quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A biografia da paixão por um estádio

Estádio Presidente Vargas, o PV, em Fortaleza, Ceará.

Como o Literatura na Arquibancada vem comprovando a literatura referente ao futebol brasileiro é imensa. Há de tudo um pouco, mas o que mais se nota nesta produção são títulos de clubes esportivos, especialmente aqueles das capitais brasileiras, os chamados “grandes” do futebol brasileiro. E dentro desse universo literário há um tema que foi pouco e mal explorado, com raríssimas exceções. Falamos dos estádios de futebol onde nasce e cresce a paixão de um torcedor pelo futebol.

Estádio Presidente Vargas, o PV, em1964.
Não é a toa que para qualquer torcedor de um clube, seja ele de uma pequena cidade interiorana ou das grandes capitais, o estádio, pequeno, acanhado ou gigante representa o seu “templo sagrado”, lugar onde a memória de momentos inesquecíveis jamais se apaga. Se a grande mídia consagrou (justamente) dois templos sagrados dos torcedores como o Maracanã (na obra de João Máximo, “Maracanã, Meio Século de Paixão”, DBA, 2010) e o Pacaembu (com a obra de Thomaz Farkas, Pacaembu, DBA, 2008), agora, o povo cearense pode ter orgulho e comemorar o lançamento de uma obra histórica.

Falamos do livro “PV – Biografia de uma paixão”, lançado no final do ano passado pela Fundação Demócrito Rocha em parceria com a Prefeitura de Fortaleza. Um livraço, essa é a definição correta para qualificar a obra coordenada e produzida por uma equipe de feras: Cliff Villar (concepção), Claudio Ribeiro e Ciro Câmara (editores executivos), Rafael Luis e Thiago Cafardo (repórteres) e o magnífico trabalho artístico de Amaurício Cortez (projeto gráfico e editor de arte).

Mas qual a razão de se produzir um livro sobre um ex “acanhado” estádio de futebol como o PV, abreviatura para os que não sabem de Presidente Vargas? A resposta está nas palavras de Cliff Villar: “Muito mais do que um estádio de futebol. Um ente querido de todos os cearenses. Mesmo daqueles que nunca chutaram uma bola de meia em rachas de complexidade shakespeariana pelas ruas de Fortaleza”.


O livro foi dividido em três grandes capítulos onde o personagem principal da obra, o PV, ganha 
“Corpo”,


“Alma”
e

"Coração".

Passear por essas páginas é conhecer a história do futebol cearense jogado ali, naquele “estadinho” acanhado chamado Benfica, nome do bairro onde o PV surgiu e onde também, não a toa, tornou-se o lugar mais “boleiro” e boêmio da capital cearense.

No capítulo “Corpo”, a obra viaja desde a chegada do futebol no Ceará, retratando jogos, clubes, e os acanhados campinhos da cidade, até o surgimento e a recente modernização do PV. Na foto (acima) o registro do primeiro jogo realizado em Fortaleza: “Não havia dia mais simbólico para a chegada do futebol ao Ceará: 24 de dezembro. O ano era 1904 e a data marcava o nascimento de uma paixão (...) Em Fortaleza, quem primeiro desembarcou com uma bola na bagagem foi José Silveira (...) Filho de portugueses, Silveira havia morado em Saint Gallen, na Suíça, e passado pela Inglaterra, berço do football – então, sem tradução para o português.

Com 22 anos, o jovem retornou e apresentou o esporte aos amigos de Fortaleza, cidade de 50 mil habitantes e jeito de interiorzão. 

O local escolhido foi a praça do Passeio Público, principal ponto de encontro da Capital. 

A primeira partida envolveu jovens da alta sociedade contra um combinado de funcionários britânicos da Companhia de Gás e tripulantes de um navio da Inglaterra ancorado no litoral” (...)

