quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Parabéns, Zico (parte 2)


Zico completa 60 anos, domingo, dia 03 de março de 2013. Literatura na Arquibancada apresenta abaixo uma série especial sobre a vida do Galinho de Quintino, apresentada no ano passado por aqui. No futebol brasileiro é uma das figuras mais populares e premiadas por tudo que fez dentro dos gramados até quando parou de jogar definitivamente no ano de 1994.

Zico é dono de marcas impressionantes em sua vida profissional. É quase um Deus para a torcida do Flamengo. E não é a toa. Tornou-se o maior artilheiro na história do Maracanã com 333 gols.

Foi eleito como o terceiro maior jogador de futebol brasileiro do século 20, pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS). As honrarias não param por aí. Zico é um dos quatro brasileiros a figurar no Hall da Fama da Fifa (os outros são Pelé, Garrincha e Didi). A Fifa também o considerou o oitavo maior jogador do século 20 e no Brasil a revista Isto É colocou-o em nono lugar como Brasileiro do Século no esporte. Na Inglaterra, a revista World Soccer colocou-o em décimo lugar no ranking dos melhores jogadores de todos os tempos.

Não é pouco. Apesar de todas essas conquistas Zico encerrou a carreira sem conseguir conquistar um título mundial pela Seleção Brasileira. No Japão, onde foi jogador e treinador, ganhou o apelido de “Deus do futebol”. Até estátua recebeu em homenagem por tudo que fez por lá.

Apesar de todas essas façanhas e o prestígio acumulado ao longo da carreira, Zico talvez tenha se tornado tão carismático entre os torcedores brasileiros por conta de uma característica pouco vista no mundo do futebol: a simplicidade.

Hoje, Literatura na Arquibancada resgata um dos momentos mais complicados e sofridos na vida de Zico: o drama da contusão que por pouco não acaba com sua carreira e as cobranças pelo pênalti perdido na Copa do México, em 1986.

O texto abaixo faz parte da autobiografia de Zico, lançada em 1996, pela editora FTD: “Zico conta a sua história”.



Uma botinada e quatro cirurgias

Dia 29 de agosto, uma partida contra o Bangu. Recebi a bola na intermediária e parti para a área. Fugi da falta do primeiro zagueiro, que me deixou meio desequilibrado. O segundo veio para cima de mim, levou um drible e ainda tentou me parar na base do pescoção, mas me livrei dele também. Aí, veio o terceiro, voando baixo. Era o Márcio Nunes. Os pés dele passaram por cima da bola sem a menor preocupação em acertar nela: o alvo era meu joelho esquerdo. Pegou com tudo!

                                   Vídeo com entrevistas e cenas da contusão de Zico

Se, naquele momento, eu tivesse adivinhado o que me aguardaria nos próximos meses – na verdade, a última operação que realizei, em conseqüência, mesmo que indiretamente, dessa lesão, foi em 94 –, não sei qual teria sido minha atitude, ali, no momento. Talvez largasse tudo e fosse para casa aproveitar a vida.

Ou não...

É, acho que não agüentaria mesmo. Sempre disse que queria parar um dia com o futebol, e não que o futebol parasse comigo. Queria parar jogando, não por causa de uma lesão. E, depois, tinha a Copa para disputar, tinha tanta coisa que achava que ainda poderia obter do futebol, tanta coisa que eu achava que ainda poderia fazer...

E, se eu parasse, ia acordar toda manhã e pensar que ainda poderia estar jogando. Ia me xingar de covarde, de uma porção de coisas mais, para o resto da vida, por não ter tentado; ia ficar imaginando onde eu estaria, se não tivesse parado, o que estaria fazendo. Ia ter delírios, pesadelos, me vendo jogar uma ou outra partida, que eu só poderia assistir pela televisão.

“Vai ter o dia de parar. Claro que vai. Mas é diferente. Parar assim, cara, não dá!...Não dá!”.

