terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Parabéns, Zico


Zico completa 60 anos, domingo, dia 03 de março de 2013. Literatura na Arquibancada apresenta abaixo uma série especial sobre a vida do Galinho de Quintino, apresentada no ano passado por aqui. No futebol brasileiro, Zico é uma das figuras mais populares e premiadas por tudo que fez dentro dos gramados até quando parou de jogar definitivamente no ano de 1994.

Zico é dono de marcas impressionantes em sua vida profissional. É quase um Deus para a torcida do Flamengo. E não é à toa. Tornou-se o maior artilheiro na história do Maracanã com 333 gols.

Foi eleito como o terceiro maior jogador de futebol brasileiro do século 20, pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS). As honrarias não param por aí. Zico é um dos quatro brasileiros a figurar no Hall da Fama da Fifa (os outros são Pelé, Garrincha e Didi). A Fifa também o considerou o oitavo maior jogador do século 20 e no Brasil a revista Isto É colocou-o em nono lugar como Brasileiro do Século no esporte. Na Inglaterra, a revista World Soccer colocou-o em décimo lugar no ranking dos melhores jogadores de todos os tempos.

Estátua de Zico, no Japão.
Não é pouco. Apesar de todas essas conquistas Zico encerrou a carreira sem conseguir conquistar um título mundial pela Seleção Brasileira. 

No Japão, onde foi jogador e treinador, ganhou o apelido de “Deus do futebol”. Até estátua recebeu em homenagem por tudo que fez por lá.

Apesar de todas essas façanhas e o prestígio acumulado ao longo da carreira, Zico talvez tenha se tornado tão carismático entre os torcedores brasileiros por conta de uma característica pouco vista no mundo do futebol: a simplicidade.


Zico, técnico da Seleção do Iraque.
A partir de hoje, Literatura na Arquibancada começa uma pequena série especial em sua homenagem. 

A prova de que Zico é um homem que nunca se deixou levar pelo “poder” e a fama que o futebol traz é a de que ainda hoje é figura acessível a ponto de trocar e-mails com jornalistas para falar sobre sua vida. Literatura na Arquibancada encontrou Zico no Catar onde está concentrado para o jogo de amanhã (quarta-feira) da seleção do Iraque que ele comanda contra a seleção de Cingapura. 
Em breve teremos o “Galinho” por aqui, respondendo às perguntas que você pode fazer. Envie-as para podermos bater esse papo com Zico...

Mas para conhecer Zico de verdade, Literatura na Arquibancada selecionou um texto de sua autobiografia, lançada em 1996, pela editora FTD. É incrível como esse primeiro capítulo da obra revela traços e características que todos já conhecem em Zico. Mais do que isso, um texto que revela como o futebol é elemento formador de posturas e condutas ao longo da vida. Zico parece ter aprendido muito bem as lições recebidas.


Rua Lucinda Barbosa, 7

Zico com um ano de idade em sua casa, em Quintino.
Crédito: reprodução livro "Zico conta sua história".
Eu sou o Zico, filho do seu Antunes e da dona Matilde. Meu pai era um português brabo, de Tondelas, perto de Coimbra. Trabalhou em padaria, foi alfaiate, e por pouco não seguiu a carreira de goleiro no futebol profissional. Enfim, deu duro a vida inteira para nunca deixar faltar nada dentro de casa.

Nasci numa rua chamada Lucinda Barbosa, em Quintino, um subúrbio do Rio de Janeiro, em 3 de março de 1953. Minha mãe tem horror a hospital e por isso deu à luz em casa, com a ajuda de uma parteira amiga da gente – bem como dona Matilde queria e como muita gente da vizinhança fazia naquele tempo. Sou o caçula de uma família numerosa. Quando nasci, meu pai tinha cinqüenta e um anos. Minha mãe diz que fui muito preguiçoso – demorei a falar e mamei até os seis anos de idade.

Zico e os irmãos boleiros.
Crédito: www.ziconarede.com.br
Nunca liguei muito para comida quando era criança. Gostava mesmo era de batata frita. Do resto, não fazia questão. Pode ser por isso, e por ter sido um menino franzino que até parecia meio fraquinho, que fui protegido demais durante toda a minha infância, inclusive por meus irmãos.

Quando meu pai chegava à noite do trabalho, encontrava sempre a gente na rua, batendo bola. Daí, do portão, soltava um berro num fôlego só:

– Zeca-Nando-Edu-Tonico-Zico-pra-dentro!

Zico com sua mãe, dona Matilde.
Crédito: www.ziconarede.com.br
E a gene obedecia no ato, na mesma corrida. Meu pai já esperava de cinto na mão, quando ficava sabendo de alguma desobediência da gente às leis da casa. Malcriação contra minha mãe, então, não tinha desculpa, nunca, mas também era difícil de acontecer.

O caso é que a fileira de irmãos ia passando, cada um levando a sua lambada – e eu era sempre poupado. Ou um irmão parava na frente do meu pai e me dava cobertura, para eu escapulir – mesmo à custa de uma sobra extra pra cima do meu protetor –, ou meu pai aliviava.

Zico entre os irmãos Tonico e Antunes.
Crédito: www.ziconarede.com.br
 
Ele nunca me encostou um dedo. Meu irmão Antunes, o mais velho, não teve a mesma sorte. Eu ouvia contarem do meu pai correndo furioso atrás do Antunes, com cinto na mão ou um pedaço de pau, se ele aprontasse alguma coisa que o desagradasse.

Lembro que ia ver o Antunes jogar bola detrás do gol dos adversários. Daí, quando o time dele marcava, eu cantava:

– Có-có-ri-cóóóó!


