domingo, 15 de janeiro de 2012

Titãs olímpicos


No Literatura na Arquibancada sempre dissemos que algumas letras de músicas também podem ser consideradas “obras literárias”. Por isso, vira e mexe, apresentamos algumas dessas criações. Agora, lembrar de um pequeno trecho de uma música para provocar a reflexão sobre algum fato ou momento do esporte brasileiro só mesmo para quem convive diariamente com os dramas vividos pelos atletas brasileiros.

É o que propõe abaixo a psicóloga do esporte, Dra. Katia Rubio, em mais um dos artigos publicados em seu blog http://blog.cev.org.br/katiarubio/ . Inspirado no trecho da música “Comida”, criada pelo grupo de rock “Titãs”, ela reflete sobre a estrutura do esporte brasileiro, no presente e no passado. As imagens que ilustram esse post podem ser encontradas na Mostra Permanente de Arte do Esporte, no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), no Ibirapuera, criada em 2009 pela Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação de São Paulo.


Obrigação, desejo, necessidade, vontade.

Acompanho de perto alguns grupos de atletas profissionais com diferentes origens e estruturas de carreira. Isso me faz refletir sobre as disparidades que envolvem essa atividade profissional ainda tão nova nesse país em que o amadorismo ainda prevalece na condução do fazer esportivo.

Como não poderia deixar de ser isso remete a minha própria história quando a perua o clube ia buscar a mim e várias colegas na porta da escola onde estudávamos, três vezes por semana para treinarmos a alguns quilômetros de nosso bairro. Ao final do dia, satisfeitas, ganhávamos um misto quente. Uniforme só era usado em dia de jogo.

O máximo que se podia almejar era uma bolsa do “Adote um atleta” onde algumas empresas exerciam uma espécie de mecenato, contribuindo assim para o desenvolvimento do esporte brasileiro. Essa é a pré-história do esporte profissional na cidade de São Paulo. E nós, apaixonadas pela competição, por treinar e jogar, independente do dia da semana ou mês do ano, buscávamos por uma quadra e pessoas para jogar mesmo que não nos conhecêssemos anteriormente.

Ok. Essa era a fase romântica do esporte dirão alguns e eu concordarei. Mas, lembro de disputas de Campeonatos metropolitanos, municipais e estaduais onde ginásios como o Baby Barione, no DEFE da Água Branca, ficavam lotados com muito mais que os familiares dos atletas. Lá aprendi o significado da expressão “dar o sangue”. Ou seja, tínhamos pouco ou quase nada e dávamos um show dentro de nossas limitações técnicas e estruturais. As vezes os desavisados me falam: “Imagine se vocês ganhassem para isso?”

Depois de 17 anos, atuando como psicóloga do esporte, tenho dúvidas se o dinheiro nos faria diferentes, para melhor.

Assisto no presente uma condição de vida para atletas jovens e maduros “como nunca antes na história desse país”. Isso é fato. Vejo sobrar coisas básicas como tênis, bermudas e camisetas, itens dos mais cobiçados há três décadas. Assisto maravilhada a facilidade de intercâmbio onde a possibilidade de ir e vir em menos de 40 horas comprova que o mundo realmente ficou plano. Isso também levou a uma democratização do treinamento. Hoje não há segredos sobre o que se faz “do outro lado do mundo”. E o resultado é uma possível elevação da auto-estima de nossos atletas que passam a se sentir mais competentes em relação a si próprios e mais confiantes em relação aos estrangeiros.

E diante disso seria de presumir que vamos muito bem, obrigada.

Mas, infelizmente, a resposta é não. Talvez o esporte se confirme como o palco das dramatizações sociais, como diria Roberto da Matta. A crise geracional tão bem identificada em outras atividades sociais se manifesta de forma evidente nessa, que por mais de um século viveu da perseverança e boa vontade de alguns abnegados que acreditaram no esporte como uma estratégia para dar uma formação diferenciada à juventude e, quem sabe, mudar o mundo.

Falo tudo isso para tentar elucidar o enigma em forma de discurso: “o esporte é para mim apenas uma obrigação”.