Vargas, o populista ex-presidente brasileiro, deixou para posteridade seu nome em tudo quanto é lugar deste imenso país. Não há cidade que não tenha uma rua, uma praça, um hospital, uma escola ou...um estádio de futebol...Os cearenses por pouco não desistem dessa sina em um momento histórico do país:
“...Fora do poder desde 1945, o vascaíno que tanto se utilizara do estádio de São Januário para seus pronunciamentos em público esteve prestes a perder a homenagem que recebera bem longe da então capital federal. Em 1947, o jornal O Povo iniciou enquete propondo a retirada do nome de Vargas de equipamentos públicos da Capital. O estádio que homenageava o presidente foi alvo principal da investida. ‘Que fez pelo nosso desporto o ex-ditador? E se nada fez, por que essa homenagem, que ficará guardada para sempre?’, questionava trecho de matéria publicada em 22 de março (...) O protesto chegou a ser encaminhado ao então prefeito José Leite Maranhão; porém, nunca chegou a ser analisado a fundo. (...)

Antigo PV.
Crédito: Arquivo Nirez
Em 1941, no dia 14 de setembro, mesmo dia da inauguração do PV, os pescadores cearenses Jacaré, Tatá, Mané Preto e Mestre Jerônimo iniciaram o Raid dos Pescadores Cearenses. 

Por 61 dias, eles navegaram de jangada de Fortaleza ao Rio de Janeiro. 

Tudo para cobrar garantias sociais a Getúlio Vargas. Voltaram em 1º de dezembro, em avião da Navegação Aérea Brasileira".

Tantas aventuras para se chegar ao moderníssimo estádio PV, reformado recentemente.

O PV esteve fechado durante três longos anos para os torcedores locais, mas no dia 8 de maio de 2011 foi “devolvido” ao público. 

O charme continuou o mesmo.

No capítulo “Alma”, o livro enfoca a memória afetiva do estádio. 

Afinal, o que o PV tem de diferente de outros estádios cearenses, como por exemplo, o “Castelão”, sempre ele, palco de jogos da seleção brasileira?

Em uma das diversas histórias narradas no livro, a de Alan Neto, jornalista, radialista e apresentador de TV, é marcante onde o personagem envolvido é ninguém menos do que o rei do futebol:
“Pelé em campo. Amistoso contra o Ceará. Eu ali na pista, olhar rútilo aos movimentos do rei. Naquela noite, ele não queria nada com a bola, tocando para os lados, enquanto o PV entupido aguardava uma de suas jogadas geniais. E nada. Zito, volante, capitão, líder do Santos dentro de campo, correu ao seu encontro, dedo em riste aos berros: ‘Se você não quer jogar, Negão, pede pra sair. Não pode é ficar aí enganando o torcedor e chupando o sangue da gente’. Pelé a tudo ouviu, sem dizer uma palavra. Cinco minutos depois, marcava um golaço de virada e, antes de a partida terminar, balançou as redes num chute de fora da área. O PV veio abaixo”.

Está lá, na página 127 do livro, uma curiosidade que poucos devem saber: “Pelé jogou nove vezes contra times cearenses, entre 1959 e 1974. Foram seis jogos no PV, um no Castelão, um no Romeirão, em Juazeiro do Norte e um no Pacaembu, em São Paulo. O Rei fez seis gols, mas nunca venceu o Ceará, com duas derrotas e um empate”.

Mas um desses nove jogos é histórico para o torcedor cearense, especialmente para um deles: “Digamos que foi o apagar das luzes para uma nova era. Pena que o Castelão ainda não estava pronto; senão, teria gente pendurada até no fosso. O destino foi pródigo ao reservar para Fortaleza o jogo mil de Pelé pelo Santos.

Seria contra o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro de 1972. O jeito foi se acotovelar nas já modestas arquibancadas do PV, no histórico 3 de dezembro. 
O Rei ainda nem havia pendurado as chuteiras e já era tratado como maior de todos os tempos. (...) A expectativa era enorme, pois Pelé dava sinais de que o fim estava próximo. 

O jornalista Alan Neto bateu ponto no hotel Savanah, no Centro, em busca da entrevista exclusiva.