Logo depois da contusão, fiquei vinte e um dias sem jogar. Voltei ao time do Flamengo, mas era evidente que eu não conseguia fazer nada direito com a bola. E havia a questão da convocação para a Copa, todo mundo só perguntando se eu teria condições de jogar no México. Eu queria jogar. A ansiedade dos outros era minha também. Mais do que qualquer um, queria minha chance de reparar a injustiça, como disse o Júnior.

No dia 21 de outubro, fui operado no Hospital Israelita de Belo Horizonte, para fazer uma artroscopia, um exame das articulações que também retira as partes lesionadas da cartilagem. A recuperação – quer dizer, até eu poder colocar o pé no chão outra vez – foi relativamente rápida, graças à técnica utilizada. Mas, dali para frente, minha velha conhecida, a sala de musculação, seria mais minha casa do que qualquer outro lugar no mundo. Em nenhum momento eu podia ter a certeza de que voltaria a jogar – e nem desconfiava do que ainda estava me esperando.

Precisava recuperar os movimentos e reverter a atrofia muscular da perna esquerda. A primeira vez que entrei em campo foi na pelada que eu e meus irmãos promovemos, lá em Quintino, tradicionalmente, na época do Natal – foi no dia 28 de dezembro. É um jogo beneficente, que arrecada fundos para a Funabem. Joguei apenas os primeiros quarenta e cinco minutos, mas já deu para sentir o gostinho. Comecei a ficar mais confiante. Acreditava que faltava pouco para ter vencido mais aquela...

Zico na Udinese.
Enquanto isso, o senhor Dunshee de Abranches dava uma entrevista dizendo que havia me vendido para a Itália porque, desde aquela época, eu já estaria “bichado” para o futebol.

Eu ainda me submeteria a uma rotina de tratamento muito dura, penosa...dolorida mesmo, às vezes, pois precisava forçar os músculos para reaver minha forma física. Buscava estímulo na minha vontade de jogar outra vez diante da torcida, e lá vinha aquele sujeito – e outros, fazendo coro, aproveitando para aparecer – dizendo uma coisa dessas, como se me apunhalasse pelas costas. Não respondi. Esperei, continuei meu tratamento.

No dia 17 de fevereiro, na véspera da convocação para a Copa do Mundo, Flamengo e Fluminense se enfrentavam no Maracanã. Desde a contusão, eu já havia participado de alguns jogos, sofrido lesões de menor gravidade, retornado à musculação e a outros procedimentos terapêuticos, e havia voltado a jogar...Telê estava no estádio e, por alguma razão, todos comentavam que ali seria decidida minha convocação para a Copa do Mundo. Depois de tudo o que eu já tinha passado, havia resolvido que não ia ficar de fora da Copa do México de jeito nenhum. Foi com essa disposição que entrei em campo.

Eu me matei naquela partida. Corri, marquei, dei bicicleta, driblei e lancei, fiz três gols na vitória por 4 a 1 do Flamengo. A certa altura, enlouquecido com o ritmo que nosso time estava impondo ao jogo, imprensado mesmo contra seu próprio campo, o Romerito – que deve ter dito aquilo de cabeça quente – chamou o Fluminense para quebrar o Flamengo e evitar a goleada.
– O que é isso, cara! – reclamei com ele.
– Não fala, não, que eu quebro você também.
Continuei jogando à vontade e o Romerito, como prova de que suas palavras devem ter-lhe pesado na consciência, sumiu do jogo.

Sócrates, Telê e Zico.
Para comemorar meu terceiro gol, quem não agüentou fui eu. Corri com o punho cerrado gritando:
– Bichado é a...

O carinho e o alívio da torcida, demonstrando que ela, fiel e generosamente, acompanhou meu drama e nunca deixou de querer o melhor para mim, além do meu próprio esforço, foram recompensados no sorriso que Telê – famoso por sua cara de zangado – deu para a tevê, quando, na saída do jogo, perguntaram se eu estava convocado. Contrariando um hábito seu, o de não adiantar informações à imprensa, aquele sorriso foi a mais eloqüente das respostas.

