sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Maestros da bola

Maestro João Carlos Martins.

O que seria mais difícil: comandar um grupo de 30 jogadores de futebol ou uma orquestra de músicos com mais de 100 pessoas?

Uma boa dica para ajudar na resposta pode vir da reflexão sobre o momento em que acontecem erros dentro de um espetáculo, seja ele dentro de um gramado ou nos palcos onde as orquestras se apresentam. Quando um dos onze jogadores em campo erra, outros poderão socorrê-lo. Já em uma orquestra, se um único músico resolver desandar o compasso, o estrago é irreversível.

Equipe sub-15 do SPFC, no Instituto Bacarelli.
Futebol e orquestra tem muito mais coisas em comum do que se pensa. Tanto é verdade que alguns maestros consagrados da música brasileira já foram convidados para falar a grupo de jogadores em clubes de futebol no país.

Dois momentos recentes. O primeiro, em abril do ano passado, quando jovens da equipe sub-15 do São Paulo Futebol Clube visitaram a Orquestra Sinfônica Juvenil do Instituto Bacarelli, comandada pelo maestro Silvio Baccarelli e que está inserida na comunidade de Heliópolis, zona sul de São Paulo.

A iniciativa visava mostrar aos jovens como a coletividade, a união de todos, é essencial para se chegar a uma finalidade. 

A analogia com a música é evidente com o futebol, como por exemplo, a comparação do funcionamento de cada instrumento similar às diferentes posições dos jogadores em campo. A única diferença (ou semelhança), é que no futebol o maestro (mas nem sempre) é o treinador.

No início, os garotos acharam estranha a proposta da comissão técnica tricolor, composta pelo treinador, preparador físico e um psicólogo, mas durante a exibição do grupo musical começaram a curtir e a refletir sobre aquela proposta diferente. Tanto que a equipe do canal esportivo ESPN Brasil, que acompanhava o evento, decidiu propor uma troca de visitas. Os músicos do Instituto Bacarelli foram convidados a passar um dia no Centro de Treinamento do clube e conhecer a rotina de um jogador de futebol. A experiência em ambos os casos, resultou num belíssimo programa especial comandado pelo repórter André Plihal e exibido no final do ano passado pela emissora.

Maestro Benito Juarez.
O segundo momento, em novembro de 2009, aconteceu quando o consagrado maestro Benito Juarez, regente durante 25 anos da Sinfônica de Campinas, foi convidado pelos dirigentes da equipe do Audax (antigo PAEC – Pão de Açúcar Esporte Clube) para falar aos garotos que se preparavam para a disputa da Copa São Paulo de Juniores, edição 2010.

Juarez falou sobre a importância do grupo e da unidade em eventos coletivos, como no futebol ou em uma orquestra. O objetivo do encontro era mostrar aos jovens, mesmo através de uma outra realidade (música) as semelhanças existentes entre ambas atividades. E Benito Juarez mandou o seu recado explicando sobre “a importância do trabalho em equipe para que o TODO formado seja muito mais do que a simples soma das PARTES constituintes”.

Crédito: arquivo revista Placar, abril/1986.
Benito Juárez sabe do que está falando, tanto na música como no futebol. Torcedor assumido do Guarani de Campinas, ele já passou por poucas e boas por conta da enorme rivalidade existente em sua terra natal, Campinas. Em 1980, durante o aniversário da Ponte Preta, Benito Juárez e os 104 músicos que integravam na época a Orquestra Sinfônica de Campinas exibiram-se no estádio Moisés Lucarelli, pouco antes de um jogo contra o São Paulo Futebol Clube. Todos no estádio, evidentemente, torcedores da Ponte, sabiam que o maestro era um ilustre torcedor bugrino e por isso não perderam a oportunidade de lembrar o maestro de algo muito importante. Benito, um dos regentes de maior expressão no cenário artístico nacional e internacional, entre tantas regências consagrou-se com a apresentação da Ópera "O Guarani", de Carlos Gomes e por essa razão, quando estava com a batuta levantada para iniciar a apresentação, recebeu a advertência de um torcedor: “Olha aí, maestro, cuidado com o repertório. Não vá tocar “O Guarani” (revista Placar, abril/1986). Evidentemente, Benito Juárez seguiu o conselho do torcedor.

