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Capa do catálogo feita por Di Cavalcanti |
Na próxima semana comemoram-se os
90 anos da Semana de Arte Moderna. Uma data de extrema importância para a
história da cultura brasileira, um marco definitivo que levaria décadas para se
consolidar ou melhor, evoluir em diversas fases envolvendo centenas de nomes
consagrados da cultura brasileira espalhados em diversos segmentos como arte,
pintura, literatura e muito mais.
A Semana de Arte Moderna,
realizada em São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, no Teatro Municipal,
é considerada um divisor na história da cultura brasileira.
O evento declarou o
rompimento com o tradicionalismo cultural associado às diversas correntes
literárias e artísticas existentes anteriormente como o parnasianismo,
simbolismo e arte acadêmica.
Ela acabou se transformando no marco simbólico do
surgimento do Modernismo Brasileiro.
Artistas como os escritores Mário
e Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, os pintores Anita Malfatti e Di
Cavalcanti, além do músico Heitor Villa-Lobos e o escultor Victor Brecheret,
entre outros, buscavam identidade própria e liberdade de expressão.
O modernismo seguiu sua “revolução”
durante as décadas seguintes à realização da Semana de Arte Moderna. A partir
de hoje e durante a próxima semana, Literatura na Arquibancada apresenta uma
série de artigos sobre esse marco de nossa cultura chamado de Modernismo
Brasileiro.
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Paulo Mendes Campos |
Começamos com uma crônica
espetacular (para variar) feita pelo escritor Paulo Mendes Campos. Um marco
para a literatura esportiva brasileira, pois neste texto o escritor revela as
paixões (ou não) pelo futebol de diversos personagens adeptos do Modernismo.
E mais importante do que isso, descreve a
realização de um jogo histórico, ocorrido em uma praia carioca. Dois times de
primeiríssima linha, um verdadeiro “clássico” do Modernismo Brasileiro.
Passe de Letra
(Paulo Mendes Campos)
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Rubem Braga |
Mário Filho conta no Romance do Futebol uma partida histórica
na qual o poeta Augusto Frederico Schmidt tomou parte, esforçadamente, mas em
vão.
Em crônica antiga, Rubem Braga descreve a manhã de sol que levou às areias
da praia escritores de Copacabana e Ipanema, uns contra os outros.
Também tomei
parte no hilariante cotejo, no time de Copacabana.
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Di Cavalcanti |
Aníbal Machado revelou-se um
jogador impetuoso (foi extrema do Clube Atlético Mineiro); Vinícius de Moraes,
platônico de bola, sentiu logo o menino e foi fazer companhia às moças; o atual
Embaixador Lauro Escorel foi um escolástico inútil; Di Cavalcanti, esfuziante
goleiro, dizia sempre que as bolas haviam passado por cima do inexistente
travessão; o próprio Braga era um zagueiro tontíssimo, porém valente.
O melhor jogador em campo, um
médico de óculos, calvíssimo, entrou de enxerto, sendo amigo de Aníbal; foi
nele que o Braga acertou uma de suas traulitadas, dizendo: “Para fazer gol aqui
é preciso pisar sobre o meu cadáver”.
O que foi feito.
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Augusto Frederico Schmidt |
Schmidt, que também jogou, de
centroavante, proporcionou este espetáculo inédito: no momento de dar a saída,
quis fingir que passava para a esquerda e passar para a direita; atrapalhou-se
todo , seus pés não atingiram a bola parada, desequilibrou-se e caiu sentado na
areia.
Assim, o jogo foi interrompido por dez minutos depois do apito inicial;
o riso farto esgotou os contendores.
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Mário de Andrade |
Mário de Andrade era um
entusiasta do futebol. Queixava-se dos trezentos e cinqüenta compromissos que o
impediam de ser assíduo aos estádios. Em seus livros, há algumas referências ao
futebol, sempre com excelente conhecimento técnico. Mário tinha especial
predileção pelo estilo do famoso centromédio Brandão. Dizia, com sua inflexão
enlevada: “É um ma-ra-vi-lho-so bailarino!”.
