quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O passarinho de Nelson Rodrigues


Na série especial sobre o centenário de Nelson Rodrigues mais uma crônica genial. Talvez a que sintetize o estilo e a forma com que Nelson enxergava o trabalho de um jornalista, esportivo ou não. O “acréscimo” à realidade sempre foi a sua marca registrada e nessa crônica, publicada na revista Manchete do dia 31 de março de 1956, Nelson fala sobre a falta de sensibilidade dos repórteres brasileiros presentes à cobertura da participação brasileira durante os Jogos Pan-Americanos daquele ano.

Jogadores da Seleção Brasileira que participaram
do Pan-Americano: da esquerda para a direita, Luizinho,
Bodinho, Larry, Ênio Andrade e Chinezinho.
Crédito: www.internacional.com.br
Tudo porque a equipe brasileira foi representada na competição por uma seleção formada só por gaúchos. Por causa de crônicas como essa, muitos críticos questionavam o extremo nacionalismo de seus textos. Como diria Nelson para eles: “o óbvio sempre será ululante”. Inspirado na sua maneira de pensar e escrever, o texto abaixo nos faz refletir sobre a produção da atual crônica esportiva onde faltaria, o que para Nelson era fundamental: “o fato em si mesmo vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação”.  

O passarinho
Olavo Bilac
Quando o Brasil levantou o Pan-Americano, eu só lamentei uma coisa: – que Bilac não estivesse vivo. Não o Bilac da “Frinéia”, do “Nunca morrer assim”, das “Virgens mortas”, mas sim o Bilac dos tiros de guerra. Infelizmente, não mais existem, nem os tiros, nem o poeta. 

E é pena. 

Outrora, cada acontecimento tinha um Homero à mão, ou um Camões, ou um Dante. Recheado de poesia, entupido de rimas, o fato adquiria uma dimensão nova e emocionante.

Ora, faltou, justamente, à vitória gaúcha, o seu poeta. Os correspondentes brasileiros, que estavam no México, deviam mandar, de lá, telegramas rimados, ungidos de histerismo cívico. Mas como estamos em crise de Bilacs, o fabuloso triunfo só inspirou mesmo uma pífia correspondência, que nos enche de humilhação patriótica e vergonha profissional. Cada cronista da delegação, em vez de babar materialmente de gozo, mandou dizer ao seu jornal o seguinte: – “que os argentinos jogaram mais, que os argentinos mereceram vencer e que os brasileiros estavam apáticos”.

Vejam vocês em que dá a mania da justiça e da objetividade! Um cronista apaixonado deveria de retocar o fato, transfigurá-lo, dramatizá-lo. Daria a estúpida e chata realidade um sopro de fantasia. Falaria com os arreganhos de um orador canastrão. Em vez disso, os rapazes cingiram-se a uma veracidade parva e abjeta. Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si mesmo vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação.

Por outras palavras: – os cronistas patrícios teriam que dizer, do México, que fomos os maiores, que teríamos papado o próprio escrete húngaro e que houve, no mínimo, umas 35 bolas na trave. 

Dirá alguém que seria uma inverdade. De acordo. Mas o fato ganharia em poesia, em ímpeto lírico, em violência dramática. 

E, além disso, ai do repórter no dia em que fosse um reles e subserviente reprodutor do fato. 

A arte jornalística consiste em pentear ou desgrenhar o acontecimento, e, de qualquer forma, negar a sua imagem autêntica e alvar.

Modelo de eficiência profissional foi aquele repórter que viu um incêndio. Entre parênteses: – já contei o episódio, mas vou repeti-lo, a título ilustrativo. O jornalista espia o fogo e conclui que se tratava, na verdade, de um incêndio vagabundo, uma vergonha de incêndio. Qualquer mãe de família o apagaria com um humilhante regador de jardim. Volta o repórter para a redação e, lá, escreve uma página de jornal sobre o fracassado sinistro. E mais: – põe um canário inventado no meio das labaredas, um canário que morre cantando. No dia seguinte, a edição esgotou-se. A cidade inteira, de ponta a ponta, chorou a irreparável perda do bicho.

Vejam vocês a lição de vida e de jornalismo: – com duas mentiras, o repórter alcançara um admirável resultado poético e dramático. 

O que faltou aos nossos correspondentes do México foi, justamente, o passarinho. Fizemos uma África miserável, uma ilíada tenebrosa, papamos o Chile, o Peru, o México, a Costa Rica e quase a Argentina. E nenhum dos confrades, adidos à delegação, lembrou-se de recriar o canário, de assassiná-lo outra vez. Sem passarinho, não há jornalismo possível.

Sobre o centenário de Nelson Rodrigues:
by Amorim
Anote em sua agenda, em agosto, entre os dias 21 e 23 acontece o "Literatura na Arquibancada 2012 - O centenário de Nelson Rodrigues". Nomes confirmados nos eventos do Rio de Janeiro e São Paulo: Ruy Castro (RJ e SP), Maurício Murad, Flavio Carneiro (RJ), Mauro Betting, Celso Unzelte, José Carlos Marques, Fátima Antunes e Matthew Shirts (SP).

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