quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Viagem ao país do futebol


Com a proximidade da realização da Copa das Confederações, em 2013, e a Copa do Mundo, em 2014, haverá alguém que, fatalmente, receberá a seguinte pergunta de algum turista estrangeiro que virá para nossas terras: qual livro você indica para conhecer o futebol brasileiro?

Se quer uma dica do Literatura na Arquibancada, indique o livro “Viagem ao país do futebol” (Editora DBA, 1998). Escrito pelo craque do jornalismo Mário Magalhães, repórter de primeríssima linha, o livro é, literalmente, uma viagem sem fim aos meandros do futebol brasileiro.

Mário Magalhães
São 15 histórias escritas por Mário e documentadas em foto por outro craque, Antonio Gaudério. Foi uma verdadeira aventura, como o próprio Mário relata na abertura do livro: “As histórias narradas foram colhidas de 1993 a 1997, em dezessete cidades de nove estados brasileiros.

Antonio Gaudério
Para contá-las, em idas e vindas, foram percorridos 33 mil quilômetros, 7 mil a menos do que a volta ao mundo pela linha do Equador – 27 mil de avião, sobrevoando Norte, Nordeste, Sul e Sudeste, 5500 de carro, encarando terra batida para beirar o Uruguai e a Venezuela, e setecentos de barco, navegando pelo Solimões até alcançar um torneio de futebol na floresta amazônica”.

Todas as histórias foram publicadas originalmente no jornal Folha de S.Paulo. Há de tudo um pouco: futebol entre os índios, no Amazonas; garimpeiros boleiros em Roraima; o time das “calcinhas”, em Santa Cruz do Capibaribe, no sertão do Pernambuco; os coronéis do futebol nordestino; e outras histórias sensacionais.

mascote do Serrano Futebol Clube, de Serra Talhada.
Uma delas, escolhida pelo Literatura na Arquibancada, desperta, já no título “Duelo na terra do cangaço”, a curiosidade pelo o que Mário Magalhães descobriu na terra de Lampião. Não é a toa que, por lá, até hoje, exista a torcida “Lampiões da Fiel”.
Vale lembrar que as fotos utilizadas neste artigo não fazem parte do livro.





Duelo na terra do cangaço
Serra Talhada, fevereiro de 1997.

Estádio Pereirão, em Serra Talhada.
O Serrano, time de Serra Talhada, estava em apuros. Jogando em casa, no estádio Pereirão, seus jogadores se envolveram num qüiproquó com os adversários de Surubim, também do sertão pernambucano. Os oponentes, embora não tivessem sofrido um arranhão, prometeram recepção violenta. Fosse de outro lugar, o Serrano teria pedido proteção policial e ajuda da federação. Mas o clube comportou-se de forma ortodoxa: cada jogador viajou carregando um revólver, na maioria calibre 38. No total, mais de vinte armas. História espalhada, a equipe passou incólume por jogadores, torcedores e bandos de assaltantes que atacam ônibus.

Virgulino Ferreira da Silva,. o Lampião.
A coragem, fora de campo, e a garra, dentro dele, são componentes da herança cultural do maior fenômeno social da história da cidade, o cangaço, e do seu grande protagonista: Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião.

O zagueiro Carlos Alberto Bezerra, o Boi, é o paradigma da valentia dos atletas do Serrano, equipe da segunda divisão do Campeonato Pernambucano. Primo de Lampião – seu avô, Massá Ferreira, era primo-irmão do Rei do Cangaço –, com pouco mais de 1,60 metro de altura, Boi é um gigante a impor respeito na área, pelo estilo elegante, de passes corretos, que lembram o líbero italiano Franco Baresi.

Boi, parente de Lampião.
Crédito: arquivo revista Placar, set/1996
foto: Alexandre Battibugli
Num arranca-rabo de família, como o que originou o bando de Lampião, já foi seqüestrado. “Não sei nem atirar”, diz ele, às gargalhadas, antes de afirmar: “Esse negócio de briga eu já trago de berço”. Boi ganhou o apelido nos tempos em que trabalhava como vaqueiro. Também já foi agiota. “Mas agora larguei”.

