sábado, 14 de janeiro de 2012

Senna não é Pelé

20 anos sem Ayrton Senna. O ídolo de milhares de brasileiros e amantes da Fórmula 1 espalhados pelos quatro cantos do planeta. O homem que fazia milhares de brasileiros acordar todas as manhãs de domingo para ficar a frente da televisão e acompanhar os carros de corrida mais rápidos do mundo. Quer dizer, o evento não, mas a atuação de um piloto brasileiro: Ayrton Senna.

Em 2012, um colaborador assíduo deste blog enviou uma crítica espetacular sobre um dos maiores ídolos do esporte brasileiro. O texto de Ademir Luiz, professor de História, na Universidade Estadual de Goiás, foi publicado originariamente em novembro de 2010 na Revista Bula e causou enorme repercussão entre os milhares de fãs do piloto. Mas ele deixa claro: “O texto foi mal compreendido por muita gente. Pensaram que meu objetivo era "falar mal do Ayrton", mas longe disse, sou um admirador dele: fiz o papel de advogado do diabo. Tentei colocar sua "canonização" pelos fãs em perspectiva”.

A crítica do autor parte do documentário inglês Senna, de Asif Kapadia, exibido em 2012, pelo canal Sportv, mas rapidamente se transforma em análise da trajetória do piloto brasileiro.


Senna Não É Pelé
De mortuis nil nisi bonum.
(Dos mortos só se fala para falar bem.)
Ditado romano

Fui assistir o recém-lançado documentário inglês Senna, de Asif Kapadia, temendo pelo pior. Esperava uma patriotada melodramática, acrítica e laudatória, como a média dos produtos ligados a marca. O cartaz de divulgação era temerário: abaixo do título lemos “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”. Prognosticava um Globo Repórter em película. O fato de ser um longa-metragem sobre um piloto brasileiro, dirigido por um pouco experiente cineasta britânico de origem indiana, que admitiu conhecer pouco de Fórmula 1, não ajudava.

Para minha grata surpresa, o documentário é muito bom. A edição criativa utiliza apenas material de arquivo. Evitou-se o caminho fácil da inclusão daqueles muitas vezes anacrônicos depoimentos ao estilo “eu me lembro”. A trilha sonora, a cargo de Antonio Pinto, é um dos pontos altos da produção. Conduz brilhantemente o espectador pelas cenas, construindo climas, alternando-se de forma eloqüente com o ronco dos motores. Para decepção de muitos fãs, o maestro teve o cuidado de não utilizar o Tema da Vitória. Foi uma boa idéia, considerando sua vulgarização pela TV. Ademais, sendo uma produção internacional não fazia sentido incluir uma idiossincrasia conhecida apenas no Brasil.

                                    Entrevista com os diretores do documentário, 
                                    com imagens do filme. (em inglês)

O filme, sim, é apologético, mas nada exagerado. Louva seu protagonista sem endeusá-lo. Mostra um homem multifacetado, consciente do papel que desempenhava no imaginário mundial e, particularmente, brasileiro. Um atleta obstinado em alcançar a perfeição em seu esporte. Ambicioso, procurava aperfeiçoar-se sempre e quebrar recordes. Sua disciplina era espartana. Muito cuidadoso no trato com a imprensa, soube construir de forma meticulosa uma imagem pública de bom-moço, de homem de família. Sua religiosidade genuína sempre foi destacada. Ao mesmo tempo, o longa revela aspectos obscuros de sua personalidade: o quanto era orgulhoso, fanatizado e irritadiço. Não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desinteressada por cultura, dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas. Curiosamente, essa face de homem comum falando para homens comuns àquilo que eles querem ouvir, sempre foi um dos alicerces de sua popularidade. Com habilidade, sem apelar para excessos de verborragia, deixando as imagens falar mais alto do que as palavras, Kapadia conseguiu tirar proveito desse lado “autor de auto-ajuda” de Senna, promovendo a identificação emocional imediata entre o espectador comum e seu protagonista.


