terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Futebol de boteco


O Carnaval está acabando e amanhã a bola volta a rolar pelos gramados do Brasil. Futebol e Carnaval, duas das maiores festas populares do país e do mundo, tem sempre algo em comum até mesmo nas maneiras de se torcer. Por exemplo, há quem diga que assistir o desfile de Carnaval pela televisão é perda de tempo, tamanha a beleza e a energia que se vive no Sambódromo, especialmente o carioca. Com o futebol é a mesma coisa. Há quem ache que o torcedor da poltrona não sabe o que é estar em uma arquibancada.

E para você, torcedor, qual a melhor maneira de assistir a um jogo de futebol. O ensaísta, escritor e Mestre em “Teoria da Literatura” pela Universidade Federal de Santa Catarina, Victor da Rosa tem sua opinião muito bem formada. A crônica abaixo foi publicada originalmente no jornal Diário Catarinense, onde Victor da Rosa publica seus textos regularmente. Victor mantém o blog,
http://victordarosa.blogspot.com, que o Literatura na Arquibancada recomenda.

Futebol de boteco
Por Victor da Rosa

Com o aumento do preço dos ingressos nos estádios de futebol e a falta de opções na TV aberta, há alguns anos vem surgindo uma nova forma de assistir o mais distinto esporte bretão: nos botecos. Na verdade, não sei ao certo se os motivos são estes, pois não entendo nada do assunto; o que sei é que ver jogo de futebol em boteco é muito melhor.

Primeira coisa: você não precisa pegar aquelas filas com um monte de homem feio vestido com a mesma roupa. Não tem coisa pior do que fila em estádio de futebol. E quando você leva criança pequena? Cada cachorro quente é uma fila nova. Depois, tudo é caro.

Estádio do Avaí
No estádio do Avaí, por ficar do lado de um mangue, ainda tem o problema dos mosquitos. Além de tudo, você tem que passar no supermercado da Costeira e comprar um repelente. Mas o pior mesmo é quando, mesmo quando você enfrenta todas as adversidades, o teu time ainda perde.

Naturalmente, no boteco o teu time perde também. No dia em que perde no estádio, pode ter certeza que também vai perder no boteco. Isso é uma regra que não muda. Mas o que acontece? Você tem ar condicionado depois. 

Você não precisa pegar outra fila pra voltar pra casa. Tem também aquele garçom gente boa para quem você pode xingar o juiz. Tem o comentarista que vai analisar o jogo depois e dizer que o placar não foi justo. E finalmente você pode beber a saideira pra se consolar.

A terceira opção é ver futebol em casa, ao lado da sogra querendo atenção – pois no domingo a sogra sempre vai fazer uma visita –, com o Galvão Bueno narrando e o Caio Ribeiro dizendo que “futebol só se ganha jogando bola”. Sei não.

Boteco Arena
Em Florianópolis – e imagino que em outras cidades também, pois, salvo engano, em todo lugar tem futebol – surgiram vários bares que transmitem jogos. Tem o Querubim, na Lagoa; o Pelé Arena, no Centro; e mais um monte de copo sujo onde só passa Avaí e Figueirense. De todos, freqüento mais o Boteco Arena, conhecido carinhosamente também como Boteco do Bolão – quem for lá, descobre o motivo – pois fica do lado da minha casa, na Trindade, de modo que posso voltar me equilibrando depois.

A vantagem desses bares é que geralmente tem umas cinco ou seis televisões – no Arena, por exemplo, tem duas pequenas, três médias e um telão maior do que aquele do cinema do CIC – e por isso geralmente você consegue assistir o jogo que quiser. Até Brusque e Marcílio Dias passa, se você pedir com jeitinho. Por outro lado, sempre tem uma TV que dá azar. Aquela menorzinha que fica bem no canto... No ano passado, na mesma TV, meu time perdeu de 6 x 1 pro América MG e empatou com o Bahia em casa.

Aliás, com tanta televisão, além de assistir ao jogo que quiser, você acaba assistindo também aos jogos que não quer. Às vezes, dependendo da posição em que você senta, dá pra assistir três jogos ao mesmo tempo. É uma beleza. Não existe jogo ruim capaz de desanimar a tua vida. E toda hora tem alguém gritando gol.

– Gol!

– Gol de quem?

– Gol do Piracicaba...

Assistir futebol em boteco, ao mesmo tempo, tem o conforto da casa, pois você pode permanecer com as pernas pra cima tomando caipirinha, e tem também a vibração coletiva dos estádios: você abraça o cara da mesa do lado quando sai gol e, com sorte, se tiver mais de três marmanjos do teu time, ainda dá pra cantar o hino em coro batendo palma. Os puristas e defensores da experiência legítima que me perdoem, mas acho que essa é a melhor fórmula do nosso tempo.


Sobre Victor da Rosa
Victor da Rosa, ensaísta e escritor, é Mestre em “Teoria da Literatura” pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde defendeu uma dissertação sobre o poeta e artista visual catalão Joan Brossa, e doutorando pela mesma instituição, com uma pesquisa sobre Machado de Assis. Suas linhas de pesquisas envolvem textualidades contemporâneas, sobretudo as relações entre escrita e imagem. Publicou as narrativas de piano e flauta – fragmentos de um romance (Lumme Editor, 2007); organizou, em parceria com o poeta e tradutor Ronald Polito, a antologia 99 poemas, de Joan Brossa (Annablume/DemônioNegro, 2009); e organizou também o catálogo da exposição Casa, de Lucila Vilela, ao lado da artista.
Colaborou com resenhas, ensaios e poemas esparsos para diversos periódicos culturais: Mapa das Artes, Zunái, NetProcesso, Cronópios, Interartive, Sopro e Sibila; e para os suplementos culturais de dois jornais: ANotícia e Diário Catarinense. Como curador independente, realizou algumas exposições individuais e coletivas em Florianópolis: Fim de Partida, Desvio para o Vento, Dicionário de Idéias Feitas e Bloomsday; e também organizou durante quase dois anos uma Galeria Virtual no site Centopéia. Foi assessor de literatura do SESC de Santa Catarina durante dois anos; Jurado e Correspondente do Diário Catarinense no Festival de Cinema de Gramado; entre outras atividades. Em 2010, ganhou o Prêmio Rumos, de Crítica Literária, do Itaú Cultural. É cronista semanal do Diário Catarinense.

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