Erra quem folcloriza o futebol local como violento – nos gramados, seus atletas não batem mais do que a média. Mas, fora, vivem a barra-pesada de Serra Talhada. O meio defensivo Tinha, que treinava como titular, fugiu da cidade há semanas. Um policial disse que o jogador foi embora depois de levar uma coça da polícia. Na dúvida, Tinha achou melhor desfalcar o time e esperar que o clima fique mais ameno.

As histórias no Serrano vão do drama à comédia. O lateral-esquerdo Bebeto teve um irmão de dezesseis anos assassinado. Dois meses depois, o pai teve o mesmo destino.

A vida do ponta Genival por pouco não acabou tragicamente como a da família de Bebeto. Desesperado com o rompimento de uma namorada, o jogador tomou veneno e foi internado em estado grave. Como escapou, é chamado hoje de Baygon, marca de inseticida.

Equipe do Serrano, de Serra Talhada, em 1996.
Crédito: arquivo revista Placar, set/1996
Foto: Alexandre Battibugli
Casos assim ficam fora dos estádios. Nestes, o cotidiano dos atletas do Serrano é igual ao de outros que sonham em chegar a um grande clube e acumular fortuna. “Só que, aqui, ninguém ganha no grito, porque o time só tem cabra-macho”, alerta Boi. “Quando um briga, a briga é com todos, porque somos unidos”, amedronta o meia Wagner.

Faz parte da cultura daqui recusar a covardia. Se precisar, há sempre por perto o zagueiro Zé, policial militar que treina nas horas vagas, e o diretor Willians (escrito assim mesmo) Lacerda, policial civil.

Como muitos jovens de Serra Talhada, os jogadores do Serrano costumam se divertir à noite no restaurante Chapa Quente, na praça central. Ao contrário dos outros, porém, eles só bebem cerveja quando o maître Antonio Anchieta Nogueira está de folga. Toinho, como é conhecido, zela com empenho de zagueiro durão para afastar os atletas do álcool.

Serra Talhada
O trabalho no Chapa Quente é o seu sustento. O maior prazer, o futebol. Ex-lateral-esquerdo do Serrano, hoje, aos 33 anos, é o técnico.
– Mas, professor, só um copinho –, pedem os jogadores.
– Não tem professor. Aqui não vão beber –, rebate.
Nem lá nem na casa de shows Batukão, da família de Toinho, onde ele criou o aclamado coquetel Suor de Virgem.
Não se trata de uma vocação militar frustrada, como a de muitos técnicos linha-dura que se proclamam disciplinadores. Tanto que, depois das vitórias, a equipe comemora com chope e pagode. Toinho diagnostica o alcoolismo como uma das maiores armadilhas na vida dos jogadores do sertão. Muitos jogaram fora suas carreiras. Há quatro adolescentes no clube que entornam até cair, no bar Cariri. “Digo a eles que tem de escolher entre o vício e o futebol profissional”.

A planta cannabis sativa.
Toinho já viu muita coisa. Nos anos 70, engatinhando nos juvenis do extinto Comercial, foi jogar em Bodocó, cidade das redondezas. Num quarto, encontrou dois companheiros fumando maconha. Um lhe disse que só conseguia jogar “doidão”. Como Serra Talhada é grande produtora de cannabis sativa, Toinho se acostumou – embora não goste – aos gritos de “maconheiro” dos torcedores rivais.

Sua militância de educador não se restringe ao comportamento social. Fascinado pelo São Paulo bicampeão mundial de 1992 e 1993 regido por Telê Santana, ele comanda os treinos limitando a dois os toques de cada jogador. Irrita-se, como Telê, com os que seguram demais e se envaidece com elogios sobre o toque de bola. Bom discípulo do técnico mineiro, grita à beira do campo, exigindo rapidez:
– Bitoque, bitoque.
Nas preleções, conclama o time a recordar o futebol-arte competitivo do São Paulo campeão:
– É isso o que eu quero.

