quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Dia do Repórter

Geraldo Blota e Pelé

16 de fevereiro é o “Dia do Repórter”. Literatura na Arquibancada escolheu um pioneiro do jornalismo esportivo como forma de homenagear tantos outros profissionais surgidos nessa profissão complicada, mas apaixonante. Com certeza, os mais jovens jamais ouviram falar de seu nome, mas vale a pena conhecer a história desse profissional que abriu portas para que o jornalismo esportivo chegasse em seu atual estágio.

Geraldo Blota (esq) e seu irmão Blota Jr.
Seu nome é Geraldo Blota, o popular “GB” que colecionou na longa carreira jornalística feitos inesquecíveis em coberturas esportivas, especialmente nas diversas rádios e tevês em que trabalhou (rádios Jovem Pan, Tupi, TVs Record e Gazeta). GB aposentou-se em 1992 e faleceu em 2009, aos 83 anos. Ele era irmão de Blota Jr. famoso locutor e produtor da televisão brasileira.

GB era corintiano fanático e por conta disso arrumou eternas polêmicas na imprensa. Os textos abaixo integram dois livros, “Os donos do espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva no Brasil” (Editora Terceiro Nome, 2007) e “Diamante Negro – Biografia de Leônidas da Silva” (Cia dos Livros, 2010), ambos de André Ribeiro.

GB entrevistando Rivellino
(...) “Rebello Júnior, chefe do departamento de esportes e locutor número um da Rádio Bandeirantes, em 1948, recebeu do diretor artístico Edson Leite a sugestão (ou ordem) de colocar um repórter de campo na linha de impedimento, para poder registrar a infração no exato momento da jogada. A idéia inovadora era fruto da observação dos constantes erros dos bandeirinhas durante a realização das partidas.

Geraldo Blota, jovem repórter esportivo, foi um dos primeiros escalados para a nova função: “sentava em um banquinho, na linha da grande área, e abria o microfone para denunciar a infração. Fazíamos isso porque Mário Vianna, comentarista de uma emissora concorrente do Rio de Janeiro, tinha o hábito de gritar: ‘iiiimpedidoooo’”. Blota era irmão do famoso locutor e animador de programas de auditório, Blota Júnior. A influência do irmão o levou também para o rádio.

O jovem Blota chegou de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, em 1938, quando tinha apenas 13 anos de idade, e seu primeiro trabalho foi como ator em um programa de rádio chamado Teatro Eduardinho, apresentado todos os domingos direto do Centro do Professorado Paulista. 

Durante a semana, o irmão famoso levava-o aos treinos do Corinthians, time do qual era torcedor fanático. Não demorou muito para que Geraldo Blota ganhasse gosto pelo rádio esportivo.

Além de excelente repórter, GB, apelido carinhoso dado por amigos de profissão, era um gozador de primeira. Revelar segredos dos bastidores das principais estrelas do rádio esportivo passou a ser rotina na vida profissional do novato repórter da Rádio Bandeirantes: “Rebelo tinha uma doença do sono e dormia com muita facilidade. Irradiando ele dormia. Certa vez ele botou Oberdã, goleiro do Palmeiras, jogando na ponta-direita. Eu e Libório, técnico de som, tivemos de colocar gelo na nuca dele diversas vezes. Esse era o ‘homem do gol inconfundível’”.

Nas horas vagas, quando não estava escalado para as transmissões, Geraldo Blota desempenhava uma nova função no principal estádio de futebol da capital paulista: “Eu era o locutor do Pacaembu. Dava as escalações das equipes. Tocava o hino dos times e no final colocava um disco e entrava dizendo: ‘e tudo mais é lero-lero. Discos de fato é na Casa Sotero’”.