Recentemente participei da avaliação de um grupo de atletas profissionais, olímpicos e futuros olímpicos, e constatei estarrecida a insatisfação de um atleta que se ainda não sabe o que quer da vida, pelo menos sente que não é o esporte a razão da sua existência. E porque ele então continua? Pelo primeiro motivo apontado pelos estudiosos da iniciação esportiva: porque os pais assim o querem. E o que espanta é que embora a literatura nos mostre isso custamos a acreditar que essa situação de fato ocorra e os danos que isso pode causar na vida do jovem.

Os desdobramentos disso para o esporte são óbvios: maus resultados, competições burocráticas e ausência do combustível básico da prática esportiva – a emoção. E assim como ocorre com médicos, advogados, engenheiros e tantos outros profissionais que determinam a vida futura do filho, como se fosse uma dinastia, é comum que pais que tenham tido uma experiência frustrada no esporte depositem em seus filhos seus desejos… e suas frustrações. E por vezes, não dêem aos filhos a chance de serem o que simplesmente desejam.

Sim, temos que admitir: nem todo mundo gosta de praticar esporte, nem deseja ser atleta profissional! E aqui falo de uma situação em que o atleta ainda não ganha nada para jogar. Diferente de um time juvenil em que os atletas já ganham muito mais do que muitos profissionais que passaram grande parte de suas vidas estudando para o exercício de uma função. Não sou contra uma boa remuneração para alguém que se dedica a fazer bem-feito o que escolheu para ser sua profissão. Fico sim indignada com aqueles que diante do ganho certo acomodam-se, escondem-se de sua obrigação e deixam no ar a justificativa de que “meu contrato me protege”. 

E se eles são para a sociedade um ideal de identidade para muitos jovens não atletas imaginem o que isso representa para tantos. Essa postura também dificulta a vida daqueles que vivem do esporte, reforçando uma representação social de que atleta é burro, mal instruído e vagabundo. E, pior, que a vida que ele leva é fácil, afinal é apenas jogar bola, viajar, conviver com celebridades e desfrutar do que há de melhor mundo afora. Quantos anos mais vamos ter que trabalhar pra formar atletas competentes não apenas do ponto de vista motor, mas também cognitivo, afetivo, moral e da cidadania? Dá pra imaginar alguém ser “obrigado a jogar bola e ser bem remunerado para isso”?

Nessa cabeça limitada por uma história construída no século XX, não. Vou ter que alterar, em breve, um recurso didático que uso em aula, para provocar debate, em que pergunto se ali alguém conhece alguém que é bancário, mas que não gosta de ser bancário. A resposta é sempre afirmativa. E então derivo para a engenharia, a administração, a psicologia, a química, até chegar ao esporte. Quase nunca encontro quem afirme conhecer um atleta profissional que seja insatisfeito com o que faz. 

Mas, diante das transformações que o esporte vem sofrendo isso já não é tão raro assim. Afinal, desde que o esporte se tornou uma profissão e uma possibilidade de ascensão social, muitos pais e responsáveis passaram a ver seus filhos como commodities. E nesse jogo, vale qualquer investimento para a valorização do produto. Eles só não sabem que os filhos, temerosos de perderem o amor familiar vão então em busca da realização do sonho de seus genitores, mesmo que isso represente a sua própria infelicidade. Não bastasse isso a sedução exercida por um ambiente construído para levar a uma atividade glamorosa ajuda a disfarçar a insatisfação ou a frustração de planos outros, afinal, estar no esporte significa ser competitivo, viril, características ultra-modernas.

Espero poder continuar a trabalhar com profissionais que enxergam essas discrepâncias a paradoxos e buscam estratégias para colocar “o bonde nos trilhos”, respeitando os sonhos de jovens que têm planos para o futuro, vontade de construir coisas e contribuir de alguma forma para deixar sua marca no mundo. Espero também encontrar mais pais que escutem de fato as demandas dos filhos e contribuam para o desenvolvimento de seus sonhos, sejam eles relacionados ao esporte ou não. E assim teremos, certamente, mens sana in corpore sano!


Sobre Katia Rubio:

Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.


2 comentários:

  1. Katia Rubio16:59

    Puxa André. Como ficou linda a diagramação que vc fez. Obrigada por tornar meu trabalho tão atrativo!

    Katia

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  2. Apenas um toque na sua obra de arte. É o mínimo q. posso fazer.

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