Zico, na equipe do Juventude, de Quintino, em 1966.
Não precisa dizer que ele é o menor da turma
(agachado, segundo da direita para a esquerda).
Crédito: www.ziconarede.com.br
Por causa disso, para pegarem a mania de me chamar de Galinho foi um pulo. E também para ganhar o apelido que tenho até hoje. Começaram me chamando de Arturzinho, depois de Artuzico e, para simplificar de vez, Zico, dado por minha prima Linda.

Meu pai era Flamengo doente! Já gostava de futebol quando chegou ao Brasil, e certo dia foi assistir a uma partida entre Flamengo e América. O América ganhou de 4 a 1, mas meu pai adorou a camisa do Flamengo. Foi paixão mesmo. Cada filho que nascia, comprava para ele um uniforme completo de jogador do Flamengo e outro da Seleção Brasileira.

José Antunes Coimbra, pai de Zico.
Mas nunca quis que filho nenhum virasse jogador de futebol. Jogador de futebol, naquele tempo, tinha fama de sujeito da noite, farrista, boêmio...vagabundo. E, além do mais, meu pai teve lá suas desilusões. Ainda moço, trabalhava numa padaria e agarrava no gol do Municipal, um time amador. Tinha liga, campeonato e tudo, e a equipe do velho Antunes foi campeã. Daí, foi chamado para treinar no Flamengo e o patrão dele, o dono da padaria, que era vascaíno, ameaçou:
– Se você for para o Flamengo, está despedido!
Ora, meu pai precisava do emprego, então...

Zico e os pais.
Crédito: www.ziconarede.com.br
Quando meu pai abriu a alfaiataria, eu saía da escola e, às vezes, ia para lá, me encontrar com ele. Voltávamos juntos para casa à noite. 

Achava sempre que era meio mágica – coisa bonita mesmo! – a concentração com que ele trabalhava. É como se, a cada ponto que dava, viesse à cabeça dele que a roupa que estava consertando ou fazendo fosse importante para a pessoa que iria vesti-la, que poderia ajudá-la a conseguir um emprego ou a aparecer bem diante de alguém de quem gostasse. 

Ou então era por ele mesmo, por respeito ao ofício que sustentava sua família, respeito até por si próprio, pelas coisas em que punha a mão e pelo que levava o nome dele. 

Fazer tudo com capricho era o orgulho e a dignidade dele.


Zico e o irmão Edu.
Crédito: www.ziconarede.com.br
Eu era muito agarrado ao meu irmão mais velho, o Antunes, que a gente lá em casa chamava de Zeca. Tanto que, para ver meu irmão jogar, matava aula. Nunca matei aula por nenhuma outra razão, só para ver o Antunes e o Edu jogarem. E perdi dois anos na escola por causa disso. O Antunes começou a treinar no Fluminense escondido do meu pai. Costumava ajudar o velho na alfaiataria, e foi a contragosto que papai deu a ele permissão para seguir carreira, depois que o Zeca arrasou, num treino do Fluminense.

Parecia que estava adivinhando o que iria acontecer. De fato, o Antunes sofreu muitas decepções. Foi lesado nos contratos, nas trocas de clube – e isso apesar de ser considerado um craque pela torcida e pela imprensa.

Zico e Edu.
Crédito: www.ziconarede.com.br
 
Mais tarde, o Edu também ia apanhar da vida, como jogador profissional. E vi tudo isso acontecer. Jogar com um time formado por mim e meus irmãos, lá na rua, ou mesmo em campeonatos de futebol de salão, era uma delícia. Sonhar em jogar no Flamengo, também. Mas logo deu para notar que futebol não era nem apenas brincadeira, nem coisa que garantisse sucesso na vida de ninguém. Era meio assustador aquele bando de dirigentes que passava lá por casa tentando convencer o Zeca a participar de falcatruas, a assinar contratos só para constar, nos quais o clube saía perdendo, meu irmão ganhava um trocado e ele, o cartola, embolsava uma fortuna. Um deles meu pai pessoalmente botou para correr.

Dida
Mas futebol era o que mais me dava prazer na vida. Conta lá em casa que, depois de papai e mamãe, a primeira palavra que eu disse foi Dida – meu primeiro e até hoje meu maior ídolo no futebol. Não era para menos. 

Foi o ano do tricampeonato do Flamengo, e o Dida foi o artilheiro da competição. O Dida, com sua postura elegante, chutando bem com as duas pernas e com aquela imensa alegria que passava ao comemorar o gol – jogar, para ele, era decididamente uma satisfação. 

E eu, de criança, já adorava bater bola, assistir às partidas, tudo o que dizia respeito a futebol me encantava.


Zico e seu maior ídolo, Dida.
Um amigo do bairro, o seu Ivo, trabalhava no Maracanã. Um dia – eu tinha doze anos –, ele passou lá por casa e me chamou para pisar no gramado. Era meu maior sonho!

Seu Ivo me levou ao Maracanã, e mais a um amigo meu da rua, e me deixou entrar no gramado pelo túnel central, de onde saem os árbitros. Esfreguei o pé naquela gramazinha gostosa, olhei em volta, para as arquibancadas vazias, sem conseguir dizer coisa nenhuma, como se estivesse vendo coisas acontecendo. Daí...

...Senti um arrepio.

Fonte:
“Zico conta sua história” (Editora FTD, 1996)

Para saber mais sobre a carreira e a vida de Zico, acessar o site: www.ziconarede.com.br/






Continuação da série especial sobre Zico:

3 comentários:

  1. Ligia Villarim19:18

    Eu sou feliz, eu vi Zico jogar!!!

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  2. Nunca fui tão feliz antes nem depois de Zico jogar....

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  3. Nunca fui tão feliz antes nem depois de Zico jogar....

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