de bola desta vez rebatizada como “Os novos meninos da Vila”, com Diego, Robinho, Elano, Renato, Alex e Léo.

E como se os raios não parassem nunca de cair sobre a Vila Belmiro, na cidade de Santos, o clube revelou ao mundo o talento do jovem Neymar.

Um clube com tantos craques revelados ao mundo haveria de ter um pesquisador e historiador tão bom quanto o time centenário. E tem. Seu nome é Odir Cunha, um dos jornalistas mais experientes do país (veja perfil no final do post) e sem dúvida de errar, o que mais conhece a história do Santos Futebol Clube.

Não é à toa que no blog que mantém na internet – aliás, se você quer conhecer o Santos FC tem que navegar por essa página http://blogdoodir.com.br/-   ele se autointitula “o ombudsman do Santos FC”.

E não poderia ser de outro autor o livro oficial do centenário do Santos FC que já está circulando nas melhores livrarias e que será lançado pela editora Magma Cultural, no próximo dia 9 de abril. 

Confira a sinopse da editora:

Santos FC – 100 Anos de Futebol Arte

“O livro Santos FC – 100 Anos de Futebol Arte é uma obra ricamente ilustrada que apresenta a história centenária do clube que revelou ao mundo o Atleta do Século e elevou um simples esporte à categoria de arte.

Dois textos marcados pela emoção dão o pontapé inicial à obra. Primeiro, o presidente do clube, Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro, expressa o orgulho de ser santista e a alegria em poder continuar o legado deixado pelo avô – um dos fundadores do clube. Em seguida, o Rei do Futebol, Pelé, faz uma declaração de amor e agradecimento ao Santos que, por si só, já “vale o ingresso”.


A obra é assinada por Odir Cunha, autor de diversos livros sobre o Santos FC. O historiador aproveita a ocasião do Centenário para homenagear os 22 maiores ídolos da história do clube, em um capítulo dedicado aos times de “Ouro” e “Prata”, apresentando a biografia e imagem de cada atleta selecionado. Entre os homenageados estão: Pelé, Zito, Gylmar, Carlos Alberto Torres, Pepe, Coutinho, Edu, Pagão, Clodoaldo, Giovanni, Robinho, Ganso e Neymar.

O Torcedor também tem cadeira cativa no livro. Em um capítulo reservado especialmente a ele, cerca de 30 santistas fanáticos, escolhidos entre milhares de concorrentes, reverenciam o clube do coração com histórias de alegria, tristeza e humor que demonstram sua paixão pelo Alvinegro Praiano.

Nessa festa centenária, não poderiam faltar também os santistas ilustres que participam com textos e fotografias feitos especialmente para o livro. Entre eles estão: Geraldo Alckmin, Fausto Silva, Marcelo Tas, Eduardo Suplicy, Milton Neves, João Dória, Mônica Waldvogel, Paulo Henrique Amorim, Chitãozinho e Xororó, Titãs, Arnaldo Antunes e Zeca Baleiro.

Assim, repleto de emoções, Santos – 100 Anos de Futebol Arte retrata a gloriosa história de um dos maiores clubes de futebol do mundo, com especial destaque para os grandes ídolos e os diversos títulos por eles conquistados.”

Odir não ficou só neste título sobre o centenário. Ele também escreveu em parceria com outro craque do jornalismo esportivo, Celso Unzelte, outra obra referente ao centenário, mas esse será tema de um outro post aqui no Literatura na Arquibancada.

E para você, santista, vale a pena conferir a extensa programação de eventos que o Santos FC tem agendada para comemorar seu centenário. Abaixo, com alguns destaques, como o lançamento do filme oficial “Santos, 100 anos de Futebol Arte”. Para conferir a lista completa, acessar: http://www.santosfc.com.br/noticias/conteudo.asp?id=26502#.T3cHDTGDsf8.

DIA 10
Horário: 19h
Lançamento do projeto ‘Santos Futebol Arte’, que transformará o Memorial das Conquistas em espaço permanente de exposições de arte
Abertura: Paulo Consentino
Local: Memorial das Conquistas do Santos (para convidados e imprensa)

DIA 12
Horário: 15h
Estreia do programa semanal MENINOS PARA SEMPRE, da Santos TV, ao vivo pelo Youtube.
Descrição: Programa consistirá em entrevistas especiais com ídolos históricos do Clube, com participação dos internautas.

