sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Os vários "jogos" da Literatura


O jogo fascina o homem desde sempre, dentro ou fora dos gramados, quadras, tabuleiros, tatames ou qualquer outro espaço onde a competição se faz. Fora dos locais apropriados para se jogar, a literatura (esportiva ou não) também apresenta cenários de “jogos literários”. É isso que propõe a interessante revista Pandora Brasil, em sua edição de número 22. Uma revista para quem gosta das belas jogadas ensaiadas na literatura brasileira.

Começamos esse “jogo” apresentando o editorial da edição número 1 da revista, assinado pelo professor Dr. Jorge Luis Gutiérrez:

"A revista Pandora Brasil nasceu no contexto das aulas de “Metodologia do ensino de filosofia” do curso de filosofia da Universidade Mackenzie. Era o segundo semestre de 2007. 
Como a maioria dos alunos já lecionava em alguma escola, muitos como estagiários, sempre aparecia em nossas aulas “a aula concreta” que cada aluno dava no seu dia-a-dia. Quase sempre oposta, no entender dos alunos, a uma certa teoria dos livros. Assim, um dia desafiei os alunos a escrever sobre como seria “a aula de meus sonhos”. 

Essa experiência resultou no primeiro número da Revista. Pois, uma vez que os textos estavam prontos, houve um consenso que devíamos procurar o modo de publicar a nossa “aventura” literária.
Sugeri aos alunos fazer uma Revista. Todos estiveram de acordo. Os nomes destes primeiros escritores de Pandora Brasil podem ser encontrados no Nº 1, ("Autores de Pandora Brasil Nº 1"). O nome Pandora foi sugerido por duas alunas (a Camila e a Vanessa). 

No semestre seguinte (primeiro de 2008) propus aos alunos escrever sobre “Ah! se eu fosse”. Resultando no segundo número de Pandora.... E assim seguiram os outros números... 
Quando estava sendo elaborado o Nº 6 da Revista, o Aroldo Charles, aluno do Curso de Filosofia (Mackenzie), se ofereceu para criar um novo “layout” para a Revista. Oferta que foi aceita. Assim, a Pandora ficou com um “novo rosto”. 

Em 2010 a Revista Pandora Brasil foi inscrita como projeto de extensão do Curso de Filosofia do Centro de Ciências e Humanidades da Universidade Mackenzie.

Pandora Brasil é isso, uma revista para divulgar criações literárias e textos acadêmicos de professores e alunos."

No texto de apresentação assinado pelos doutores Wagner Martins Madeira e Luiz Camilo Lafalce, coordenadores da edição número 22, de setembro de 2010, o resumo do que se encontra na revista que ganhou o título de “Jogo & Cultura”. 


Literatura na Arquibancada acrescentou a esse descritivo alguns trechos escritos pelos colaboradores da edição:




Johan Huizinga
"O ser humano joga desde sempre. Como afirma Johan Huizinga, no seminal estudo Homo ludens, “é no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve”. A ideia do jogo para o pensador holandês está associada à pureza do mito, na sua manifestação primitiva, não contaminada por influxos civilizatórios da modernidade que trouxeram a mentalidade individualista exacerbada, o desejo de vencer a qualquer custo, a massacrante rotina de competição que dessacraliza o jogo. Para Huizinga, o jogo situa-se no domínio do sagrado, expressão de uma totalidade cósmica, no qual há uma ordem de natureza comunitária, não individual.

Umberto Eco
Umberto Eco, em crítica incisiva ao Homo ludens, refuta essa atitude purista no ensaio “Huizinga e o jogo”, pertencente a Sobre os espelhos e outros ensaios. Eco entende que o jogo poderia ter sido examinado como langue e não como parole, competence e não como performance, condenando a ausência de uma gramática, de uma teoria do jogo e do comportamento lúdico. Segundo Eco, Huizinga poderia ter estudado o jogo jogante, o jogo que nos joga, e estuda o jogo jogado, e o hábito de jogar. Determina desse modo, sem sabê-lo, o preço que sua teoria deve pagar por não ter sabido ver o jogo como linguagem e como matriz, assim como a linguagem analisa os meios da linguagem com os próprios meios da linguagem. Eco vai ainda mais longe, ao reprovar Huizinga por este ter desconsiderado as implicações econômicas e sociais do jogo, deixando de lado o instrumental da crítica marxista.

Para o ensaísta italiano, o jogo se joga até quando uma das suas formas se levanta contra uma outra para negá-la. Jogo que por si só já é sério, porque é condição da vida social; jogo que não é gratuito porque a desestruturar os jogos ou opções de jogo diferentes está a pressão do momento material, que se dilui em jogo, mas que nasce como coisa bem diferente. No desfecho do seu ensaio, Eco ironiza a afirmação descabida de que o jogo acabou. De acordo com o autor de Obra aberta, é preciso continuar jogando, mesmo sem a ajuda de Huizinga. 
O xeque-mate de Umberto Eco avaliza que o jogo continua a ser jogado nos mais diferentes campos da cultura, ideia que se desdobra nesta edição de número 22 daRevista Pandora Brasil.

