sábado, 11 de fevereiro de 2012

90 anos Semana de Arte Moderna

Capa do catálogo feita por Di Cavalcanti

Na próxima semana comemoram-se os 90 anos da Semana de Arte Moderna. Uma data de extrema importância para a história da cultura brasileira, um marco definitivo que levaria décadas para se consolidar ou melhor, evoluir em diversas fases envolvendo centenas de nomes consagrados da cultura brasileira espalhados em diversos segmentos como arte, pintura, literatura e muito mais.

A Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, no Teatro Municipal, é considerada um divisor na história da cultura brasileira.

O evento declarou o rompimento com o tradicionalismo cultural associado às diversas correntes literárias e artísticas existentes anteriormente como o parnasianismo, simbolismo e arte acadêmica. 

Ela acabou se transformando no marco simbólico do surgimento do Modernismo Brasileiro.

Artistas como os escritores Mário e Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, os pintores Anita Malfatti e Di Cavalcanti, além do músico Heitor Villa-Lobos e o escultor Victor Brecheret, entre outros, buscavam identidade própria e liberdade de expressão.

O modernismo seguiu sua “revolução” durante as décadas seguintes à realização da Semana de Arte Moderna. A partir de hoje e durante a próxima semana, Literatura na Arquibancada apresenta uma série de artigos sobre esse marco de nossa cultura chamado de Modernismo Brasileiro.

Paulo Mendes Campos
Começamos com uma crônica espetacular (para variar) feita pelo escritor Paulo Mendes Campos. Um marco para a literatura esportiva brasileira, pois neste texto o escritor revela as paixões (ou não) pelo futebol de diversos personagens adeptos do Modernismo.  

E mais importante do que isso, descreve a realização de um jogo histórico, ocorrido em uma praia carioca. Dois times de primeiríssima linha, um verdadeiro “clássico” do Modernismo Brasileiro.





Passe de Letra
(Paulo Mendes Campos)

Rubem Braga
Mário Filho conta no Romance do Futebol uma partida histórica na qual o poeta Augusto Frederico Schmidt tomou parte, esforçadamente, mas em vão. 

Em crônica antiga, Rubem Braga descreve a manhã de sol que levou às areias da praia escritores de Copacabana e Ipanema, uns contra os outros. 

Também tomei parte no hilariante cotejo, no time de Copacabana.


Di Cavalcanti
Aníbal Machado revelou-se um jogador impetuoso (foi extrema do Clube Atlético Mineiro); Vinícius de Moraes, platônico de bola, sentiu logo o menino e foi fazer companhia às moças; o atual Embaixador Lauro Escorel foi um escolástico inútil; Di Cavalcanti, esfuziante goleiro, dizia sempre que as bolas haviam passado por cima do inexistente travessão; o próprio Braga era um zagueiro tontíssimo, porém valente.

O melhor jogador em campo, um médico de óculos, calvíssimo, entrou de enxerto, sendo amigo de Aníbal; foi nele que o Braga acertou uma de suas traulitadas, dizendo: “Para fazer gol aqui é preciso pisar sobre o meu cadáver”. 

O que foi feito.


Augusto Frederico Schmidt
Schmidt, que também jogou, de centroavante, proporcionou este espetáculo inédito: no momento de dar a saída, quis fingir que passava para a esquerda e passar para a direita; atrapalhou-se todo , seus pés não atingiram a bola parada, desequilibrou-se e caiu sentado na areia. 

Assim, o jogo foi interrompido por dez minutos depois do apito inicial; o riso farto esgotou os contendores.

Mário de Andrade
Mário de Andrade era um entusiasta do futebol. Queixava-se dos trezentos e cinqüenta compromissos que o impediam de ser assíduo aos estádios. Em seus livros, há algumas referências ao futebol, sempre com excelente conhecimento técnico. Mário tinha especial predileção pelo estilo do famoso centromédio Brandão. Dizia, com sua inflexão enlevada: “É um ma-ra-vi-lho-so bailarino!”.

Cyro dos Anjos
Já conversei com Cyro dos Anjos e Rosário Fusco sobre futebol. Curioso, os dois me apresentaram motivos idênticos para explicar a razão pela qual não gostam do esporte: ressentimento. 

O autor do Amanauense Belmiro, em Montes Claros, era goleiro, desses que vão para o arco depois que os outros meninos escolhem as demais posições da linha e da defesa; o autor de Carta à noiva, nas peladas de Cataguases, era também péssimo goleiro, apesar de sua ótima envergadura.


José Lins do Rego
Entre os escritores, um dos maiores fãs foi José Lins do Rego: uma vez, no campo do Vasco, durante um sururu, a Polícia Especial atirou o corpulento romancista por cima do aramado. 

Zé Lins costumava dizer, depois disso, que passou a ser o homem mais valente do Rio de Janeiro, pois, no inquérito, figurou como agressor da Polícia Especial.


Otávio de Faria


O mais apaixonado e fiel é Otávio de Faria. 

Este vai a quase todos os treinos do Fluminense. 

Há uns dois anos, matando saudades do velho estádio, compareci ao campo do Vasco para ver um jogo entre o Fluminense e o São Paulo: encontrei na arquibancada o Otávio, no lado do sol, casaco e gravata, roendo as unhas como sempre.

José Honório Rodrigues
José Honório Rodrigues e Valdemar Cavalcanti são rubro-negros inseparáveis. O primeiro é um alucinado. Depois de um jogo no Maracanã, no qual o Botafogo levantara o campeonato carioca contra o Flamengo, ele partiu para mim como se fosse me dar um soco na cara; a meio caminho, mudou de ideia e me deu um abraço, dizendo-me que era a primeira vez que cumprimentava um botafoguense depois dum campeonato perdido pelo Flamengo.
Também encontrava muito no Maracanã o bom e saudoso amigo Cavalcanti Proença, que ia sempre para o meio da torcida popular, deliciando-se com as expressões do povo.

Lúcio Rangel é um dos maiores conhecedores da história futebolística do clube da Rua General Severiano. Como quase não freqüenta as partidas interestaduais e internacionais, o Lúcio explica: “Sabe duma coisa? Eu não gosto de futebol, gosto é do Botafogo”.

Emílio Moura
Em Belo Horizonte, o manso e místico poeta Emílio Moura, durante mais de vinte anos, compareceu aos estádios na companhia do manso e místico poeta Cristiano Martins. O Emílio, atleticano, perdia a calma e espinafrava acaloradamente o América; o manso Cristiano, americano, ouvia tudo em olímpica serenidade. Acabada a partida, Emílio invejava a superioridade do Cristiano. Vinte anos depois, num raro acesso verbal, o manso e místico Cristiano revelou ao Emílio que, por dentro, ficava a zumbir de ódio e paixão.




Fonte:
Ivan Cavalcanti Proença realizou uma das primeiras pesquisas acadêmicas sobre o futebol, em 1981. Ele defendeu no programa de Pós-graduação em Poética da
UFRJ, a tese Futebol e palavra posteriormente editada em livro de mesmo nome (Editora José Olympio, 1981). O texto de Paulo Mendes Campos, “Passe de Letra”, encontra-se na Pg. 143.







Serviço:
Para quem está em São Paulo, o Teatro Municipal, palco da Semana de Arte Moderna, em 1922, terá várias opções para comemorar o evento com óperas, concerto, música de câmara e dança. Os eventos acontecem entre os dias 15 (quarta-feira) e 26 de fevereiro. Confira a programação completa:

Para saber sobre a Semana de Arte Moderna e seus personagens, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura do site Prosa e Verso, de O Globo:


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