DIA 13
Horário: a partir das 19h
Avant-Première oficial do Filme “Santos, 100 anos de Futebol Arte”
Descrição: Evento VIP para mil convidados, com transmissão ao vivo do canal ESPN Brasil. Haverá exibição do filme oficial do Centenário seguida de coquetel para os convidados.
Local: Vila Belmiro

Sobre o autor:
Odir Cunha, jornalista e escritor começou a trabalhar na redação do Jornal da Tarde, o JT, em 1977. Com dois anos de profissão, havia conquistado dois prêmios Esso, o mais importante do jornalismo brasileiro. Foi também editor e comentarista de tênis da TV Record, comentarista de futebol da Rádio Record, editou cinco revistas especializadas em tênis, entre elas a atual Revista Tênis, lançou e editou a Revista do Futebol, dirigiu o departamento de imprensa da Secretaria Municipal de Esportes da Cidade de São Paulo durante a gestão de Oscar Schmidt, atuou três anos como repórter da sucursal paulista do jornal O Globo e no mesmo período acumulou as funções de repórter e produtor das Rádios Globo e Excelsior. Na Rádio Excelsior, hoje CBN, foi o produtor responsável dos programas “Balancê” e “Partido do Esporte” de 1982 a 1984. É autor da biografia de Oscar Schmidt, publicada pela em 1996 pela editora Best Seller. E sobre o Santos FC é autor entre outros de: "Time dos Sonhos, a história completa do Santos Futebol Clube," (Editora Códex, 2003), "Donos da Terra" (Editora Realejo, 2007). É autor ainda do polêmico livro “Dossiê pela Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959″. Em 2009 foi nomeado coordenador das festividades do Centenário do Santos Futebol Clube. Em 2012, assumiu o cargo de editor-chefe da revista de futebol FourFourTwo, edição em português.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mário de Andrade era corintiano?


Ele tinha tudo para verdadeiramene odiar o futebol, mas acabou sendo um dos intelectuais a dar nas primeiras décadas do século 20 enorme visibilidade ao esporte. Mário de Andrade nasceu em 1893 e quando completou 20 anos sofreu um trauma familiar que teria feito qualquer um nunca mais querer ouvir falar sobre futebol. Em 1913, ele perde o irmão Renato de uma maneira estúpida. Em um jogo de futebol, Renato recebe uma cabeçada que acabaria lhe tirando a vida dias depois.

Mário de Andrade que já havia iniciado a carreira na poesia (escreveu o seu primeiro poema quando tinha apenas 11 anos) e na música, entra em uma profunda crise emocional. 
Acaba mudando-se de São Paulo para o interior paulista, na cidade de Araraquara, em uma fazenda família, desiste da carreira musical devido a suas mãos terem se tornado trêmulas.  
Se não conseguia mais tocar, voltou para São Paulo e virou professor de música. E foi nessa condição que apenas dois anos depois da tragédia familiar, em 1922, já como professor catedrático de História da Música e Estética, participa de maneira decisiva da famosa Semana de Arte Moderna de 1922.

Foi nesse exato momento que ele publicou, talvez, seu primeiro texto referente ao futebol em «Pauliceia Desvairada » onde reproduz um domingo de futebol na cidade :

“Hoje quem joga ?…
O PaulistanoPara o Jardim América das rosas e dos pontapés !
Friedenreich fez goal ! Corner ! Que juiz !
Gostar de Bianco ? Adoro. Qual Bartô…
E o meu xará maravilhoso !…
– Futilidade, civilização…”


Mário de Andrade e os amigos Modernistas.
Desde então, Mário de Andrade nunca mais deixou de curtir o futebol daquelas primeiras décadas do século 20. Integrado ao grupo de artistas conhecido como « Modernistas », Mário ficou na memória de vários deles. Paulo Mendes Campos, por exemplo, em uma de suas maravilhosas crônicas, « Passe de Letra », escreveu :

«Em crônica antiga, Rubem Braga descreve a manhã de sol que levou às areias da praia escritores de Copacabana e Ipanema, uns contra os outros. Também tomei parte no hilariante cotejo, no time de Copacabana.