Eu havia reencontrado a torcida, com a qual sonhara em cada minuto durante o período de recuperação. Aquele rumor que ela faz, estremecendo o estádio, botando a coisa dentro da gente para transbordar a ponto de dar medo de não suportar a emoção – eu havia ganho aquilo de volta. Mas meus problemas estavam longe de terminar.

Continuei sofrendo contusões, e cheguei à Copa do Mundo sem estar na plenitude da minha forma. Mas acreditava que poderia jogar, que poderia ser útil ao time, do contrário eu próprio pediria meu desligamento da seleção, até para não provocar uma lesão irreversível. Nunca concordei, portanto, com a opção do Telê de só me lançar no final de cada jogo. Cheguei a declarar que, se era para ver se eu agüentava o tranco, preferia ser lançado no começo e jogar o quanto desse – e eu acreditava que conseguiria, sim, jogar as partidas do começo ao fim. Eu queria era ganhar a Copa.

Pênalti perdido por Zico, na Copa do México, em 1986.
Não deu...

Não fico me remoendo sobre aquele pênalti que perdi contra a França. Lamentei pela torcida, pela geração de jogadores que se despedia das Copas sem conseguir o título, e até por Telê, cuja filosofia de jogo merecia melhor sorte nos mundiais.

Para saber mais sobre a carreira e a vida de Zico, acessar o site: www.ziconarede.com.br/

Adeus aos Eucaliptos


O desaparecimento de um estádio de futebol não apaga da memória o que nele vivemos (ou nossos antepassados), mas deixa uma ferida na memória de todos que um dia ali desfilaram, nas arquibancadas ou no gramado. É o que nos conta o gaúcho de Santa Maria, Athos Miralha da Cunha sobre o tradicionalíssimo Estádio dos Eucaliptos, que está sendo demolido para a construção de um condomínio residencial. Athos mantém o blog:

Adeus aos Eucaliptos
Por Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Posso imaginar o que sentiu Larry Pinto de Farias ao ver o início da demolição do Estádio dos Eucaliptos. Possivelmente um sentimento de perda e vazio. Impotência diante da máquina avassaladora.

O estádio inaugurado num distante março no início da década de 30 dá lugar a um condomínio residencial. Em breve, o gramado onde brilharam Ivo, Alfeu, Nena, Assis, Ávila, Abigail, Russinho, Villalba, Tesourinha, Adãozinho e Carlitos, craques do lendário Rolo Compressor será, apenas, algumas lembranças de saudosos torcedores do Sport Club Internacional.

Não conheci os Eucaliptos, sequer fui fazer uma visita para ver o palco que abrigou jogos da Copa de 50. O Estádio dos Eucaliptos nunca esteve nos meus roteiros em visita a Porto Alegre. 

Não tive a felicidade de assistir ao Rolo Compressor e não vi as atuações de Tesourinha e Cia. Essa turma de boleiros só nos livros e fotos.

A minha geração é a do Gigante da Beira-Rio. Que também é um templo sagrado de mitos e lendas do futebol. 

A geração do Bigorna, Bola-bola e Dom Elias Figueroa. Da mesma forma que alguns torcedores mais idosos têm a escalação do Rolo Compressor na cabeça, eu tenho a da equipe campeã de 75 e o inesquecível Gol Iluminado.

Não tenho esse sentimento de afeto ao Estádio dos Eucaliptos, mas posso imaginar que seja a mesma sensação melancólica de um ferroviário ao contemplar as ruínas de uma estação da Viação Férrea. E esse sentimento – como filho de ferroviário –, eu tenho presente. São emoções indescritíveis como folhar um corroído álbum de fotografias que contam a história de uma Era. A história de um tempo que está marcado nos gritos de uma torcida ou num gol de bicicleta.