Inteligentemente, o documentário evita tocar, ou aprofundar-se, em temas escorregadios. A sexualidade do piloto é um deles. Seu casamento é ignorado, assim como seu tão falado “amigo” de infância. Nesse vácuo ganha destaque seus dois relacionamentos mais famosos, com a apresentadora Xuxa e com a modelo Adriane Galisteu. Apesar da presença de imagens captadas por câmeras caseiras, o Senna público prevalece sobre o privado.

Vitória de Senna,no GP Brasil 1991.
Da mesma forma, o filme não polemiza sobre a veracidade de algumas lendas sennianas, como o “milagre da sexta marcha”, na qual o piloto teria vencido o GP Brasil de 1991 com a caixa de câmbio emperrada na sexta marcha. Mesmo mostrando que ao final da corrida o piloto desacelerou o carro, quase o parando, para pegar de um fiscal de pista uma bandeira brasileira, voltando a acelerar em seguida, atestando que ele tinha marchas fortes, o diretor não interfere na fragrante dicotomia entre imagem e locução. Deixa para o espectador tirar suas próprias conclusões, acreditar ou não na lenda. Ou talvez, como estava mergulhado na cultura brasileiro, Kapadia emulou Nelson Rodrigues na conclusão de que, simplesmente, “o vídeo tape é burro”.

Os mais cínicos poderiam defender que o documentário blinda Senna de julgamentos de valor, colocando-o acima do bem e do mal. Isenta-se de discutir se seu controverso estilo de direção era perigoso, suicida ou apenas arrojado. Não coloca em questão os episódios onde reagiu de maneira anti-desportiva. Não problematiza, digamos, se sua atitude de garantir o campeonato de 1990 batendo na Ferrari de Alain Prost foi ou não tão repreensível quanto à mesmíssima agressão que sofreu do francês no ano anterior. Tudo isso é verdade, mas acredito que, consciente das expectativas de seu público, o diretor inglês trabalhou essa cena em seu aspecto puramente cinematográfico: trata-se da justa vingança do protagonista da trama que se desenrola na tela. Nada mais. Pura questão de ação e reação imagética. Mais do que biografia, é cinema. 

                                      Reportagem produzida pelo Fantástico, 
                                      da TV Globo, sobre o documentário Senna.

Nada disso desqualifica o filme. Não são erros, são opções estéticas conscientes. Não se trata de uma cinebiografia não-autorizada, interessada em desencavar revelações bombásticas. Não se trata de um tratado fílmico erudito sobre automobilismo, como o ótimo A Era dos Campeões. É, ao contrário, uma celebração. Considerando sua proposta básica, Senna é um documentário honesto e empolgante. Acredito que muitas de suas qualidades advêm do que inicialmente parecia ser um problema: seu diretor britânico de origem indiana pouco afeito à F-1. É bem possível que um cineasta brasileiro não tivesse o distanciamento político e emocional necessário para trabalhar o tema. Teria feito a patriotada melodramática, acrítica e laudatória que eu tanto temia. De posse do vasto material de arquivo que teve a sua disposição, Kapadia tratou Senna como um personagem com imenso potencial dramático e emocional, não como um mito intocável ou herói invencível.

Infelizmente, como era de se esperar, o filme foi vendido dessa forma no Brasil. Além do apelativo e ufanista slogan publicitário “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”, lia-se acima do título uma frase do tri-campeão de F-1 Niki Lauda, aparentemente pronunciada por ocasião do enterro de Senna, em maio de 1994: “Ele foi o melhor piloto que já existiu”. Contudo, Lauda mudou de idéia, considerando que anos depois afirmou que “por tudo que conquistou ao longo dos anos e por ter ficado mais tempo no topo é justo que Michael Schumacher seja considerado o melhor”. No melhor estilo 1984, de Orwell, há aqui a re-escritura da História: o esquecimento em prol da sacralização de uma versão mais conveniente ao mercado. Nesse cenário, lembrar que o Tema da Vitória foi composto para Nelson Piquet soa de péssimo tom. Além de herói e campeão, enquanto produto, Senna é mais rentável sendo vendido como o melhor de todos os tempos. Para boa parte dos sennistas brasileiros, principal público alvo do filme, nada menos parece servir.

