terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Gay Talese: paixão pelo esporte


Ele é um mestre da literatura mundial. Gay Talese, um dos principais ícones do que ficou conhecido como “novo jornalismo”. E entre tantos livros de enorme sucesso mundial, Talese deixou em seu “Vida de Escritor” (Companhia das Letras, 2009), livro autobiográfico, uma verdadeira obra-prima sobre sua prosa com várias passagens sobre o tema esporte, especialmente o futebol. E não o futebol dos homens, mas sobre o futebol feminino. Mas tem também duas de suas paixões esportivas: beisebol e boxe.


Se ainda não leu, corra até a livraria para comprar. Literatura na Arquibancada destaca abaixo trecho do primeiro capítulo da obra.










Gay Talese, ao lado dos pais e da irmã.

“Não sou, nem nunca fui, um apreciador de futebol. É provável que isso se deva, em parte, à minha idade e ao fato de que, na adolescência, quando eu morava no litoral sul de Nova Jersey - há meio século - esse esporte fosse praticamente desconhecido dos americanos, a não ser os nascidos no exterior. E embora meu pai fosse nascido no exterior - era um sisudo alfaiate que se vestia com esmero, oriundo de uma aldeia calabresa, no sul da Itália, e naturalizado norte-americano em meados da década de 1920 -, quando conversava comigo sobre futebol ele se limitava a discorrer sobre as brigas de sua juventude relacionadas ao esporte, e sobre a frustração que sentia ao ver os colegas de escola jogando numa praça enquanto ele costurava à janela dos fundos de um ateliê próximo, onde trabalhava como aprendiz. No entanto, como muitas vezes me repetia, já naquela época ele sabia que aqueles jovens atletas (entre os quais havia irmãos e primos seus, menos conscienciosos) estavam perdendo tempo e pondo em perigo seu futuro, chutando bola de um lado para outro quando deveriam estar aprendendo um ofício digno e se preparando para pagar o alto preço de uma passagem para os Estados Unidos, onde poderiam alcançar a prosperidade como imigrantes.


Mas não, continuava ele, incansavelmente dedicado a me advertir: eles dissipavam suas tardes jogando futebol na praça, da mesma forma como mais tarde viriam a jogar atrás da cerca de arame farpado do campo de prisioneiros de guerra no norte da África em que foram metidos pelos aliados (aqueles que não foram mortos ou ficaram aleijados em combate) quando se renderam, em 1942, na qualidade de soldados de infantaria do exército derrotado de Mussolini. Vez por outra, eles enviavam cartas a meu pai, contando sobre o confinamento. Um dia, já perto do fim da Segunda Guerra Mundial, ele pôs de lado a correspondência e me disse, num tom de voz que prefiro interpretar como mais triste do que sarcástico: "Eles ainda estão jogando futebol!".


A final da Copa do Mundo feminina entre as equipes da China e dos Estados Unidos, disputada em 10 de julho de 1999, no Rose Bowl de Pasadena, na Califórnia, diante de 90 185 espectadores (o maior público de qualquer evento esportivo feminino na história) seria televisionada para quase 200 milhões de pessoas em todo o mundo. A transmissão ao vivo, que começaria nessa tarde de sábado às 12h30 na Califórnia, seria vista em Nova York às 3h30 da tarde e, na China, às 4h30 da manhã de domingo. Eu não tinha pensado em assistir ao jogo. Para aquele sábado, em Nova York, eu havia combinado uma partida de tênis em duplas, no Central Park, com velhos companheiros que, como eu, tinham vagas lembranças de jogar muito bem no passado.