Brandão, centromédio do Corinthians.
Mário de Andrade era um entusiasta do futebol. 

Queixava-se dos trezentos e cinqüenta compromissos que o impediam de ser assíduo aos estádios. 

Em seus livros, há algumas referências ao futebol, sempre com excelente conhecimento técnico. Mário tinha especial predileção pelo estilo do famoso centromédio Brandão. Dizia, com sua inflexão enlevada: ‘É um ma-ra-vi-lho-so bailarino!’”.

E sendo fã de Brandão, podemos deduzir que Mário de Andrade seria corintiano, pois o centromédio jogava na equipe alvinegra. Brandão foi o primeiro corintiano a disputar uma Copa do Mundo, em 1938.


Argentina, campeã da Copa Roca de 1940.
Mas no ano seguinte, em 1939, Mário de Andrade acabou escrevendo o texto definitivo sobre sua paixão pelo futebol brasileiro, só que não para exaltar a atuação de seu ídolo corintiano, mas a de uma seleção que fez história no futebol mundial nas décadas de 1930 e 1940. A Argentina naquele período era praticamente imbatível com uma seleção repleta de craques. O Brasil não ficava muito atrás. A Argentina havia chegado a uma final olímpica (1928) e uma final de Copa do Mundo (1930), enquanto o Brasil havia acabado de conquistar um honroso3º lugar na Copa do Mundo da França, em 1938.

Capa de O Globo Sportivo, de 1940.
Desses confrontos, com certeza, surgiu a grande rivalidade entre as duas seleções. E Mário de Andrade soube como ninguém captar esse momento de pura magia dos “hermanos” platinos. No dia 22 de janeiro de 1939, ele escreveu a crônica “Brasil-Argentina”, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, exatamente uma semana após a seleção brasileira disputar e perder a Copa Roca em pleno estádio de São Januário. Foram dois jogos, o primeiro no dia 15/01 e o segundo no dia 22/01. Vencemos o segundo por 3 a 2, mas no primeiro, o jogo que Mario de Andrade se refere na crônica abaixo, o Brasil sofreu uma goleada histórica por 5 a 1:

“Na véspera, o meu amigo uruguaio confessou que viera torcer pelos argentinos. Arroubadamente, com excessos de boa – educação, fui afirmando logo que isso não fazia mal, que diabo! Etc... Ficou desagradável foi quando ele se imaginou no direito de explicar porque torcia pelos argentinos:

Brasil x Argentina, Copa Roca de 1939,
no estádio de São Januário, RJ.
- Você compreende, amigo, nós, uruguaios, temos muito mais afinidade com os argentinos, apesar de já termos feito parte do Brasil. Até por isso mesmo!... Por mais que se explique historicamente o que levou um tempo o Uruguai a participar do Brasil, nós não sentimos (repare que emprego o verbo “sentir”), não sentimos a coisa como se tivéssemos participado do Brasil, e sim como tendo pertencido a ele. A modos de colônia... E isso, por mais esforços que a gente faça, irrita bem. Quanto a afinidades com os argentinos, há muitas... muitas...

Aqui meu amigo uruguaio parou de supetão. Percebi que não queria me machucar. Mas nesse terreno de boa-educação ninguém ganha de brasileiro, não insisti. Não ousei dar uma liçãozinha de humanidade no meu hóspede, falando na minha simpatia igual por argentinos, turcos e australianos, e outras invencionices maliciosas. Me preocupei apenas em disfarçar a ansiedade que me enforcava por causa do jogo.

No campo me acalmei com segurança. Estávamos em pleno domínio do “nacioná”, com algumas bandeiras argentinas por delicadeza. Mas na verdade, por causa daquele jogo,
estávamos todos odiando os argentinos e a Argentina ali. E dizem que futebol estreita relações, estreita nada! Mas aqueles milhares de brasileiros, que piadas cariocas!
brilhavam na certeza da vitória. Desconfio que em casa os ilhados nos bondes, também tinham sentido a mesma inquietação que eu disfarçava, mas a unanimidade é um
estupefaciente como qualquer outro. De forma que nem bem cada brasileiro se arranjava em seu lugar, olhava em torno, tudo era nacional! e a certeza vinha: Vamos ganhar na maciota.