O Estádio dos Eucaliptos ficará na memória dos torcedores – e na memória dos filhos e netos desses torcedores –, nas fotos, em um perdido filme de uma tabelinha de Larry e Carlitos. Na voz de um narrador alucinado com um desconcertante drible de Tesourinha. Essa é a historia que deverá ser contada e escrita nos pormenores detalhes.

É uma pena. Os Eucaliptos poderiam abrigar a história do futebol, a memória dos esportes, mas temos que compreender que futebol e time campeão não se faz com sentimentalismo e nostalgia. Hoje, futebol é um negócio cujo resultado vem das quatro linhas do gramado. Não basta ter um estádio, tem que ter time e time vencedor.

Chácara dos Eucaliptos, em 1912.
Assim, resignado, mas com o mesmo sentimento de Larry, entendo o adeus aos eucaliptos.

O Beira-Rio é o nosso palco e o Rolo Compressor nós refaremos junto ao pôr do sol do Guaíba. E quando o capitão colorado levantar a taça de campeão estará saudando os craques do passado e as glórias do Estádio dos Eucaliptos.




Sobre Athos Miralha da Cunha

É graduado em Engenharia Civil pela UFSM e funcionário da Caixa. Integrante dos livros de crônicas Tudo Haver ed. 2005; Nada Haver ed. 2006; O maquinista daltônico ed. 2007; O gol iluminado ed. 2009 (2º lugar no prêmio Paulo Mendes Campos 2010 da UBE); Pra começo de conversa ed. 2009 e das coletâneas de contos A nona assassina ed. 2007; A frase do doutor Raimundo Ed. Movimento 2009 e Milongueiro Ed. Movimento 2011. Um dos autores dos romances coletivos Os dez mandamentos – Ed. Movimento 2008 e Arquimedes – Ed. Movimento 2010.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Parabéns, Zico


Zico completa 60 anos, domingo, dia 03 de março de 2013. Literatura na Arquibancada apresenta abaixo uma série especial sobre a vida do Galinho de Quintino, apresentada no ano passado por aqui. No futebol brasileiro, Zico é uma das figuras mais populares e premiadas por tudo que fez dentro dos gramados até quando parou de jogar definitivamente no ano de 1994.

Zico é dono de marcas impressionantes em sua vida profissional. É quase um Deus para a torcida do Flamengo. E não é à toa. Tornou-se o maior artilheiro na história do Maracanã com 333 gols.

Foi eleito como o terceiro maior jogador de futebol brasileiro do século 20, pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS). As honrarias não param por aí. Zico é um dos quatro brasileiros a figurar no Hall da Fama da Fifa (os outros são Pelé, Garrincha e Didi). A Fifa também o considerou o oitavo maior jogador do século 20 e no Brasil a revista Isto É colocou-o em nono lugar como Brasileiro do Século no esporte. Na Inglaterra, a revista World Soccer colocou-o em décimo lugar no ranking dos melhores jogadores de todos os tempos.

Estátua de Zico, no Japão.
Não é pouco. Apesar de todas essas conquistas Zico encerrou a carreira sem conseguir conquistar um título mundial pela Seleção Brasileira. 

No Japão, onde foi jogador e treinador, ganhou o apelido de “Deus do futebol”. Até estátua recebeu em homenagem por tudo que fez por lá.

Apesar de todas essas façanhas e o prestígio acumulado ao longo da carreira, Zico talvez tenha se tornado tão carismático entre os torcedores brasileiros por conta de uma característica pouco vista no mundo do futebol: a simplicidade.


Zico, técnico da Seleção do Iraque.
A partir de hoje, Literatura na Arquibancada começa uma pequena série especial em sua homenagem. 

A prova de que Zico é um homem que nunca se deixou levar pelo “poder” e a fama que o futebol traz é a de que ainda hoje é figura acessível a ponto de trocar e-mails com jornalistas para falar sobre sua vida. Literatura na Arquibancada encontrou Zico no Catar onde está concentrado para o jogo de amanhã (quarta-feira) da seleção do Iraque que ele comanda contra a seleção de Cingapura. 
Em breve teremos o “Galinho” por aqui, respondendo às perguntas que você pode fazer. Envie-as para podermos bater esse papo com Zico...