Os admiradores de Senna dividem-se em dois tipos básicos: os conscientes e os fanáticos, também conhecidos como “viúvas”. Os primeiros apreciam mais o automobilismo do que idolatram Senna. Costumam ser pessoas centradas e racionais. Sabem que Senna foi um gênio do volante, não era um semideus infalível. Os outros parecem acreditar que a principal razão da existência da F-1 foi fazer o Piloto do Capacete Amarelo brilhar. Lamentavelmente, o primeiro grupo é sufocado pelo segundo.

Brasileiro faz piada com tudo: das asas de frango nos bolsos de D. João VI ao avião que não voava de Santos Dumont, passando pelos travestis de Ronaldo até a surra que Maguila levou de Holyfield. Nada é sagrado. A grande e, talvez, única exceção é Senna, que foi elevado a condição de santo secular por várias gerações de fãs. É comum encontrar crianças que nunca o viram correr afirmando que Senna é seu ídolo, seu espelho etc. Essa deificação de um atleta de um esporte elitizado, baseada em sua perseverança e hombridade, em um país conformista e cínico como o Brasil, famoso por seus macunaímas, heróis sem nenhum caráter, é um fenômeno sociológico complexo, que merece ser estudado com profundidade pela academia.

Considero particularmente intrigante a tendência das viúvas em interpretar a trajetória de Senna como se fosse um Evangelho Moderno ou a saga do herói, conforme apresentada por Joseph Campbell no livro O Herói de Mil Faces. Senna seria um ungido, iluminado desde a infância. Suas palavras são ensinamentos. O acidente em Imola, sua Paixão. Não admitem comparar a grandeza moral e profissional do ídolo com nada ou ninguém. Tratam-no com dois pesos e duas medidas, quando em paralelo com outros pilotos. Mesmo a extraordinária superação de Niki Lauda, campeão em 1975 que sofreu um gravíssimo acidente no Grande Prêmio da Alemanha de 1976, tendo grande parte do corpo queimado, e mesmo assim voltou às pistas para garantir o título do ano seguinte, e o de 1984, apequena-se diante das inúmeras provas de coragem de Senna.

Para as viúvas, uma vitória de outro piloto é apenas uma vitória, uma vitória de Senna é um triunfo. Uma volta rápida de outro piloto é apenas uma volta rápida, uma volta rápida de Senna é um grande feito. Uma ultrapassagem de outro piloto é apenas uma ultrapassagem, uma ultrapassagem de Senna é uma manifestação de gênio. Uma deslealdade de outro piloto é a deslealdade de outro piloto, a deslealdade de Senna é arrojo. Uma vitória difícil de outro piloto é apenas uma vitória difícil, uma vitória difícil de Senna é um ato de superação. A conquista de um título por outro piloto é apenas a conquista de um título, a conquista de um título por Senna é justiça divina.

Senna, na Fórmula 3 inglesa
Como ensinou Campbell e alguns evangelistas, um herói faz-se desde a juventude. Sinais, que podem variar de impressionar doutores no Templo até domar cavalos selvagens, anunciam o futuro épico. É sintomático que o filme de Kapadia começa com a apresentação do jovem Senna em uma prova do campeonato mundial de kart. Ironicamente, uma categoria onde, havendo sido campeão brasileiro e sul-americano, nunca conquistou o campeonato, chegando ao vice em 1979 e 1980. Mas se foi um vencedor em quase todas as categorias pelas quais passou, convêm lembrar que seus títulos na Fórmula Ford 1600, ou na F-2000, ou na F-3, não constituem feitos especialmente notáveis no universo da F-1. É comum entre pilotos de elite vitórias fáceis e sucessivas em categorias menores. Elas podem garantir testes, não necessariamente empregos. O festejado teste que Senna fez na Willians aos 23 anos não convenceu o dono da equipe, Frank, a contratá-lo. O mesmo Frank Willians que, em 1994, declarou que sempre desejou tê-lo em seu time, posteriormente disse que “meu sonho é ter Schumacher em minha equipe, pois ele é o pacote completo”. No circo da F-1 opiniões são fluídas, só nos restando analisar dados para definir opiniões. E é um dado estatístico que, mesmo para os padrões da época, Senna não foi precoce: o Rato Fittipaldi foi campeão pela Lotus aos 25 anos, na temporada de 1972.

