domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jorge Futebol Amado


2012 foi o ano do centenário de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. A série de comemorações do centenário começou em agosto de 2011 e se estendeu por todo ano de 2012. Outra grande homenagem que o escritor baiano recebeu no ano de seu centenário foi durante o Carnaval, do Rio de Janeiro e de sua terra.


No Rio, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense desfilou com o samba-enredo “Jorge, amado Jorge”, baseado em suas obras. Na Bahia, ele foi tema do carnaval de Salvador e O País do Carnaval tema de camarote do circuito Barra-Ondina, referência a seu primeiro romance publicado em 1931, pela editora Schmidt, quando tinha apenas 18 anos.


Para conhecer a vida e a obra de Jorge Amado, nascido no dia 10 de agosto de 1912, em uma fazenda, em Ferradas, distrito de Itabuna, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura do site que a Companhia das Letras preparou sobre o escritor: http://www.jorgeamado.com.br/

Outra dica é acessar o site, www.releituras.com/jorgeamado_bio.asp


Jorge Amado, que morreu em agosto de 2001, poucos dias antes de completar 89 anos, deixou dezenas de obras traduzidas pelo mundo e entre elas há sim uma sobre o tema futebol, tema que o escritor baiano também adorava. 

Isso mesmo, apesar de pouco ter escrito sobre o tema Jorge Amado era também torcedor das arquibancadas.


O único livro dele com o tema futebol foi publicado em 1984, “A bola e o goleiro”, onde Jorge Amado fala da relação de carinho que a maioria dos brasileiros tem por este objeto tão simples e ao mesmo tempo fascinante. Como em quase todas as obras de Jorge Amado, o livro acabou traduzido para diversas línguas.

Ainda no site da Companhia da Letras, vemos a resenha do livro reeditado pela editora. Uma obra classificada como literatura infanto-juvenil, com ilustrações do craque Kiko Farkas, mas que todo adulto pode ver e ler com o mesmo prazer de livros "para adultos":

A bola e o goleiro

Conhecido pela alcunha de Cerca-Frango, o goleiro Bilô-Bilô era de uma incompetência espantosa debaixo das traves. Jogava num time fuleiro e, já no começo da carreira, colecionava os apelidos mais vexaminosos: Mão-Furada, Mão-Podre, Rei-do-Galinheiro.

A bola Fura-Redes, por sua vez, era a alegria dos artilheiros. Fazia gols olímpicos, de efeito, de letra, de placa, de bicicleta, de folha-seca. Seus apelidos eram enaltecedores: Esfera Mágica, Goleadora Genial, Pelota Invencível e Redonda Infernal. Ela estava no auge, cotada até para ser a bola oficial da Copa do Mundo.


Acontece que Fura-Redes se apaixona pelo frangueiro Bilô-Bilô e passa a fazer de tudo para cair nos braços do amado. O desastrado goleiro conhece então a glória dos estádios e se torna o ovacionado Pega-Tudo.

No dia da partida em que o Rei do Futebol poderia marcar seu milésimo gol, Fura-Redes se encontra num dilema: seu grande amor, o agora Pega-Tudo, está justo na meta adversária. Terá ela a ousadia de impedir o milésimo gol do Rei do Futebol para aninhar-se nos braços do amado?
Nesta narrativa infantil, a imparcial Fura-Redes - inimiga número um do zero a zero - acaba se apaixonando justamente por Bilô-Bilô, um goleiro que vivia às turras com as bolas mas que se deixa encantar pela generosa pelota. 

Com bom humor e romantismo, A bola e o goleiro mostra que dois seres com vocações opostas podem reconhecer a beleza de quem é diferente - e até se deixar conquistar por isso.


The Ball and the Goalie foi escrito em Salvador em janeiro de 1984. O filho do autor, João Jorge, lembra que o pai, “quando falava sobre futebol, usava uma linguagem antiga, cheia de termos ingleses: goleiro para ele era goal keeper, escanteio era corner”.