GB (2º direita para a esquerda).
O talento nato de GB para narrar e interpretar obrigou-o a abandonar temporariamente os gramados de futebol para tornar-se animador de auditório dos principais programas dos consagrados Osvaldo Moles e Sílvio Mazuca e sua Orquestra. Mas um ano antes da Copa do Mundo ele estaria de volta para trabalhar nos bastidores do rádio esportivo. A experiência e prestígio adquiridos durante o curto período vivido ao lado de estrelas do rádio valeram-lhe um convite para integrar a equipe de esportes de Ari Barroso, na Rádio Tupi do Rio de Janeiro. No entanto, o que parecia um prêmio pela sua competência, tornou-se um problema.

O primeiro trabalho de Geraldo Blota na Tupi foi cobrir, em 1949, a concentração da Seleção Brasileira, que se preparava para as disputas do Sul-Americano e da Copa do Mundo na estância turística de Poços de Caldas, interior de Minas Gerais.

Poços de Caldas, na década de 1950, tradição em
receber a Seleção Brasileira. Na foto do
site www.memoriadepocos.com.br a seleção de 1958.
 
Mário Provenzano era o locutor da Rádio Tamoio, emissora que pertencia ao mesmo grupo da Tupi. Blota relembra das dificuldades e da disputa pela exclusividade das notícias na cobertura de um treino da seleção: “A gente pegava uma charretinha na porta do hotel onde a seleção estava hospedada e corria para o centro da cidade para passar um boletim inferior a um minuto. Os boletins eram enviados de uma casa alugada onde havia um transmissor de ondas curtas. Foi assim que dei um furo de reportagem, o corte de Pirillo. O médico da seleção colocava um boletim na porta do hotel e todo mundo informava quem aparecia contundido na lista. Era tudo que tínhamos para falar. Só que nesse dia, Dr. Newton Paes Barreto escreveu no tal boletim que Pirillo estava cortado da seleção. Ninguém viu. Peguei a notícia e corri, de charretinha, para o transmissor. Chegando ao local, Mário Provenzano, da Tamoio, estava terminando seu boletim para o Rio. Falava que todos os jogadores haviam passado pela revisão médica e que não haveria mais cortes na seleção. Sentei em seu lugar e abri dizendo que Pirillo acabava de ser cortado. Provenzano ficou doido de raiva. Isso porque éramos do mesmo grupo de emissora”.

Ari Barroso
Um ano depois, em 1950, uma mulher acabou causando a demissão de Geraldo Blota da emissora carioca: “Apaixonei-me por uma rádio-atriz que acabou sendo minha esposa durante 42 anos e que me deu seis filhos. Seu nome era Aidé Lira, uma das maiores estrelas do rádio. Por ciumeira da minha mulher acabei brigando com Deus e o mundo, inclusive com o meu chefe, Ari Barroso, que além de rescindir meu contrato, proibiu minha entrada na emissora”.

(...)
Na Jovem Pan, as inovações não paravam. Cláudio Carsughi trazia novidade para as transmissões ao fazer estatísticas dos jogos, lances e jogadas. Orlando Duarte, chamado de “o eclético” pelo amplo conhecimento esportivo, chegava para iniciar uma carreira de quase trinta anos na emissora.

GB e o ex-jogador Romeu, do Corinthians.
O que marcaria definitivamente a nova imagem da Jovem Pan, contudo, era o jeito descontraído e bem-humorado de suas transmissões. Geraldo Blota, ex-Record, foi contratado a peso de ouro para tornar-se o “GB”, sua marca registrada. Irreverente e brincalhão, a experiência em programas de variedades do rádio também dava ao repórter muita malandragem: “Nessa época não tinha paciência para ficar esperando os vestiários dos times abrirem após o final da partida. Cansei de entrevistar técnico de som como se fosse jogador para ir embora mais cedo”.

GB, com o eterno sorriso, ao lado de Joseval Peixoto,
seu grande parceiro de transmissões e Pedro Ronco.
Crédito: http://zenello.wordpress.com
Um dos recursos de GB como repórter de campo era um saco de risadas, acionado quando um jogador, especialmente do Corinthians, clube para o qual torcia, errava qualquer jogada. Sua invenção alegrava as transmissões da Jovem Pan, mas houve gente que não aceitou a brincadeira: “Tinha jogador que ficava louco de raiva. O camarada perdia uma falta e eu disparava o saco de risada. O jogador perdia um pênalti, e lá entrava o saco de risada. Tinha jogador que nesses lances de bola parada ficava olhando para mim, atrás do gol, puto da vida, pressionado, sabendo que se errasse iria ser sacaneado. Uma vez o Mirandinha, que eu achava um perna-de-pau, partiu para cima de mim nos vestiários”.