Mas para conhecer Zico de verdade, Literatura na Arquibancada selecionou um texto de sua autobiografia, lançada em 1996, pela editora FTD. É incrível como esse primeiro capítulo da obra revela traços e características que todos já conhecem em Zico. Mais do que isso, um texto que revela como o futebol é elemento formador de posturas e condutas ao longo da vida. Zico parece ter aprendido muito bem as lições recebidas.


Rua Lucinda Barbosa, 7

Zico com um ano de idade em sua casa, em Quintino.
Crédito: reprodução livro "Zico conta sua história".
Eu sou o Zico, filho do seu Antunes e da dona Matilde. Meu pai era um português brabo, de Tondelas, perto de Coimbra. Trabalhou em padaria, foi alfaiate, e por pouco não seguiu a carreira de goleiro no futebol profissional. Enfim, deu duro a vida inteira para nunca deixar faltar nada dentro de casa.

Nasci numa rua chamada Lucinda Barbosa, em Quintino, um subúrbio do Rio de Janeiro, em 3 de março de 1953. Minha mãe tem horror a hospital e por isso deu à luz em casa, com a ajuda de uma parteira amiga da gente – bem como dona Matilde queria e como muita gente da vizinhança fazia naquele tempo. Sou o caçula de uma família numerosa. Quando nasci, meu pai tinha cinqüenta e um anos. Minha mãe diz que fui muito preguiçoso – demorei a falar e mamei até os seis anos de idade.

Zico e os irmãos boleiros.
Crédito: www.ziconarede.com.br
Nunca liguei muito para comida quando era criança. Gostava mesmo era de batata frita. Do resto, não fazia questão. Pode ser por isso, e por ter sido um menino franzino que até parecia meio fraquinho, que fui protegido demais durante toda a minha infância, inclusive por meus irmãos.

Quando meu pai chegava à noite do trabalho, encontrava sempre a gente na rua, batendo bola. Daí, do portão, soltava um berro num fôlego só:

– Zeca-Nando-Edu-Tonico-Zico-pra-dentro!

Zico com sua mãe, dona Matilde.
Crédito: www.ziconarede.com.br
E a gene obedecia no ato, na mesma corrida. Meu pai já esperava de cinto na mão, quando ficava sabendo de alguma desobediência da gente às leis da casa. Malcriação contra minha mãe, então, não tinha desculpa, nunca, mas também era difícil de acontecer.

O caso é que a fileira de irmãos ia passando, cada um levando a sua lambada – e eu era sempre poupado. Ou um irmão parava na frente do meu pai e me dava cobertura, para eu escapulir – mesmo à custa de uma sobra extra pra cima do meu protetor –, ou meu pai aliviava.

Zico entre os irmãos Tonico e Antunes.
Crédito: www.ziconarede.com.br
 
Ele nunca me encostou um dedo. Meu irmão Antunes, o mais velho, não teve a mesma sorte. Eu ouvia contarem do meu pai correndo furioso atrás do Antunes, com cinto na mão ou um pedaço de pau, se ele aprontasse alguma coisa que o desagradasse.

Lembro que ia ver o Antunes jogar bola detrás do gol dos adversários. Daí, quando o time dele marcava, eu cantava:

– Có-có-ri-cóóóó!


Zico, na equipe do Juventude, de Quintino, em 1966.
Não precisa dizer que ele é o menor da turma
(agachado, segundo da direita para a esquerda).
Crédito: www.ziconarede.com.br
Por causa disso, para pegarem a mania de me chamar de Galinho foi um pulo. E também para ganhar o apelido que tenho até hoje. Começaram me chamando de Arturzinho, depois de Artuzico e, para simplificar de vez, Zico, dado por minha prima Linda.

