quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Pepe, o canhão da Vila


No dia 25 de fevereiro, ele completa 79 anos de uma vida muito bem vivida. José Macia Pepe, o popular Pepe, ídolo do Santos Futebol Clube e de torcedores de todos os clubes brasileiros, ganhou fama no mundo do futebol por, além de ter jogado no mais famoso e vencedor time santista nas décadas de 1950 e 1960, ao lado de Pelé e Cia, ser um grande contador de “causos” dos bastidores do futebol.

Não é a toa que ele ganhou o privilégio de ser incluído na seleta e disputadíssima lista dos 10 maiores jogadores na história do Santos FC, no livro “Os dez mais do Santos” (Editora Maquinária, 2012). 

Pepe é uma grande figura, querido dentro e fora dos gramados. Por ser um grande contador de histórias acabou convencido a escrever as próprias memórias, registradas em um livro sensacional, “Bombas de Alegria – Meio século de histórias do Canhão da Vila” (Realejo Livros, 2006).

Pelo título da obra é fácil notar o apelido que o consagrou: “Canhão da Vila”. Dono de um chute poderoso na perna esquerda, Pepe ganhou muitos jogos decisivos para o Santos com suas autênticas “patadas” que machucaram muitos defensores adversários.

Nada melhor do que o próprio Pepe trazer para os leitores do Literatura na Arquibancada passagens marcantes de sua vida, todas integrantes de sua autobiografia.

Como nasceu a bomba

“Nasci no dia 25 de fevereiro de 1935, no centro da cidade de Santos, onde moravam meus pais José (Pepe) e Clotilde, já com dois filhos homens: Sílvio, nascido a 11 de janeiro de 1931 e Mário, nascido a 22 de julho de 1932.

Era uma segunda-feira de Carnaval quando, por volta das 19h, a parteira foi chamada. A rua onde moravam meus pais era a João Pessoa (no número 255). Nasci às 20h, de parto normal, e soube mais tarde que a torcida maior, além de que o bebê viesse com saúde era para que fosse uma menina. Mas, meus pais ficaram muito felizes e ganhei de presente o nome dele: José Macia Filho (o Pepinho). Por um erro no registro da certidão de nascimento fiquei sem o Filho e, portanto, com o nome igual ao do meu pai.

Max Schmelling x Joe Louis
Contaram-me, também, que nessa noite houve uma luta de boxe peso pesado pelo título mundial. O alemão Max Schmelling nocateou o americano Joe Louis, e meu pai anunciava aos quatro cantos, feliz da vida, que estava nascendo um futuro campeão mundial de boxe.

Mas, em vez da força descomunal do cruzado do braço direito do alemão, a violência iria se transferir para a minha perna esquerda, e, em vez de campeão mundial de boxe, eu me tornaria campeão mundial de futebol”.

A infância em São Vicente 
e a paixão pela bola

Pepe, antes de se tornar jogador do Santos.
Crédito: www.giginarede.com.br
“Em 1942, eu tinha 7 anos, mudamos para São Vicente, onde meu pai comprou uma mercearia chamada Central. Logo fizemos amizade com os garotos das ruas próximas, e eu e meu irmão fundamos o Infantil Alvinegro. Minha mãe costurou os distintivos nas humildes camisas brancas com as iniciais I.A.N. em forma de triângulo.

Em 1947, já falavam muito sobre meu pé esquerdo. O Infantil Alvinegro não existia mais (tinha “estourado”, como se falava na época). Os dois rivais na Vila Melo, onde morávamos, eram agora o Comercial F.C. da rua General Marcondes Salgado e o Mota Lima, uma rua vizinha. Eu chegava a jogar nos dois, mas nessa ocasião, no Areião, como era chamado o nosso campo todo de areia e com duas traves de bambu, eu defendia o Mota Lima. Meu irmão Mário era zagueiro no Comercial.

Bonde na cidade de Santos.
Era um clássico no qual eu já fizera um golaço: vencíamos por 3 a 2. Naquela época ninguém tinha relógio e, assim, o tempo era determinado pela passagem do bonde 1 lá em cima. Era mais ou menos dessa forma: quando passavam dois bondes 1 em direção a São Vicente, virávamos. Mais dois bondes, o jogo acabava. Em resumo, meia hora por meia hora.

Já nos descontos (será que o bonde descarrilou? Não chegava nunca!), levantaram uma bola em nossa área. Eu subi e cabeceei para trás, marcando meu único gol contra. A boina com que eu jogava voou longe. Aos 12 anos, chorei muito. E mais ainda quando meu irmão tirou sarro. Foi um fatídico 3 a 3”.