E foi nessa atmosfera de vitória que principiou o famoso jogo Brasil-Argentina, de que certamente não tiraremos nenhuma moral. Os nacionais escolheram o lado pior do campo, com uma ventania dos diabos contra, varrendo tudo, calor, bola e argentino contra o nosso gol. Principiou o jogo. Os argentinos pegaram com os pés na bola e... Mas positivamente não estou aqui para descrever jogo de futebol. Só quero é comentar. 

Sastre, craque argentino.
Ora, o que é que se via desde aquele início? 

O que se viu, se me permitirem a imagem, foi assim como uma raspadeira mecânica, perfeitamente azeitada, avançando para o lado de onze beijaflores. 
Fiquei horrorizado. Procurei disfarçar, vendo se me lembrava a que família da História Natural pertencem os beijaflores, não consegui! Nem sequer conseguia me lembrar de alguma citação latina que me consolasse filosoficamente! 
Enquanto isso, a raspadeira elétrica ia assustando quanto beijaflor topava no caminho e juque! fazia mais um gol. 

Era doloroso, rapazes.


José Manuel Moreno.
Mas era também admirável. Quem já terá visto uma força surda, feia mas provinda duma vontade organizada, que não hesita mais, e diante de um trabalho começado não há transtorno político, financeiro, o diabo! que faça parar!... Eram assim os argentinos, naquela tarde filosófica. Não que eles se alardeassem professores de ordem, de energia ou de coisíssima nenhuma. Se alguém desejar saber exatamente o que eu senti, eu senti a Grécia, a Grécia arcaica, no tempo em que se fazia a futura grande Grécia. Dezenas de tribo diferentes se organizando, se entrosando, recebendo mil e uma influências estranhas, mas aceitando dos outros apenas o que era realmente assimilável e imediatamente conformando o elemento importado em fibra nacional.


Pedernera (esq) e Moreno.
Quem quiser me compreender, compreenda, mas no fim do quarto gol eu tinha me naturalizado argentino e estava francamente torcendo pra que... nós fizéssemos pelo menos uns trinta gols. 

Mas logo bem brasileiramente desanimei, lembrando que seria inútil uma lavada exemplar. 

Não serviria de exemplo nem de lição a ninguém. Ao menos meu amigo uruguaio foi generoso comigo, não teve o menor gesto de piedade. Comentava navalhantemente:
– Era natural que vocês perdessem... Os brasileiros “almejaram” vencer, mas os argentinos “quiseram” vencer, e uma coisa é almejar, outra é querer. Vocês... é um eterno iludir-se sem fazer o menor gesto para ao menos se  aproximar da ilusão.


Masantonio, outro craque da seleção argentina.
Sim, os argentinos escalaram o quadro e este se preparou para o jogo; mas o que a gente percebe é que, na verdade, há trinta anos que os argentinos vêm se preparando para o jogo de hoje. A força verdadeira de um povo é converter cada uma das suas iniciativas ou tendências, em norma quotidiana de viver. Vocês?... nem isso... Os argentinos, desculpe lhe dizer com fraqueza, mas os argentinos são tradicionais.

Eu é que já estava longe, me refugiado na arte. Que coisa lindíssima, que bailado mirífico um jogo de futebol! Asiaticamente, cheguei até a desejar que os beijaflores sempre continuassem assim como estavam naquele campo, desorganizados mas brilhantíssimos, para que pudessem eternamente se repetir, pra gozo dos meus olhos, aqueles hugoanos contrastes.

Sastre
Era Minerva dando palmada num Dionísio adolescente e já completamente embriagado. 

Mas que razões admiráveis Dionísio inventava pra justificar sua bebedice, ninguém pode imaginar! Que saltos, que corridas elásticas! Havia umas rasteiras sutis, uns jeitos sambísticos de enganar, tantas esperanças davam aqueles volteios rapidíssimos, uma coisa radiosa, pânica, cheia das mais sublimes promessas! E até o fim, não parou um segundo de prometer... Minerva porém ia chegando com jeito, com uma segurança infalível, baça, vulgar, sem oratória nem lirismo, e juque! fazia gol.”