Meu pai era Flamengo doente! Já gostava de futebol quando chegou ao Brasil, e certo dia foi assistir a uma partida entre Flamengo e América. O América ganhou de 4 a 1, mas meu pai adorou a camisa do Flamengo. Foi paixão mesmo. Cada filho que nascia, comprava para ele um uniforme completo de jogador do Flamengo e outro da Seleção Brasileira.

José Antunes Coimbra, pai de Zico.
Mas nunca quis que filho nenhum virasse jogador de futebol. Jogador de futebol, naquele tempo, tinha fama de sujeito da noite, farrista, boêmio...vagabundo. E, além do mais, meu pai teve lá suas desilusões. Ainda moço, trabalhava numa padaria e agarrava no gol do Municipal, um time amador. Tinha liga, campeonato e tudo, e a equipe do velho Antunes foi campeã. Daí, foi chamado para treinar no Flamengo e o patrão dele, o dono da padaria, que era vascaíno, ameaçou:
– Se você for para o Flamengo, está despedido!
Ora, meu pai precisava do emprego, então...

Zico e os pais.
Crédito: www.ziconarede.com.br
Quando meu pai abriu a alfaiataria, eu saía da escola e, às vezes, ia para lá, me encontrar com ele. Voltávamos juntos para casa à noite. 

Achava sempre que era meio mágica – coisa bonita mesmo! – a concentração com que ele trabalhava. É como se, a cada ponto que dava, viesse à cabeça dele que a roupa que estava consertando ou fazendo fosse importante para a pessoa que iria vesti-la, que poderia ajudá-la a conseguir um emprego ou a aparecer bem diante de alguém de quem gostasse. 

Ou então era por ele mesmo, por respeito ao ofício que sustentava sua família, respeito até por si próprio, pelas coisas em que punha a mão e pelo que levava o nome dele. 

Fazer tudo com capricho era o orgulho e a dignidade dele.


Zico e o irmão Edu.
Crédito: www.ziconarede.com.br
Eu era muito agarrado ao meu irmão mais velho, o Antunes, que a gente lá em casa chamava de Zeca. Tanto que, para ver meu irmão jogar, matava aula. Nunca matei aula por nenhuma outra razão, só para ver o Antunes e o Edu jogarem. E perdi dois anos na escola por causa disso. O Antunes começou a treinar no Fluminense escondido do meu pai. Costumava ajudar o velho na alfaiataria, e foi a contragosto que papai deu a ele permissão para seguir carreira, depois que o Zeca arrasou, num treino do Fluminense.

Parecia que estava adivinhando o que iria acontecer. De fato, o Antunes sofreu muitas decepções. Foi lesado nos contratos, nas trocas de clube – e isso apesar de ser considerado um craque pela torcida e pela imprensa.

Zico e Edu.
Crédito: www.ziconarede.com.br
 
Mais tarde, o Edu também ia apanhar da vida, como jogador profissional. E vi tudo isso acontecer. Jogar com um time formado por mim e meus irmãos, lá na rua, ou mesmo em campeonatos de futebol de salão, era uma delícia. Sonhar em jogar no Flamengo, também. Mas logo deu para notar que futebol não era nem apenas brincadeira, nem coisa que garantisse sucesso na vida de ninguém. Era meio assustador aquele bando de dirigentes que passava lá por casa tentando convencer o Zeca a participar de falcatruas, a assinar contratos só para constar, nos quais o clube saía perdendo, meu irmão ganhava um trocado e ele, o cartola, embolsava uma fortuna. Um deles meu pai pessoalmente botou para correr.

Dida
Mas futebol era o que mais me dava prazer na vida. Conta lá em casa que, depois de papai e mamãe, a primeira palavra que eu disse foi Dida – meu primeiro e até hoje meu maior ídolo no futebol. Não era para menos. 

Foi o ano do tricampeonato do Flamengo, e o Dida foi o artilheiro da competição. O Dida, com sua postura elegante, chutando bem com as duas pernas e com aquela imensa alegria que passava ao comemorar o gol – jogar, para ele, era decididamente uma satisfação. 