                                         Benito Juarez regendo Ópera "O Guarany"

Entre tantos maestros consagrados no Brasil, curioso que dois deles fossem torcedores de clubes com torcidas pequenas (pelo menos quando comparados com as principais equipes das capitais brasileiras). Se Benito Juárez era torcedor do Guarani, João Carlos Martins de tanto torcer pela Portuguesa de Desportos, tornou-se o primeiro Embaixador do clube paulistano.


E não é por acaso a honraria. O maestro conhece a história do clube, como torcedor, principalmente, indo aos estádios desde a infância e, mais recentemente, fazendo até apresentações dentro do gramado do Canindé, estádio da Portuguesa. Em entrevista recente dada ao site do GloboEsporte.com

“Eu tinha cinco anos de idade. Lembro que havia um campo no Ibirapuera, mas não era bem um campo, o que existia mesmo eram duas traves sem rede. Ficava atrás do gol, vendo o treino da Portuguesa. Nesse dia, Nininho cobrou um pênalti, e Caxambu, que era o goleiro, não segurou. A bola passou e bateu bem na minha cara. Acho que virei umas quatro vezes e desmaiei. Todos os jogadores da Portuguesa achavam que eu tinha morrido (risos). Fui abrindo o olho e percebendo que todos eles estavam me protegendo. Pelo carinho dos jogadores, acabei me apaixonando. A partir daí, virei torcedor fanático da Portuguesa”.

Quis o destino que essa verdadeira paixão pela Lusa tirasse do maestro João Carlos o que era mais importante para o desempenho de sua vida como músico. O talento precoce – ele começou a carreira internacional com apenas 18 anos – levou-o para Nova York. Na mesma reportagem anterior, o maestro revela a extrema coincidência trágica:

“Em 1964 ou 1965, eu estava em Nova York, olhei para o Central Park e vi um pessoal jogando bola. Desci correndo e era o time da Portuguesa, que estava disputando um torneio na cidade, e fui treinar com os jogadores. Batia bola lá, do meu jeito, mas era grosso (risos). Tive uma queda, e uma pedra rompeu um nervo da minha mão direita. Foi quando começou minha angústia. Foram 19 operações, até que perdi definitivamente as mãos para o piano”.

João Carlos Martins tornou-se um exemplo de dedicação e luta pela vida. Depois desse acidente em Nova York, anos depois, quando realizava um concerto em Sofia, na Bulgária, recebeu um golpe na cabeça durante um assalto e mais uma vez perdeu parte dos movimentos das mãos. João Carlos Martins pensou que nunca mais voltaria a tocar. Durante anos realizou dezenas de tratamentos. Achava que nunca mais iria tocar um piano novamente mas como um guerreiro descobriu uma maneira diferente – a única possível – utilizando os dedos que podia em cada mão.

Como maestro tinha dificuldades até para segurar a batuta ou virar as páginas das partituras dos concertos. Driblou mais essa dificuldade fazendo um trabalho minucioso de memorização de todas as notas.

Por toda essa luta, João Carlos Martins acabou homenageado pela escola de samba Vai-Vai, no carnaval do ano passado. O enredo “A música venceu” acabou campeão. Mas foi no programa de Jô Soares, da Rede Globo, que João Carlos Martins deu um verdadeiro show, emocionante, que levou até o apresentador às lágrimas. A interpretação da música “Eu sei que vou te amar”, é inesquecível, como se a letra desta música revelasse todo o amor do maestro pela sua Lusa e pela música...


E como última dica, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura do post já feito por aqui sobre o primeiro e único “teatro musical” regido pelo maestro Eleazar de Carvalho: “Santos Football Club”. Outra obra-prima da música erudita brasileira com o tema futebol.




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