Seleção Brasileira que perdeu a Copa Roca de 1940.
A derrota por 5 a 1 acabou sendo a maior goleada entre as duas seleções, pelo menos até aquele dia em que Mário de Andrade assistiu àquela partida. O que ele não poderia imaginar (ou talvez imaginasse por tudo que viu com os próprios olhos) era que na Copa Roca seguinte, em 1940, os argentinos seriam ainda mais impiedosos aplicando a maior goleada na história do clássico sul-americano: 6 a 1.

Mário de Andrade não teve tempo de curtir o futebol e nos deixar mais de seus belos escritos. Morreu jovem, com apenas 52 anos.

Para saber mais sobre Mário de Andrade, acessar:

quinta-feira, 29 de março de 2012

Medo e Terror nas Arquibancadas


Há três anos a literatura esportiva mundial ganhou uma obra de referência, tanto para leitores “comuns” como para estudiosos e pesquisadores acadêmicos e jornalistas esportivos que se interessam pelo fenômeno da violência e “poder” das torcidas organizadas em todo o mundo.

Ainda mais, após os eventos ocorridos no jogo entre Boca Juniors e River Plate, válido pela Libertadores.

E não há exemplo melhor para ilustrar a que ponto podem chegar certas torcidas organizadas como o caso da maior organizada do clube Boca Juniors, da Argentina. O livro em questão é do jornalista Gustavo Grabia, obra editada pela editora Panda Books, “La Doce”.

O livro espetacular descreve a escalada de violência no futebol argentino desde 1925, quando um torcedor foi morto. La Doce, a maior torcida do Boca, ganhou “poderes” superespeciais infiltrando-se no mundo do crime e agindo nos bastidores extorquindo jogadores e técnicos. Virou um “poder paralelo” no clube argentino chegando a ter uma ONG para “lavar” o dinheiro que ganhava ilicitamente.


Antes de falarmos especificamente do livro de Gustavo Grabia, Literatura na Arquibancada obteve autorização para a publicação do “Dossiê La 12”, um artigo escrito por Leonardo Ferro para o site Futebol Portenho (www.futebolportenho.com.br) criado e editado por Thiago Henrique. Se você quer conhecer melhor a história do futebol argentino, tão rico e bem documentado, esse é o espaço.



Dossiê La 12: 
Quando o futebol dá lugar ao sangue, guerra e terror
Por Leonardo Ferro

De Buenos Aires – A história da “La 12”, tradicional e poderosa barra brava do Boca Jrs, é digna de um filme. Do estilo mafioso à la “O Poderoso Chefão”, o roteiro incluiria traições nas sucessões de poder, dinheiro sujo em negociatas, assassinatos, acertos com a polícia e ligações com as mais importantes autoridades da Argentina. Ingredientes que não faltam na consagrada trilogia de Francis Ford Coppola.

Durante os anos 60, era Enrique Ocampo ou “Quique el Carnicero” quem ditava as regras nas arquibancadas da Bombonera. Era uma época distinta e os níveis de agressividade dos torcedores ainda não eram tão elevados como os de hoje.

Mas, mesmo neste tempo de relativa tranquilidade, Quique inaugurou alguns costumes que perduram atualmente, como a participação em reuniões do clube e a exigência de certa quantidade de entradas para os membros do seu grupo. Seu reinado a frente da “12” durou aproximadamente 20 anos quando foi destituído do comando por aquele que viria a ser o líder mais violento que a barra brava do Boca Jrs já conheceu: José Barrita ou “El Abuelo”.

O segundo mandante da facção foi o responsável pelo período mais tenebroso e temido da “12”. Governava a arquibancada com extrema violência e não se privava da companhia do inseparável revólver calibre 38. O mesmo com o qual obrigou seu antecessor a abrir mão do poder.

Ganhou o apelido por seu cabelo grisalho que o destacava dentro da “12”. Não havia quem o detivesse dentro do clube e era costume que fosse pessoalmente exigir melhor desempenho dos jogadores. Anos atrás, Maradona contou a um canal de televisão seu primeiro encontro com o temido chefe da barra, quando ainda era uma jovem promessa.

Seu período como líder da mais poderosa torcida argentina termina após sua prisão por  ataques à tiros a um caminhão que transportava torcedores do River Plate antes de um superclássico em 1994.

