domingo, 12 de fevereiro de 2012

90 anos Semana de Arte Moderna (parte 2)


A partir desta semana comemoram-se os 90 anos da Semana de Arte Moderna. Uma data de extrema importância para a história da cultura brasileira, um marco definitivo que levaria décadas para se consolidar ou melhor, evoluir em diversas fases envolvendo centenas de nomes consagrados da cultura brasileira espalhados em diversos segmentos como arte, pintura, literatura e muito mais.

A Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, no Teatro Municipal, é considerada um divisor na história da cultura brasileira. 

O evento declarou o rompimento com o tradicionalismo cultural associado às diversas correntes literárias e artísticas existentes anteriormente como o parnasianismo, simbolismo e arte acadêmica. Ela acabou se transformando no marco simbólico do surgimento do Modernismo Brasileiro.

Artistas como os escritores Mário e Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, os pintores Anita Malfatti e Di Cavalcanti, além do músico Heitor Villa-Lobos e o escultor Victor Brecheret, entre outros, buscavam identidade própria e liberdade de expressão.

O modernismo seguiu sua “revolução” durante as décadas seguintes à realização da Semana de Arte Moderna. Na série que o Literatura na Arquibancada apresentará, hoje e durante toda a próxima semana, você confere artigos sobre esse marco de nossa cultura chamado de Modernismo Brasileiro.

Abaixo, um texto baseado na dissertação de mestrado de Bernardo Borges Buarque de Holanda defendida no Departamento de História – Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura, na PUC, Rio de Janeiro, em 2003. O título da dissertação é “O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego” (transformada em livro de mesmo título, publicado pela Edições Biblioteca Nacional, em 2004), mas Bernardo escreveu para o site Artelogie, do grupo de busca da I’EHESS, em Paris, para a equipe “Funções Imaginárias e Sociais das Artes e da Literatura” a resenha da qual o Literatura na Arquibancada extraiu trechos: “O futebol como alegoria antropofágica : modernismo, música popular e a descoberta da "brasilidade" esportiva. O artigo na íntegra pode ser acessado neste link http://cral.in2p3.fr/artelogie/spip.php?article65 .E a tese, na íntegra, em:

Futebol : fenômeno urbano e estrangeiro

(...) O futebol traçou um percurso bem distinto e foi recebido de modo diametralmente oposto pelos intelectuais modernistas no decênio da Semana de Arte Moderna. Se a música popular e o folclore pertenciam à perspectiva salvacionista do projeto do modernismo, o fenômeno futebolístico no Brasil dos anos de 1920 passava muito ao largo das preocupações missionárias daqueles escritores.

A intensa presença dos esportes na vida social brasileira chegava a tal ponto que Mário de Andrade, em Macunaíma (1928), obra-prima do modernismo, representava ficcionalmente o futebol como uma das três pragas que assolavam o país. Ao lado do bicho-do-café e da lagarta rosada, o futebol, inventado com raiva por Macunaíma, era uma peste que infestava as cidades e que se alastrava pelos campos do Brasil.

Não surpreende que, em sua rapsódia literária, o preguiçoso herói de Mário de Andrade fosse avesso à prática esportiva. A introdução do foot-ball no Brasil, feita na virada do século XIX para o século XX, dava-se por intermédio de jovens atletas, descendentes de imigrantes europeus ou filhos das elites abastadas brasileiras, que se reuniam nos requintados clubes das grandes cidades.

Esses novos personagens do cenário do país, em sua quase totalidade estudantes de direito e de medicina, ligados por conseguinte ao ethos positivista da ciência, traziam não apenas as últimas novidades da Europa, mas, sobretudo, uma mentalidade distinta que preconizava a importância do adestramento, da disciplina e do culto ao corpo.


Nicolau Sevcenko
Segundo o historiador Nicolau Sevcenko, em sua obra sobre a irradiante capital da República no início do século XX, as transformações tecnológicas e científicas por que passava o capitalismo europeu desde 1870 tinham efeitos em todos os níveis de representação da sociedade e atingiam o Brasil do início do século XX. A industrialização e a urbanização acarretavam profundas mudanças no ritmo de vida citadina. A formação de contingentes operários, a ampliação das correntes imigratórias europeias e o aumento do fluxo demográfico faziam com que a própria arquitetura das cidades fosse planejada de forma a funcionar como um organismo humano. A mecanização e a velocidade eram os imperativos dos tempos modernos.

