quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Adeus aos Eucaliptos


O desaparecimento de um estádio de futebol não apaga da memória o que nele vivemos (ou nossos antepassados), mas deixa uma ferida na memória de todos que um dia ali desfilaram, nas arquibancadas ou no gramado. É o que nos conta o gaúcho de Santa Maria, Athos Miralha da Cunha sobre o tradicionalíssimo Estádio dos Eucaliptos, que está sendo demolido para a construção de um condomínio residencial. Athos mantém o blog:

Adeus aos Eucaliptos
Por Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Posso imaginar o que sentiu Larry Pinto de Farias ao ver o início da demolição do Estádio dos Eucaliptos. Possivelmente um sentimento de perda e vazio. Impotência diante da máquina avassaladora.

O estádio inaugurado num distante março no início da década de 30 dá lugar a um condomínio residencial. Em breve, o gramado onde brilharam Ivo, Alfeu, Nena, Assis, Ávila, Abigail, Russinho, Villalba, Tesourinha, Adãozinho e Carlitos, craques do lendário Rolo Compressor será, apenas, algumas lembranças de saudosos torcedores do Sport Club Internacional.

Não conheci os Eucaliptos, sequer fui fazer uma visita para ver o palco que abrigou jogos da Copa de 50. O Estádio dos Eucaliptos nunca esteve nos meus roteiros em visita a Porto Alegre. 

Não tive a felicidade de assistir ao Rolo Compressor e não vi as atuações de Tesourinha e Cia. Essa turma de boleiros só nos livros e fotos.

A minha geração é a do Gigante da Beira-Rio. Que também é um templo sagrado de mitos e lendas do futebol. 

A geração do Bigorna, Bola-bola e Dom Elias Figueroa. Da mesma forma que alguns torcedores mais idosos têm a escalação do Rolo Compressor na cabeça, eu tenho a da equipe campeã de 75 e o inesquecível Gol Iluminado.

Não tenho esse sentimento de afeto ao Estádio dos Eucaliptos, mas posso imaginar que seja a mesma sensação melancólica de um ferroviário ao contemplar as ruínas de uma estação da Viação Férrea. E esse sentimento – como filho de ferroviário –, eu tenho presente. São emoções indescritíveis como folhar um corroído álbum de fotografias que contam a história de uma Era. A história de um tempo que está marcado nos gritos de uma torcida ou num gol de bicicleta.

O Estádio dos Eucaliptos ficará na memória dos torcedores – e na memória dos filhos e netos desses torcedores –, nas fotos, em um perdido filme de uma tabelinha de Larry e Carlitos. Na voz de um narrador alucinado com um desconcertante drible de Tesourinha. Essa é a historia que deverá ser contada e escrita nos pormenores detalhes.

É uma pena. Os Eucaliptos poderiam abrigar a história do futebol, a memória dos esportes, mas temos que compreender que futebol e time campeão não se faz com sentimentalismo e nostalgia. Hoje, futebol é um negócio cujo resultado vem das quatro linhas do gramado. Não basta ter um estádio, tem que ter time e time vencedor.

Chácara dos Eucaliptos, em 1912.
Assim, resignado, mas com o mesmo sentimento de Larry, entendo o adeus aos eucaliptos.

O Beira-Rio é o nosso palco e o Rolo Compressor nós refaremos junto ao pôr do sol do Guaíba. E quando o capitão colorado levantar a taça de campeão estará saudando os craques do passado e as glórias do Estádio dos Eucaliptos.




Sobre Athos Miralha da Cunha

É graduado em Engenharia Civil pela UFSM e funcionário da Caixa. Integrante dos livros de crônicas Tudo Haver ed. 2005; Nada Haver ed. 2006; O maquinista daltônico ed. 2007; O gol iluminado ed. 2009 (2º lugar no prêmio Paulo Mendes Campos 2010 da UBE); Pra começo de conversa ed. 2009 e das coletâneas de contos A nona assassina ed. 2007; A frase do doutor Raimundo Ed. Movimento 2009 e Milongueiro Ed. Movimento 2011. Um dos autores dos romances coletivos Os dez mandamentos – Ed. Movimento 2008 e Arquimedes – Ed. Movimento 2010.

Um comentário:

  1. Anônimo13:20

    Tudo “ haver” ???????? Nada “ haver” ?????????????

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