Antes de sair para o Central Park, resolvi ligar a tv no jogo de beisebol entre os New York Mets e meus queridos Yankees, que começava à 1h15. Contra o conselho mil vezes repetido, embora às vezes sem muita convicção, de meu ranzinza e agora falecido pai, os Yankees conquistaram meu coração e me escravizaram para todo o sempre em fevereiro de 1944. Naquele ano, por causa do racionamento de gasolina provocado pela guerra e de seu efeito restritivo sobre os deslocamentos, a equipe transferiu seu tradicional campo de trei nos de primavera de Saint Petersburg, na Flórida, para um estádio menos quente, meio mambembe porém mais à mão, nas proximidades do aeroporto de Atlantic City, e suficientemente perto de minha escola para que ficássemos ali cabulando aulas. A partir de então, na guerra e na paz, durante um período que cobriu a carreira de Joe DiMaggio e Mickey Mantle e chegou até o estrelato, no fim do século, de recém-chegados como o shortstop Derek Jeter e o lançador substituto Mariano Ri vera, venho me alegrando com os triunfos dos New York Yankees e sofrido com seus reveses. E, nesse sábado de julho de 1999, eu estava contando com eles para descansar de várias semanas de extenuante batuque em minha máquina de escrever.

Gay Talese e a esposa Nan.

Decidi que precisava relaxar, deixar de lado meu livro por algum tempo. E prontamente aceitei a sugestão de minha mulher, feita dias antes, de que passássemos esse fim de semana tranquilamente em Nova York. Nossas duas filhas e seus namorados iriam de carro para a Jersey Shore,* para a casa de veraneio que tínhamos comprado perto da de meus pais, trinta anos antes, depois do nascimento de nossa segunda filha. Na noite de sábado, minha mãe, vigorosa viúva de 92 anos, tencionava levar as netas e seus namorados para jantar no cassino Taj Mahal, no calçadão de Atlantic City, onde ela gostava de saborear sua sobremesa e seu café, enquanto alimentava as máquinas caça-níqueis.

No mês anterior, minha adorável mulher e eu havíamos comemorado nosso quadragésimo aniversário de casamento, e espero não ser tachado de pouco romântico se disser que esse longo relacionamento deu certo, em parte, por termos normalmente vivido e trabalhado separados - eu como escritor- pesquisador de não ficção, frequentemente viajando por força do ofício, e ela como preparadora de textos e editora que, ao longo de todos esses anos, fez questão de não trabalhar para empresas com as quais eu estivesse ligado por contrato.


Mas quando estamos juntos sob o mesmo teto - desfrutando o que tomarei a liberdade de chamar uma harmoniosa e feliz convivência que começou em meados da década de 1950 num apartamento sem água quente em Greenwich Village, transferiu-se depois para Uptown e, finalmente com as crianças, para uma casa brownstone que até hoje é ocupada por nós (duas pessoas ágeis e ativas da terceira idade determinadas a não morrer num cruzeiro) -, devo admitir que frequentemente me aproveito da presença de minha mulher como profissional das letras, solicitando sua opinião não só sobre o que estou pensando em escrever, como também sobre o que já escrevi. E embora suas respostas, vez por outra, difiram das expressadas mais tarde pelo editor "oficial", considero mais uma bênção que um problema ter vários pontos de vista entre os quais escolher, e julgo essa situação mil vezes preferível à falta de ajuda na revisão textual de que tanto se queixam muitos de meus amigos escritores. Mas a escritores que deploram o fato de passarem a vida abandonados e solitários, quero dizer o seguinte: quando nosso trabalho não está indo bem, ter uma mulher editora pode ser até mais humilhante, principalmente durante os fins de semana e noites que passamos em casa, quando ela lê avidamente as palavras de outras pessoas, recostada em nosso leito conjugal, sob amarrotadas páginas de originais que cobrem nosso edredom de grife ou se escondem entre os lençóis, páginas que no devido tempo ela há de juntar e empilhar ordenadamente em seu criado-mudo antes de apagar a luz e, quem sabe, sonhar com o dia em que serão transformadas num livro muito bem encadernado e elogiado pela crítica.

