segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Jair Rodrigues e o futebol


Jair Rodrigues, o “cachorrão”, nos deixou. Há sete anos ele comemorou 50 anos de carreira. Uma trajetória em que o futebol sempre esteve presente em sua vida e obra, especialmente por conta de sua ligação com o rei do futebol, Pelé.


Jair Rodrigues é o que os torcedores costumam dizer “santista roxo”. E foi exatamente por causa de duas músicas interpretadas por ele com o tema futebol sobre a Copa do Mundo de 1962 que Jair Rodrigues acabou “estourando” na história da música brasileira. 

Jair fez “explodir” de vender e tocar (especialmente na Rádio Record) a composição feita por Alfredo Borba, “Marechal da Vitória”, apelido do chefe da delegação brasileira bicampeã do mundo no Chile. Jair também emprestou sua voz maravilhosa neste mesmo período de glória do futebol brasileira, para a música “Brasil Sensacional”. Com essas duas músicas despretensiosas o nome de Jair surgiu no cenário musical.

Jair Rodrigues, alfaiate.

Ele estava em São Paulo havia pouco tempo, no início da década de 1960, vindo do interior paulista, mais precisamente da cidade de São Carlos, onde vivia com a família humilde. Jair Rodrigues nasceu na cidade de Igarapava, em 1939, em meio a um canavial, e foi lá que ouviu os conselhos de sua mãe sobre qual carreira seguir:

“Tudo começou em Nova Europa (317 km da capital paulista), onde morei dos seis até os 14 anos. Minha mãe era muito católica e ia à missa todo fim de semana. Ela contava que, na primeira vez que fui a uma, eu não parava de olhar o coral. Então, ela me colocou para fazer parte. Quando eu tinha uns nove anos, minha mãe falou que estava na hora de eu aprender um ofício e me colocou numa alfaiataria. E nessa alfaiataria o pessoal gostava de música. Comecei a sair com eles, a ir a serestas, e assim a música foi entrando em mim (...) Quando eu tinha por volta de nove anos, ela me disse: ‘para com esse negócio de jogar bola, você nasceu para cantar’”.


No período mágico do clube de coração, o Santos FC de Pelé e Cia, Jair Rodrigues também era um rei, da MPB. Foi em 1966 que ele acabou calando a boca de vários críticos musicais da época com a música Disparada, talvez a mais bela de suas interpretações:

“É a música da minha vida. Foi com ela que consegui passar a ser visto como intérprete da música popular brasileira. Eu amo o samba, mas queria cantar outras coisas, queria diversificar
meu repertório. Até 1966, eu era chamado de o homem da "mãozinha", por causa de Deixa isso pra lá. Quando gravei ela, os críticos diziam que eu seria mais um sambista de uma música só. Aí quando me consagrei com Disparada, eles quebraram a cara e me pediram desculpas.” (www.samba-choro.com.br)

 

E foi exatamente assim, em uma disparada que Jair seguiu na carreira musical, sempre com o futebol ao seu lado, ou melhor, sempre seguindo os passos do Santos de Pelé. Mas a identificação de Jair com aquele time de camisas brancas começou bem antes:

“Sou santista desde criança. Quando eu era bem pequeno, meu irmão me levou para assistir um jogo de futebol e um dos times vestia branco. Aquilo me impressionou e a partida foi ótima. Foi quando descobri o Santos Futebol Clube, pensei:  ‘Minha nossa senhora’. Isso porque o Rei nem era o Rei ainda".

Capa da revista em que Jair Rodrigues faz
fotonovela com os jogadores do Santos FC.

Jair Rodrigues disse essa frase quando esteve na cidade de Santos, em 2004, quando o clube da Vila Belmiro completava 92 anos e ele estava lá para mais um dos milhares de shows feitos na longa carreira musical. Antes da apresentação ele foi levado pelos dirigentes santistas para conhecer o Museu do Santos. Ao ver as fotos de craques como Dorval, Zito, Gilmar, Clodoaldo, Jair revelou aos dirigentes que o acompanhavam todo o conhecimento que tinha sobre aquela turma de craques. 

Jair falava com conhecimento de causa. Nesta época, ele não saía do lado daquela turma, viajava até mesmo com a equipe nas excursões que o Santos fez aos montes. No auge dos festivais, Jair Rodrigues foi até tema de fotonovela ao lado dos craques santistas. Ele aparece aqui, na capa da Revista Melodias nº 125, e nas páginas internas ao lado dos jogadores do Santos.


Fotonovela de Jair Rodrigues com jogadores do Santos FC.