Para Paulo Moura, técnico do Ferroviário, mais novo time profissional de Serra Talhada, é fácil barrar o meia Robério. Difícil é explicar a exclusão ao presidente do clube, Robério Alvim Cavalcante, que vem a ser o boleiro condenado à reserva. “Como jogador, engulo sapos; como dirigente, faço cobranças”, diferencia Robério, rindo.

Com o meia Aron Lourenço Araújo, o dilema do treinador se repete – Aron preside o Conselho Deliberativo do Ferroviário. O atacante Washington, craque da equipe, também é cartola – integra o conselho. O lateral-direito Duda é outro conselheiro.

Dirigentes já foram barrados, mas nem por isso Paulo Moura teve a posição ameaçada. Moura comandava o time no futebol amador e está para estrear com ele no profissionalismo, na segunda divisão do estado. Se o ambiente fica pesado no clube, tudo se resolve em almoços familiares. Os irmãos Robério e Washington são cunhados de Moura e primos de Aron e Duda. O mais fiel torcedor, com o Ferroviário onde o Ferroviário estiver, é o aposentado Godofredo Alvim da Silva, pai de Robério e Washington, sogro de Moura, tio de Duda e primo de Aron.
É o futebol em família.

Mascote do Ferroviário, de Serra Talhada.
Um dos motivos da transformação do time em profissional é esportivo: o Ferroviário cansou de ganhar como amador. Outro, tão importante ou mais, são as querelas políticas de Serra Talhada. O Serrano, profissionalizado em 1996, era incentivado pela administração municipal da coligação PDT-PSB, derrubada no pleito de outubro. O presidente do Serrano, José Raimundo Filho, era o secretário de Esportes do município. Com a vitória eleitoral do novo prefeito, Tião Oliveira, o vice-presidente do Ferroviário, Ronaldo Melo, assumiu a secretaria. O novo governo resolveu então apoiar uma equipe rival do Serrano na segunda divisão.

Como a Federação Pernambucana desaconselha dois times profissionais em cidade com menos de 100 mil habitantes, os dirigentes do Ferroviário pediram ao líder do PFL na Câmara dos Deputados, Inocêncio Oliveira, irmão do prefeito, para interceder.

O que move os jogadores, no entanto, não são antagonismos políticos, mas o entusiasmo pelo futebol. Seis, entre os quais o bancário Robério, o eletricitário Washington e o inspetor da Fundação Nacional de Saúde Aron, não recebem nada: tiram do bolso para dar uma força ao clube.

Padre Cícero.
O profissionalismo ainda estimula a miragem do sucesso, mesmo para quem chega tarde. O lavrador Reginaldo Batista de Melo, 29 anos, começou a trabalhar na agricultura aos dez. Ele ajudava o pai, Romão José de Melo, conhecido como Ciço porque deveria se chamar Cícero, homenagem ao líder religioso cearense Cícero Romão Batista. Como o pároco local era adversário político do padre Cícero, vetou o nome escolhido pelos avós do atleta-lavrador Reginaldo.

O jogador está morando na cidade, mas vai muitas vezes por semana à roça dos pais. Eles plantam milho, feijão, cebola, algodão e frutas, no solo irrigado pelo rio Pajeú, que passa ao lado da fazenda de 98 hectares, trocada por um caminhão usado. Com um filho de nove anos de um casamento e outro, de uma namorada, a caminho, Reginaldo crê que ainda é tempo de vencer no futebol. “É um sonho antigo, que agora pode ser realidade”.

Futebol é paixão da família camponesa. No almoço de sábado, cercada por som de pássaros, ela exalta o último gol de Roberto Carlos pelo Real Madrid, visto na TV. E planeja a próxima romaria a Juazeiro do Norte, onde vai rezar para o padre Cícero.

Arquibancadas do estádio Pereirão.
Serrano e Ferroviário preparam-se para um confronto que promete incendiar o Pereirão. Será o primeiro clássico entre duas equipes profissionais de Serra Talhada. Prevê-se lotação, com 6 mil pessoas. Nos anos 70, o Comercial, único time profissional da cidade, brilhou na primeira divisão, mas fechou na década seguinte por causa de ranços políticos que o implodiram.

