terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Portinari: Arte e Futebol


Arte e futebol. Futebol e Arte. Um faz com os pés o que o outro com apenas dois dedos transforma em magia. Entre os vários artistas que já pintaram o futebol, o Brasil perdeu há 53 anos um de seus melhores representantes: Candido Portinari morreu no dia 06 de fevereiro de 1962. E entre eles, Portinari é um dos raros a escrever. Tem diversos poemas que retratam sua vida e o contexto de várias de suas obras.

Está lá, na página 163 do delicioso livro “Portinari – O pintor do Brasil” (Boitempo Editorial, 2003) escrito por Marília Balbi sobre a vida e a obra de Portinari:

“...Cândido Portinari nasce no dia 30 de dezembro de 1903, em uma fazenda de café, perto da cidade de Brodósqui, um pequeno vilarejo com setecentos habitantes, no Estado de São Paulo. É o segundo de doze filhos de Baptista Portinari e Dominga Torquato, ambos italianos da região do Vêneto. Em 1911 começa a freqüentar a escola, não indo além do terceiro ano. Em 1914, faz seu primeiro desenho conhecido: um retrato do compositor Carlos Gomes. Em 1919 decide seguir carreira de pintor e parte para o Rio de Janeiro, onde se matricula como aluno livre na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA). Na então capital federal, tem sua formação artística, durante oito anos”.

Mas para se conhecer por completo a vida e a obra de Portinari vale acessar o site www.portinari.org.br, um projeto fantástico organizado pelo filho do pintor, João Portinari, que reúne acervo de 30 mil documentos, fotos e outros registros históricos relacionados às quase 5 mil obras catalogadas de Portinari.

Em uma das seções do imenso site, encontramos as obras catalogadas de Portinari sobre o tema futebol. Uma viagem no tempo que revela o fascínio do artista por sua terra e, principalmente, pelo jogo que encanta toda criança brasileira. São 18 obras lindíssimas que valem a pena serem vistas com carinho. Basta acessar:

Aqui, destacamos apenas duas delas:

1958
Pintura a óleo/madeira
65x80cm
Rio de Janeiro, RJ
Assinada e data na margem inferior à direita
"Portinari 958"
Coleção particular, Rio de Janeiro, RJ.
C.1958
Pintura a óleo/madeira
31.5 x 23.5cm
Rio de Janeiro, RJ
Sem assinatura e sem data
Coleção particular, São Paulo, SP.
No ano passado, o jornalista blogueiro que mantém o espetacular blog “A pelada como ela é”, Sérgio Pugliesi postou três artigos sensacionais, talvez o mais completo sobre a ligação de Portinari com o futebol. Vale a pena acessar e ler na íntegra  o material raro obtido por ele junto ao filho do artista, João Portinari (inclusive uma entrevista com o filho de Portinari, também boleiro peladeiro no Rio de Janeiro).

Um verdadeiro documento histórico. O mais importante que une definitivamente a imagem de um de nossos mais importantes artistas do século 20 ao futebol é uma foto de Portinari perfilado no time da Escola Nacional de Belas Artes, no início dos anos 1920, resgatada junto ao acervo mantido por João Portinari, filho do artista.



Candido Portinari (terceiro sentado, da esquerda para a direita)
vestindo a camisa do time de futebol da Escola Nacional de
Belas Artes, no início dos anos 20.
Crédito: acervo João Portinari, publicado no blog "A pelada como ela é".
Literatura na Arquibancada destaca aqui um trecho de um dos textos escritos por Pugliesi, ilustrados com mais algumas telas produzidas por Portinari e encontradas na seção do site mencionado pouco acima:

“Mesmo com uma perna bem menor do que a outra, o menino Candido se aventurava nos campos de várzea de sua cidade, no interior de São Paulo. Era impossível não tentar. Colado à sua casa havia um campinho e bastava abrir a porta da cozinha para ele quase bater a cabeça numa das balizas. Apesar disso, seus pés descalços nunca criaram jogadas brilhantes. Então, resolveu investir nas mãos. Não virou goleiro como alguns podem imaginar. Fora das quatro linhas, sentado num banquinho, deu seus dribles mais desconcertantes e, tal qual um reserva resignado, criou parte de sua obra prima.

[1933]
Pintura a óleo/tela
49.5 x 124cm
Brodowski, SP.
Assinada no canto inferior direito "Portinari". Sem data
Banco Bradesco, Osasco, SP.
Como observador, coloriu os campos a seu modo, vestiu o time preferido com as cores mais vivas da aquarela e, de pincelada em pincelada, conquistou o mundo. O menino ruim de bola cresceu e virou Candido Portinari, maior expoente da pintura modernista brasileira. Em sua monumental história, contabilizou 5 mil obras e nunca esqueceu de retratar os campos de várzea, uma espécie de amor não correspondido.
– Era como se pintasse meninas que nunca deram bola para ele – comparou o filho, esse sim, bom de bola, João Candido Portinari, fundador e diretor do Projeto Portinari, responsável pela catalogação da obra do pai.

Portinari
Crédito: http://elfikurten.blogspot.com
Tímido, o pintor expressava suas paixões com cores e palavras, como no trecho editado de uma de suas poesias publicadas no livro "O menino e o povoado": “Aos 8 anos tive uma namorada branca branca. Nunca lhe disse uma palavra. 