E eu, de criança, já adorava bater bola, assistir às partidas, tudo o que dizia respeito a futebol me encantava.


Zico e seu maior ídolo, Dida.
Um amigo do bairro, o seu Ivo, trabalhava no Maracanã. Um dia – eu tinha doze anos –, ele passou lá por casa e me chamou para pisar no gramado. Era meu maior sonho!

Seu Ivo me levou ao Maracanã, e mais a um amigo meu da rua, e me deixou entrar no gramado pelo túnel central, de onde saem os árbitros. Esfreguei o pé naquela gramazinha gostosa, olhei em volta, para as arquibancadas vazias, sem conseguir dizer coisa nenhuma, como se estivesse vendo coisas acontecendo. Daí...

...Senti um arrepio.

Fonte:
“Zico conta sua história” (Editora FTD, 1996)

Para saber mais sobre a carreira e a vida de Zico, acessar o site: www.ziconarede.com.br/






Continuação da série especial sobre Zico:

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Paulo Leminski e o futebol


Entre os vários craques da literatura brasileira que já passaram pelo Literatura na Arquibancada, o poeta, escritor e tradutor, Paulo Leminski talvez seja o que menos tenha escrito sobre o tema futebol, o que não o impedia, claro, de torcer pelo seu clube de coração a sua maneira. E a descoberta do tal time e de que maneira o poeta Leminski lidava com o futebol estão abaixo: um atleticano, com certeza.

Coritiba, campeão brasileiro de 1985.

O mais curioso é que Leminski deixou muito dos torcedores atleticanos em dúvida quando escreveu a “Declaração Alviverde”, um texto que parece uma heresia para um rubro-negro, pois nele o poeta destaca a conquista mais importante na história do arquirrival Coritiba, campeão brasileiro em 1985. 

Mas é aí que surge o jeito diferente de Leminski enxergar o futebol...

Uma declaração alviverde (por um poeta atleticano)

Torcida do Coritiba comemorando nas ruas
o título brasileiro de 1985.

“Hoje, quinta-feira, 1 de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde. Os passarinhos só diziam: Lela, Lela, Rafael, Rafael. E no ar pairava um forte cheiro de pólvora de foguete e pó-de-arroz. Nada mais me restava a não ser filosofar: "Não se pode ganhar sempre". E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim onde tremula o pavilhão rubro-negro e fiz descer a bandeira de meus sonhos. E foi com um misto de pesar e júbilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arquiadversário, hoje, aqui e agora, para sempre Campeão Brasileiro de 1985.


Um demônio (ou um anjo?) vestido de preto e vermelho (um Exu?) me sussurrava, brabo com o Tobi na grande área do Bangu: "Teu time é tua pátria, Traidor. Vendeste a alma por um escanteio, Vira-Casaca. Então, foi para isso que te demos tantas alegrias?" Nesse momento, recebi um passe do Índio e, vendo que eu estava em campo livre pela esquerda, o demônio rubro-negro preferiu a falta, mas, antes que me atingisse, toquei a bola na perna dele, e foi para lateral a meu favor.


Foi isso, tudo isso. E muito mais. Foi ver uma equipe coesa, coerente, bem orquestrada, enfrentar os Faixas pretas do futebol brasileiro (cariocas), e sair na frente. Foi ver um time de um Estado de poucas glórias atlético-esportivas explodir no “Templo máximo” do futebol brasileiro. Foi muito bom saber que futebol não é só de cariocas, paulistas, mineiros e gaúchos.

E, se o título foi nosso, pode bem ser de pernambucanos, baianos, catarinenses, capixabas, de goianos e matogrossenses, brancos, negros e mulatos queridos de meu Brasil, que escrevem com os pés a arte maior do meu país.


