quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O surfista escritor


Quem disse que surfista não entende de futebol? Ou ainda que seriam eternos pernas-de-pau? E mais ainda, que entre tantos espalhados pelo mundo houvesse um escritor?
Esse é o caso de Paulo Marreco, mineiro que adotou o Espírito Santo, autor de um livro delicioso de se ler, ainda mais para aqueles que ainda estão curtindo as férias sentados naquela boa e velha cadeira de praia e olhando o mar. Falamos de “Vagas Lembranças de Um Quase Atleta”, lançado em 2009 pelo próprio autor.
Para conhecê-lo melhor, Literatura na Arquibancada faz agora um “jogo” diferente. É o próprio autor que se apresenta com um belíssimo texto publicado originariamente no Blog do Torcedor – Terreirão do Galo, de Fred Kong (http://globoesporte.globo.com/platb/torcedor-atletico-mineiro/2010/12/ )
Coração Alvinegro

Nasceu em Belo Horizonte. Sua família se mudou para o Espírito Santo quando era ainda garotinho. Tanto que as memórias daquele tempo são poucas; lembra-se do ranger do assoalho da casa da avó; dos quadros que então achava sinistros, e da estimada figueira no quintal.
As evidências de que vem das Alterosas hoje são mínimas; não fala “mês”, “três” ou “vocês’; diz “mêis”, “trêis”, “vocêis”. O “sô” foi quase definitivamente abolido do seu vocabulário, e o “uai” é praticamente bissexto. Ainda é louco por pão de queijo; mas o pão de queijo deixou de ser peculiaridade de Minas para se tornar patrimônio da Humanidade há tempos. E ainda adora praia, mesmo com chuva e vento sul. Até virou surfista!
Praia da Costa, Vilha Velha, Espírito Santo.
Seu pai faleceu quando ele tinha treze anos. Até onde se lembra, o coroa não tinha o menor interesse pelo violento esporte bretão. Seus primos mineiros são (os que gostam de futebol) em sua maioria torcedores do… Qual é mesmo o atual nome deles? Já mudaram de apelidos tantas vezes que até se confunde! Ah, sim: Cruzeiro. Como o Espírito Santo, em termos de futebol, é meramente um anexo do estado do Rio de Janeiro, a grande maioria do povo daqui torce para Flamengo, Vasco, Fluminense ou Botafogo. A imprensa reverbera as notícias dos quatro grandes cariocas, e para assistir a um jogo do Galo no campeonato brasileiro, só se ele jogar contra um desses times – preferencialmente, o rubro negro, seu VERDADEIRO ARQUI-RIVAL.
Este é o contexto em que vive desde menino: não tendo o futebol como herança paterna; cercado por torcedores de times cariocas; bombardeado diariamente por notícias e reportagens sobre as “façanhas heróicas” destes times – mesmo que muitos dos tais resultados tenham sido obtidos através da cooperação de certos fatores extracampo…
O que poderia explicar, então, essa paixão determinada e inesgotável pelo glorioso Clube Atlético Mineiro, o tão amado GALO, forte e vingador? O que condiciona essa devoção avassaladora que se entranha debaixo da pele de um alvinegro distante? O que faz com que um garoto sem antecedentes se torne um atleticano fanático? Terá sido o fato do alvinegro ter sido o único time a encarar em pé de igualdade o tão decantado time do Flamengo da década de 80? Terá sido a genial rebeldia de Reinaldo, até hoje o maior artilheiro da história do Campeonato Brasileiro, que dominou com absoluta maestria a grande área dos gramados na mesma época, até ser vencido pela violência impune dos brucutus que já infestavam os campos pátrios? Terá sido a magia daquele time valente, brioso e cheio de talento que encantou seus olhos de menino? Talvez. Pode ser, mas nunca saberemos.
O fato é que esse atleticano distante, que assiste aos jogos do GALO sozinho em casa, que torce, vibra, sofre e xinga na solidão do exílio, está mais atleticano do que nunca. Mesmo que os títulos continuem escassos. Sua esposa não compreende. Seus amigos também não. Pouco importa. Ele é assim.
Sabe que nasceu atleticano, e natureza não se muda. Sabe que atleticanos são eternos. Como o próprio Atlético. O GALO, forte e vingador.
Sinopse