GB era tão corintiano que quando seu time perdia para o maior rival, o Palmeiras, a torcida em coro gritava das arquibancadas: “Chora GB, chora GB”.

GB (a direita), o primeiro a entrevistar
Pelé após o milésimo gol.
No final de 1969, a marcação do milésimo gol de Pelé virou a imprensa esportiva de cabeça para baixo. Um jornalista em especial teve razões de sobra para lembrar-se eternamente daquela noite de novembro no Maracanã: Geraldo Blota, o GB, que foi o primeiro entre dezenas de repórteres que se acotovelavam atrás do gol de Andrada, do Vasco da Gama, a entrevistar o rei do futebol. O microfone de GB foi o primeiro a registrar as palavras de Pelé. Pode parecer pouco, mas aquele instante era aguardado havia muitos anos.

Geraldo Blota relembra no livro Diamante Negro (Cia dos Livros, 2010) seu relacionamento com um dos maiores craques do futebol brasileiro e mundial.

(...)

Geraldo Blota, trabalhou durante vários anos, na rádio Panamericana, ao lado de Leônidas da Silva. GB idolatrava o Diamante Negro desde seus tempos de menino, na pacata cidade de Ribeirão Bonito, interior de São Paulo. Ali ouvira as transmissões dos gols de Leônidas na Copa de 1938, na França.

Ao completar 14 anos já estava morando em São Paulo e conheceu Leônidas bem de perto. Em 1942, quando o craque carioca assinou contrato com o São Paulo e foi morar na Rua Vergueiro, tornou-se praticamente vizinho de Geraldo Blota, que na mesma época se mudara para a Rua Gualaxos, perto dali. Para o futuro jornalista aquilo era o maior privilégio. Podia ver e até tocar o ídolo todos os dias, um sonho de milhares de garotos do seu tempo.

GB estudava no Colégio Santo Agostinho e várias vezes cabulou aulas só para ver Leônidas da Silva saindo de casa. Deixar de ir à escola não era falta grave, Ficar sem ver Leônidas e sua mulher, a loira Iracema, saírem de casa todos os dias, isso sim era uma falta grave. GB ficava horas e horas sentado na calçada em frente da casa do jogador. Quando o craque saía, bastava um aceno, mesmo que de longe, para satisfazê-lo. O dia ficava melhor quando dava um aceno para o Diamante Negro.

Em 1949, quando realizou seu primeiro trabalho como repórter esportivo, a seleção brasileira estava concentrada para a disputa do Campeonato Sul-Americano e o garoto, que ficava horas a espera de um aceno do ídolo, seria o responsável pelo anúncio, pelos microfones de uma rádio, de uma triste notícia sobre o craque da seleção brasileira. Geraldo Blota teve de anunciar o corte de Leônidas da seleção. Para GB essa foi a notícia mais triste que teve que dar no início de carreira como repórter esportivo.

Geraldo Blota também conviveu durante muito tempo com o comentarista Leônidas. Ele foi o seu carona número um nas longas viagens pelo interior, para cobrir os jogos do Campeonato Paulista pela Rádio Jovem Pan. “Macacão”. Era assim que GB chamava carinhosamente o amigo, a quem considerava extremamente envergonhado, às vezes até tímido, sem querer usufruir da fama que tinha. “Leônidas tinha fama de pão-duro; GB revelou que, além disso, era chegado a uma agiotagem. Emprestava dinheiro a juros pela ‘módica’ taxa de vinte por cento ao mês. Mas GB lembrava também que o amigo nunca cobrara, pelo menos dele, um centavo de seus empréstimos: ‘Ele me dizia, GB não precisa pagar nada, não preciso desse dinheirinho, acerta só esses jurinhos que está tudo bem...’”.