Pelé, Pepe e Coutinho.
Pepe chegou ao Santos e fez seu primeiro teste quando tinha 16 anos, em 1951. Jogava na meia-esquerda e seu chute poderoso com a perna esquerda começou a lhe garantir uma vaga no time infantil do Santos. Nas temporadas seguintes, 1952 e 1953, Pepe passou para os juvenis, já sob o comando do lendário técnico Lula. Foi dele o gol do título santista na categoria, com um golaço, uma bomba (para variar) disparada de 40 metros de distância contra o gol dos garotos do Jabaquara.

Em 1955, Pepe acabou sendo autor de um gol histórico em sua carreira. Havia 20 anos que o Santos FC não conquistava um título paulista e Pepe, que nem titular absoluto era (Tite era o titular da posição e Pepe só soube que iria entrar como titular na decisão no dia do jogo), acabou marcando contra o Taubaté o gol do título.

Pepe, primeiro agachado à esquerda
no time campeão paulista de 1955
A partir deste momento, Pepe nunca mais deixou de ser titular da equipe santista. O menino Pelé chegava a Vila Belmiro e o Santos passou a encantar o mundo com sua equipe fabulosa. Pepe, como todo o grupo santista, viajaram o mundo, colecionando histórias e aventuras. E seu chute poderoso com a perna esquerda, passava a fazer história...e estragos nos adversários...

“12 de agosto de 1956, torneio de classificação. Nem parecia uma tarde de inverno. Estava quente. Uma tarde com aquele tradicional mormaço santista. O inglês Hieger apitou e nós conseguimos, com um gol de Del Vecchio no primeiro tempo, a vitória sobre o esquadrão do São Paulo FC (...)

Alfredo Ramos
O lance mais curioso aconteceu ainda no primeiro tempo: falta na intermediária a nosso favor. Diante de uma barreira muito alta, eu me preparei para o chute. O segundo homem dos que ali estavam perfilados era Alfredo Ramos, grande jogador, apelidado de Polvo quando anos antes defendia o próprio Peixe: suas pernas eram muito longas e pareciam os tentáculos de um polvo. Apoiava bem e desarmava ainda melhor.

Pimba! Disparei muito forte em direção ao gol. A barreira estava no caminho e, nela, Alfredo Ramos. Seu rosto e nariz grande lembravam a figura do Amigo da Onça. A pelota atingiu em cheio o seu nariz. A barreira desmanchou, a jogada prosseguiu. Menos Alfredo, que, reto, foi caindo aos poucos para a frente. Desmaiou nocauteado.

O juiz parou o jogo e a maca levou para fora o atleta que, após os primeiros socorros, voltou a si. Uns vinte minutos depois, retornou ao jogo. Após a partida, os jornalistas e repórteres curiosos foram entrevistá-lo. Ele, espirituoso, levou na esportiva quando lhe perguntaram o que havia sentido com a bolada e o nocaute imprevisto. E respondeu:

– Bem, sentir eu não senti nada, mas vi umas borboletas voando e ouvi muitos passarinhos cantando!"

Pérolas do técnico Lula

Lula, técnico do Santos.
“México em 1959. Lula, técnico do Santos FC anunciou:

– Pessoal, hoje à noite vai haver festa em nossa homenagem. Vai ter mariatas e tudo!

Alguém contestou:
– Professor, essa turma que toca e canta são os “mariachis” e não “mariatas”.

Lula então apelou:
– Ô seu toupeira, vai ter tudo isso. Vêm os mariachis e também as mariatas que são as mulheres dos mariachis!"


Elas por elas – 1961

"Dorval, excelente ponteiro do Santos FC na fase de ouro, para os mais íntimos tinha o apelido de Macalé. 
Nas horas vagas, o “mulato nº 7” do Peixe gostava de se divertir. Apreciava festinhas, boates e uma gandaia sem excessos. Sabia que a velocidade era imprescindível no seu futebol, por isso não exagerava fora de campo.

Desta feita estávamos em Paris no ano de 1961, onde venceríamos o famoso torneio local. Os franceses ansiavam por ver em ação o maior time do mundo. 

O ataque então com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe era a coqueluche da platéia, notadamente pela presença do Rei da Bola. Os meus chutes também eram muito comentados, especialmente nas certeiras cobranças de faltas.

Pelé, Coutinho e Dorval.
Acontece que certa noite de folga vimos o Dorval namorando uma francesa em um cabaré onde fomos descontrair um pouco. A noite estava pegando no breu e vimos então os dois entrelaçados na boate, dançando rostos colados e trocando juras de amor sei lá em que idioma. Surpresa: em uma pausa da música, a gata pede licença ao Dorval para ir ao toalete e, sem que ele notasse, se dirigiu ao WC masculino.