O futebol é o termômetro, a radiografia do Estado do Brasil. Seria por acaso que, nestes tempos de insuportável divida externa, nossos grandes craques estejam lá fora, na Europa, como os números que selam nossa dependência aos bancos estrangeiros? Não, com mel pênaltis, não. No Brasil, se o futebol vai bem é sinal de que as coisas estão indo bem. Se o futebol vai mal, algo vai mal na terra de Pelé, Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo e daquele reserva ponta esquerda do Náutico do Recife, do Ferroviário de Teresina, dos Nenecas, Tatas, Paquitos, Muçuns e Evaristos, que fazem as alegrias dos nossos domingos.


Este Título do Coritiba, de um time de tradição, mas interiorano, é um título da democracia, um Título da Nova República, um Título para todo mundo que só senta nas arquibancadas do Maracanã como crianças pobres em volta de uma grande fogueira esperando gritar "gol", como quem espera que lhe joguem a alegria de um pedaço de pão. Obrigado Coritiba, por essa alegria. Você esteve à altura do teu destino.”

Leminski gostava sim do futebol, não era um torcedor fanático como comprova fragmento do relato feito por Dante Mendonça, cronista e cartunista do jornal Paraná Online, membro da Academia Paranaense de Letras, publicado pelo site Furacao.com em março de 2007 sobre Paulo Leminski com o título “Poeta Atleticano”:

Luiz Antônio Solda.

“...Três testemunhas confirmam o que a torcida rubro-negra tinha quase certeza. Acima de qualquer suspeita, o coxa-branca Luiz Antônio Solda é o quase irmão do poeta que não deixa a menor dúvida. Parceiro de mesas e letras, o cartunista Solda jogava no time do polaco Leminski, daqueles que torcem distraídos, só quando se trata de grande evento, um Atletiba decisivo, uma final de Copa do Mundo. Daí deve ter nascido o título de um dos livros do poeta: ‘Distraídos venceremos’. ‘Na verdade, Leminski não gostava de futebol. Deve ser por isso que ele era atleticano’, diz com ironia o cartunista, ‘mas sempre que o Atlético perdia, lembro bem, ele chegava na agência de propaganda onde trabalhávamos se lamentando. 

E isso era quase sempre, dava até pena, porque o Atlético daquela época era freguês do Alto da Glória’.

Ernani Buchmann
O publicitário e escritor Ernani Buchmann é outra testemunha acima de qualquer suspeita. ‘Infelizmente, Leminski era atleticano. Mas não vamos exagerar. Era um atleticano light.’ Ex-presidente do Paraná Clube, várias vezes campeão paranaense, outro dos grandes orgulhos de Nani Buchmann foi ter merecido um poema do amigo Paulo, num dos raros versos do poeta dedicados ao futebol, senão o único. Está no livro ‘Não fosse isto E era menos Não fosse tanto E era quase’.

Quero a vitória do time de várzea / Valente / covarde / a derrota do campeão / 5 x 0 / em seu próprio chão / circo dentro do pão.

Talvez em função desses versos, muitos sustentassem que o poeta fosse torcedor do Combate Barreirinha, ou qualquer outro time do campeonato suburbano de Curitiba, para não dizer de várzea. Vale o que está escrito, mas o poeta é um fingidor.

Wilson Bueno

‘Eu já sabia!’, responde o escritor Wilson Bueno, companheiro de prosa e verso do polaco desde os tempos do “Solar da Fossa”, no Rio de Janeiro. Bueno confirma que o autor do “Catatau” era atleticano; e que todo poeta canta a vitória do mais fraco, a derrota do mais forte em seu próprio chão.

Quando o piá Wilson Bueno chegou à Curitiba, direto de Jaguapitã (PR), o Coritiba era o campeão. O Atlético, um coitado. Desde então, o escritor é mais um atleticano desatinado. Nas tardes de futebol, estende três bandeiras rubro-negras em três janelas de sua casa no Boa Vista, o famoso “Palacete do Tico-tico”, para o ódio mortal do vizinho coxa roxo que mora em frente.


 Atlético! Atlético! O poeta conhecia o teu valor. Não temia a própria morte, sentia que a camisa rubro-negra só se veste por amor."

Fonte:

Para saber mais sobre Paulo Leminsk, acessar: