segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Paulo Leminski e o futebol


Entre os vários craques da literatura brasileira que já passaram pelo Literatura na Arquibancada, o poeta, escritor e tradutor, Paulo Leminski talvez seja o que menos tenha escrito sobre o tema futebol, o que não o impedia, claro, de torcer pelo seu clube de coração a sua maneira. E a descoberta do tal time e de que maneira o poeta Leminski lidava com o futebol estão abaixo: um atleticano, com certeza.

Coritiba, campeão brasileiro de 1985.

O mais curioso é que Leminski deixou muito dos torcedores atleticanos em dúvida quando escreveu a “Declaração Alviverde”, um texto que parece uma heresia para um rubro-negro, pois nele o poeta destaca a conquista mais importante na história do arquirrival Coritiba, campeão brasileiro em 1985. 

Mas é aí que surge o jeito diferente de Leminski enxergar o futebol...

Uma declaração alviverde (por um poeta atleticano)

Torcida do Coritiba comemorando nas ruas
o título brasileiro de 1985.

“Hoje, quinta-feira, 1 de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde. Os passarinhos só diziam: Lela, Lela, Rafael, Rafael. E no ar pairava um forte cheiro de pólvora de foguete e pó-de-arroz. Nada mais me restava a não ser filosofar: "Não se pode ganhar sempre". E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim onde tremula o pavilhão rubro-negro e fiz descer a bandeira de meus sonhos. E foi com um misto de pesar e júbilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arquiadversário, hoje, aqui e agora, para sempre Campeão Brasileiro de 1985.


Um demônio (ou um anjo?) vestido de preto e vermelho (um Exu?) me sussurrava, brabo com o Tobi na grande área do Bangu: "Teu time é tua pátria, Traidor. Vendeste a alma por um escanteio, Vira-Casaca. Então, foi para isso que te demos tantas alegrias?" Nesse momento, recebi um passe do Índio e, vendo que eu estava em campo livre pela esquerda, o demônio rubro-negro preferiu a falta, mas, antes que me atingisse, toquei a bola na perna dele, e foi para lateral a meu favor.


Foi isso, tudo isso. E muito mais. Foi ver uma equipe coesa, coerente, bem orquestrada, enfrentar os Faixas pretas do futebol brasileiro (cariocas), e sair na frente. Foi ver um time de um Estado de poucas glórias atlético-esportivas explodir no “Templo máximo” do futebol brasileiro. Foi muito bom saber que futebol não é só de cariocas, paulistas, mineiros e gaúchos.

E, se o título foi nosso, pode bem ser de pernambucanos, baianos, catarinenses, capixabas, de goianos e matogrossenses, brancos, negros e mulatos queridos de meu Brasil, que escrevem com os pés a arte maior do meu país.


O futebol é o termômetro, a radiografia do Estado do Brasil. Seria por acaso que, nestes tempos de insuportável divida externa, nossos grandes craques estejam lá fora, na Europa, como os números que selam nossa dependência aos bancos estrangeiros? Não, com mel pênaltis, não. No Brasil, se o futebol vai bem é sinal de que as coisas estão indo bem. Se o futebol vai mal, algo vai mal na terra de Pelé, Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo e daquele reserva ponta esquerda do Náutico do Recife, do Ferroviário de Teresina, dos Nenecas, Tatas, Paquitos, Muçuns e Evaristos, que fazem as alegrias dos nossos domingos.


Este Título do Coritiba, de um time de tradição, mas interiorano, é um título da democracia, um Título da Nova República, um Título para todo mundo que só senta nas arquibancadas do Maracanã como crianças pobres em volta de uma grande fogueira esperando gritar "gol", como quem espera que lhe joguem a alegria de um pedaço de pão. Obrigado Coritiba, por essa alegria. Você esteve à altura do teu destino.”

Leminski gostava sim do futebol, não era um torcedor fanático como comprova fragmento do relato feito por Dante Mendonça, cronista e cartunista do jornal Paraná Online, membro da Academia Paranaense de Letras, publicado pelo site Furacao.com em março de 2007 sobre Paulo Leminski com o título “Poeta Atleticano”:

Luiz Antônio Solda.

“...Três testemunhas confirmam o que a torcida rubro-negra tinha quase certeza. Acima de qualquer suspeita, o coxa-branca Luiz Antônio Solda é o quase irmão do poeta que não deixa a menor dúvida. Parceiro de mesas e letras, o cartunista Solda jogava no time do polaco Leminski, daqueles que torcem distraídos, só quando se trata de grande evento, um Atletiba decisivo, uma final de Copa do Mundo. Daí deve ter nascido o título de um dos livros do poeta: ‘Distraídos venceremos’. ‘Na verdade, Leminski não gostava de futebol. Deve ser por isso que ele era atleticano’, diz com ironia o cartunista, ‘mas sempre que o Atlético perdia, lembro bem, ele chegava na agência de propaganda onde trabalhávamos se lamentando. 

E isso era quase sempre, dava até pena, porque o Atlético daquela época era freguês do Alto da Glória’.

Ernani Buchmann
O publicitário e escritor Ernani Buchmann é outra testemunha acima de qualquer suspeita. ‘Infelizmente, Leminski era atleticano. Mas não vamos exagerar. Era um atleticano light.’ Ex-presidente do Paraná Clube, várias vezes campeão paranaense, outro dos grandes orgulhos de Nani Buchmann foi ter merecido um poema do amigo Paulo, num dos raros versos do poeta dedicados ao futebol, senão o único. Está no livro ‘Não fosse isto E era menos Não fosse tanto E era quase’.

Quero a vitória do time de várzea / Valente / covarde / a derrota do campeão / 5 x 0 / em seu próprio chão / circo dentro do pão.

Talvez em função desses versos, muitos sustentassem que o poeta fosse torcedor do Combate Barreirinha, ou qualquer outro time do campeonato suburbano de Curitiba, para não dizer de várzea. Vale o que está escrito, mas o poeta é um fingidor.

Wilson Bueno

‘Eu já sabia!’, responde o escritor Wilson Bueno, companheiro de prosa e verso do polaco desde os tempos do “Solar da Fossa”, no Rio de Janeiro. Bueno confirma que o autor do “Catatau” era atleticano; e que todo poeta canta a vitória do mais fraco, a derrota do mais forte em seu próprio chão.

Quando o piá Wilson Bueno chegou à Curitiba, direto de Jaguapitã (PR), o Coritiba era o campeão. O Atlético, um coitado. Desde então, o escritor é mais um atleticano desatinado. Nas tardes de futebol, estende três bandeiras rubro-negras em três janelas de sua casa no Boa Vista, o famoso “Palacete do Tico-tico”, para o ódio mortal do vizinho coxa roxo que mora em frente.


 Atlético! Atlético! O poeta conhecia o teu valor. Não temia a própria morte, sentia que a camisa rubro-negra só se veste por amor."

Fonte:

Para saber mais sobre Paulo Leminsk, acessar:

Um comentário:

  1. Leminski, vc faz meu coração alviverde vibrar.

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