A empolgação com o jogo supera a do xaxódromo, quadra onde se baila o xaxado, dança originária do sertão pernambucano que cangaceiros arrastaram até a Bahia. Haverá carreata para convocar a população ao estádio, onde Garrincha, em fim de carreira, fez exibição há quase três décadas.

Serra Talhada, conhecida como a capital do Xaxado.
Os times são parelhos. A folha salarial do Serrano é de 4500 reais. A do Ferroviário, de 3 mil reais. O Ferroviário é mais jovem, aprendeu com as dificuldades do adversário em 1996. Na estréia, sem tempo para inscrever qualquer goleiro, o Serrano botou um jogador de linha no gol e perdeu.

Com descendentes de cangaceiros nos dois lados, o empenho será semelhante. Deve pesar o trabalho dos preparadores físicos João Bala (Serrano, estudante não –formado de educação física) e Anazildo de Carvalho (Ferroviário, policial militar sem formação acadêmica). A espionagem é oficial. Amigo do técnico adversário, o treinador do Serrano, Toinho, assistiu a um coletivo do Ferroviário. Saiu meia hora depois: “Já sei como a banda toca”, contentou-se.

Mais famosa personalidade oriunda de Serra Talhada, Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, ainda provoca polêmica entre seus conterrâneos. Em 1991, foi organizado um plebiscito em que 79% dos milhares de eleitores disseram que ele foi herói e 21%, bandido.

Nascido no final do século XIX, Lampião aderiu a um bando de cangaceiros em 1917, um ano após começar a rixa entre a sua família e a do fazendeiro Zé Saturnino. Morreu numa emboscada em 1938.

Para uns, Lampião foi um rebelde social, um Robin Hood que assaltava para dar comida aos flagelados. Para outros, um bandido impiedoso. O zagueiro Boi, do Serrano, é primo de Lampião. O pai do técnico do Ferroviário, Moura, foi cangaceiro. Um avô do meia Reginaldo, companheiro de venturas do Rei do Cangaço.  


Sobre Mário Magalhães:




Nasceu no Rio de Janeiro na primeira semana de abril de 1964. Formou-se em jornalismo na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). É jornalista desde 1986. Trabalhou na "Tribuna da Imprensa", em "O Globo" e "O Estado de S. Paulo" antes de ingressar na Folha, em 1991.
Na Folha, foi editor-assistente do "Folhateen", repórter, editor-assistente e colunista de Esportes, repórter da Sucursal do Rio e repórter especial. Deixou o jornal em 2003 para escrever a biografia do guerrilheiro Carlos Marighella (1911-69), livro que será lançado pela Companhia das Letras em 2012. Voltou em 2006 como repórter especial, baseado no Rio.
Entre prêmios e menções honrosas, recebeu duas vezes o Prêmio Folha de Reportagem, duas vezes o Prêmio da Sociedade Interamericana de Imprensa, o Grande Prêmio Esso de Jornalismo, o Prêmio Lorenzo Natali (da União Européia), o Prêmio Vladimir Herzog, a Medalha Chico Mendes de Direitos Humanos e o Prêmio Direitos Humanos-RS.

3 comentários:

  1. Mário Magalhães22:08

    Craque é você, André. Muitíssimo obrigado. Abração, Mário

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  2. Grande Mário. Saudades do amigo. Depois me passe seus contatos pelo meu e-mail a-ribeiro@uol.com.br

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  3. Caro Mário,
    Sou professor de história, pesquisador e escritor, estou realizando um trabalho de pesquisa que será publicado em breve sobre o extinto time do Comercial. Se possível, gostaria que você participasse desse trabalho com um relato sobre sua experiência durante a elaboração da matéria sobre o Serrano e o Ferroviário.
    Um forte abraço,
    Paulo César Gomes / Serra Talhada - PE (e-mail: pcgomes-st@bol.com.br)

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