Senna, correndo pela Toleman.
Senna almejava começar na F-1 pela Brabham, onde Piquet tinha muita influência. Porém, Piquet, sabendo que os patrocinadores pretendiam contratar um italiano, não se envolveu no lobby. Senna ficou furioso com a negativa do conterrâneo e, à contra gosto, aceitou o convite da pequena equipe Toleman, onde estreou na temporada de 1984.  

Fez seu primeiro ponto já na segunda corrida. Mas realmente chamou atenção no Grande Prêmio de Mônaco, quando mostrou sua extrema capacidade de pilotar na chuva, largando em 13º lugar e terminando em 2º, quando, próximo de ultrapassar Prost, a prova foi interrompida. Seu estilo arrojado de pilotagem foi comparado a duas lendas: o canadense Gilles Villeneuve e o Escocês Voador Jim Clark. Os três tiveram muito em comum, na vida e na morte. Principalmente, Senna e Clark. Muito habilidosos, gostavam de correr em pista molhada e eram excepcionais leões de treino. Colecionavam pole positions. Senna conseguiu 65 em 162 GPs.

Jim Clark
A média de Clark é um pouco melhor, tendo disputado 73 GPs e feito 33 poles. Com 25 vitórias na F-1, Clark também foi mais hábil que Senna em converter poles em bandeiras quadriculadas. O brasileiro converteu em vitórias apenas 29 de suas 65 poles. Villeneuve e Clark também morreram nas pistas. O canadense num acidente com sua Ferrari no GP da Bélgica de 1982, aos 32 anos. Ainda não havia sido campeão.

O Escocês Voador faleceu com a mesma idade em 1968, numa prova de F-2 na Alemanha. Foi bi-campeão nas temporadas de 1963 e 1965, pela Lotus. A equipe para qual Senna iria se transferir em 1985.



Senna, correndo pela Lotus.
Senna revelou-se uma grande promessa em sua passagem pela Toleman. Passou a ter o passe disputado. Sua opção pela Lotus não foi imponderada. A equipe havia sido campeã pela última vez em 1978, pilotada pelo norte-americano Mario Andretti. Em 1984, o italiano Elio de Angelis, que seria parceiro de Senna em 1985, ficou em terceiro lugar no campeonato. Como se percebe, ao contrário do que as viúvas pregam, a Lotus não era uma carroça. Era, sim, uma escuderia com tradição na F-1, com pretensões ao título nas temporadas de 1986 e 1987. O que relativiza o cartel de Senna em seu início de carreira.

Ele terminou o campeonato de 1984 em 9º lugar, em 1985 conseguiu um 4º, repetiu o desempenho em 1986 e em 1987 ficou em 3º. Venceu, com a McLaren, em 1988. Ou seja: em cinco anos venceu um campeonato e teve um terceiro lugar. Fazendo uma comparação livre, Nelson Piquet, após estrear no meio da temporada de 1978 na pequena equipe Ensign, passou para Brabham em 1979 e ficou em 15º lugar, conseguindo o 2º lugar no ano seguinte e o título em 1981. Em 1982, um ano conturbado, caiu para 11º. Recuperou o título em 1983. Em pouco mais de cinco anos conseguiu um vice-campeonato e dois títulos.

