quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

No pique...Exclamação !

Roberto Avallone.
Crédito: arquivo pessoal

No passado distante, especialmente nas décadas de 1950 e 1960, as crônicas recheavam as páginas dos principais jornais esportivos do país. Gente da mais alta competência literária assinava esse gênero do jornalismo, de norte a sul do país, fato que, hoje,infelizmente, por falta de talento ou espaço nos diários esportivos não se vê mais. As crônicas migraram para o espaço virtual, nas centenas de milhares de blogs existentes no mundo inteiro.

Nelson Rodrigues
Nomes como Nelson Rodrigues, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, na década de 1950 deixavam os leitores extasiados com suas histórias. Em São Paulo, na década de 1960, surgiu também uma geração de jornalistas, especialmente a partir da criação do caderno de Esportes do jornal O Estado de S.Paulo e da revista Placar, já no final da década, que eram craques na arte da crônica (evidentemente, sem compará-los aos monstros sagrados mencionados pouco acima).


Avallone, no comando da Mesa Redonda, da
TV Gazeta. Crédito: arquivo Roberto Avallone
Um deles, e talvez agora você leitor entenda e conheça um pouco mais o homem da foto que abre esse post, chama-se Roberto Avallone, dono de um texto limpo e inteligente, mas que acabou se tornando “famoso” no meio jornalístico esportivo por comandar uma das mais tradicionais mesas de debates da televisão brasileira, a famosa “Mesa Redonda”, da TV Gazeta de São Paulo.



Avallone, repórter, entrevistando
Luís Pereira, do Palmeiras.
Crédito: arquivo Roberto Avallone
A qualidade dos textos que escreveu durante 23 anos, a partir de 1966, no Jornal da Tarde, o JT, praticamente desapareceu. Na televisão, pelo menos em São Paulo, não há quem não o identifique pelo fanatismo pelo “Palestra”, o seu Palmeiras, que defendia com unhas e dentes, e, principalmente pela forma com que falava para o telespectador criando bordões inesquecíveis: “Palestra, vírgula, é o maior, exclamação!”.


Avallone e companheiros de redação do JT.
Crédito: arquivo Roberto Avallone.
Roberto Avallone trabalhou ainda em várias emissoras de televisão de São Paulo, e sua projeção no cenário nacional cresceu a partir da conquista dupla de dois prêmios, o Esso de jornalismo, como chefe da equipe nas coberturas das Copas do Mundo de 1978 e 1986. Em 2001, pouca gente deve saber, Avollone foi tocado novamente pelo “bichinho” da escrita. Publicou um livro, pequeno, com 95 páginas, mas rico em informações e sobretudo com a qualidade do texto que o marcou no início de carreira. As Incríveis Histórias do Futebol (Editora Tipo, 2001) é o único livro que Avallone escreveu, mas poderia muito bem ter muitos outros. Dificil, pois atualmente, após 35 anos de carreira, ele continuava na TV, com um programa semanal no canal CNT, aos domingos, além de manter um blog: blogdoavallone.blog.uol.com.br/.

Vale a pena recordar uma de suas crônicas publicada em seu único livro, As Incríveis Histórias do Futebol

Nela, Avallone revela como surgiu de verdade o famoso Carrossel Holandês, famoso sistema tático que encantou o mundo, na Copa de 1974, comandado pelo supercraque Cruyff. 

Repare leitor que, até na crônica, Avallone não deixa de lembrar os famosos bordões criados na TV, vírgula, exclamação!




Cruyff, o revolucionário.

Cruyff
Engraçada essa história de táticas, de estratégias no futebol. 
Antes, é claro, não era assim: os técnicos tinham a coragem por hábito e honra, deixando para os jogadores, em especial os craques, a missão de decidir. 

Sejamos sinceros: o comentarista Pelé não é nem de longe o gênio dos campos, preocupando-se apenas com a atuação individual e quase nunca tocando em esquemas. 

Esquemas, ora os esquemas para quem, como ele, decidia tudo com a arte, com os dribles, com a imaginação...

Zizinho
O leitor já ouviu falar de Zizinho, pois não? Dizem os que o viram jogar no auge, no Flamengo ou na Seleção Brasileira, que era quase um Pelé, bom no drible, no chute e na força com as bolas divididas. 

Pois este grande Zizinho quando técnico da Seleção Brasileira, em 1975, nos Jogos Panamericanos, chegou bem pertinho do ponta-esquerda Pita, um razoável jogador do Corinthians, e tentou ensinar, mostrar que no futebol não há segredos:

– Pita, é muito fácil, presta a atenção – falava Zizinho, paternalista. – Você pega a bola, dribla o primeiro, dribla o segundo, vai para cima do terceiro e, quando o goleiro sair, chuta no canto em que ele não está. Não é fácil?

Pita
Pita arregalou os olhos e ficou encabulado. Como fazer aquilo? 

Ora, driblar um, dois, três e enganar o goleiro era coisa de supercraque, como Zizinho, e para ele, Pita, dedicado e limitado ponta da Seleção?

Consta, então, que dificilmente um grande jogador dará um grande técnico. 

Ele vai pecar, logo logo, pela ilusão de querer ver no jogador comum a capacidade de realizar façanhas que só os gênios do campo podem fazer.




Zagallo

Veja a lista dos que, Monstros Sagrados dos campos, foram técnicos apenas razoáveis ou nem chegaram a ousar treinar: Pelé, Garrincha, Tostão, Rivellino, Clodoaldo, Gérson, Piazza, Djalma Santos, Gilmar dos Santos Neves, Zito, Vavá, tantos outros...Quem se transformou em técnico, tinha missão tática em campo como Zagallo, por exemplo.

Há porém, as santas exceções. E uma delas é Cruyff, Johan Cruyff, o magnífico jogador holandês, o astro da Copa de 1974, com suas arrancadas, com seus dribles largos e lançamentos geniais, num futebol que, visto à distância, dele fazia parecer um homem bem mais alto do que o loirinho de 1,78 metro que corria por todos os lados do campo.

E Cruyff, contrariando a regra, foi um grande técnico mesmo antes de exercer o ofício – o que aconteceu anos depois de encerrar a carreira, no Barcelona, o mesmo Barça que fez dele um Deus enquanto jogador, craque e artilheiro.

Mas bem antes de ser técnico eu repito, Cruyff deu ao mundo um toque de criatividade tática (exclamação), numa história que eu pretendo contar “no pique”. Qual foi a última grande revolução tática no futebol mundial? O Carrossel Holandês, que encantou o mundo – e quase levou o caneco – em 1974, na Alemanha (os alemães venceram os holandeses, na final, de virada, por 2 a 1), uma Copa histórica, em que o Brasil amargou uma derrota para a Holanda, outra para a Polônia e ficou em quarto lugar.

Rinus Michels e Cruyff.
E como nasceu o Carrossel? Exatamente assim: Cruyff e o técnico Rinus Michels, um professor de filosofia, estava à beira da piscina de um hotel quando Johan comentou: “Professor, veja como a água faz círculos concêntricos, ocupando o espaço da piscina...”. O velho Rinus, atento e inovador, em busca de uma tática revolucionária, captou a mensagem e não hesitou em emendar: “É verdade. Que tal fazermos isso dentro de campo com nossos homens?”.

E assim foi feito. Como nunca se vira antes, os holandeses ocuparam todos os espaços dos gramados da Copa da Alemanha. Comandados por Cruyff, é claro.

Um comentário:

  1. Impressionante como o Avallone novinho é a cara do Tulio Maravilha! Do tipo separados na maternidade.

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