Antes do seu retorno eu e mais dois ou três corremos ao Macalé e lhe falamos como amigos, do papelão que ele estava sendo vítima. E o Calvet terminou:
– Macalé, se manca, você ainda não percebeu que está sendo enganado, pois essa boneca que você está namorando e dançando de rosto colado é homem, não passa de um travesti! Ela se chama Brigitte coisa nenhuma!

Dorval não perdeu a pose e respondeu tranquilamente:
– Então está elas por elas, pois eu também a enganei; ela pensa que eu sou o Pelé!"

“Pepê” na França – 1962
Pepe disparando seu canhão.
“...Em 17 de outubro de 1962, seis dias após vencermos o Benfica em Lisboa por 5 a 2 e ganhar o título mundial, fomos fazer um amistoso contra o Racing de Paris (...) eu não tinha a menor condição de jogar, mas, atendendo aos apelos dos dirigentes e do empresário, já que meu nome era obrigatório no jogo, entrei em campo com distensão e tudo. Eu não podia correr, mas chutar eu podia. Os franceses viram, dessa maneira, uma bomba minha de falta no primeiro tempo em que joguei. 1 a 1. Saí no intervalo e colocamos um outro 5 a 2.

Os franceses admiravam demais os meus chutes, principalmente em bola parada. Quase todos os gols que marquei em território francês foram de longa distância e o mais curioso é que, com os estádios sempre cheios para ver a máquina santista, e até mesmo quando a falta era contra o Santos FC as pessoas pediam a uma só voz para eu chutar também contra meu time. Confesso que me emocionava ouvir aquele coro de quarenta mil vozes gritando “Pepê, Pepê, Pepê” para alvejar a meta alvinegra, o meu Santos FC.

Acreditem, foi verdade!"

“O autógrafo” – 1974

Coutinho e Pepe, eternos amigos.
"Findo o seu curto tempo como extraordinário futebolista, o ainda jovem Coutinho comandava com algum sucesso a equipe paranaense do Nove de Julho de Cornélio Procópio. Após uma bela vitória, em casa, contra um tradicional adversário e rival, o sempre espirituoso Couto foi deixando os vestiários, recebido festivamente por muitos admiradores à cata de autógrafos.

Papéis de todos os tipos foram manuseados até que um dos fãs não se conteve e exclamou em altos brados, dirigindo-se ao cansado e suarento Coutinho:

– Ei moço, eu pedi um autógrafo e você escreveu aqui no meu papel apenas Jesus Cristo. Por quê?

– Nada disso respondeu o Couto, sem perder a calma. – Você me deu o papel dizendo: Coloca o nome do senhor e foi o que eu fiz".

Mais informações sobre Pepe:

Com 405 gols marcados, o jogador é o segundo maior artilheiro do Santos, perdendo apenas para Pelé. Mas segundo sua teoria, ele mesmo é o maior artilheiro do clube. “O maior artilheiro do Santos Futebol Clube sou eu, afinal o Pelé não conta. Ele é de outro mundo”. 

José Macia é, sem dúvida, a personalidade que conquistou mais títulos no futebol mundial. Foram 93, somando os conquistados como jogador do Santos, da Seleção Brasileira e como treinador.

Como jogador, foram 27 títulos, 11 campeonatos Paulista (1955, 56, 58, 60, 61, 62, 64, 65, 67, 68 e 69), cinco Taças Brasil (1961, 62, 63, 64 e 65), duas Copas Libertadores (1962 e 63), dois Mundiais Interclubes (1962 e 63), quatro Torneios Rio-São Paulo (1959, 63, 64 e 66) e um título do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1968).

Pela seleção brasileira foram 22 gols em 40 jogos (29 vitórias, 3 empates e 9 derrotas), porém teve a frustração de não jogar nenhuma partida de Copa do Mundo. Era o titular absoluto da ponta esquerda, mas machucou-se antes do início das duas copas que participaria, ficou na reserva e não pôde jogar. Mas conquistou dois títulos, nos campeonatos em que esteve presente, em 1958 e 1962.

Após encerrar a carreira como jogador, Pepe atuou como treinador. Passou por diversos clubes, como Santos, Inter de Limeira, São Paulo, Guarani, Portuguesa, Ponte Preta e Portuguesa Santista, Atlético-PR, entre outros.

Os títulos mais importantes como técnicos foram o Campeonato Brasileiro de 1986, pelo São Paulo Futebol Clube, detalhe, no mesmo ano, Pepe conduziu a Inter de Limeira para o título do Campeonato Paulista, e o Campeonato Paulista de 1973, quando dirigiu o Rei Pelé na conquista do seu último título pelo Santos.









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