Segundo a re-escritura da história realizada pelas viúvas, Senna era dono de uma concentração de monge budista, foi o mais veloz dos pilotos, o supremo acertador e construtor de carros.  O pioneiro do automobilismo brasileiro Chico Rosa, em entrevista para revista Grande Prêmio, apresenta uma opinião diferente: “O Ayrton era um cara que tinha coisas excepcionais, mas não era um piloto completo. Considero que, entre os pilotos brasileiros, o mais completo foi o Nelson. E acho que o Ayrton foi muito menos completo do que o Schumacher. O Ayrton era imbatível em chuva e em classificação, mas tinha muitos defeitos em estratégia de corrida e um problema de desconcentração muito complicado. Concentrado, ele era um piloto. Desconcentrado, ele era um piloto qualquer. E tinha muito esse problema. Ele era um cara que se concentrava que nem um louco para fazer classificação. Por que ele ia bem nas classificações? Porque ele conseguia manter a concentração que exigia para ser rápido daquele jeito por um período de dez minutos, que eram duas voltas lançadas. Nisso, ele era absolutamente imbatível. Agora, ele não conseguia ficar guiando por duas horas com a mesma concentração. Ele foi um mau acertador de carros, nunca soube acertar, e não foi um bom estrategista. Agora, ele era muito rápido. Dava gosto de vê-lo guiar em uma classificação”.

Muito veloz em treinos, nem tanto em situação de corrida. Em seus 162 GPs, Senna somou 19 voltas mais rápidas. Seu antecessor no estilo aguerrido, Jim Clark, teve 28 em seus citados 73 GPs. Prost, muitas vezes considerado excessivamente cuidado, fez 41 em 202 GPs disputados. Piquet fez 28 em 208, enquanto Mansell cravou 30 em 191. O argentino pentacampeão Fangio conseguiu 23 em 52 GPs. O austríaco Gerhard Berger possui duas voltas mais rápidas do que o amigo brasileiro, 21 em 210 largadas. Michael Schumacher, ainda em atividade, conta, atualmente, com 76 na carreira. Em todo caso, as viúvas não gostam muito de matemática.

Tornou-se prática comum entre as viúvas falsear deficiências reconhecidas pelo próprio piloto. Como citado por Chico Rosa, sempre foi notória a falta de habilidade de Senna no acerto dos carros. Em entrevistas para a revista Playboy, de abril de 1988, Nelson Piquet ironizou o fato. Disse que na McLaren ele poderia se sair bem “porque, finalmente, encontrou alguém para acertar os carros para ele”. Refere-se ao Professor Prost. Os mais afoitos desdenhariam o falastrão Piquet, dizendo que se tratou de mera provocação. Esquecem ou não sabem que Senna, à contra gosto e medindo as palavras, admitiu a acusação. Em entrevista para a mesma revista, publicada na edição de agosto de 1990, a repórter Mônica Bergamo perguntou-lhe: “Seus adversários diziam que ele (Prost) acertava o carro, e você vinha na cola, aprendendo. Era assim?”. Hesitante, Senna respondeu que: “Eu tinha que aprender com ele, que é experiente e conhecia a McLaren”. A essa altura, entre 1988 e 1989, Senna estava longe de ser estreante. Se fosse um acertador inato já teria demonstrado na Lotus ou mesmo na Toleman.

O mito de que Senna era um profundo entendedor da sofisticada mecânica dos bólidos da F-1 é também improcedente. Para constatar isto basta recordar a célebre polêmica que travou com os engenheiros da Lotus em 1986, quando afirmava que o chassi do carro era o melhor da F-1, mas o motor Renault era ruim. Em 1987, a equipe passou a usar motor Honda e o rendimento do carro diminuiu ao invés de melhorar. A constatação final foi a de que, na verdade, o problema era no chassi. Outro dado: durante seu contrato com a McLaren, era prática comum Senna tirar férias exatamente no período de desenvolvimento dos carros. Na Willians, essa dificuldade ficou ainda mais evidente. Em setembro de 2000, Osamu Goto, antigo chefe da Honda, deu uma entrevista para a revista Autosprint, onde comparou Senna e Prost: “O Ayrton Senna era um piloto espetacular, dono de uma habilidade impressionante e sabia como tirar o máximo daquilo que podíamos oferecer a ele. O Alain Prost era, também, excelente e podia sempre nos dar algo a mais do que oferecíamos a ele”.