Paul O'Neill

Seja como for, nesse fim de semana que decidimos (ela decidiu) passar em Nova York, enquanto ela estava lá em cima editando os capítulos de um original com o qual tínhamos dormido na noite de sexta-feira, eu estava embaixo, assistindo ao jogo Yankees-Mets. (Os Yankees fizeram logo 2 a 0 com o home run de Paul O'Neill na primeira entrada, depois do single de Bernie Williams.) Entre uma entrada e outra, eu antevia minha partida de tênis e lembrava a mim mesmo que devia lançar a bola mais alto quando tivesse o serviço e aproveitar todas as oportunidades de subir à rede.

Fui apresentado ao tênis por meu professor de educação física durante o primeiro ano do curso secundário, e muito embora nossa escola não tivesse, naquela época, uma equipe de tênis, eu treinava sempre que podia durante o recreio do meio-dia, pois jogava melhor que os desajeitados colegas que escolhia para adversários, os quais eram também meus subordinados na redação do jornal estudantil.


O fato de nunca ter me destacado em algum esporte importante (futebol americano, basquetebol, beisebol ou atletismo) não me aborrecia, já que as equipes de nossa escola eram medíocres nesses esportes. Ademais, como cronista e potencial crítico dos jogadores (além de trabalhar no jornal estudantil, eu escrevia sobre esportes e também sobre atividades escolares em minha ocupação extracurricular de correspondente sobre educação para o semanário de minha cidade natal e para o diário de Atlantic City), eu de repente experimentava a dúbia notoriedade de ser um jornalista, de ter minha imatura personalidade e identidade impulsionadas, senão valorizadas, por meus artigos assinados ou por minha foto, do tamanho de um selo postal, que aparecia sobre a minha coluna no semanário da cidade, para não falar dos muitos privilégios que estavam à minha disposição, como viajar para jogos em outras cidades no ônibus da equipe, numa poltrona reservada atrás do técnico, ou voltar depois, de carona, num cupê Buick com painel cromado, dirigido pela bela esposa do diretor de esportes.

Por piores que fossem os jogadores, pois constantemente tratavam mal a bola, chutando quase sempre para fora e desperdiçando a maioria das faltas, eu nunca os humilhava em letra de fôrma. Invariavelmente, encontrava meios de descrever com gentileza cada derrota da equipe, cada deficiência individual. Meu texto parecia ter uma queda precoce para artifícios de retórica e circunlóquios, muito antes que eu soubesse escrever direito essas palavras.


Minha atitude em relação ao jornalismo foi fortemente influenciada, durante to dos os meus anos de secundário, por um rebuscado romancista chamado Frank Yerby, um negro nascido na Geórgia que mais tarde se radicou na Espanha e que escrevia prolificamente sobre mulheres de anquinhas e cobertas de joias, com tantos excessos eróticos que, não fosse o floreado estilo de sua prosa - a qual de certa forma encobria o que para mim era assustadoramente obsceno -, seus livros teriam sido censurados em todos os estados americanos, e eu não teria tido a oportunidade de solicitá-los um por um, encabulado, à proprietária da locadora de livros de nossa cidade. Além disso, não teria tentado imitar, em minhas tentativas de encobrir as falhas dos atletas da escola, a facilidade de Yerby para usar eufemismos.

Embora meus textos evasivos e cheios de rodeios pudessem ser em parte atribuídos ao desejo de manter relações amistosas com os atletas e incentivá-los a conceder constantes entrevistas, creio que essas questões práticas tinham muito menos a ver com meu estilo do que minha própria identificação juvenil com a derrota e com o fato de que, com exceção da habilidade para escrever textos que douravam a dura crueza da realidade, eu não era capaz de fazer nada fora do comum. As notas que os professores me davam, tanto no curso primário quanto no secundário, sempre me colocavam na metade pior da classe.