Neste momento assume o controle Rafa Di Zeo, braço direito de Abuelo até então. Em muitas fotos do período anterior a prisão, pode se ver Abuelo ombreado por Rafa Di Zeo nas arquibancadas da Bombonera Rafa tratou de assegurar uma base que não ameaçasse seu poder. Arquitetou alianças importantes e tirou de cena o único que poderia afrontar seu comando: o próprio Abuelo. Quando tentou se reaproximar da barra após sair da prisão, Abuelo foi alvo de um atentado à tiros, mas escapou ileso. Depois disso não retornou mais ao estádio onde foi por anos figura inquestionável.

Di Zeo implementou uma visão “empresarial” dos negócios ilícitos da “12”. Recebia ingressos do clube e também garantiu uma parte do dinheiro daqueles vendidos nas bilheterias. Uma das maiores demonstrações de poder foi o direito de administrar o estacionamento da rua Del Valle Iberluzea, uma das principais que dão acesso ao estádio do Boca.

Rafa Di Zeo
“Não sou poderoso, mas tenho o telefone dos poderosos” diz Rafa. Sua rede de contatos atingia inclusive a funcionários do governo portenho. Tinha acerto com os policiais da 24ª Delegacia, sediada no bairro de La Boca e inclusive compartilhava com eles, os mesmos advogados. Um dos fatos inusitados é o casamento de Rafa Di Zeo com a secretária particular de Felipe Solá, à época governador de Buenos Aires. Também foi o homem forte no Boca de Maurício Macri, atual governador da província, quando este era presidente do clube. Foi preso em 2007 em função de uma emboscada que armou contra torcedores do Chacarita durante uma partida amistosa na Bombonera. As câmeras de segurança filmaram todas as ações de Di Zeo e seus comparsas.

Mas, tal como sucede nos melhores filmes de máfia, depois que Di Zeo é preso, assume o poder seu braço direito: Mauro Martín. Com a promessa de devolver o comando da barra quando Rafa saísse da prisão. Neste ano Di Zeo foi solto e em uma entrevista exclusiva a um canal de televisão aberta no final de agosto (confira a entrevista ao fim da matéria), avisou que queria sua barra de volta.

Tal retorno, com prometido, aconteceu no último fim de semana. Na partida contra o Rafaela. E, para o mal do futebol argentino, algo inédito marcou o retorno de Di Zeo aos estádios. Duas torcidas, duas barras bravas na Bombonera. Uma atrás de cada gol, olhando-se frente a frente e insultando-se. Pura demonstração de poder e intimidação. O futebol é mais uma vez deixado de lado.

Di Zeo chegou pelo lado oposto ao que sempre se acostumou a frequentar a Bombonera. Entrou pelo gol do Riachuelo, onde fica a torcida visitante. Com aproximadamente 900 seguidores, vindos em mais de 30 ônibus e peruas, estendeu a tradicional bandeira com os dizeres: “La Barra de José”, numa tentativa de ganhar o apoio do torcedor comum que assistia a tudo sem acreditar.

Do lado de Mauro, “La 12”. Bumbos, bandeiras e faixas, uma delas com os dizeres: “Mauro = La 12”. Os canais de televisão por momentos esqueciam-se dos jogadores no campo e do que acontecia no palco principal, para filmar as duas personalidades penduradas nas arquibancadas. Inclusive com tela dividida e close nos novos protagonistas da tarde.

Mauro Martín
Com o final da partida, a polícia resolveu mudar o esquema usual de saída de torcedores nos estádios argentinos. Saíram os visitantes e logo depois os torcedores comuns do Boca, ficando dentro de uma Bombonera de luzes quase apagadas, as duas facções da mesma barra, medindo-se e cantando ameaças para o próximo jogo contra o Vélez, quando teriam que dividir o mesmo espaço na arquibancada destinada aos visitantes.

Na saída do estádio e nos programas de televisão conhecidos como “terceiro tempo”, o que se via não era entrevistas a jogadores ou técnicos, mas um primeiro quadro de Rafa Di Zeo caminhando com sua gente e dois microfones de redes distintas captando todas suas falas: “Isso vai acabar como eles quiserem que acabe”, declarava.