Apesar de dono de verdadeiras “voltas de placa”, Senna não foi perfeito. Cometeu erros tacanhos, dignos de Mansell em seus piores dias. Desatento, bateu sozinho no guard-rail enquanto liderava o GP de Mônaco de 1988. Enroscou-se em Gerhard Berger e Riccardo Patrese logo na primeira curva do GP Brasil de 1989, perdendo o bico do carro e ficando três voltas atrás. Confessou que “coloquei a segunda marcha rápido demais”. Deixou o carro morrer na largada do GP Brasil de 1988. Repetiu o erro no autódromo de Suzuka, no Japão, quase deixando o primeiro título escapar. Conseguiu sair em 15º lugar, pegando no tranco, porque a largada ficava em uma descida. Ganhou posições aproveitando-se da chuva que começou a cair. Curiosamente, sua recuperação fantástica revalorizou o erro, o ressignificou como elemento de dramatização do triunfo. No documentário, Kapadia soube explorar muito bem isso. 

A fórmula de construção do herói exige que seus feitos sejam propalados como únicos. Porém, como é comum, também no caso de Senna, muitas de suas façanhas foram repetidas ou melhoradas por outros pilotos. O triunfo em Suzuka não foi inédito. Em 1983, o irlandês John Watson venceu em Long Beach, após sair em 22º lugar. Rubens Barrichello venceu em Hockenheim, em 2000, largando em 17º lugar. Mesma posição na qual saiu o finlandês Kimi Räikkönem no Japão, em 2005. Mesmo o “milagre da sexta marcha”, para quem acredita, foi emulado por Schumacher que, com o câmbio travado na quinta, percorreu 42 voltas do GP de Barcelona de 1994, chegando em segundo. 

Diante dessas informações, não raro às viúvas alegam que as condições com que Senna realizou seus grandes feitos foram mais adversas. Duvidoso. Também costumam afirmar que o brasileiro sempre foi prejudicado pelo regulamento. Essa é uma meia verdade. É importante lembrar que a F-1 é um esporte legalista. Saber pilotar com o regulamento no bolso do macacão pode ser um fator decisivo. Senna foi beneficiado em 1988, quando fez 94 pontos contra os 105 de Prost, em números absolutos. Sagrou-se campeão devido a extinta regra do descarte dos piores resultados, somando ao final 90 pontos contra 87 do francês. No campeonato seguinte, uma decisão legalista ao extremo tirou-lhe uma vitória soberba; e o título. “Dura lex, sede lex”. Prost sabia o que estava fazendo quando correu para a cabine de direção da prova, após o choque das McLaren. Naquele momento, era mais um advogado do que um piloto. Não estranharia se estivesse de toga por baixo do macacão e peruca branca sob o capacete. Deve ter se lembrado da máxima “aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei”.

Realmente, Senna não se dedicou a fazer amigos no Circo da F-1. Berger, para quem deu uma vitória de presente no GP do Japão de 1991, foi uma exceção. É reconhecido, por exemplo, que vetou a contratação do então promissor Derek Warwick pela Lotus em 1986, por achá-lo excessivamente competitivo, alguém que não aceitaria o papel de segundo piloto. No início da carreira, foi muitas vezes acusado de atrapalhar voltas rápidas de concorrentes a Pole. Certa ocasião, o diretor da Lotus deu ordem para Elio de Angelis tirá-lo da pista por conta disso. Era considerado desleal pela maioria de seus contemporâneos.