Ao lado de química e matemática, inglês era a disciplina em que eu me saía pior. Em 1949, fui rejeitado pelas duas dúzias de faculdades a que me candidatei, em meu estado natal de Nova Jersey, e nos estados vizinhos de Pensilvânia e Nova York. Ter sido aceito pela Universidade do Alabama deveu-se inteiramente aos apelos de meu pai a um magnânimo médico de Birmingham que clinicava em nossa cidade e usava ternos cortados e costurados com perfeição por meu pai, e aos pedidos desse médico, em meu favor, a um antigo colega de classe e amigo de toda a vida, que na época ocupava o cargo de reitor de admissões daquela universidade.

Minhas principais conquistas durante os quatro anos que passei no campus da Universidade do Alabama foram ser nomeado editor de esportes do semanário da faculdade e a popularidade por assinar uma coluna intitulada "Sports Gay-zing", na qual, muitas vezes misturando humor com gentileza e opiniões veladas, mostrava pelo melhor ângulo possível algumas das piores exibições atléticas da gloriosa história da universidade.

Paul "Bear" Bryant

Até mesmo o time de futebol americano da Alabama, que durante muito tempo se habituara a fazer jus à reputação nacional de estar sempre entre os dez melhores, passou, enquanto estudei ali, por alguns de seus dias mais tristes desde a Guerra Civil. Embora sua glória tivesse sido restaurada depois de 1958, com a chegada do hoje lendário técnico Paul "Bear" Bryant, em minha época cada temporada foi, no mais das vezes, motivo de um clima de velório no estado a cada fim de semana. E o técnico do time, natural da Nova Inglaterra, chamado Harold "Red" Drew, tinha sua efígie sistematicamente queimada nas noites de sábado, no meio do campo, por bandos de calouros turbulentos e suas namoradas, que tinham passado a tarde a costurar panos de saco para produzir figuras, em tamanho natural, de olhos esbugalhados e rostos gorduchos e avermelhados com blush, que supostamente representavam os traços de Red Drew.

Ainda que Drew nunca se queixasse disso a mim ou ao pessoal do jornal, comecei a sentir pena dele, e sempre procurava inserir, em nossa página de esportes, um aspecto positivo sobre sua carreira em queda livre. Em uma de minhas colunas, lembrei a bravura que ele demonstrara ao servir a seu país como oficial da marinha na Primeira Guerra Mundial, destacando um episódio no qual ele havia saltado de um dirigível, a seiscentos metros de altura, sobre o golfo do México. Esse salto, em 1917, quando Drew era apenas um segundo-tenente, fez com que ele se tornasse o primeiro paraquedista da história da marinha, ou pelo menos foi isso que escrevi, depois de obter a informação num recorte amarelado de jornal colado num velho álbum que a mulher dele me emprestou.

Além disso, ilustrei minha matéria com uma antiga fotografia da Primeira Guerra, que mostrava um magro e espadaúdo segundo- tenente Drew diante de um caça biplano naval numa base no canal do Panamá, usando culotes, botas longas e um quepe de oficial que protegia seus olhos do sol mas não ocultava um meio-sorriso, o qual, eu esperava, meus leitores interpretariam como a marca de um guerreiro modesto e indômito - julgando, ingenuamente, que isso pudesse despertar neles o patriotismo e extinguir algumas das tochas noturnas que brandiam para vilipendiar o técnico Drew e também, às vezes, seu venerável assistente, Henry "Hank" Crisp, que tinha como especialidade dirigir a frouxa linha de defesa do time da Alabama.

Harold "Red" Drew.

Numa outra inútil tentativa de minha parte para inibir os torcedores e impedir que realizassem aquelas lamentáveis manifestações, perpetradas quase toda semana durante temporadas como a de 1951, quando o time perdeu seis de onze jogos, dramatizei a tragédia, com palavras extraídas em parte de Shakespeare:

Ser ou não ser, eis a questão: Drew ou Crisp, deverá um deles sofrer as pedras e setas com que a furiosa linha de defesa os alveja, ou insurgir-se contra cronistas de futebol e em luta pôr-lhes fim?