Depois nunca mais a vi e não ouvi seu nome. Namorei tantas meninas e ninguém soube”.






Futebol
1935
Pintura a óleo/tela
97 x 130cm
Rio de Janeiro, RJ
Assinada e datada no canto inferior direito "Portinari 935 C.
Portinari Rio"
Coleção particular, Rio de Janeiro, RJ.
Foi exatamente assim com os campinhos. Numa rápida navegada no site do projeto, a equipe do A Pelada Como Ela É encontrou 18 pinturas de campos de várzea, quase todos em Brodowsky, terra natal. Numa delas, um autoretrato, “Futebol”, aparece cercado de meninos e o que o diferencia do grupo é a perna menor do que a outra. Só especialistas para atentarem ao detalhe.
(...)

Portinari, a esposa Maria e o filho João, em 1941.
Créditro: http://elfikurten.blogspot.com
As reuniões na casa de Candido Portinari eram frequentes e animadas, entre outros, por Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge Amado e Adalgisa Nery. Certa vez João Portinari chegou em casa e irritou-se quando viu, numa rodinha musical, um homem tocando seu violão. “Vai desafiná-lo”, pensou. Saiu irritado, batendo porta e só anos depois soube tratar-se do maestro Villa-Lobos. No Rio, João sentia-se verdadeiramente feliz e divertia-se com as loucuras do amigão Alcyr, que se enchia de caipirinha nas boates e após o derradeiro gole subia na mesa e gritava “Tequila!!” antes de cair desmaiado. Bons tempos! Mas um dia a ficha caiu e João resolveu olhar para trás. Foi quando aprofundou-se e encantou-se com a história do pai.

Jogo de Futebol em Brodwski
[1933]
Pintura a óleo/tela
95 x 124cm (estimadas)
Brodowski, SP
Ateliê do artista.
Reuniu documentos, fotos, livros, cartas, toda uma vida. A nosso pedido procurou algum registro que ligasse o pai ao futebol e achou uma foto rara, do início dos anos 20, de Portinari no time de pelada da Escola de Belas Artes. Emocionou-se. Na poeira dos arquivos, também achou uma reportagem de O GLOBO, muito antiga, intitulada "Como trabalham e sonham nosso pintores” e leu um trecho em voz alta: “Tenho, também, uma delícia grata e profunda. É quando componho, por exemplo, "Jogo de futebol em Brodowski", a cidade em que me fiz e onde a minha infância, sob a inspiração do modesto dinamismo do meio, embebeu-se de miragens, impregnou-se de melancolias ou sonhos. As imagens que ali se afirmam, a bola de meia, os pés descalços, os trancos, as caneladas, a cerca de pau, tudo isso são imagens impressas na minha memória, que se reúnem e gritam a um esforço evocador, que cruzam os caminhos do meu mundo secreto”.

Brodowski
1958
Pintura a óleo/madeira
65.5 x 100cm
Rio de Janeiro, RJ
Assinada e datada na metade inferior
à direita "Portinari 58"
Coleção particular, Rio de Janeiro, RJ.
No fim do texto, o filho coruja sorriu orgulhoso. Balançou a cabeça como um menino levado assumindo o reconhecimento tardio ao talento do pai e ao mesmo tempo transparecendo uma felicidade gigante por ter despertado a tempo de abraçar todo o seu passado e hoje viajar o mundo de mãos dadas com o seu melhor amigo”.

Sobre Sérgio Pugliesi:
É jornalista e apaixonado por futebol. Durante 15 anos chefiou as redações de JB, O Dia e O Globo. Hoje, mantém o blog “A pelada como ela é”:


Um comentário:

  1. Futebol, Brinquedo de Menino Pobre

    O Futebol, “brinquedo de menino rico”,
    virou brinquedo do Brasil mestiço...
    João Maximo, Brasil Um Século de Futebol

    Menino pobrinho e descalço
    Com amarelão
    Não tendo bola de capotão
    Brinca com uma laranja lá embaixo
    Ou chuta uma latinha de massa de tomate
    Caroço de manga, ou caroço de abacate
    Quando não chuta um velho sapo seco
    De riacho,
    no campinho ralo de um beco

    Menino pobrinho e descalço
    Com amarelão
    Finta o zagueiro polaco, e o toco
    No campinho inclinado de chão
    E finta a arvore, o cupinzeiro, o devão
    Feito um pobre garrincha banguela
    Quando não, finta a miséria; sem pão
    No sufoco,
    de um gueto humilde da favela

    Menino pobrinho e descalço
    Com amarelão
    Não tem o que comer, sem chão
    Mas na ruela já se revela craque
    Feito um caipira janjão de almanaque
    Serelepe dribla, finta, faz firula, gozação
    Mal sabe o sobreviver do dia de amanhã
    Feito um pateta,
    brinca na cor-de-rosa terrinha chã

    Menino pobrinho e descalço
    Com amarelão
    O futebol moleque - sua bendição
    Toda sua vida ali; brincar de ser tão
    Craque de bola, na sua condição
    Se sobreviver com sorte, um dia, então
    Será atleta, rico, famoso, da seleção
    Ou nunca será, não,
    morrerá. Entre a droga e a inanição...
    -0-
    Silas Corrêa Leite
    E-mail: poesilas@terra.com.br
    WWW.portas-lapsos.zip.net








    ResponderExcluir