Senna e Mansell, cena histórica no GP da Catalunha, 1991.
As viúvas costumam interpretar essa antipatia como inveja. Uma inveja ao estilo daquela que Salieri teria nutrido por Mozart, conforme vista no oscarizado filme Amadeus. Historiadores confirmar que, na verdade, Salieri, que foi professor de piano de Beethoven, ajudou como pôde o promissor novato Wolfgang, quanto ele chegou à corte de Viena. Da mesma forma, parece-me pouco provável que figuras consagradas como Prost e Piquet tivessem motivos para invejar um jovem piloto que ainda tinha muito que provar. Em sua entrevista para Playboy, Piquet mencionou que “no dia em que o Prost e o Senna estiverem disputando um título, por exemplo, todo mundo vai dar preferência (nas ultrapassagens) para o Prost, porque o Senna sempre sacaneou todo mundo”. Numa entrevista de 1988, publicado no livro O Circo e o Sonho, de Nice Ribeiro, Nigel Mansell mostrou-se indignado após ter sido fechado por Senna no GP Brasil: “Sou profissional, recebo para desenvolver um trabalho, não para bancar o louco, desrespeitando a ética das pistas e pondo vidas em risco. Com o Prost, o Rosberg e os outros, a competição sempre foi limpa e honesta. O Senna, pelo contrário, demonstrou que quem tentar superá-lo será colocado para fora da pista. Acho que quem compara o Senna com o Gilles Villeneuve insulta a memória do Gilles, um esportista brilhante e leal”.

Enredados em seu fanatismo quase religioso, é difícil para as viúvas conceberem que Senna não é unanimidade entre fãs de automobilismo ou especialistas na área esportiva. Em 2000, a revista Isto É promoveu a seleção do Esportista do Século. Inicialmente, a redação organizou uma enquête com trinta notáveis, que selecionaram aleatoriamente, sem qualquer restrição de período de atuação ou categoria esportiva, os maiores atletas brasileiros de todos os tempos. Senna figurou em vinte e oito listas. Foi esquecido por dois dos votantes. Em todo caso, a lista preliminar foi levada à votação popular e Senna sagrou-se vencedor da enquete, com 87,62 % dos votos. O segundo colocado foi Pelé, com 80,75%. 

Curioso notar que Pelé foi a única unanimidade no colégio eleitoral, sendo citado em todas as trinta listas. Perdeu para Senna na votação popular como perdeu para Maradona na eleição via internet para eleger o maior jogador do século, promovida pela FIFA. O primeiro caso é compreensível, considerando-se os fatores emocionais envolvidos, o fim trágico do piloto, a força do Instituto Ayrton Senna etc. O segundo só demonstra a desinformação dos votantes.

Alguns pilotos chegam a certo nível de excelência que se torna quase impossível medir o real alcance de seu talento. Talvez Senna seja mesmo o melhor piloto de todos os tempos, se fatores do imponderável forem colocados na balança. O que as viúvas precisam admitir é essa possibilidade de estarem errados em seus dogmas. Muita gente séria defende que o melhor foi Jim Clark, a despeito de ter sido apenas bi-campeão. O tetra-campeão Prost é um forte candidato. Os cinco títulos da lenda Fangio o colocam no páreo. A perícia de Piquet em desenvolver carros vencedores não pode ser ignorada. O estilo elegante de Stewart tem seus admiradores. Em termos de superação, Lauda parece ser imbatível. Os números de Schumacher são desconcertantes.  Enfim, se existe diferença entre esses monstros é mínima. Gênio é gênio, ponto. O eleito para o trono do automobilismo fica ao gosto do freguês.