Para escrever este livro, Jorge Amado teve então de atualizar seu vocabulário futebolístico. 

João Jorge registra ainda que a edição portuguesa de A bola e o goleiro inclui um glossário, pois muitos termos lusitanos ligados ao futebol são diferentes dos usados no Brasil.



Além de ter sido publicado em Portugal, o texto ganhou traduções para o alemão, para o francês, para o italiano e para o espanhol. Trazia em sua primeira edição capa e ilustrações de Aldemir Martins. Em 2000, o livro ganhou novas imagens: os bordados de Antônia Diniz Dumont, Ângela, Martha, Marilu e Sávia Dumont, feitos sobre desenhos de Demóstenes Vargas.

Os times do coração de Jorge Amado eram o Ipiranga, na Bahia, e o Bangu, no Rio de Janeiro - dois clubes de origem operária.

Fonte:

Jorge Amado: fascínio pelos clubes de
origem operária, como o Bangu,
no Rio de Janeiro.



Mas o que o site da Companhia das Letras não mostra e o Literatura na Arquibancada conta para você, leitor, é de onde teria vindo a tal paixão do escritor baiano pelo futebol.

Jorge Amado era torcedor do Ypiranga, de Salvador, Bahia. E não era torcedor apenas de falar, mas de ser visto nas arquibancadas dos estádios, como comprova a foto que a revista Placar publicou em sua edição de setembro de 1982.

Jorge Amado, nas arquibancadas, torcendo pelo Ypiranga.
Crédito: arquivo revista Placar, set/1982.


Jorge Amado era convidado da sétima edição da Bienal do Livro que acontecia em São Paulo e naquele dia explicou a razão de nunca ter abordado o futebol em sua vastíssima obra, pelo menos até aquele momento, pois dois anos depois ele escreveria o livro “A bola e o goleiro”: 
“Só escrevo sobre aquilo que conheço por ter vivido. Por isso, jamais escreveria um livro sobre futebol”.


Mas por qual razão Jorge Amado teria escolhido o Ypiranga e não um dos dois mais tradicionais clubes baianos, Vitória ou Bahia? E a resposta é encontrada no site do clube de coração do escritor:



Nas palavras de Jorge alguns caminhos para entender sua paixão pelo futebol. O clube baiano, o Ypiranga é tratado por seus torcedores como “O mais querido”.
É o terceiro clube com mais títulos baianos, depois do Bahia e do Vitória, com 10 conquistas no total.

O que certamente fascinou Jorge Amado foi a história da formação do Ypiranga, uma síntese da união dos pobres da cidade, uma equipe formada pela classe trabalhadora e excluídos sociais, temas vistos em diversas de suas obras literárias. O Ypiranga foi o primeiro clube a romper como perfil elitista do esporte baiano, no início do século 20.

Ypiranga, campeão baiano de 1939.
Crédito: A Tribuna de Santos

Até que o Bahia surgisse na década de 1930, como grande papa-títulos do campeonato baiano, o Ypiranga era a equipe de maior torcida e o recordista de conquistas estaduais. Era o time da massa, dos feirantes, dos estivadores, enfim da classe operária. Para se ter ideia, nas duas primeiras décadas do século 20, a camisa do Ypiranga era a mais vendida nas lojas da capital baiana. Até o hino do clube era a música mais cantada.


O maior ídolo citado por Jorge Amado no depoimento resgatado pelo site do clube, Popó, surgiu neste período de glórias. Em 1917 e 1918, o Ypiranga conquista o bicampeonato baiano. 

E logo a seguir, outro bi, em 1920/1921, quando se tornou o maior vencedor do Estado com quatro títulos contra dois de Vitória, São Salvador e Fluminense. 

Em 1925, novo título, e, em 1928/1929, outro bicampeonato de forma invicta.