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Cyro dos Anjos |
Já conversei com Cyro dos Anjos e
Rosário Fusco sobre futebol. Curioso, os dois me apresentaram motivos idênticos
para explicar a razão pela qual não gostam do esporte: ressentimento.
O autor
do Amanauense Belmiro, em Montes
Claros, era goleiro, desses que vão para o arco depois que os outros meninos escolhem
as demais posições da linha e da defesa; o autor de Carta à noiva, nas peladas de Cataguases, era também péssimo
goleiro, apesar de sua ótima envergadura.
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José Lins do Rego |
Entre os escritores, um dos
maiores fãs foi José Lins do Rego: uma vez, no campo do Vasco, durante um
sururu, a Polícia Especial atirou o corpulento romancista por cima do aramado.
Zé Lins costumava dizer, depois disso, que passou a ser o homem mais valente do
Rio de Janeiro, pois, no inquérito, figurou como agressor da Polícia Especial.
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Otávio de Faria |
O mais apaixonado e fiel é Otávio
de Faria.
Este vai a quase todos os treinos do Fluminense.
Há uns dois anos,
matando saudades do velho estádio, compareci ao campo do Vasco para ver um jogo
entre o Fluminense e o São Paulo: encontrei na arquibancada o Otávio, no lado
do sol, casaco e gravata, roendo as unhas como sempre.
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José Honório Rodrigues |
José Honório Rodrigues e Valdemar
Cavalcanti são rubro-negros inseparáveis. O primeiro é um alucinado. Depois de
um jogo no Maracanã, no qual o Botafogo levantara o campeonato carioca contra o
Flamengo, ele partiu para mim como se fosse me dar um soco na cara; a meio
caminho, mudou de ideia e me deu um abraço, dizendo-me que era a primeira vez
que cumprimentava um botafoguense depois dum campeonato perdido pelo Flamengo.
Também encontrava muito no
Maracanã o bom e saudoso amigo Cavalcanti Proença, que ia sempre para o meio da
torcida popular, deliciando-se com as expressões do povo.
Lúcio Rangel é um dos maiores
conhecedores da história futebolística do clube da Rua General Severiano. Como
quase não freqüenta as partidas interestaduais e internacionais, o Lúcio
explica: “Sabe duma coisa? Eu não gosto de futebol, gosto é do Botafogo”.
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Emílio Moura |
Em Belo Horizonte, o manso e místico
poeta Emílio Moura, durante mais de vinte anos, compareceu aos estádios na
companhia do manso e místico poeta Cristiano Martins. O Emílio, atleticano,
perdia a calma e espinafrava acaloradamente o América; o manso Cristiano,
americano, ouvia tudo em olímpica serenidade. Acabada a partida, Emílio
invejava a superioridade do Cristiano. Vinte anos depois, num raro acesso
verbal, o manso e místico Cristiano revelou ao Emílio que, por dentro, ficava a
zumbir de ódio e paixão.
Fonte:
Ivan Cavalcanti Proença realizou uma das primeiras pesquisas acadêmicas
sobre o futebol, em 1981. Ele defendeu no programa de Pós-graduação em Poética
da
UFRJ, a tese Futebol
e palavra posteriormente editada em livro de mesmo nome (Editora José
Olympio, 1981). O texto de Paulo Mendes Campos, “Passe de Letra”, encontra-se
na Pg. 143.
Serviço:
Para quem está em São Paulo, o Teatro
Municipal, palco da Semana de Arte Moderna, em 1922, terá várias opções para
comemorar o evento com óperas, concerto, música de câmara e dança. Os eventos
acontecem entre os dias 15 (quarta-feira) e 26 de fevereiro. Confira a
programação completa:
Para saber sobre a Semana de Arte Moderna e
seus personagens, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura do site Prosa
e Verso, de O Globo:
http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/02/03/os-90-anos-da-semana-de-arte-moderna-429930.asp
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