O menosprezo ou o repúdio dos escritores modernistas em relação ao futebol ocorria na proporção em que ele vinha no bojo dessas mudanças. 
O futebol, subproduto de importação, provinha de uma matriz europeia transplantada por uma elite anglófila e francófila, ávida por novidades e exotismos. 
Sob a égide do nativismo, do primitivismo e do nacionalismo modernista, o futebol constituía mais um fenômeno típico da dependência cultural brasileira e situava-se no mesmo processo de formação homogênea de uma sociedade urbano-industrial.


Estádio do Velódromo, em São Paulo.
A importação do futebol representava a adoção de mais um artigo de luxo, com sua linguagem integralmente inglesa e seu vestuário britânico desconhecido.Admirado pelas elites do Rio de Janeiro e de São Paulo, o futebol amador dos anos de 1920 proporcionava um certo ócio aristocrático de fruição do tempo e do lazer, tanto para os espectadores quanto para os seus praticantes. Para a burguesia carioca e paulistana, a prática esportiva trazia de forma subjacente os valores positivos da competição, da iniciativa, da igualdade de direitos e do aperfeiçoamento individual.

Nesse sentido, é possível compreender o fato de o futebol passar alheio ao crivo e ao interesse mais estrito do modernismo ao longo dos anos de 1920. Encontram-se, contudo, aqui e ali, em um poema ou em um conto, indícios dessa presença que se torna a cada ano mais marcante. Mário de Andrade, sempre atento aos fatos do cotidiano, já em sua Paulicéia desvairada (1922) refere-se a um domingo em que o futebol mobiliza a cidade :

“Hoje quem joga ?…
O PaulistanoPara o Jardim América das rosas e dos pontapés !
Friedenreich fez goal ! Corner ! Que juiz !
Gostar de Bianco ? Adoro. Qual Bartô…
E o meu xará maravilhoso !…
– Futilidade, civilização…” 2

Embora existente no dia a dia do habitante de São Paulo, o futebol para Mário de Andrade significava ainda mais uma moda fútil entre as inúmeras que aportavam da realidade européia. 

O poeta-cronista capta com sensibilidade a empolgação dos que acorrem para assistir a uma partida, mas não deixa de realçar o traço elitista do esporte, eivado de expressões estrangeiras e praticado com violência em um clube tradicional da cidade.


Arthur Friedenreich
A referência a Arthur Friedenreich é significativa, pois se trata do primeiro ídolo nacional do futebol brasileiro nos anos de 1910 e 1920, que descendia, de maneira sugestiva, de um imigrante alemão e de uma lavadeira negra. Conforme indica ainda Nicolau Sevcenko, Arthur Friedenreich e Edu Chaves, sendo este um ás da aviação, eram os dois grandes ídolos esportivos da cidade de São Paulo. 

Friedenreich, conhecido como El Tigre, seria alvo de interesse no início da década de 1930 de um outro escritor modernista, Menotti del Picchia. O autor de Juca mulato escreveu o roteiro do filme Campeão de futebol, em que homenageia o craque da época, ao lado de Feitiço, entre outros jogadores.

Oswald de Andrade
O futebol também não passaria imune à pena de Oswald de Andrade. Nas peripécias de suas Memórias sentimentais de João Miramar (1924), Oswald de Andrade enxerta o poema Bungalow das rosas e dos pontapés, que se assemelha aos versos anteriores de Mário de Andrade :

“Bondes gols
Aleguais
Noctâmbulos de matches campeões
E poeira
Com vesperais
Desenvoltas tennis girls
No Paulistano
Paso doble.” 3

Oswald de Andrade registra com seus versos livres, em forma de instantâneos fotográficos, a mesma presença do futebol na cidade moderna de São Paulo. Ao lado dos bondes, elemento simbólico do progresso, os gols integram-se a esse novo tempo de agitação e frenesi que contagia as grandes metrópoles. O futebol figura assim como um aspecto do cosmopolitismo que ajusta a vida paulistana aos novos espetáculos das cidades européias. 
Anos mais tarde, em artigo escrito para o Estado de São Paulo, Oswald de Andrade voltaria a se referir ao futebol, mas agora como um fenômeno da modernidade de fundamento religioso, ao lado dos festivais de cinema e da política.

