sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A estátua de Bellini que não é de Bellini


Alguns dias atrás o noticiário esportivo estampava nos principais jornais e sites da internet a foto do busto do goleiro Marcos, que anunciou a aposentadoria definitiva no futebol. Imediatamente, houve protestos, chiadeira geral, pois o rosto esculpido naquela estátua não tinha nada a ver com o grande Marcos, o São Marcos...

Estátua de Marcos.
Como estátuas normalmente são feitas para pessoas que já morreram, Marcos, nesse caso, vivíssimo, deve ter ficado horrorizado com o que pretendia ser uma justa homenagem pela longa carreira de sucesso no futebol.

Luiz Mendes
Pode parecer deselegante, mas se fosse Marcos,não permitiria que essa estátua fosse eternizada onde quer que seja colocada. Digo isso e explico a razão. Ou melhor, eu não, mas o saudoso e querido mestre Luiz Mendes, que em seu livro de memórias “7 mil horas de futebol” (Freitas Bastos Editora, 1998) revela uma história muito parecida com o que fizeram com o rosto de Marcos na tal estátua.

A estátua a que Luiz Mendes se refere ainda está lá, na frente do demolido estádio do Maracanã, mas não sabemos se continuará por lá quando o novo estádio estiver concluído para a Copa do Mundo. 

Se os arquitetos decidirem que a estátua de Bellini (sic) continue por lá, seria bom lerem essa história do mestre Luiz Mendes.





A estátua do rei da voz

Programa "Noite de Gala", da TV Rio.
O programa “Noite de Gala” da TV Rio, apresentado às segundas-feiras, era a maior sensação da televisão do Rio nos anos 50/60. O patrocinador era o Rei da Voz, loja de eletrodomésticos ligada às Casas Garson e tendo como um dos principais sócios e diretores o meu amigo Abraão Medina, provavelmente o maior incentivador dos shows televisivos do início da tevê brasileira.



Flávio Cavalcanti, na TV Rio.
Armando Nogueira escrevia os editorais do programa e eu os lia. Flávio Cavalcanti, Cécil Thiré, Abelardo Figueiredo foram diretores de “Noite de Gala”. Eu dei uma ideia para o querido Medina. Por que o programa não promovia a colocação de uma estátua de Bellini à frente do portão principal do Maracanã, no gesto famoso de levantar a Taça Jules Rimet?

Medina, com aquele grande dinamismo que lhe era característico, por ter gostado da ideia, mandou logo esculpir a estátua. E o Rei da Voz comandou a iniciativa de “Noite de Gala”, homenageando os campeões do mundo com a estátua de Bellini. Só que a cabeça da estátua não tem nada a ver com Bellini. É a cabeça de Francisco Alves, o “Rei da Voz”, o homem que havia inspirado o nome da loja de Medina. Claro que ninguém notou. Afinal, uma estátua nem sempre parece com a pessoa homenageada. O físico estava igual, era aquele corpo de atleta perfeito do capitão da seleção do Brasil.

Uma vez perguntei ao Medina de quem havia partido a iniciativa de colocar a cabeça de Francisco Alves no corpo de Bellini. Ele me disse que não havia notado isso, para ele aquela estátua era a reprodução em bronze de Hideraldo Luiz Bellini. Nem lhe passava pela cabeça – me disse – que houvessem feito essa simbiose, tanto que nem havia olhado para a cara da estátua. Aí eu disse: – “então olhe que você vai reconhecer o Chico Alves”. 

Tenho encontrado muita gente do futebol que estranha o fato de o homem da estátua não ter a menor semelhança fisionômica com o capitão Bellini. E nunca houve uma explicação para o fato.


Francisco Alves
Com o passar do tempo, as pessoas perderam a familiaridade com as feições de Bellini e devem ter esquecido também as de Francisco Alves. Se quiserem, no entanto, conferir a historinha aqui contada é só pegar velhas fotos do grande e saudoso cantor Francisco Alves – “O Rei da Voz”, confrontando-as com o rosto da estátua que fica defronte ao estádio Mário Filho. E se quiserem, confrontem também com as fotos de Bellini.

Vão ver que aquele rosto é igual ao de Francisco Alves e bem diferente do semblante de galã do grande capitão da Seleção Brasileira, vencedora do Campeonato Mundial da Suécia, em 1958! 

Um comentário:

  1. André:
    Acho fundamental a ideia de homenagear nossos ídolos em vida. E aprecio a ideia que meu amigo botafoguense Marcos Müller, o Mazolinha, criou do Panteão Botafoguense, na ala oeste do Engenhão. Já temos por lá estátuas de Mané Garrincha, Nilton Santos e Jairzinho, todas absolutamente inidentificáveis. Nenhuma delas se parece, nem de longe, com o homenageado.
    Por que isso? Não temos artistas à altura? Duvido! Mas o “artista” escolhido para criar as estátuas (uma iniciativa da torcida, encampada pelo Clube, paga com doações de torcedores, sem que o Clube nunca se metesse na história), a meu juízo, é péssimo escultor. Mas me parece que o “autor” da estátua do Marcão, ao contrário da imensa maioria da torcida brasileira, tem horror ao craque.
    O que me deixa pior é que eu soube que as estátuas de Heleno de Freitas, em São João Nepomucento e Rio de Janeiro, serão feitas pelo mesmo “artista”.
    Abs
    Cesar

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