segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A VOZ


Não existe sensação mais gostosa do que aquela quando recebemos um presente e começamos a abrir o pacote para descobrir o que há ali dentro. São segundos feitos de curiosidade e ansiedade. O período de festas acabou, mas o Literatura  na Arquibancada começou o ano recebendo um lindo pacote de presentes. E como é bom começar o ano ainda recebendo presentes !!! Para nós o presente não tinha "pacote" (mas é como se fosse um), e foi enviado por e-mail pelo escritor Claudio Lovato Filho, autor de "Na marca do pênalti" (Editora 34, 2002), "O batedor de faltas" (Editora Record, 2008) e "Em campo aberto" (Editora Record, 2011). Lovato nos presenteou com quatro contos inéditos e que aos poucos iremos reproduzi-los aqui, nesse espaço.

O primeiro "presente" de Lovato é o belíssimo texto, "A voz", sobre um problema muito comum no futebol mundial, especialmente, para os jogadores brasileiros: dores no joelho. E como todo presente, é sempre bom compartilhar do que gostamos.

A VOZ
Por Claudio Lovato Filho




Esta dor no joelho tem voz, e ela lhe diz assim: “Por que continuar?”


Esta dor no joelho e sua voz sombria são um lembrete constante a lhe falar da insensatez de prosseguir e, sobretudo, da sua covardia. É, é isso aí, covardia. “Porque”, a voz lhe diz, “algumas pessoas – e até você mesmo, se resolvesse se enganar – podem achar que essa sua insistência é prova de coragem e de determinação, mas não é. É medo.”


A voz lhe diz mais: “Você tem medo de parar de jogar porque sabe que o tédio, a solidão, a amargura, a bebida, a depressão vão bater à sua porta, todos os dias. Todos os dias. Já batem agora, imagine depois. E então virão a pena, o anonimato, o esquecimento, e o sumiço completo.”


E a voz lhe espezinha: “Você está fodido.”


A voz é escrota, faz ameaça, roga pragas: “Prepare-se pra tudo aquilo que você mais temia. Prepare-se pra enfrentar os seus demônios, um por um, todos os dias, todas as noites, principalmente as noites, e se for usar aquele revólver velho que o seu pai lhe deixou, pelo menos faça do jeito certo, chupe o cano com força, sugue com vontade, faça a ponta encostar no céu da boca, firme bem e então aperte o gatilho com força, usando o polegar, porque senão a coisa pode ficar ainda pior, hein, olhe lá.”


A voz não para (a voz nunca para): “Essa insistência... Essa insistência é o menino teimoso que não deveria mais estar dando as cartas na cabeça deste homem feito, deste sujeito de quase 40 anos e que nunca quis nada mais da vida a não ser jogar futebol, nada além nem acima, e que agora vai ficar sem nada, porra nenhuma, nada.”


Esta dor no joelho, esta filha da puta desta dor no joelho, está lhe dizendo assim: “Você perdeu. Este é o seu fim de linha. Acabou, seu merda.”


Mas esta dor no joelho, com sua voz estridente vinda diretamente do meio das tripas podres do inferno, ainda não entendeu que alguns jogadores de futebol, jogadores de uma certa estirpe despeitada, ficam completamente surdos em determinado momento de sua carreira. E de sua vida. Para o bem e para o mal.


Não ouvem vozes.


Sobre o autor:
Cláudio Lovato Filho nasceu em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 1965. Ainda na infância, mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em Jornalismo. Iniciou a carreira em jornais de Santa Catarina, nos quais foi repórter e editor. Radicado no Rio de Janeiro há 15 anos, atua hoje na área de comunicação empresarial. Ele também mantém o blog  http://claudiolovato.wordpress.com/

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