 Assim, a relação entre jogo e linguagem literária é o foco de dois ensaios. O primeiro – “O mito sebastianista no jogo do discurso” –, tendo como perspectiva o aspecto recriador e reprodutor inerente à atividade do jogo, analisa o processo intertextual presente no tratamento dado ao mito sebástico por Almeida Faria, na obra O conquistador.

O outro – “O que há de lúdico no poema?” – versa sobre a linguagem poética, concebida como campo de significantes em busca de múltiplos significados, lugar simbólico em que a estrutura lúdica potencializa uma percepção sempre lúcida.

Ainda no campo literário, mas de perspectivas diferentes, temos outras duas reflexões: uma desvela instigante faceta de nosso Monteiro Lobato, na correspondência trocada com Godofredo Rangel: os dois amigos jogaram xadrez postal. No ensaio “Monteiro Lobato, o enxadrista”, o leitor encontrará os lances e o sentido dessa aventura lobateana.

(...)
Monteiro Lobato e Machado de Assis viam no xadrez um jogo de raciocínio, conduzido pela inteligência humana, mediado por intrincadas estratégias e não pelo imponderável dos inúmeros jogos de azar. Daí a paixão dos dois ilustres escritores pelo jogo de xadrez. As coincidências, no entanto, param por aí. Machado execrava práticas como as do jogo do bicho, loterias, corrida de cavalos, briga de galos, etc., que arruinavam a economia popular dos crédulos brasileiros da Primeira República. Lobato, por seu turno, era mais tolerante, não foi um combatente contra estas práticas, se deixando levar pela ludicidade própria da condição humana. Não poderia ser diferente, como bem demonstram os incontáveis jogos que propõe para a petizada no Picapau Amarelo e nas suas demais obras infanto-juvenis.” (...)
 
Em “O indivíduo heroico e a comunidade”, analisa-se, com base no romance Brazil-Maru, de Karen Tei Yamashita, escritora americana de ascendência japonesa, a função e o sentido que assume o jogo de beisebol na comunidade “Esperança”, criada por imigrantes.




Jogo "Perfil", da Grow.
O processo de ensino-aprendizagem de literatura no ciclo básico, de uma perspectiva lúdica, afirma-se como uma abordagem educacional valiosa tanto para o professor quanto para o aluno, por tornar as aulas mais dinâmicas e prazerosas. É o que postulam as autoras do artigo “Ludicidade e literatura: o relato de uma experiência”.

A relação entre jogo e línguas é tratada especificamente em “O jogo da tradução”, ensaio em que a autora, apoiando-se em Huizinga e Caillois, discute as relações que unem o trabalho do tradutor ao do jogador. Afinal, “Em que outra profissão encontrar-se-ia um jogador tão solitário, aplicado e hábil quanto na tradução?”. 

(...)
Os tradutores são os goleiros da língua escrita. O crédito fica sempre com o autor do texto original, restando àqueles somente as penalidades de qualquer lapso. Os tradutores são amantes das palavras, e devem aproveitar suas horas em busca da melhor tradução sem esperar aplausos; só pelo prazer de jogar. Os tradutores, como os goleiros, assumem os riscos, que são ‘a avaliação dos recursos disponíveis e o cálculo das eventualidades previstas’”. (...)

Representação jogo civilização Maia.
O passado e o presente se conjugam nos dois outros artigos. 

Em “El juego de pelota maya”, tema escolhido para a capa desta edição, a articulista discorre sobre a origem e sentido sagrado do ancestral jogo da civilização Maia.

E em “O jogo, os jogos sérios e uma nova maneira de interação do homem contemporâneo”, a autora procura mostrar a importância dos videogames no contexto cultural e educacional, refletindo sobre o papel das novas mídias na complexidade do homem contemporâneo.

A questão identitária latino-americana é tratada no ensaio “Performance de la identidad en Macunaíma de Mário de Andrade”, numa abordagem que aponta as diferenças culturais européias e americanas, tão bem articuladas no jogo antropofágico encetado na obra do modernista brasileiro.

Linguagem e futebol é o foco do último texto, sugestiva crônica intitulada “A gorduchinha e a jabulâni”. Traz para o leitor o saber e o sabor do discurso futebolístico, atualizando um tempo de poesia feita com a voz e com os pés".

(...)
Se aceitarmos que o futebol é (ou poderia ser) uma arte, tanto quanto o uso do idioma, então o falecimento de uma metonímia deve, sim, ser lamentado, tanto quanto se pode sentir saudades da folha-seca de Didi ou das acrobacias de Garrincha. Quando mais não seja, como sintoma do sucateamento linguístico que campeia no jornalismo brasileiro. Isto é mais evidente no terreno da crônica esportiva, por seu caráter imediatista e, até certo ponto, descompromissado, o que faz com que qualquer um se arrogue o direito de dizer o que bem entende.” (...)

Para acessar o texto completo de todos os artigos:

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