quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Parabéns, Zico (parte 2)


Zico completa 60 anos, domingo, dia 03 de março de 2013. Literatura na Arquibancada apresenta abaixo uma série especial sobre a vida do Galinho de Quintino, apresentada no ano passado por aqui. No futebol brasileiro é uma das figuras mais populares e premiadas por tudo que fez dentro dos gramados até quando parou de jogar definitivamente no ano de 1994.

Zico é dono de marcas impressionantes em sua vida profissional. É quase um Deus para a torcida do Flamengo. E não é a toa. Tornou-se o maior artilheiro na história do Maracanã com 333 gols.

Foi eleito como o terceiro maior jogador de futebol brasileiro do século 20, pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS). As honrarias não param por aí. Zico é um dos quatro brasileiros a figurar no Hall da Fama da Fifa (os outros são Pelé, Garrincha e Didi). A Fifa também o considerou o oitavo maior jogador do século 20 e no Brasil a revista Isto É colocou-o em nono lugar como Brasileiro do Século no esporte. Na Inglaterra, a revista World Soccer colocou-o em décimo lugar no ranking dos melhores jogadores de todos os tempos.

Não é pouco. Apesar de todas essas conquistas Zico encerrou a carreira sem conseguir conquistar um título mundial pela Seleção Brasileira. No Japão, onde foi jogador e treinador, ganhou o apelido de “Deus do futebol”. Até estátua recebeu em homenagem por tudo que fez por lá.

Apesar de todas essas façanhas e o prestígio acumulado ao longo da carreira, Zico talvez tenha se tornado tão carismático entre os torcedores brasileiros por conta de uma característica pouco vista no mundo do futebol: a simplicidade.

Hoje, Literatura na Arquibancada resgata um dos momentos mais complicados e sofridos na vida de Zico: o drama da contusão que por pouco não acaba com sua carreira e as cobranças pelo pênalti perdido na Copa do México, em 1986.

O texto abaixo faz parte da autobiografia de Zico, lançada em 1996, pela editora FTD: “Zico conta a sua história”.



Uma botinada e quatro cirurgias

Dia 29 de agosto, uma partida contra o Bangu. Recebi a bola na intermediária e parti para a área. Fugi da falta do primeiro zagueiro, que me deixou meio desequilibrado. O segundo veio para cima de mim, levou um drible e ainda tentou me parar na base do pescoção, mas me livrei dele também. Aí, veio o terceiro, voando baixo. Era o Márcio Nunes. Os pés dele passaram por cima da bola sem a menor preocupação em acertar nela: o alvo era meu joelho esquerdo. Pegou com tudo!

                                   Vídeo com entrevistas e cenas da contusão de Zico

Se, naquele momento, eu tivesse adivinhado o que me aguardaria nos próximos meses – na verdade, a última operação que realizei, em conseqüência, mesmo que indiretamente, dessa lesão, foi em 94 –, não sei qual teria sido minha atitude, ali, no momento. Talvez largasse tudo e fosse para casa aproveitar a vida.

Ou não...

É, acho que não agüentaria mesmo. Sempre disse que queria parar um dia com o futebol, e não que o futebol parasse comigo. Queria parar jogando, não por causa de uma lesão. E, depois, tinha a Copa para disputar, tinha tanta coisa que achava que ainda poderia obter do futebol, tanta coisa que eu achava que ainda poderia fazer...

E, se eu parasse, ia acordar toda manhã e pensar que ainda poderia estar jogando. Ia me xingar de covarde, de uma porção de coisas mais, para o resto da vida, por não ter tentado; ia ficar imaginando onde eu estaria, se não tivesse parado, o que estaria fazendo. Ia ter delírios, pesadelos, me vendo jogar uma ou outra partida, que eu só poderia assistir pela televisão.

“Vai ter o dia de parar. Claro que vai. Mas é diferente. Parar assim, cara, não dá!...Não dá!”.

Logo depois da contusão, fiquei vinte e um dias sem jogar. Voltei ao time do Flamengo, mas era evidente que eu não conseguia fazer nada direito com a bola. E havia a questão da convocação para a Copa, todo mundo só perguntando se eu teria condições de jogar no México. Eu queria jogar. A ansiedade dos outros era minha também. Mais do que qualquer um, queria minha chance de reparar a injustiça, como disse o Júnior.

No dia 21 de outubro, fui operado no Hospital Israelita de Belo Horizonte, para fazer uma artroscopia, um exame das articulações que também retira as partes lesionadas da cartilagem. A recuperação – quer dizer, até eu poder colocar o pé no chão outra vez – foi relativamente rápida, graças à técnica utilizada. Mas, dali para frente, minha velha conhecida, a sala de musculação, seria mais minha casa do que qualquer outro lugar no mundo. Em nenhum momento eu podia ter a certeza de que voltaria a jogar – e nem desconfiava do que ainda estava me esperando.

