segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

90 anos Semana de Arte Moderna (parte 3)


Nesta semana comemoram-se os 90 anos da Semana de Arte Moderna. Uma data de extrema importância para a história da cultura brasileira, um marco definitivo que levaria décadas para se consolidar ou melhor, evoluir em diversas fases envolvendo centenas de nomes consagrados da cultura brasileira espalhados em diversos segmentos como arte, pintura, literatura e muito mais.

A Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, no Teatro Municipal, é considerada um divisor na história da cultura brasileira. 

O evento declarou o rompimento com o tradicionalismo cultural associado às diversas correntes literárias e artísticas existentes anteriormente como o parnasianismo, simbolismo e arte acadêmica. Ela acabou se transformando no marco simbólico do surgimento do Modernismo Brasileiro.

Artistas como os escritores Mário e Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, os pintores Anita Malfatti e Di Cavalcanti, além do músico Heitor Villa-Lobos e o escultor Victor Brecheret, entre outros, buscavam identidade própria e liberdade de expressão.

O modernismo seguiu sua “revolução” durante as décadas seguintes à realização da Semana de Arte Moderna. Na série que o Literatura na Arquibancada apresenta, hoje veremos um artigo escrito por Joel Rufino dos Santos, historiador, professor, escritor e um dos nomes de referência sobre cultura africana no país. Neste artigo, publicado originalmente no site Almanaque Brasil
declaração histórica, principalmente, para aqueles que não enxergam o futebol como uma cultura popular: “Nos acostumamos a pensar que só os acontecimentos políticos decisivos são fatos históricos. E só os “grandes homens” são personagens históricos. Os fatos esportivos, mesmo no “país do futebol”, correm por fora. Mesmo quando enfurecem ou alegram a multidão, não merecem entrar nos livros de História, ensinados em classe”.

A semana e o Match de 1922
Por Joel Rufino dos Santos

Neco, ex-jogador do Corinthians.
Notícia de jornal, 20 de fevereiro de 1922: Corinthians 2 a 1. Ontem, o bravo team do Corinthians Paulista derrotou pelo score de 2 a 1 o do Palestra Itália no ground deste último. 

Goals do forward Neco (2) e do full-back Baggio. 

No ponto do bonds, após o match, um torcedor do Palestra, inconformado, apunhalou um corinthiano.

Naquela mesma semana, dias 13, 15 e 17, acontecera, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna. 

Se tivesse que eleger como fato histórico apenas um, qual dos dois o leitor escolheria - o jogo ou a Semana? 

Sabendo, desde o colégio, que a Semana projetou grandes escritores, como Mário de Andrade; grandes escultores, como Brecheret; além de músicos como Villa-Lobos, a maioria de nós responderia: “Ora, a Semana”.

Nos acostumamos a pensar que só os acontecimentos políticos decisivos são fatos históricos. E só os “grandes homens” são personagens históricos. Os fatos esportivos, mesmo no “país do futebol”, correm por fora. Mesmo quando enfurecem ou alegram a multidão, não merecem entrar nos livros de História, ensinados em classe.

Olhemos mais de perto aquela notícia de jornal. Em primeiro lugar, está recheada de palavras inglesas: forward, ground, match… Até o nome do time vencedor, Corinthians, é homenagem a uma equipe bretã que andou por aqui, goleando as melhores equipes do Rio e de São Paulo. Isso indica que os ingleses é que nos ensinaram a jogar foot-ball no início do século 1920. E que deviam ter, portanto, uma grande e antiga influência em nossa sociedade.

Campo do Velódromo, em São Paulo.
Nossos primeiros craques, rapazes da “sociedade”, imitavam os engenheiros e técnicos industriais ingleses que praticavam cricket, squash e foot-ball em suas chácaras fechadas. Esse prestígio dos costumes ingleses, por sua vez, se explica pela dominação econômica que a Inglaterra exercia sobre nós desde o tempo de D. João 6º.

O derrotado Palestra daquela partida é hoje o Palmeiras. Mudou de nome, mas ainda concentra a preferência da colônia italiana. Em cada capital brasileira há ou houve um “time de colônia”.

Burguesia, dominação inglesa, colônia, imigração… Vê o leitor que uma pequena notícia de jornal abriu janelas (links, como se diz hoje) para diversos assuntos. A notícia lembrava que, um mês antes, um torcedor corintiano, de regresso do estádio, agredira pelas costas um palestrino no instante em que este último adentrava o portão de sua residência.

Naquele ano de 1922, o futebol já era, então, paixão popular. Como foi possível, em 20 anos, um jogo frio de ingleses ricos se transformar em motivo de punhaladas e covardias no Brasil?

Corinthians, campeão paulista de 1914.
Que esportes o nosso povo praticava antes? A porta da curiosidade está aberta, uma pergunta conduz a outra, até o infinito. A Semana de Arte Moderna, a fundação do primeiro partido comunista no Brasil, a rebelião tenentista, a inauguração do rádio também são fatos de 1922. Em qualquer um deles, histórias puxam a História.

Sobre Joel Rufino dos Santos:

Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. É doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Conhecido a partir de 1960 quando participou da elaboração da revolucionária coleção de livros didáticos "História Nova", que o levou algumas vezes aos cárceres da ditadura militar. Tem incursões em várias formas de expressão escrita, do livro didático ao romance histórico, passando também pelo teatro, pelos roteiros de televisão e pela literatura infantil.Foi subtitular da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Negras do Estado do Rio de Janeiro (1991/92) e presidiu a Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura. É autor de mais de vinte livros.

Serviço:
Para quem está em São Paulo, o Teatro Municipal, palco da Semana de Arte Moderna, em 1922, terá várias opções para comemorar o evento com óperas, concerto, música de câmara e dança. Os eventos acontecem entre os dias 15 (quarta-feira) e 26 de fevereiro. Confira a programação completa:

Para saber sobre a Semana de Arte Moderna e seus personagens, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura do site Prosa e Verso, de O Globo:



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