Ganhar, perder: ser batido, destroçado, esmagado e consumido pelo vaidoso Villanova [...]

Ah, dormir, pois nesse repouso da morte sonhamos com adversários que arremeteram e se foram, sobraçando bolas, pelos lados, por baixo e por cima dos muros da Bama [...]

Abandonei Red Drew à sua própria sorte depois que me formei, na primavera de 1953. Um ano mais tarde, li que ele havia pedido demissão, em vista dos parcos resultados obtidos por sua equipe - quatro vitórias, cinco derrotas e dois empates -, que poderiam ser considerados excelentes em comparação com os conseguidos por seu sucessor, J. B. "Ears" Whitworth, que em 1955 perdeu dez jogos, sem vencer um sequer. Nesses dois anos não voltei ao campus para assistir a nenhum desses confrontos, pois passei a maior parte do tempo prestando o serviço militar numa unidade de cavalaria mecanizada no Kentucky, acompanhando-a ainda depois que foi deslocada para a Alemanha, até que minha baixa, em junho de 1956, me permitiu aceitar um emprego de repórter no departamento de esportes do New York Times.


Na verdade eu já havia trabalhado por algum tempo no Times, no verão e no outono de 1953, antes de servir ao exército, tendo sido recomendado ao jornal por um colega e amigo da universidade, cujo tio de Mississippi, o jornalista e editor Turner Carledge, se tornara diretor de redação do Times em 1951. O sr. Carledge mexeu os pauzinhos para conseguir minha primeira contratação depois de me receber em sua sala e folhear alguns de meus recortes. E, durante o tempo que passei nas forças armadas, como bem se pode imaginar, não deixei nunca de manter contato com ele.

Foi ele quem mais tarde propôs que eu trabalhasse na editoria de esportes, que ele criticava abertamente devido ao que considerava uma tendência para cobrir eventos esportivos do mesmo jeito sério e enfadonho que na época o Times dispensava a todos os demais assuntos. Por algum motivo, porém, ele escolheu a editoria de esportes como a primeira a ser reformada, dando a entender que os textos ali poderiam ser mais leves, originais e (já que o Times não publicava histórias em quadrinhos) mais divertidos. E embora não dissesse nada que desabonasse explicitamente o editor de esportes, um velhinho gorducho e de bochechas rubras, conhecido na redação por seus longos almoços em Longchamps, fiquei com a impressão de que suas perspectivas na carreira não eram mais auspiciosas que as de Red Drew.

Não obstante, como jovem e ambicioso jornalista esportivo, continuei a ler e ser influenciado principalmente por ficcionistas, embora meus gostos já se afastassem da literatura licenciosa que havia esquentado meus hormônios no curso secundário. No Alabama, eu havia lido romances e contos de escritores como William Faulkner, Thomas Wolfe e outros autores sulistas indicados pelo sobrinho de Turner Carledge, rapaz possuidor de tamanha sensibilidade poética que jurou, de antemão, que jamais faria aquilo que mais tarde eu mesmo faria tão sofregamente - tirar proveito dos contatos do tio no mundo do jornalismo.


Todos os dias, no edifício do Times, eu registrava os nomes dos autores que via nas capas dos livros levados por meus colegas mais velhos nos elevadores e, de vez em quando, entreouvia conversas sobre esses livros durante o almoço na cantina. Como agora eu estava lendo suplementos literários e assinando a revista The New Yorker, começava a perceber que mesmo alguns ficcionistas de renome de vez em quando tratavam de eventos esportivos e de atletas em seus romances e contos. Ao ler exemplos dessa literatura, eu sempre tinha em mente que estava ante um texto que tinha sido imaginado, que aqueles textos eram, afinal, classificados como "ficção". No entanto, depois de ler um conto de John O'Hara, por exemplo, no qual o esotérico jogo de court tênis era descrito com precisão e fluência, tal como era praticado nas quadras internas do New York Racquet & Tennis Club, cujas paredes formavam estranhos ângulos - um local que eu havia visitado e que conhecia bem -, não me pareceu importante, nesse caso, se O'Hara estava ou não escrevendo "ficção". Na medida em que ele havia inserido em seu conto fatos e pormenores sobre o clube e o jogo, tinha cumprido as meticulosas normas de exatidão exigidas diariamente pelos editores da seção de esportes do Times.