Alcântara Machado
Em 1927, Antônio de Alcântara Machado publica o conto Corinthians (2) VS Palestra (1). Nesse conto, o futebol não aparece da mesma maneira que em Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Ele não é apenas mais um motivo temático que se impõe pela sua inserção no cotidiano da cidade. O jogo ocupa o centro da história e a sua linguagem se instila na estrutura do texto. Alcântara Machado narra a partida fisgando os movimentos, as inflexões e as nuances de uma partida de futebol. O escritor paulista frisa a oralidade própria do jogo, as interjeições características dos espectadores, as circunvoluções e os deslocamentos dos jogadores em torno da bola. Com esta criativa crônica em forma de conto, o autor realiza a partir do futebol as experiências lingüísticas que tanto fascinavam os modernistas da década de 1920.


A invenção das Copas do Mundo : 
o futebol como espelho da nação

Seleção Brasileira, Copa de 1938.
O decênio de 1930 inaugura uma nova etapa na história do futebol e, por conseguinte, na sua relação com os modernistas, já na segunda fase desse movimento. Se, na década anterior, o futebol é apreciado em razão de seu apelo como fenômeno do cotidiano urbano e como meio de experimentação estilística, nos anos de 1930 a questão da representatividade nacional passa a ser o eixo de preocupação dos modernistas. Isso se verifica também porque naquele decênio os campeonatos de futebol passam a ter dimensão intercontinental e são organizadas as três primeiras copas do mundo : em 1930, no Uruguai ; em 1934, na Itália ; e em 1938, na França. Esta última, a primeira transmitida pelo rádio, mostrava também a importância das transmissões radiofônicas para o processo de popularização do futebol no país, em uma escala nacional cada vez mais abrangente.

Seleção Brasileira, Sul-Americano de 1920.
Esses torneios vêm-se somar aos campeonatos sul-americanos, às partidas contra uruguaios, argentinos e chilenos, em disputas anuais intituladas Taça Rio Branco, Copa Roca e Copa O’Higgins, respectivamente. Tais jogos são cruciais na formulação da questão da identidade, à medida que ensejam a discussão sobre a imagem do país no exterior e reforçam a idéia de unidade nacional por intermédio dos esportes. Os modernistas, ao longo do decênio, não se mostrariam infensos às repercussões desse debate na vida social brasileira.

Domingos da Guia
As modestas participações do Brasil nas Copas do Mundo de 1930 e 1934 trazem à tona a discussão sobre a composição do selecionado brasileiro, formada então hegemonicamente por jogadores brancos. A experiência vitoriosa de um time com atletas brancos, negros e mestiços na Copa Rio Branco de 1932, quando o Brasil vence os uruguaios, campeões do mundo dois anos antes, contribui para aumentar a pressão pelo profissionalismo. Após 1933, com a profissionalização do futebol e o ingresso oficial de jogadores negros e mulatos, o amadorismo elitista tem de aceder à nova realidade esportiva. 

O bom desempenho dos jogadores de origem negra abre a brecha para a associação entre a identidade esportiva e o diferencial étnico de constituição do povo brasileiro.

Seleção Brasileira, Copa do Mundo de 1938.
A originalidade étnica divisada no futebol atinge o seu ápice na década de 1930 durante a realização da Copa do Mundo de 1938, na França. Embora o Brasil não houvesse saído vencedor, obtendo o terceiro lugar, a atuação de Leônidas da Silva e de Domingos da Guia estreita o sentimento esportivo de pertencimento e de identificação à pátria. Oswald de Andrade, longe de ser aficionado pelos esportes, embora tenha praticado o futebol, a natação e o boxe em sua juventude, registrou os êxitos futebolísticos do país no estrangeiro em seu telegráfico poema E a Europa curvou-se ante o Brasil. Nele, segundo depoimento do crítico teatral Décio de Almeida Prado, o autor refere-se à excursão do clube amador de São Paulo, o Paulistano, ao continente europeu no ano de 1925, que contou com a participação de Arthur Friedenreich :

“7 a 2
3 a 1
A injustiça de Cette
4 a 0
2 a 1
2 a 0
3 a 1
E meia dúzia na cabeça dos portugueses.” 4

