domingo, 19 de fevereiro de 2012

Futebol e Carnaval (final)


No artigo final da série especial sobre as ligações históricas entre o Carnaval e o futebol, duas das maiores paixões do povo brasileiro, Laércio Becker, do Paraná, revela as ligações entre os hinos dos clubes de futebol e as marchinhas de carnaval.


Não deixe de ler o livro de Laércio Becker, "Do fundo do baú", disponível gratuitamente no link http://www.campeoesdofutebol.com.br/leitura/livro_do_fundo_do_bau.html

Os hinos dos clubes e as marchinhas de carnaval
Por Laércio Becker
Como bem observa Celso Branco, os hinos dos clubes de futebol compostos na década de 10 ainda carregavam uma evidente “inspiração bélica”. Ela dava ao jogo um status de batalha e ao clube um caráter nitidamente épico, sublime e marcial. Tomemos por exemplo o Hino oficial do Fluminense, composto pelo compositor e violinista Antônio Cardoso de Menezes Filho. Sob um andamento Allegro marziale, sua letra fala em luta, “peleja incruenta”, “furor da batalha”, “avante, ao combate” e apresenta ainda os seguintes versos que sintetizam bem essa tendência militar dos hinos da época:

“Nossas bolas – são nossa metralha,
Um bom goal – nosso tiro de morte!”

[Obs.: o compositor do hino tricolor tem vários parentes ligados tanto ao carnaval quanto à música com temática futebolística. É filho do compositor e pianista Antônio Frederico Cardoso de Menezes e Sousa (1849-1915), autor de uma Marselhesa dos escravos e casado com a pianista Judite Ribas. É irmão do compositor e pianista Osvaldo Cardoso de Menezes (1893-1935, conhecido como Menezes Filho, que tocou em ranchos carnavalescos como o Kananga do Japão, de Sinhô, compôs o tango El Rey de la pelota, dedicado ao craque Arthur Friedenreich.

Carolina Cardoso de Menezes Cavalcanti
E é tio de Carolina Cardoso de Menezes Cavalcanti (1916-1999), pianista e compositora de vários estilos, inclusive de músicas de carnaval, autora de uma composição intitulada Fla-Flu. Apesar dessa proximidade familiar com o carnaval, o hino composto por Antônio Cardoso de Menezes Filho não tem nada da festa de Momo, senão teria antecipado em trinta anos a tendência inaugurada por Lamartine Babo, como veremos adiante.]

Na realidade, essa tradição bélica perdurou mais ou menos até a década de 50, tanto que, como lembra Bernardo Buarque de Hollanda, a famosa Charanga do Flamengo (ver o capítulo “Primeira torcida organizada”, do meu livro “Do fundo do baú”) era composta por músicos que tocavam na banda da Polícia Militar.

Ainda segundo Bernardo Buarque de Hollanda, nas décadas de 40 e 50, Mário Filho tinha por projeto trazer o carnaval para as torcidas de futebol. Nesse primeiro momento, os estádios e o repertório das charangas foram tomados pela marchinha de carnaval. Somente a partir do final dos anos 60 é que as torcidas organizadas dissidentes – as chamadas “torcidas jovens” – aumentaram a importância da percussão (bumbos, taróis etc.) e mudaram o ritmo para o samba. Vem daí as paródias de alguns sambas de enredo feitas pelas torcidas organizadas, p.ex., a versão flamenguista de Bahia de Todos os Deuses, do Salgueiro, 1969; e a versão tricolor de Bom, bonito e barato, da União da Ilha, 1980.

Lamartine Babo
Mas voltemos às marchinhas. Em boa parte, sua entronização no universo semiológico do futebol carioca se deve a Lamartine Babo, que, em 1945, compôs as marchas de: America, Bangu, Bonsucesso, Botafogo, Canto do Rio, Flamengo, Fluminense, Madureira, Olaria, São Cristóvão e Vasco. Essas marchas de Lalá foram adotadas como verdadeiros “hinos”, oficiais de alguns clubes, extra-oficiais de outros. Como Lamartine foi um grande compositor de marchinhas de carnaval, como “O teu cabelo não nega”, é claro que as marchas dos clubes têm um inegável DNA carnavalesco – porém, sem abrir mão do tom épico que vinha dos hinos dos anos 10. Dito isso, pode-se concluir que o ilustre torcedor do America realmente renovou o hinário dos clubes de futebol.

Heber de Bôscoli, Zezé Fonseca
e Yara Sales (Trio de Osso), com Lamartine Babo.
Arquivo Rádio Nacional do Rio de Janeiro
As composições foram lançadas semanalmente, toda terça-feira, num programa chamado “Trem da alegria”, na Rádio Mayrink Veiga. 

Lamartine, o guarda-freios, Héber de Bôscoli, o maquinista, e Yara Sales, a foguista, formavam o “Trio de Osso” (um trocadilho com o “Trio de Ouro, formado por Dalva de Oliveira, Herivelto Martins e Nilo Chagas). Uns dizem que foi um desafio de Bôscoli, que ele aceitou. Outros, que ele foi praticamente trancado num apartamento, obrigado a cumprir a tarefa. Poderíamos terminar aqui o capítulo, mas vamos um pouco adiante.



Lyrio Panicalli
Fato é que ele teve de se socorrer de algumas “citações” musicais, algumas “inspirações” e assim vai. Afinal, não há criatividade que resista a uma maratona dessas. Por isso, a marcha do Fluminense tem a letra de Lamartine, mas para a música ele aproveitou a marchinha Preto e branco, de Lyrio Panicalli (a letra era de Silvino Neto), um maestro paulista, filho de italianos e professor do maestro – e tricolor – Tom Jobim. A marcha do Vasco tem acordes inspirados no hino de Portugal. E a marcha do America (time de Lamartine) é inspirada numa canção dos remadores de Oxford.

Na marcha do Flamengo, a citação está na letra. E é justamente do primeiro verso. “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo” foi criação do rubronegro Júlio Silva, que algumas fontes chamam de Júlio Lopes (talvez tivesse ambos os sobrenomes). Com essa frase, em 1929, Júlio venceu um concurso lançado para escolher o melhor slogan para o clube. A marcha de Lamartine colocou-a em destaque e deu-lhe ainda mais popularidade.

Júlio Silva
Crédito: CPDoc JB - reprodução
O detalhe é que Júlio também foi um célebre folião. Lançou o famoso “Bloco do Eu Sozinho”. E assim, sozinho mesmo, carregando uma tabuleta que identificava seu solitário bloco, pulou os carnavais cariocas de 1919 até 1979, quando faleceu aos 84 anos de idade. Só faltou em 1972, devido à morte de um genro.

No Flamengo, além de torcedor fanático, foi treinador de quadros infantis, participou de várias regatas e até arbitrou partidas. Sozinho, só no carnaval.

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