Precisava recuperar os movimentos e reverter a atrofia muscular da perna esquerda. A primeira vez que entrei em campo foi na pelada que eu e meus irmãos promovemos, lá em Quintino, tradicionalmente, na época do Natal – foi no dia 28 de dezembro. É um jogo beneficente, que arrecada fundos para a Funabem. Joguei apenas os primeiros quarenta e cinco minutos, mas já deu para sentir o gostinho. Comecei a ficar mais confiante. Acreditava que faltava pouco para ter vencido mais aquela...

Zico na Udinese.
Enquanto isso, o senhor Dunshee de Abranches dava uma entrevista dizendo que havia me vendido para a Itália porque, desde aquela época, eu já estaria “bichado” para o futebol.

Eu ainda me submeteria a uma rotina de tratamento muito dura, penosa...dolorida mesmo, às vezes, pois precisava forçar os músculos para reaver minha forma física. Buscava estímulo na minha vontade de jogar outra vez diante da torcida, e lá vinha aquele sujeito – e outros, fazendo coro, aproveitando para aparecer – dizendo uma coisa dessas, como se me apunhalasse pelas costas. Não respondi. Esperei, continuei meu tratamento.

No dia 17 de fevereiro, na véspera da convocação para a Copa do Mundo, Flamengo e Fluminense se enfrentavam no Maracanã. Desde a contusão, eu já havia participado de alguns jogos, sofrido lesões de menor gravidade, retornado à musculação e a outros procedimentos terapêuticos, e havia voltado a jogar...Telê estava no estádio e, por alguma razão, todos comentavam que ali seria decidida minha convocação para a Copa do Mundo. Depois de tudo o que eu já tinha passado, havia resolvido que não ia ficar de fora da Copa do México de jeito nenhum. Foi com essa disposição que entrei em campo.

Eu me matei naquela partida. Corri, marquei, dei bicicleta, driblei e lancei, fiz três gols na vitória por 4 a 1 do Flamengo. A certa altura, enlouquecido com o ritmo que nosso time estava impondo ao jogo, imprensado mesmo contra seu próprio campo, o Romerito – que deve ter dito aquilo de cabeça quente – chamou o Fluminense para quebrar o Flamengo e evitar a goleada.
– O que é isso, cara! – reclamei com ele.
– Não fala, não, que eu quebro você também.
Continuei jogando à vontade e o Romerito, como prova de que suas palavras devem ter-lhe pesado na consciência, sumiu do jogo.

Sócrates, Telê e Zico.
Para comemorar meu terceiro gol, quem não agüentou fui eu. Corri com o punho cerrado gritando:
– Bichado é a...

O carinho e o alívio da torcida, demonstrando que ela, fiel e generosamente, acompanhou meu drama e nunca deixou de querer o melhor para mim, além do meu próprio esforço, foram recompensados no sorriso que Telê – famoso por sua cara de zangado – deu para a tevê, quando, na saída do jogo, perguntaram se eu estava convocado. Contrariando um hábito seu, o de não adiantar informações à imprensa, aquele sorriso foi a mais eloqüente das respostas.

Eu havia reencontrado a torcida, com a qual sonhara em cada minuto durante o período de recuperação. Aquele rumor que ela faz, estremecendo o estádio, botando a coisa dentro da gente para transbordar a ponto de dar medo de não suportar a emoção – eu havia ganho aquilo de volta. Mas meus problemas estavam longe de terminar.

Continuei sofrendo contusões, e cheguei à Copa do Mundo sem estar na plenitude da minha forma. Mas acreditava que poderia jogar, que poderia ser útil ao time, do contrário eu próprio pediria meu desligamento da seleção, até para não provocar uma lesão irreversível. Nunca concordei, portanto, com a opção do Telê de só me lançar no final de cada jogo. Cheguei a declarar que, se era para ver se eu agüentava o tranco, preferia ser lançado no começo e jogar o quanto desse – e eu acreditava que conseguiria, sim, jogar as partidas do começo ao fim. Eu queria era ganhar a Copa.

Pênalti perdido por Zico, na Copa do México, em 1986.
Não deu...

Não fico me remoendo sobre aquele pênalti que perdi contra a França. Lamentei pela torcida, pela geração de jogadores que se despedia das Copas sem conseguir o título, e até por Telê, cuja filosofia de jogo merecia melhor sorte nos mundiais.

Para saber mais sobre a carreira e a vida de Zico, acessar o site: www.ziconarede.com.br/

Um comentário:

  1. marilene dabus16:59

    Eu ví o Zico jogar!!!!!!!!!!!!Fiz com ele a primeira grande entrevista em 1971 no Jornal dos Sports. A materia dizia: "hoje ele é o irmão do Edu,voces ainda vão ouvir muito falar nele"... não era profecia, era evidência...
    Obrigada, Zico, pelos momentos mágicos e alegrias que nos proporcionou, a Nação Rubro-Negra agradece!
    Marilene Dabus

    ResponderExcluir