quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Gilberto Freyre e o Futebol


Ele é considerado um dos maiores sociólogos do século 20. Gilberto Freyre, autor da obra-prima da literatura brasileira “Casa Grande & Senzala” também se preocupou desde o início de sua trajetória literária com o tema futebol. É o que nos revela Laércio Becker, de Curitiba, em mais um artigo especial de primeira.

Laércio Becker é autor do livro “Do fundo do baú”, disponível gratuitamente no link http://www.campeoesdofutebol.com.br/leitura/livro_do_fundo_do_bau.html. Não deixe de ler também outros artigos de Laércio Bekcer no site http://www.webartigos.com/autores/laerciobeckerhotmailcom/  

Gilberto Freyre e o futebol
Por Laércio Becker

Todos conhecem Gilberto Freyre (1900-1987), o antropólogo e sociólogo brasileiro autor da obra-prima Casa Grande & Senzala, além de Sobrados & Mucambos, Ordem e Progresso, Nordeste etc.

O que não é muito divulgado é que o imortal pernambucano, torcedor do Sport Club do Recife, também escreveu sobre futebol.

Seu primeiro texto sobre o assunto foi o artigo “Foot-ball mulato”, publicado originalmente no Diário de Pernambuco, em 18.06.1938 e reproduzido em obras posteriores, como em seu volume de Sociologia, e nas coletâneas Gilberto Freyre e Seleta (nesta, sob o título “Futebol brasileiro e dança”). Nesse artigo, já percebia o surgimento de um jeito brasileiro de jogar, mais ligeiro, “dançado” (poucos anos depois, Mário de Andrade também compararia o futebol brasileiro a um bailado), espontâneo, improvisado, surpreendente e artístico, que contrastava com o estilo europeu, especialmente inglês, mais geométrico, padronizado, uniformizado. Isso lá em 1938! O que prova que Gilberto Freyre estava não só bastante antenado com o que acontecia num esporte que ainda estava em sua terceira Copa do Mundo, como tinha grande percepção das duas grandes escolas ou estilos de jogo.

De seus textos sobre futebol, o mais famoso é, sem dúvida, o segundo que publicou. Trata-se do prefácio que redigiu para O negro no futebol brasileiro, livro de Mário Filho (irmão de Nelson Rodrigues, que deu nome ao Maracanã) que virou um clássico da sociologia do futebol brasileiro – apesar das críticas recentes de Antonio Jorge Soares (sobre o assunto, ver A invenção do país do futebol. Rio de Janeiro: Mauad, 2001). Nesse célebre prefácio, Gilberto Freyre constata como o futebol acabou se tornando, no Brasil, uma verdadeira instituição, aceita pelo governo, pela Igreja, pela imprensa e pela opinião pública, que canaliza os impulsos irracionais do brasileiro. Sem o futebol, acreditava Gilberto Freyre, esses impulsos provavelmente buscariam canais mais violentos de expressão, brutalizando outras instituições que hoje são muito mais “dóceis”, como a capoeira, o samba e a malandragem.

O terceiro texto de Gilberto Freyre sobre o assunto é “A propósito do futebol brasileiro”, de 18.06.1955, integrante da coluna “Pessoas, coisas e animais” que publicava na revista O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand. Nele, chama a si o pioneirismo de dar importância sociológica ao estilo brasileiro de jogar. E sugere que o fato de dizermos que o futebol brasileiro é “o mais bonito do mundo” poderia ser uma espécie de compensação estética para os fracassos técnicos que a Seleção acumulava, até então, nos campeonatos mundiais.

O quarto texto saiu na edição seguinte de sua coluna, uma semana depois: “Ainda a propósito do futebol brasileiro”.

Nele, destaca o caráter individualista do estilo brasileiro, pelas façanhas, iniciativas e improvisos individuais dos jogadores, que são comparados a heróis, como Leônidas da Silva. Diz, no entanto, que é preciso conciliar esse individualismo com disciplina, “sem a qual o esforço de um grupo se degrada, afinal, em histeria anárquica”.

O quinto texto é “Futebol desbrasileirado?”, publicado no Diário de Pernambuco de 30.06.1974. Nele, criticou o estilo da Seleção na primeira fase da Copa de 1974, como sendo muito calculado, ordenado, ou seja, muito inglês e pouco brasileiro.

Pergunta, então: “Que acontece, caro Mestre Zagalo? Ainda é tempo para uma reafirmação de brasileiridade no seu setor”. No fim, acaba por parabenizar Zagalo pelo jogo contra a Alemanha Oriental, a seu ver devidamente “reabrasileirado”.