O ídolo a que se refere Jorge Amado, Popó, é o apelido de Apolinário Santana. Tão famoso que até nome de rua virou. Popó acabou se tornando o maior craque do esporte baiano nas décadas de 1920 e 1930. Ele parou de jogar em 1936 e morreu em 1955, mas não foram os títulos que marcaram o baiano Jorge Amado e todos os torcedores do Ypiranga. Popó tornou-se um símbolo, um líder revolucionário do Ypiranga, o primeiro clube a vencer o racismo no futebol brasileiro, no início do século passado. Seu exemplo teria sido pioneiro, sendo repetido a seguir no Vasco da Gama, no Rio de Janeiro e por outros clubes brasileiros.

Roberto Vieira, o médico craque da literatura esportiva.

Toda essa paixão pelo Ypiranga e pelo “herói” Popó, cultuadas por Jorge Amado pode ser melhor explicada num texto magnífico feito pelo médico e escritor pernambucano, Roberto Vieira, autor dos livros “Os clássicos dos clássicos – 100 anos de história” e “Pernambuco na Copa do Mundo (1930-1950). Aliás, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura do blog de Roberto, uma fonte inesgotável de histórias importantes do futebol brasileiro http://oblogdoroberto.zip.net/arch2011-07-31_2011-08-06.html. Repare na forma que Roberto escreve. É uma de suas características, a forma direta, frases curtas, impactantes, que nos faz vislumbrar cenários, refletir e se encantar, como fazia o velho mestre baiano, Jorge Amado.  

O comunista e a santa
Por Roberto Vieira

1987.
Estava em Salvador.
Cascavilhando a mim mesmo.
Cidade alta, velha pensão.
Um quartinho onde viveu o jovem Jorge Amado.
Paisagem diferente da mansão à beira mar onde morreu.
O homem que era nada.
O homem que tornou-se cravo e canela.
Lembro que me emocionei na paisagem do escritor ainda moço.
E fiquei olhando para aquele mar de todos os santos e comunistas.
A vida é o pelourinho da alma.
Dona Flor?
O remédio.
Durante minha estada em Salvador.
Futebol era assunto de conversa.
Popó!
Um senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios
me contou a seguinte história:
"Popó!"
Salvador de todos os santos e negros era branca.
Pelo menos nos times de futebol.
Ate chegar o Popó.
Popó de habilidade incomparável.


Jorge Amado gostava da bola.
De política.
Mas como futebol podia ser branco?
O Ypiranga se revolta.
"Trabalhadores de todo mundo, jogai bola!"
Salvador assiste horrorizada a plebe rude fazendo gol.
Jorge Amado se veste de amarelo.
Naquela mesma casa pobre.
Olhos postos no mar.
Popó marcando gols.
Jorge Amado não resiste.
Campo da Graça.
O jovem escritor grita gol de Popó.
Ao seu lado.
Uma menina e seu pai.
Pulam em delírio.
Jorge Amado se abraça aos dois.
O comunista e a santa.
Não resisti e perguntei:
"Santa?"
O velho senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios, sorri.
"Pois é... Irmã Dulce já era torcedora do Ypiranga!"

Irmã Dulce
Escureceu.
Já não havia homem velho.
Já não havia cigarro.
Apenas o mar da infinita Salvador.
Voltei caminhando para a Pousada.
O farol me indicando o descaminho.
Eu e meus pensamentos.
O futebol era Dona Flor e seus dois maridos.
Terra de comunistas.
E santos.
Todos os santos...


Para finalizar, Literatura na Arquibancada destaca um trecho de um texto do site da Companhia das Letras que define eternamente quem foi Jorge Amado:

“Apesar de sua amizade com personalidades de destaque  - como Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa, Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro e Gabriel Garcia Márquez - e do amplo reconhecimento de sua obra, Jorge Amado recusava pompa ou grandeza à sua trajetória de vida. Diz ele em Navegação de cabotagem: “Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá”. E mais adiante, anota: “Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem”.

2 comentários:

  1. André, que primor de textos, informações, fotos... sensacional! Parabéns!

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  2. Anônimo23:12

    parabéns pela reportagem, fiquei muito feliz por ver a foto do nosso grande escritor com a camisa do Bangu, meu clube do coração.

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