segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Quando falta a inspiração


Quando falta inspiração
Por Katia Rubio
Outro dia conversando com um colega sobre a dificuldade que estava para escrever um texto fui obrigada a ouvir a seguinte pérola: relaxa – escrever para você é como comer alface… fácil, fácil. Até hoje não sei se ele queria me ajudar ou se aquilo era um indicador da banalização dos fazeres profissionais mundo afora. Depois daquilo passei a observar como a crítica à realização alheia é muitas vezes leviana. Quase sempre o pensamento circulante é: eu não sei fazer o que ele faz, mas, certamente, aquilo ali não deve ser tão difícil assim, afinal, se ele está fazendo qualquer um com um pouco de treino faz.
Alguns atribuem a Einstein a célebre frase de que a física teórica moderna é uma operação que envolve 10% de inspiração e 90% de transpiração. Mario Vargas Llosa também foi nessa direção, mas preferiu creditar a Bernard Shaw a fórmula para o talento, usando novamente as mesmas proporções: 10% de talento para 90% de transpiração. Não vou querer discutir a autoria da frase porque qualquer um dos três gênios citados acima é mais do que merecedor da paternidade da idéia. O que me agrada é discutir como as realizações são fruto de muito esforço, combinado com obstinação e criatividade. Seja na escrita de um texto, na execução de uma obra ou na construção de uma carreira esportiva.
Mas, é preciso muito tempo até que o sujeito se poste diante da tarefa para perceber o quanto de transpiração é necessário para que se consiga chegar a um produto. Observo isso com meus orientandos, da graduação ao doutorado, com muita freqüência. Vejo em nossas reuniões semanais o quanto o verbo flui em seu formato oral. Não estou negando, nem tampouco desprezando o quanto gastamos de energia produzindo idéias em muitos de nossos “torós de parpites”, como diria o matuto. Esse foi um dos motivos pelos quais passamos a gravar nossas tertúlias acadêmicas. A profusão de idéias é tamanha que começamos a perdê-las após algumas semanas pela falta de registro. Mas, daí a isso se tornar conceito, texto, tese há uma longa jornada que requer muito suor, tolerância a frustração e humildade. Só passamos a saber que pouco sabemos quando nos colocamos diante do Saber, com maiúscula. Para minha felicidade tenho recebido alguns produtos que atestam esse casamento perfeito entre a inspiração e a transpiração.
Pois bem. Essa máxima obviamente transcende o campo da produção acadêmica.
Há anos atrás eu e minha parceira de longa data de Psicologia do Esporte, Luciana Angelo, trabalhávamos com uma equipe infanto. Nosso projeto de intervenção com essa faixa etária envolvia obrigatoriamente os pais, uma vez que não é possível lidar com um jovem atleta, que está sujeito a toda a potência das mazelas familiares, ainda mais se ele for originário da classe média, que de uns anos pra cá resolveu lavar as mãos sobre a educação dos filhos, delegando-a a qualquer pessoa que tenha alguma relação com o jovem, seja na escola ou no esporte. Essa isenção tem levado a absurdos que beiram a total falta de limites das crianças, passando pelo desrespeito em relação aos outros (sejam eles mais velhos ou não) e uma inadequação ao mundo, afinal esse pedaço de terra onde vivemos é habitado por muitos mais do que caberiam dentro de nossos corações. Nesse nosso projeto de intervenção sempre reservávamos tempo para uma reunião mensal com os pais onde avaliávamos o desempenho e atitude das crianças dentro e fora do campo. Era o momento em que também aproveitamos para dar, sutilmente, alguns puxões de orelhas nos pais mais afoitos, impetuosos, mandões, impacientes, desleixados, descuidados e outros tantos atributos tão comuns nas arquibancadas de espaços de competições esportivas.
Estávamos atentas ao comportamento de alguns pais que, na condição de torcedores, eram desrespeitosos não só com o próprio filho, mas também com os colegas de equipe e com os adversários. Lembro de uma ocasião em que um pai, mais verbal que a média, chegou a dizer que achava inadmissível que se perdesse uma bola na mão, que aquilo era desatenção e falta de compromisso com o jogo. Motivadas por esse pensamento, na reunião seguinte dos pais, simulamos uma situação de treino e pusemos os pais vestindo os equipamentos todos, fazendo-os correr, receber e arremessar as bolas, com os filhos sentados na arquibancada assistindo a tudo e torcendo. O resultado foi muito positivo, uma vez que a partir dali alguns pais passaram a valorizar o esforço dos filhos, observando a sutileza dos movimentos em campo, de uma bola com efeito e a dificuldade de se chegar ao final de um jogo com a vitória.
Como tudo parece fácil quando realizado e executado pelo outro!
De um texto de meia folha a um triplo mortal carpado tudo beira a banalidade quando não se respeita o esforço despendido nessa operação. Somente seu realizador é capaz de dimensionar o esforço dispendido em uma tarefa vitoriosa, daí a emoção que muitas vezes nos toma quando chegamos ao final de uma empreitada bem-sucedida.
Ouço com freqüência atletas medalhistas narrarem suas trajetórias até chegarem à medalha. Alguns lembram os mínimos detalhes de toda a jornada e concordam com o entendimento da brevidade do instante do coroamento de todo o esforço. A subida ao pódio, o recebimento da medalha, das flores, em caso de primeira colocação alguns segundos com os acordes do hino nacional e fim. Passou. Acabou. São mais de 10 anos de trabalho árduo, diário para acabar tão rápido…
Talvez seja essa brevidade que leva o senso comum a achar que “isso é fácil”. Afinal o que é um “ace”? Alguns podem responder: foi apenas um saque bem dado, impossível de ser recebido com sucesso pelo adversário. Pois é. O atleta que treina e compete sabe quantas horas foram necessárias para fazer aquela bola ir naquele canto da quadra ou da mesa, e não em outro. Sabe avaliar com precisão qual o peso, a textura, as ranhuras daquele objeto que será o intermediário entre o seu “sucesso” e o “fracasso” de seu adversário.
E no limite dessa discussão ainda estão os críticos invejosos, inconformados com a habilidade alheia, a dizer que “ganhando o que eles ganham eu também faria o mesmo”.
Mas, talvez a transpiração mais suada e sentida que eu tenho visto é aquela que escorre do rosto dos que não subiram ao pódio. Tanto quanto como os medalhistas foram gastos muitos anos em treinamentos, abdicação, adiamento de planos para que uma partícula adversativa tivesse que ser usada para justificar o resultado: mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto, não obstante, senão. E na seqüência o fato para justificar o que deu errado. Ouço situações que vão do overtraining à política rasteira para justificar o insucesso, relegando os 10% de inspiração à condição de azar ou de um mal dia.
É doloroso que depois de tanto esforço ainda essas pessoas tenham que buscar justificativas para o malogro de seu projeto de vida. É perceptível observar quanta energia é gasta na organização das lembranças para se tentar entender onde o plano falhou.
E, a depender do momento da carreira, o dia seguinte é só mais um dia de trabalho. E independente da inspiração estar 100% em seus 10% na conta do talento, é preciso persistir. E isso vale para o atleta, para o pesquisador, para o mestrando ou doutorando que escreve a sua tese. Cada linha de um texto, cada passo na pista ou cada bola arremessada representa parte dos 90% de transpiração que levam a genialidade. Qualquer grande obra é o resultado de muito trabalho, de um esforço sobre humano para se sair da média na tentativa de se alcançar a imortalidade que nos cabe em nossa finitude. Seja em um artigo, um recorde ou uma medalha olímpica.


Sobre Katia Rubio:
Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.

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