Em 1976, Gilberto Freyre voltou ao futebol muito brevemente, em nota à 2ª edição de seu livro Ingleses no Brasil. Novamente compara o futebol brasileiro a uma “verdadeira dança afro-brasileira, com driblagens nunca imaginadas pelos seus inventores”.

Apesar disso, o autor reafirma origem britânica desse esporte: “Não se pode separar o futebol (association) de sua origem britânica para o considerar invenção brasileira ou afro-brasileira. O que ele é, na sua atual e triunfante expressão brasileira, é um jogo anglo-afro-brasileiro. Transculturação num dos seus melhores exemplos.”

Por fim, publicou o artigo “A propósito de Pelé”, na Folha de S. Paulo de 03.09.1977. Nele, comparou Pelé aos escritores Machado de Assis e Euclides da Cunha, ao compositor Heitor Villa-Lobos, ao arquiteto Oscar Niemeyer ao bailarino russo Nijinski. O que une todos eles? Responde o autor: a genialidade.

Gilberto Freyre, com esses escritos, deu os primeiros passos da antropologia no campo do futebol brasileiro. Passos depois seguidos por Roberto Damatta e tantos outros, como demonstra Luiz Henrique de Toledo, em vasto levantamento bibliográfico publicado no no 52 da Revista Brasileira de Informação Bibliográfica, da Anpocs.

Para você, pesquisador, a lista completa dos textos de Gilberto Freyre relacionados com o futebol: 

FREYRE, Gilberto. Foot-ball mulato. Diário de Pernambuco,
18.06.1938. Republicado em:
1) FREYRE, Gilberto. Sociologia. 5ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. v. 2, p. 431-3.
2) FREYRE, Gilberto. Futebol brasileiro e dança. In: Seleta. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio.
3) COUTINHO, Edilberto (org.). Gilberto Freyre. Rio de Janeiro: Agir, 1994. p. 53-60.

FREYRE, Gilberto. Prefácio. In: FILHO, Mário (Rodrigues). O negro no futebol brasileiro. Rio de
Janeiro: Pongetti, 1947. Republicado com as reedições da obra e também em: FREYRE,
Gilberto. Prefácios desgarrados. Rio de Janeiro: Cátedra, 1978. v. 1, p. 153-6.

FREYRE, Gilberto. A propósito de futebol brasileiro. O Cruzeiro, 18.06.1955, p. 28.


FREYRE, Gilberto. Ainda a propósito de futebol brasileiro. O Cruzeiro, 25.06.1955, p. 22.

FREYRE, Gilberto. Futebol desbrasileirado? Diário de Pernambuco, 30.06.1974.

FREYRE, Gilberto. Nota do autor à 2ª edição. Ingleses no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1977. p. XVII-XVIII.

FREYRE, Gilberto. A propósito de Pelé, Folha de S. Paulo, 03.09.1977.

Agora, as referências dos textos sobre Gilberto Freyre e o futebol:

CAPRARO, André Mendes. A vitória do futebol tipicamente brasileiro sobre o football de
origem britânica - Gilberto Freyre - uma nova identidade nacional e questões civilizatórias. In:
Anais Eletrônicos do Sétimo Simpósio Internacional Processo Civilizador: História, Civilização e
Educação. Piracicaba: Unimep, 2003.

COUTINHO, Edilberto. Gilberto Freyre e o futebol: a sociologia na marca do pênalti. In:
QUINTAS, Fátima (org.). O cotidiano em Gilberto Freyre. Recife: Massangana, 1982. p. 21-34.

Gilberto Freyre e o futebol arte. Rev. USP, nº 62, 2004.


GOMES, Ivan Marcelo. Deus no céu e o negro na terra: a visão de Gilberto Freyre sobre o
futebol brasileiro. Caos, nº 2, João Pessoa, nov. 2000.

MARANHÃO, Tiago Jorge F. de Albuquerque. Apolo versus Dionísio no campo da História: o
futebol em Gilberto Freyre. Comunicação apresentada no IV Seminário de História “A Razão
Histórica” – Universidade Católica de Pernambuco, novembro de 2003.

SOARES, Antonio Jorge. Futebol brasileiro e sociedade: a interpretação culturalista de Gilberto
Freyre. In: ALABARCES, Pablo (org.). Futbologías: fútbol, identidade y violencia en América
Latina. Buenos Aires: Clacso, 2003. p. 145-162.

SOARES, Antonio Jorge. A tradição freyreana na interpretação do Brasil e de seu futebol.
Pesquisa Histórica na Educação Física, v. 5, Aracruz-ES, p. 53-72, 2000.

Para saber mais sobre Gilberto Freyre, acessar:

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