Dentre os diversos fatores que envolvem essa briga pelo poder, o único que pode ser descartado é o próprio Boca Jrs. Perto das eleições no clube, a serem realizadas em dezembro, o aparecimento de Di Zeo neste momento não poderia ser mais oportuno para a oposição.

O lado de Mauro Martín exibiu no último domingo, uma bandeira do ex-presidente Néstor Kirchener, e deixou claro que o kirchenismo está com eles e apoia o atual mandatário e candidato a reeleição, Jorge Amor Ameal. Rafa Di Zeo, conturbando todo o cenário que poderia ser de calmaria em função do atual momento do time, parece estar alinhado com a oposição encabeçada por Daniel Angelici e apoiado pelo macrismo. Antiga associação dos tempos que o atual governador de Buenos Aires era o presidente do Boca e Rafa o chefe da “12”.

Di Zeo já declarou que La Bombonera é sua casa e se sente bem nela. Mas será que essa casa, é apenas sua? Somente a sua paixão pelo Boca é a que vale? Essa casa é de todo torcedor do Boca Jrs. Membro da “12” ou não. Todos têm o direito de sentir-se cômodos em sua própria casa e isso não é o que está acontecendo hoje.

Fonte:

Sinopse do livro “La Doce”, de Gustavo Grabia, que acaba de ser lançado no Brasil.

La Doce

O futebol é capaz de aflorar no público os sentimentos mais variados possíveis. Amor, ódio, alegria e frustração são apenas alguns deles. Provavelmente foi por isso que o tornou o esporte mais popular do mundo. Em muitos países, os apaixonados pelo futebol se organizam para acompanhar seu clube de coração ou até mesmo sua seleção. A partir daí nasce uma torcida organizada, que no início tinha seu lado romântico, assim como o próprio futebol.

Os anos se passaram e essas organizações incluíram em seus currículos um histórico de violência, sangue e morte. Os hooligans na Inglaterra ganhavam fama e temor pelas cidades do Reino Unido e restante da Europa. Virou até tema de filme. Na América do Sul, as torcidas organizadas brasileiras também não ficam atrás. A cada ano sempre vemos nos jornais notícias de morte entre torcedores de equipes rivais. Mas nada se compara à torcida do Club Atlético Boca Juniors, de Buenos Aires. A “La Doce”, sem dúvida, é a hinchada mais temida do mundo.

Sabedor desses fatos, o jornalista Gustavo Grabia pesquisou a fundo a história da torcida que criou laços políticos dentro da Argentina, extorque homens públicos, empresários e jogadores e criou uma organização idêntica a de máfia. Brigas com torcedores rivais parece ser apenas a parte mínima de seu currículo.  O resultado desse brilhante trabalho ganhou o mesmo nome da barra brava, ”La Doce”. Conheça a origem, o crescimento, os comandantes e como atua hoje a organizada mais temida do mundo.

Trechos do livro:

“La Doce é a torcida que tem mais contatos políticos, que trabalhou tanto para o justicialismo como para o radicalismo, e chegou a participar de operações políticas montadas pela Side, antiga Secretaria de Inteligência do Estado. É a única torcida do mundo que criou uma fundação legal para a lavagem de dinheiro proveniente da extorsão de políticos, empresários e desportistas, bem como o financiamento sem escrúpulos pela revenda de bilhetes, a gestão de ônibus para levar os torcedores ao interior, o estacionamento nas ruas de La Boca cada vez que havia uma partida, e o merchandising. Isso sem contar a porcentagem arrecadada pelas concessões feitas a barracas de alimentos e bebidas no estádio.”

“Quando eu era criança, o plano de ir ao estádio era muito mais que ir a um jogo de futebol. Era um lugar de conexão para pais e filhos, para amigos do bairro, um mundo cheio de sensações confortáveis que excediam, e muito, o que acontecia no gramado. Esse mundo foi quebrado a partir da violência das barras bravas. E a La Doce é o símbolo mais generalizado dessa violência.”