Leônidas da Silva (esq), Friedenreich e Pelé.
GB não sabia dizer se era uma prática comum de Leônidas, mas se outros amigos também chegaram a emprestar dinheiro dele, com essa taxa de juros, com certeza, Léo nunca mais precisaria trabalhar. GB se impressionava com a popularidade do ex-jogador: “Era um abre-portas. Se precisássemos resolver alguma coisa era só colocar o negrão na frente e pronto...”.

O primeiro grande evento que os dois cobriram juntos foi a Copa do Mundo do México, em 1970. Geraldo Blota já tinha presenciado o assédio de torcedores a Leônidas por aqui e achava coisa normal. Afinal, durante muitos anos fora o jogador mais famoso do Brasil. Mas no México, as cenas eram incríveis. Por onde passava, Leônidas era requisitado, tanto pelo meio esportivo como pelos fãs. Durante as refeições era comum ver pessoas pedindo autógrafo para o Diamante Negro.

Zizinho, craque da Copa de 1950 e Leônidas da Silva.
Por outro lado, GB constatou que Leônidas e os uruguaios não se entendiam muito bem. No trajeto do hotel ao Estádio Jalisco de Guadalajara para a transmissão de Brasil versus Uruguai, o ex-jogador não tocou no nome dos uruguaios e mais, fechou a cara quando viu o time uruguaio entrar em campo.

Leônidas revelou a Geraldo Blota que não era do tipo saudosista, mas aquelas camisas traziam à memória momentos inesquecíveis de alegria e tristeza. Alegria do tempo em que jogava contra a “Celeste Olímpica” marcando gols nas disputas da tradicional Copa Rio Branco. Tristeza por não ter conseguido realizar seu maior sonho como jogador de futebol, que era encerrar a carreira enfrentando os uruguaios na fatídica Copa de 1950.

Brasil x Uruguai, Copa de 1970.
No estádio, o local de transmissão dos repórteres uruguaios ficava bem próximo da Rádio Panamericana. Desde o início do jogo, Leônidas olhava para o uruguaio ao lado e, invariavelmente, encontrava o cidadão com o riso escancarado na boca. Aquilo foi deixando Leônidas nervoso. Ou o repórter não sabia quem estava provocando ou então era meio maluco. Quem lembrava de Leônidas em campo jamais se atreveria a fazer tamanha provocação. Mas o comentarista brasileiro ficou quieto, estava muito nervoso para poder falar. No momento em que o Uruguai fez um gol, o repórter uruguaio não se conteve e botou o dedo na cara de Leônidas: “Mira compañero, mira... porque tiene mucho mas”.

Clodoaldo autor do gol contra
o Uruguai, na Copa de 1970.
Leônidas queria enforcar o jornalista, mas a turma do “deixa-disso” entrou em cena. 

O jogo seguiu e no instante em que Clodoaldo arrancou rumo ao gol uruguaio, Leônidas já se preparava para comemorar. 

Assim que a bola entrou no gol do Uruguai, o Diamante Negro pegou sua máquina de escrever e não teve dúvidas: jogou-a com toda força em cima do repórter uruguaio. 

Foi um “sururu” danado, bordoadas para todos os lados; nem quem tentava acalmar os ânimos conseguiu controlar Leônidas. Parecia que era ele que estava em campo contra o Uruguai na Copa de1970.

GB e o hobby de voar.
Crédito: http://zenello.wordpress.com
Geraldo Blota voltaria a encontrar Leônidas em mais uma Copa do Mundo, em 1974, na Alemanha. GB trabalhava pela rádio Gazeta e Leônidas continuava na Panamericana, por isso tinham poucas oportunidades para conversar. Após essa competição, nunca mais se encontraram. Leônidas aposentou-se dois anos depois. GB ficou mais alguns anos na rádio, até chegar a vereador e vice-presidente da Câmara Municipal de São Paulo”.

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