sábado, 18 de fevereiro de 2012

Carnaval e Futebol (parte 2)


No segundo artigo da série especial sobre as ligações históricas entre o Carnaval e o futebol, duas das maiores paixões do povo brasileiro, Laércio Becker, do Paraná, faz curiosa reflexão em torno das origens de um dos maiores clássicos do futebol brasileiro, o Fla-Flu. Quem cunhou a expressão e até onde o Carnaval influenciou tal criação?


Não deixe de ler o livro de Laércio Becker, "Do fundo do baú", disponível gratuitamente no link http://www.campeoesdofutebol.com.br/leitura/livro_do_fundo_do_bau.html

A expressão Fla-Flu
Por Laércio Becker

Reza a lenda que o termo “Fla-Flu” foi cunhada pelo grande jornalista Mário Filho. Será?

Quem vai mais a fundo, inclusive o próprio Mário Filho, informa que quem inventou esse termo foi a imprensa, para ironizar o selecionado carioca que disputava o Campeonato Brasileiro de seleções estaduais. Isso foi em 1925. 
É que o scratch carioca, escalado pelo rubronegro Joaquim Guimarães e pelo tricolor Francisco Bueno (Chico Netto), só tinha jogadores do Flamengo e do Fluminense.


Estádio das Laranjeiras, 7/7/1912, o primeiro Fla-Flu
que terminou com o placar de 3 a 2 para o Fluminense.
Os jornais reclamavam que muitos jogadores bons do Vasco, do Botafogo e do America ficaram de fora. Poderiam ter chamado essa seleção de Flumengo ou Flaminense, como aqueles times fictícios das antigas revistinhas do Zé Carioca. Em vez disso, chamaram de Fla-Flu, tentando ridicularizar. Só que o combinado Fla-Flu venceu os paulistas e conquistou o título daquele ano. Era realmente a melhor seleção possível. O Fla-Flu, de termo pejorativo, virou expressão de respeito.

Mais tarde, em 1933 (cf. Fatima Antunes) ou 1936 (cf. Ruy Castro), Mário Filho aproveitou o nome Fla-Flu para denominar o clássico entre os dois grandes times que seu irmão Nelson Rodrigues chamava de “os irmãos Karamazov do futebol brasileiro”. 
Ou seja, inverteu o sentido: o que antes significava cooperação passou a simbolizar a rivalidade. Com isso, Mário Filho deu o pontapé inicial para a construção de toda a mística que envolve esse clássico.

Jota Efegê
Só que a história do nome Fla-Flu não termina aí. Durante os carnavais cariocas de antigamente, os foliões mais célebres tinham apelidos curiosos, como os seguintes, citados por Luís Edmundo: Lord Sogra, Lord Fera, Lord Alisa, Lord Craknel, Cacareco, Cardoso Xuxu, Cerca-Frango, Rato-Seco e Peru dos Pés Frios (coautor do samba “Pelo telefone”, com o tricolor Donga). Em meio a tantos Lordes, o jornalista (e torcedor do Madureira) Jota Efegê, conta que um famoso folião daquela época foi o bacharel e advogado militante Pádua de Vasconcelos, conhecido como Lord Taquara.

Ocorre que ele mudou de sociedade carnavalesca e também de apelido: passou a ser chamado de Lord Fla-Flu, ou simplesmente “o Fla-Flu”. Por quê? Porque, por incrível que pareça, ele era sócio de ambos os clubes. (Obs.: ser sócio de ambos era até comum, mas antes de o Flamengo ter seu departamento de futebol, já que não disputavam as modalidades esportivas.)

Clube dos Democráticos.
Crédito: coleção Augusto Malta.
O detalhe é que a sociedade carnavalesca em que o Lord Fla-Flu entrou foi Clube dos Democráticos, que, como vimos no capítulo anterior, era alvinegro. Ou seja, o Lord Fla-Flu simplesmente usava as cores de Vasco e Botafogo. Ele era a síntese dos quatro grandes do futebol carioca.

Ocorre que esse apelido foi criado justamente em 1925, ano do tal escrete Fla-Flu. O que me faz perguntar onde é que o termo Fla-Flu surgiu primeiro: no carnaval ou no futebol? Pelo que pude apurar, a partir de junho, mais ou menos, é que as seleções estaduais começaram a treinar para estrear no Campeonato Brasileiro. O carnaval evidentemente já havia passado. Então, é grande a chance de o nome Fla-Flu ter se originado no carnaval, não para significar o embate de dois times, nem para designar um combinado de ambos, mas para apelidar uma pessoa só. (Segundo o livro do centenário do Fluminense, em 1937, a expressão Fla-Flu fez o caminho inverso, retornando do futebol ao carnaval, por meio de uma marchinha de Haroldo Lobo e J. Cascata.)

Guimarães Rosa
Para terminar: Guimarães Rosa, em sua obra-prima Grande sertão: veredas, lá pelas tantas, fala no “flaflo do vento agarrando nos buritis”. A primeira edição do livro foi publicada em 1956. 

Então, alguma influência do Fla-Flu? Nada disso. 

Segundo Nilce Martins, trata-se de uma onomatopéia criada pelo autor, com o sentido de sopro, barulho. De comum com o futebol, portanto, nem sequer o tipo do barulho.

2 comentários:

  1. Isso é interessante, pois nunca pensei que seria uma expressão e sim somente um clássico.


    Bjs

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  2. Gostaria de divulgar o curso que ministrarei na CASA GUILHERME DE ALMEIDA, SÃO PAULO:

    ​CARNAVAL E LITERATURA: ADAPTAÇÕES INTERSEMIÓTICAS DE OBRAS LITERÁRIAS
    Quintas-feiras, 4, 11 e 18 de maio de 2017, das 19h às 21h

    O curso aborda as adaptações de obras literárias feitas para desfiles de escolas de samba. Após uma breve história do carnaval, desde as festividades europeias até as brasileiras, se abordarão enredos que se utilizam obras literárias como base. Entre elas, se discutirão neste curso clássicos da literatura brasileira e estrangeira, além de canções, peças de teatro e filmes.

    Esta atividade poderá contar como crédito de horas para o Programa Formativo para Tradutores Literários.

    Silvia Cobelo, tradutora literária (inglês / espanhol) e roteirista formada pela UCLA, especializou-se em traduções e adaptações da obra de Cervantes, com pesquisas de mestrado e doutorado, realizadas na Universidade de São Paulo (USP, focadas em Dom Quixote. É pesquisadora sênior em três grupos de pesquisa do CNPq ligados à tradução literária e à obra de Cervantes. Como membro ativo de associações de Hispanistas e Estudos da Tradução/Adaptação, participa dos principais eventos e publicações nacionais e internacionais dentro dessas áreas.

    Obrigada!

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