Sobre o autor
Gustavo Grabia nasceu em 12 de novembro de 1967, em Buenos Aires. É formado em ciências da comunicação pela Universidad de Buenos Aires e pelo Círculo de Periodistas Deportivos, iniciando sua carreira na Editorial Abril, passando pela Editorial Garcia Ferré, pela revista 13/20 e pelos jornais La Razón e El Expreso. Desde 1996, trabalha no jornal esportivo Olé, em que atualmente ocupa o cargo de editor, ganhando prestígio como o maior especialista argentino em violência no futebol. Também atua como colunista dos programas de rádio de Ernesto Tenembaum (Primera manãna, na rádio Mitre) e Roberto Pettinato (El show de la noticia, na FM 100). Este é seu primeiro livro publicado no Brasil.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Um ano sem Millôr

Crédito: Liberati

O Brasil perdeu há um ano um dos maiores nomes de sua literatura. Ele nasceu Milton Viola Fernandes, mas foi como Millôr Fernandes que acabou eternizando tudo que escrevia com um jeito inteligente e divertido.



Além de jornalista e escritor, foi tradutor de Shakespeare, desenhista, dramaturgo e um dos fundadores do jornal “O Pasquim”, um marco na história da imprensa no Brasil.

Entre tantos escritos, Millôr também fez muitas reflexões sobre o futebol. Com certeza, em breve, algum editor atrevido pode ter a grande ideia de reunir em um livro todas essas grandes sacadas que Millôr desfilou sobre o futebol.


Era torcedor do Fluminense. 

O tempo do verbo no passado é o próprio Millôr quem explica: 

“Há muito tempo me desinteressei pelo futebol. Foi quando comecei a ver aqueles latagões, ganhando fortunas e tratados como odaliscas, não conseguirem dar um passe certo no meio do campo – sem qualquer pressão do adversário. 

Como artista plástico, tratado daquele jeito, eu morreria de vergonha se não pintasse uma capela Sistina por semana”.

Painel feito por Millôr sobre o Frescobol,
na praia de Copacabana.

Talvez por conta deste “desgosto” pelo futebol, Millôr tenha se interessado por um outro esporte: o frescobol. Ele não era apenas praticante, mas teria sido um de seus criadores:

"O Frescobol foi um esporte que cheguei a jogar bastante bem. Esporte maravilhoso, praticado à beira mar - os participantes quase nus - de tempo em tempo interrompido por um mergulho refrescante, o Frescobol é elegante e dinâmico o tempo todo, beneficiando-se ainda da sorte inaudita de nunca nenhum idiota ter tido a ideia de lhe traçar normas, aferir pontos - permanece até hoje uma atividade pura. Há competição, mas não formalizada, pontificada. Não há vencidos nem vencedores. Portanto sem possibilidade de violência. Segue meu princípio; "O importante é nem competir", diferente do conceito hipócrita do Conde de Coubertin: "O importante é competir"". (fonte http://www.lancenet.com.br/minuto/Morre-Millor-Fernandes-entusiasta-frescobol_0_671932871.html)


O livro sugerido pelo Literatura na Arquibancada para ser produzido com frases de Millôr sobre o futebol certamente vão incluir algumas como as que estão abaixo:

"O futebol se compõe de jogadores, juiz, bandeirinhas, bicheiros, cartolas - e cem mil não-combatentes."

“A vida é igualzinha ao futebol. Mas o campo não é demarcado, vale impedimento, a canelada marca ponto a favor, a bola é quadrada, o gol não tem rede e o Supremo Juiz é um ladrão que expulsa do jogo quem bem entende, sem qualquer explicação.”

"Chute de longe é como tirar cara e coroa - dá sempre mais cara do que coroa."


"Como no momento está proibido falar de outra coisa que não seja o esporte tedesco, peguei algumas notas que fiz num jogo Colômbia-Brasil, no qual, chateado com o zero a zero (o Brasil entrou em campo no maior salto Luís XV), Parreira desabafou: “Quando um não quer, dois não brigam”. 

Quer dizer, os adversários, sem fair-play, se trancaram e o Brasil não pôde marcar gous (atenção, revisão, o plural de gol se escreve assim)".

"Há os que são Flamengo doente. Eu sou Fluminense saudável."



“E no oitavo dia Deus fez o Milagre Brasileiro: um país todo de jogadores e técnicos de futebol.” 

"Mal comparando, Platão era o Pelé da filosofia."

“O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”