Ademais, me impressionara a capacidade de O'Hara de me dar a sensação de estar lá, dentro do New York Racquet & Tennis Club, assistindo ao jogo sentado num banco que dava para a quadra; e eu também estava lá, num estádio de futebol americano, torcendo por um ágil halfback que abre caminho, às cotoveladas, para um touchdown no conto "A corrida de oitenta jardas", de Irwin Shaw; e também lá, tiritando ao lado de um caddy apaixonado, num campo de golfe coberto de neve, em "Sonhos de inverno", de F. Scott Fitzgerald; e lá, no salão de jantar de um hipódromo, sentado ao lado de um treinador de cavalos, que, erguendo os olhos do prato, vê um jóquei amigo - um profissional rabugento, que começa a envelhecer e agora tem dificuldade para controlar o peso -, e ouve-se o treinador fazer um comentário, que o jóquei não consegue ouvir (mas que é citado no trecho de "A balada do café triste", de Carson McCullers, que eu tinha lido na New Yorker): "Se ele come uma costelinha de cordeiro, uma hora depois a gente vê a forma dela em seu estômago".


Eu queria frases como essas em meus textos de esportes, mas sabia também que não poderia escrevê-las. Eu era um jornalista esportivo, e não um ficcionista. No entanto, se conseguisse me aproximar o suficiente de alguns daqueles atletas que eu estava agora conhecendo em Nova York e os convencessem a confiar em mim e me fazer confidências, como tinham feito muitos dos jogadores que eu havia conhecido no secundário e na universidade, quando costumava ter pena deles e animá-los após cada derrota - eu era a Miss Lonely hearts dos vestiários -, talvez pudesse escrever reportagens pessoais factualmente corretas, mas muito reveladoras, sobre atletas de primeira linha e usando seus nomes reais, e depois conseguir que essas histórias fossem publicadas no convencionalíssimo New York Times, já que Carledge estava tentando tornar mais solta a área em que eu trabalhava. Além disso, sem falsear os fatos, minha postura jornalística seria ficcional, com muitos detalhes pessoais, ambientação, diálogos e uma completa identificação com os personagens escolhidos e com seus conflitos.

E por isso, sentado no fundo da redação de esportes certa tarde, entrevistando um simpático visitante chamado Frank Gifford, o famoso halfback dos New York Giants, pensei em "A corrida de oitenta jardas"; e no Estádio Yankee, tentando me comunicar com o nada simpático Roger Maris, um rei de home runs de um time liderado pelo adorado Mickey Mantle, eu me solidarizei, como de hábito, com aqueles que são considerados os segundos melhores; e depois de ter me tornado amigo de um promissor pugilista chamado José Torres, encurtei minhas frases, como Hemingway, e escrevi:

Com 22 anos, o boxeador tem olhos tristes e escuros. Tem pequenas cicatrizes faciais irregulares e um nariz amassado por amadores obscuros que ele já esqueceu.

Já travou seis lutas profissionais como peso médio. Ninguém o derrotou. No armário do quarto mobiliado que lhe custa onze dólares por semana, na Union Street, 340, no Brooklyn, tem oito ternos, uma dúzia de camisas de seda e catorze pares de sapatos. Ele tem também uma namorada, chamada Ramona. Ambos nasceram em Porto Rico.

Toda semana, Ramona, também de 22 anos, e sua mãe limpam o quarto do boxeador. A mãe se queixa de que o quarto está sempre sujo, que ele nunca recolhe as meias, que ele tem sapatos demais. Logo, diz ele, vai se casar com Ramona e eles vão se mudar para Manhattan, perto do Ginásio Stillman, longe da mãe.