Mas entre todos os jogadores daquele time fantástico, Jair Rodrigues acabou dividindo sua majestade na música com o rei do futebol, Pelé. Os dois seguiram uma longa amizade, que dura até hoje. Pelé, que sempre se atreveu como compositor, encontrou em Jair um parceiro fiel. Gravou três músicas do rei do futebol: Recado à criança, em 1968; Cidade grande, em 1981; e Violeiro, violeiro, em 1982. Se como cantor Pelé é uma negação, Jair defende o amigo compositor:
"Pelé sempre compôs, mas foi tão grande como jogador que não deram muita atenção a ele como compositor.’’ (www.samba-choro.com.br)


Das três, vale a pena ver o vídeo produzido com os dois pelo programa Fantástico, da Rede Globo. Pelé compôs em Nova York a música Cidade Grande, para o LP de Jair Rodrigues. A letra fala sobre a insatisfação do jogador com a vida urbana. Mas não precisava exagerar, Pelé! É imperdível ver o rei do futebol caindo na lama na fazenda onde as cenas foram gravadas. Cenas históricas, inclusive de Pelé tirando leite de vaca !!! Jair, com aquele eterno sorriso, não para de rir o vídeo inteiro.


Se Jair Rodrigues nunca foi bom de bola, Pelé também nunca cantou como um rei. E sobre essa relação entre ambos, Jair não perdeu a oportunidade de alfinetar o craque dos gramados:

“Nos anos 60, nos tornamos amigos de tal maneira que aonde o Santos ia jogar eu ia junto. Tem uma história do lançamento de um livro dele, em 74, que ensinava algumas técnicas de futebol. O primeiro livro quem recebeu foi eu, com dedicatória: ‘Ao meu amigo Cachorrão, Jair Rodrigues, que aprenda a bater melhor na bola. Assinado: Pelé’. Eu pensei, vai ter troco. Quando ele fez a música Cidade Grande e fui gravar, soube que ele estava no Rio de Janeiro e chamei para botar a voz na música também. Ele enfatizou: ‘Pô Cachorrão, eu não sei cantar!’. Retruquei. ‘Não tem problema, eu também não sei jogar bola’. Fiz a dedicatória desse primeiro LP ao meu amigo Pelé, pedindo para que aprenda a cantar melhor. Daí empatamos”.

Tostão, Elizeth Cardoso, Pelé e Jair Rodrigues.

Prova de que a relação entre Pelé e Jair não era oportunista pelo sucesso que ambos tiveram, cada um em sua área de atuação, é outra interpretação do “Cachorrão”, esquecida em sua imensa discografia “Pelés e Manés”. O vídeo também foi produzido pelo programa Fantástico, da Rede Globo, em 1979, no estádio do Canindé, em São Paulo, onde jogavam Portuguesa e Guarani, pelo Campeonato Paulista (03/10/1979). Como curiosidade, Jair Rodrigues quase é atropelado pelo lateral-direito da Lusa (Edson) durante a gravação.


Em setembro de 2011, mesmo aos 72 anos, Jair Rodrigues continuava com sua rotina de shows pelo Brasil. Esteve em São Paulo para mais um, e antes dele foi convidado pela rádio Jovem Pan para uma entrevista. E é nela que Jair Rodrigues revela sua verdadeira paixão pelo futebol, longe dos craques famosos do Santos Futebol Clube.

Campo do Serra Morena, do Pari.
Crédito: http://historiasdopari.wordpress.com

Em mais de uma hora de conversa ao vivo, Jair Rodrigues relembra dos tempos em que jogava futebol, na várzea paulistana, em um tradicional clube chamado Serra Morena, do bairro do Pari. Era lateral-esquerdo. 

Os jogos eram disputados entre músicos famosos, entre eles Francisco Egídio e Agostinho dos Santos.





Francisco Egídio.


Durante a entrevista, Jair fez questão de mostrar aos entrevistadores que até hoje carregava nos pés a prova de suas andanças pelo futebol varzeano: uma unha machucado nunca curada:

“Francisco Egídio jogava todas as semanas. Era ponta-direita, parecia um touro bravo. Um dia um amigo o chamou de ‘churrasco de pneu’. Rapaz, ele ficou maluco. Pegou um paralelepípedo, queria jogar no cara...matar o cara...Atirou, só que pegou é no meu pé” (ele mostra o machucado e diz sorrindo: nunca mais melhorou).

Como o próprio Jair Rodrigues diz em um de seus maiores sucessos: “Deixa isso pra lá...”





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