domingo, 22 de janeiro de 2012

Uma linda história de amor


Para você que, ontem, leu e assistiu o post sobre o documentário “Diamante Negro – O homem que venceu o tempo”, deve ter se emocionado com os dez minutos finais da produção onde Albertina, esposa de Leônidas, relata de forma emocionante a vivência com ele em seus últimos anos de vida. Um homem devastado por uma doença terrível, o mal de Alzheimer, mas ela, mesmo assim, não o deixou, não o abandonou. Foi até o último dia, lutando, preservando sempre sua história, como o faz até hoje. Com certeza, ela estará no Cemitério da Paz, no Morumbi, na próxima terça-feira, dia 24 de janeiro, dia em Leônidas partiu desta vida, em 2004.

Na biografia de Leônidas da Silva (Diamante Negro, Cia dos Livros, 2010), o trecho abaixo mostra um pouco da história comovente de Albertina e um tributo que ela deixou ao companheiro de vida em forma de um poema.


Albertina estudou filosofia e recentemente lançou um livro de poemas “Poesias” (Edição da autora, 2012). Entre tantos versos, lá está o que ela escreveu pouco tempo depois de conhecê-lo na década de 1950.

“...Leônidas foi internado em uma clínica geriátrica em 1993 e nunca mais saiu. As crises nervosas eram frequentes e somente com altas doses de tranquilizantes seu humor podia ser controlado. Já não falava nem reconhecia mais ninguém, nem mesmo um dos maiores amigos, Luís Ernesto Kawall. A única pessoa que ele parecia ainda reconhecer era Albertina. Bastava ela chegar à clinica para que ele abrisse um sorriso. Mas essa reação durava poucos minutos, logo em seguida tornava-se agressivo.

Mesmo assim, Albertina nunca deixou de visitá-lo. Pelo menos duas vezes por semana fazia caminhadas com ele pela clínica e mantinha em seu quarto uma bola colorida, para tentar fazê-lo lembrar alguma coisa de seu passado. 

Mas o máximo que Leônidas fazia era segurar a bola com as duas mãos; nem mesmo arremessá-la para algum lugar ele conseguia.

Apesar de os médicos afirmarem que seu estado era irreversível – o mal de Alzheimer degenera as células do cérebro lentamente – Albertina não desistia. Manteve a esperança de que um dia Leônidas pudesse recordar-se de algo. 
Pelo menos do período em que ela passara a fazer parte da vida do craque.

Albertina diz conhecer muito pouco da vida do Leônidas jogador; do Leônidas ídolo do futebol brasileiro, pois o conheceu nos anos 1950, já aposentado dos gramados. Os pertences pessoais do ex-craque foram guardados com muito cuidado pela companheira inseparável. 

Em um dos quartos, transformado em uma espécie de santuário, pode-se ver pelas paredes e nas gavetas troféus, fotos, pastas com documentos importantes, e até mesmo declarações apaixonadas.

Leônidas era um homem romântico, eternamente enamorado. Sabendo disso, Albertina, professora de filosofia, que sempre gostou de fazer poesias, registrou num pedaço de papel todo seu sentimento:


Poema para Leônidas

Não me lembro pois não vi.
Mas eu sei.
As lembranças que me deste
aos poucos se projetaram
na tela deste horizonte
de saudades, de alegrias,
desenhando pela vida
que, num chute,
te jogou pra dentro dela.

Eras jovem e às letras te chamaram.
Ia em meio teu ginásio
quando o jeito,
quando a bossa
te chamaram bem mais alto
para a glória que alcançaste.

Foram tempos de partidas.

Te chamaram Diamante
Negro – pelo brilho, pela cor –
Borracha – ah, aquele jeito, aquela bossa
Indovindo como um zás! –
Bicicleteavas no ar,
pois o espaço,
só o espaço, sem limites,
poderia limitar-te.

Alguns mares te chamaram.
Foste longe,
menos longe
e voltavas com o sorriso
da vitória iluminando
teu rosto de noite escura
que dava pra tornar dia
todas as noites de então!

Ah, foram tempos de partidas.
Sim, tempos de muitas vidas!

Entretanto, multidões que te chamavam
num só grito
como chuva, de uma vez,
não calaram em teus ouvidos
as vozes que dialogavam
nas tesouras dos teus pés:
o presente que vivias
o futuro que esperava
como árvore ainda nova
que lhe levasses as flores
e os frutos que semeavas.

II

Não me lembro pois não vi.
Mas outro dia encontrei
novo fruto em tua árvore
semeado com as mãos,
essas mãos que agora usas
quando falas para o ar
em que cruzavam teus pés.

Teu nome ainda é Diamante
Negro – pelo brilho, pela cor –
lapidado pelos anos
que viveste
e por estes em que vives
e encontras
novas formas de viver
construídas não apenas
por teus pés,
por tuas mãos
ou tuas falas no ar.
Mas por algo que te vai dentro,
herança da gente forte.
Poucos sabem como eu.
E como eu hão de lembrar !

São Paulo, 19/11/1957
Albertina P. Santos

Sobre Albertina Pereira dos Santos:

Nasceu em Santos, Estado de São Paulo, em 29 de março de 1928. Licenciada em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP, em 1954.

Foi revisora de Debates junto à Divisão de Taquigrafia da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo e redatora no cargo de Assessor Técnico de Gabinete da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

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