Floyd Patterson.

Embora o beisebol jogado pelos Yankees continuasse a despertar minha paixão de torcedor, era no domínio do boxe profissional - personificado por lutadores que se mostravam inevitavelmente decepcionados, que eram muitas vezes ignorados na derrota e que, com a mesma frequência dessas derrotas, pensavam na próxima luta - que eu tentava com mais afinco enobrecer as páginas de esportes do Times, tendo contado, nesse esforço, com a adesão de um ou dois romancistas próximos que frequentavam habitualmente os ringues. Para minha felicidade, no fim dos anos 50 e começo dos 60, as fileiras dos pesos pesados incluíam um campeão notavelmente franco e articulado chamado Floyd Patterson, que cheguei a conhecer tão bem que muitas vezes o considerava minha propriedade literária.  Fiz mais de trinta matérias sobre Patterson durante os nove anos em que fui repórter do Times (de 1956 a 1965), e, embora eu tivesse deixado o mundo esportivo em 1958, a fim de ter acesso a temas mais variados disponíveis no noticiário geral, ainda assim continuei a me apresentar como voluntário, constantemente, para pautas de esporte - sobretudo se fosse um jogo da World Series de que participassem os Yankees ou um combate de pesos pesados em que um dos pugilistas fosse Patterson.

Patterson x Liston.

Nas noites em que havia luta, eu às vezes passava uma hora ou mais, no fim da tarde, conversando com ele perto de sua cama numa suíte de hotel, cercado por seus treinadores e sparrings, que jogavam cartas na sala de jantar ou cochilavam num dos sofás. Mais tarde, quando se aproximava a hora da luta e eu me espremia na limusine que levava o lutador e seus convidados à arena, sentia o suor escorrer só de pensar no que poderia ser infligido ao corpo e ao rosto daquele homem gentil e bem-educado, sentado no fundo do carro, lançando olhares para as calçadas, com aparente indiferença, igualzinho, com seu terno clássico e sua comportada gravata de seda, a um executivo negro que trabalhasse na ibm. Eu me lembrava que dali a pouco ele estaria quase nu no ringue, e me vinham outros pensamentos que poderiam me parecer simplistas, melodramáticos ou banais exceto em momentos como aqueles, quando eu receava que poderiam faltar poucas horas para que Patterson sofresse uma grave lesão, fosse atingido e derrubado, inconsciente, porque na verdade não era cruel e talentoso o bastante, e porque era também muito leve para um peso pesado, talvez nove quilos mais leve, e com muito menor envergadura que seus principais oponentes - o ameaçador Sonny Liston e um homem de arrogante autoconfiança, Muhammed Ali. Mais tarde, ambos haveriam de massacrá-lo.

Floyd Patterson

Mas mesmo quando isso aconteceu, deixando-o de olhos inchados por trás dos óculos escuros e com as costelas tão machucadas que ele gemia a cada respiração, Patterson permitiu que eu fosse à sua casa para uma entrevista pós-luta, na qual ele respondeu a perguntas que talvez eu não tivesse feito se houvesse outros repórteres na sala. Em 1964, após um nocaute aplicado por Liston no primeiro assalto e depois de um editor do Times me haver dito que àquela altura o jornal estava farto de minhas histórias sobre Patterson, passei um fim de semana com ele a fim de fazer uma matéria para a Esquire, na qual, entre outras coisas, ele contava como é ser nocauteado.

* A expressão "Jersey Shore" designa a costa do estado de Nova Jersey voltada para o oceano Atlântico e as áreas turísticas e residenciais adjacentes. Inclui localidades como Asbury Park, Atlantic City, Avalon, Ocean City e os "Wildwoods". (N. T.)

Serviço

"VIDA DE ESCRITOR"
Autor: Gay Talese
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Preço sugerido: R$ 59,00
Editora Companhia das Letras
512 páginas

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