Equipe do Paulistano, na excursão à Europa.
A imagem suscitada pela poesia sugere uma Europa, e os portugueses em especial, prostrada ante a façanha dos brasileiros. Pela via do futebol, o Brasil teria o sortilégio de inverter a tradicional relação de dependência face às potências do Velho Mundo. Os modernistas descortinavam um meio em que a congênita idéia de inferioridade do brasileiro podia ser superada. Mário de Andrade, em crônica de 1939, intitulada Brasil-Argentina, também acentua essa transformação verificada em torno do futebol. O seu processo de apropriação pela identidade da nação chega a adquirir um caráter antropofágico na seguinte passagem : “Dezenas de tribos diferentes se organizando, se entrosando, recebendo mil e uma influências estranhas, mas aceitando dos outros apenas o que era realmente assimilável e imediatamente conformando o elemento importado em fibra nacional.” 5

Equipe do Vasco da Gama, em 1921.
As sensações descritas por Mário de Andrade ao longo da sua crônica mostravam-se fluidas, sendo capazes de se transferir num átimo do selecionado brasileiro ao selecionado argentino e deste até mesmo aos gregos. O que se depreende de suas divagações em torno do jogo era a capacidade de o futebol encarnar as representações coletivas em torno da nação, depurando-a do “elemento importado”. A visão de Mário de Andrade sobre o futebol incorporava também a antropofagia concebida por Oswald de Andrade, onde se afirmava a capacidade brasileira de deglutição, bem como de assimilação das influências estrangeiras e de sua transformação em expressões genuinamente nacionais. Assim as interpretações modernistas ganhavam contornos próprios, que viam também no futebol uma forma de se chegar às suas concepções sobre a brasilidade.

Gilberto Freyre, regionalismo nordestino 
e a descoberta do futebol

Gilberto Freyre
A década de 1940 pode ser considerada essencial para a fixação dos escritores modernistas no que concerne às suas representações sobre o caráter do futebol brasileiro. 

Nesse período entram em cena os regionalistas oriundos do Nordeste, como o sociólogo Gilberto Freyre, o romancista José Lins do Rego, a romancista Rachel de Queiroz, o poeta Jorge de Lima e o crítico Olívio Montenegro, a maioria deles já radicados no Rio de Janeiro e reunidos em torno da Livraria José Olympio. 

As observações sobre a Copa do Mundo de 1938 proporcionaram ao autor de Casa-Grande & senzala a identificação de um estilo próprio brasileiro de se jogar futebol.

Em notas ao seu livro Sociologia (1943), Gilberto Freyre contrapõe o futebol-arte brasileiro ao futebol-científico europeu. Os apontamentos de Gilberto Freyre nas notas deste livro seriam, mais tarde, aperfeiçoados em seu prefácio ao livro clássico de Mário Filho, O negro no futebol brasileiro (1947). A visão de Gilberto Freyre sobre o futebol seria desenvolvida décadas mais tarde por alguns autores. Dentre aqueles que se inspiram em uma perspectiva do futebol próxima a Gilberto Freyre, salientamos o jurista paraibano João Lyra Filho ; o ensaísta pernambucano Pessoa de Morais ; e o antropólogo carioca Roberto DaMatta. Ao amoldar o esporte bretão ao jeito típico de jogar do mulato, o brasileiro privilegiou a qualidade individual em detrimento da organização coletiva. A diferença baseada na habilidade e na surpresa seria a chave gilbertiana para a explicação do sucesso do Brasil nas partidas internacionais.

Gilberto Freyre e José Lins do Rego vão ser dois grandes nomes da intelectualidade desse período a salientar o tema do futebol na cultura brasileira. Para isso, os regionalistas nordestinos valem-se da leitura capital da obra do jornalista Mário Filho. Este – promotor, militante e ideólogo dos esportes no Brasil – publica com regularidade seus livros ao longo da década de 1940 : Copa Rio Branco 32 (1943), Histórias do Flamengo (1945), O negro no futebol brasileiro (1947) e Romance do football (1949). Neles o jornalista ambiciona recontar a história do futebol brasileiro, jungindo suas lembranças pessoais a uma pesquisa inovadora, baseada em fontes orais, com antigos jogadores.