Pelé, antes do jogo no PV, em 1972.
Conseguiu mais do que esperava: o anúncio do Rei de que deixaria o futebol em dois anos, cumprido em parte (depois, ele jogou mais três anos pelo Cosmos, dos EUA). ‘Foi o maior furo da minha vida’, já definiu Alan Neto diversas vezes.

Um jogo de tal porte merecia gol de Pelé. Como estava no roteiro, ele deixou sua marca, abrindo o placar aos 11 minutos do primeiro tempo. Eufórica, a torcida explodiu de alegria, nem ligando se o gol era contra o próprio time. Na segunda etapa, o Ceará empatou, com Samuel, aos 17 minutos, e virou com Da Costa, aos 30 minutos. Era a primeira vitória de um time cearense sobre o Santos do Rei.

Terminado o jogo, começou uma farra, como relatou O POVO na manchete do dia seguinte. Na invasão ao campo, um torcedor ofereceu 10 mil cruzeiros (R$ 26 mil em valores corrigidos) pela camisa 10. Pelé, acuado, cobrou das autoridades um estádio que melhor comportasse o futebol cearense. Onze meses depois, em 1973, foi inaugurado o Castelão. Estádio que, infeliz, só teve tempo de receber uma vez em sua história a majestade dos gramados".

Uma noite inesquecível...
O PV também foi palco de “outros eventos” incomuns em estádios de futebol. Daquela noite no dia 9 de julho de 1987, quem esteve presente no PV jamais se esqueceu. Acredite se quiser, um show de streap tease ouriçou a torcida pouco antes da partida entre Fortaleza e Quixadá, jogo válido pelo Campeonato Cearense. A ideia para atrair público foi boa, mas deu o que falar:

“Aquela ideia foi minha, sim”, assume o então diretor da torcida organizada Fiel Tricolor, Emanuel Magalhães, hoje com 53 anos, atualmente empresário do ramo de granito. Ele conta que o público e renda daquele Estadual vinham sendo pequenos em muitos jogos, “coisa de 500 a 600 pessoas”, e que algo precisava acontecer para motivar os torcedores. A sacada foi chamar as garotas para o estádio naquele jogo...(...) Prestes a começar o jogo, as quatro jovens entraram em campo. Empunhavam bandeiras, mas até ali ainda vestidas com shortinhos apertados e camisetas coladas. Uma mais encabulada, outras mais dispostas – segundo descreveram à época. A informação de que poderiam se despir só havia circulado em bastidores, entre repórteres de rádio e no ouviu falar: “Ia ser só um desfile. Foi um repórter que perguntou se elas iriam desfilar nuas. Aí uma falou: “só se o Emanuel quiser”. Foi ali em frente ao cimento especial (setor coberto da arquibancada do PV) que elas tiraram a roupa”, relembra o ex-diretor da Fiel Tricolor.

Euforia inevitável no estádio naquele momento. 
(...) 

“Até repórteres e policiais caíram tropeçando nos fios, na correria pra filmar e entrevistar as meninas”. Torcida também ouriçada, aos gritos. Como se já tivesse acontecido algum gol. Mas a jogada era outra. 

A repercussão do strip, conta Emanuel, percorreu páginas do O Globo, do Rio, jornais de Portugal e o evento chegou a ser copiado em São Luís e Belo Horizonte.”

Pena que esse belíssimo livro, "PV - Biografia de uma paixão", não esteja disponível para venda nas livrarias, mas há esperança, como disse ao Literatura na Arquibancada um dos editores executivos da obra, Ciro Câmara: “Como a publicação conta com parceria da Prefeitura de Fortaleza a comercialização é proibida. A venda é restrita apenas a poucos exemplares com renda revertida para uma entidade beneficente da Capital. A segunda edição, ainda sem data definida, deve contar com um trâmite burocrático que permita a venda”.

Então, esperemos...os leitores da literatura na arquibancada agradecerão, com certeza...

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