Mas o fato é que Senna não é Pelé. No futebol, a distância entre Ele e seus pretensos concorrentes é oceânica. Os defensores de Maradona, ao contrário dos de Senna, não possuem nenhum argumento sequer razoável. Fazem polêmica oca. Os números, os títulos, a habilidade com as duas pernas, o senso tático, estão a favor do Rei. Outros candidatos, como Cruyff e Beckenbauer, admitiram o óbvio. Parte da irrefutabilidade do reinado de Pelé é o fato Dele ser ótimo ou excepcional em todos os fundamentos do futebol, sem, necessariamente, ser o melhor em nenhum. Citando as palavras do jornalista André Fontenelle, para revista Placar, “Pelé não foi o maior jogador de todos os tempos: foi outra coisa, porque a lista de tudo o que fez o põe em uma categoria à parte, acima de tudo. Os mortais que discutam entre si”.

Imagino que algumas viúvas, ressentidas por minhas colocações nesse texto, possam bradar que eu mesmo sou uma viúva do Rei. Na verdade, torço para que alguém O supere e eu possa estar vivo para ver. Enquanto isso, considerando que Pelé morreu em 1978, só restando um cavalheiro chamado Edson, considero-me uma viúva alegre. Achei, por exemplo, o documentário Senna muito melhor do que Pelé Eterno.



Sobre o autor:
Ademir Luiz da Silva é Goianiense, autor do romance "Hirudo Medicinallis – carta aberta de um vampiro de brinquedo ao espectro de Orson Welles", vencedor da Bolsa de Publicações Cora Coralina de 2002. No ano seguinte, lançou o volume de contos "Pequenas Estórias da Grande História" e em 2011 a coletânea de ensaios “Arquivo de Heresias”, pela coleção Prosa e Verso da Prefeitura de Goiânia. Doutor em História pela Universidade Federal de Goiás e professor da Universidade Estadual de Goiás. Seu trabalho de doutoramento, "Da Cruzada à Demanda - A Tradição Épica da Ordem dos Templários na Baixa Idade Média portuguesa - séculos XII - XIV", recebeu indicação ao Prêmio Capes de Teses 2009. Membro da ABREM (Associação Brasileira de Estudos Medievais). Bolsista pesquisador do Instituto Camões de Portugal (2002). Colaborador do Jornal Opção, O Popular, Revista Bula, Revista Verbo 21e Pipoca e Nanquim.  

3 comentários:

  1. sou fá de f1 tenho todas as corridas desde a decada de 70,acredito que cada um tem uma opiniao diferente quanto ao Senna, eu o achava excepcional, quanto alguns fatos lançados pelo autor, quanto a sexualidade, o proprio Piquet disse que fez aquilo para desestruturar o piloto, e que fez aquilo depois que o Senna tirou um sarro do proprio Piquet para a imprensa, quanto a vitoria em sexta marcha o amigo confundiu, a corrida q ele pega a bandeira foi em 93, Ron Dennis alegou que o carro estava na sexta marcha mesmo, na Wiiliams em 83, frank ficou muito entusiasmado com o piloto como o proprio dono disse, assim como em 94 o senhor errou em um fato a Williams queria sim o piloto assim como a Benetton, Galvão Bueno chegou a atender o telefonema do Briatore no dia em que Senna assinou com a Williams em outros relatos concordo com vc, Lauda preferia Schummy, Senna não era tão ingenuo e bom moço mesmo, apenas achei um pouco tendencioso o seu texto, e acho que deveria corrigir principalmente a parte da corrida no Brasil em 91, pois isso não é verdade mesmo, Senna não parou o carro para pegar a bandeira do fiscal e voltou a pilotar, ele parou mesmo o carro.

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  2. Sou fã de carteirinha do Senna, para mim ele sempre será o maior ídolo não menosprezando o Pele, porque o Senna eu vi todas as suas corridas e o Pele só sei mais de sua trajetória através de vídeos e das outras pessoas contarem.

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  3. Pelé é ridículo, não faz nada pra ninguém, passou a vida toda tentando se manter com o título de rei do futebol e nada mais! A última do sr pelé foi dizer que não existe corrupção na CBF e na FIFA, sempre está em cima do muro, sempre está ao lado dos poderosos, nunca fez nada pelo futebol a não ser jogar. Pelé é um brasileiro medíocre e questionável!

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