Mário Filho
A ambivalência entre a literatura oral e a história, entre o ficcional e o factual, entre o mito e a ciência tem lhe valido uma série de críticas por parte de cientistas sociais nos últimos anos. Segundo o pesquisador Antônio J. Soares, Mário Filho produziu uma visão edulcorada da trajetória do futebol no Brasil, num tipo de narrativa que se assemelha à forma do conto folclórico dissecado por Vladimir Propp e que, poderíamos também acrescentar, remete à imagem do narrador tradicional e do contador de histórias sugerido por Walter Benjamin.

O ponto, entretanto, que nos interessa desenvolver aqui é o de que a obra de Mário Filho na década de 1940 instiga as interpretações modernistas à identificação de uma brasilidade no universo futebolístico. Em sua alentada apreciação crítica ao à época recém-lançado livro de Mário Filho, O romance do football, José Lins do Rego dedica-se quase que tão-somente a frisar os dotes de narrador e as qualidades estilísticas – com nuances de técnica cinematográfica – do jornalista pernambucano.

Mário Filho era assim tanto um narrador tradicional, pelo conteúdo, quanto um narrador moderno, pela forma, que transpassava os limites do realismo e do naturalismo e aproximava a linguagem da literatura à linguagem do cinema, conforme desde a década de 1930 já faziam alguns dos melhores romancistas norte-americanos, como John dos Passos, Ernest Hemingway e John Steinbeck :
“Outro livro de Mário Filho que tomou para substância e conteúdo humano o football. É que arrancou dessa prática esportiva a sua mais romanesca particularidade. Mário Filho é um homem que tem o dom da narração, de contar o que sabe e o que imagina, como rio que corre para o mar. Os fatos, os incidentes, os choques, as alegrias e as dores dos seus personagens se apresentam ao leitor, como um conto ou história de Trancoso, no mais simples e mais patético narrar.

Se é preciso carregar nas cores, para que a figura surja, no seu melhor pitoresco, o escritor Mário Filho não recorre aos retratos naturalistas, onde até os botões do casaco estejam no seu lugar. Nada. O escritor adota a técnica cinematográfica da câmara, e nos põe em contato com as suas personagens, no movimento da vida. Neste sentido, a história de Jaguaré é uma obra-prima. O herói burlesco, o palhaço das exibições, de fleuma e acrobacia, o homem que brincava com os nervos das multidões, que fizera do football uma originalidade de circo, corre no filme de Mário, desde os dias de malandragem, com o gorro de marinheiro na frente da cabeça e a camisa por fora das calças, até os dias gloriosos da França ou das vitórias espetaculares do Vasco, à morte a pauladas, como se fosse um cachorro, danado, numa cidade do interior de São Paulo.” 6.”

Nesse sentido, os prefácios de José Lins do Rego e Gilberto Freyre servem como chancela intelectual às obras de Mário Filho. O romancista paraibano e o sociólogo pernambucano dão respaldo às qualidades e aos dotes literários do jornalista, ao mesmo tempo em que se abeberam dos aspectos considerados mais relevantes dessa tentativa serial de escrever uma historiografia quase romanceada do futebol brasileiro. Com base em Mário Filho, José Lins do Rego e Gilberto Freyre viam dois fenômenos originais surgidos no seio do futebol brasileiro : a vigência do legado étnico negro e a incorporação da música na forma de se jogar o futebol.



Sobre Bernardo Borges Buarque de Holanda:
É bacharel (1996) e licenciado (1998) em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É mestre (2003) e doutor (2008) em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com bolsa-sanduíche na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS-Paris), em 2006. É professor adjunto da Escola Superior de Ciências Sociais e pesquisador do Centro de Pesquisas e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). Fez pós-doutorado na Maison des sciences de l'homme (Paris-2009), com bolsa do Centre national de la recherche scientifique (CNRS), onde desenvolveu pesquisa comparativa entre torcidas organizadas no Brasil e na França. É autor dos livros: "O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro" (Rio de Janeiro: 7Letras; Faperj, 2010, 588p.) e "O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego" (Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2004, 328p.). É editor da Revista Esporte & Sociedade. Foi professor de História Moderna e Contemporânea da UFRJ. Tem experiência nas áreas de História, Antropologia e Sociologia. Seus principais temas de pesquisa são: história literária e modernismo; cultura brasileira - crítica e interpretação; cultura popular e identidade nacional; pensamento social e intelectuais no Brasil; história social do futebol e torcidas organizadas.

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