O esporte sempre foi parte integrante da vida de Paulo Marreco. Assim, o tema praticamente se impôs neste primeiro livro. O peruano Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura, disse certa vez que um escritor não escolhe seu tema: é escolhido por ele. Vagas Lembranças de Um Quase Atleta é o relato divertido das memórias esportivas do autor, que se aventurou em algumas modalidades. Histórias verídicas, personagens engraçados e peculiaridades sobre futebol, triatlo, jiu-jitsu e surfe recheiam as páginas desta obra. Os fracassos competitivos, as poucas e relativas glórias, as experiências de vida e as amizades trazidas pelo esporte são o pano de fundo para que Paulo Marreco descreva, como ele mesmo diria, com “certa habilidade (...) e nenhum senso crítico”, passagens curiosas de sua vida. Boa leitura!

Abaixo, dois capítulos interessantes da obra.

SELEÇÃO

Como todo garoto brasileiro, eu também já sonhei em ser um grande jogador de futebol, em vestir a camisa amarelinha da seleção e brilhar nos gramados do mundo. Cheguei a disputar campeonatos de futsal (que na época atendia pelo nome de futebol de salão) pelo Clube Libanês, do qual era sócio.
Clube Libanês, na Praia da Costa, Vilha Velha-ES
Eu era um dos três goleiros que brigavam pela vaga debaixo das traves. Humildemente, tenho que dizer que eu era o terceiro na preferência do técnico. Apesar de a concorrência ser intensa, Sandro Pretti, que era o titular, quase sempre faltava aos jogos que aconteciam aos sábados de manhã ou à tarde. Quando alguém contava que ele não tinha comparecido ao jogo para ir surfar, eu ficava intrigado. Não podia compreender como alguém era capaz de abandonar uma coisa tão séria, uma partida importante do campeonato capixaba de futsal, categoria infantil, simplesmente porque naquele dia havia altas ondas no surfe! (pensava assim até que eu também me tornei um surfista: mas isso não vem ao caso no momento). 

Praia da Barra do Jucu - Espírito Santo
Pois bem. Quando Sandro faltava ao jogo para ir pegar onda, eu e o Alemão (que me perdoe o Alemão, mas eu não sei o seu nome; acho que ninguém nunca soube. Talvez os seus pais soubessem) disputávamos a posição, quase sempre com larga vantagem para ele. Mas eu também tive meus momentos.
Naquele ano, nós fomos vice-campeões, se não me engano. Este resultado, aliado ao fato de algumas pessoas do meu círculo irem fazer testes em times do Rio (eu jogava bola com o Sávio quase toda semana no campinho do Libanês; de fato, se a memória não me trai, devo ter-lhe ensinado um driblezinho ou dois), e ainda a percepção de que, nas peladas, jogando na linha, se não era o primeiro a ser escolhido, também não era dos últimos; tudo isso, enfim, mais uma certa habilidade, alguma velocidade e nenhum senso crítico fizeram-me acreditar que poderia tentar a carreira profissional. E como um tolo só precisa de algum incentivo para fazer tolices, achei no meu vizinho e amigo I Fe (ou Ivo, na versão brasileira, um chinês -preciso fazer uma correção, ou o Ivo me mata. Chinês, não: taiwanês. Taiwan, ou Formosa, como se sabe, separou-se da República Popular da China em 1949. Chamar um taiwanês de chinês constitui ofensa tão grave quanto chamar um tucano de petista, ou um vascaíno de flamenguista. Ou vice-versa - inteligentíssimo, porém igualmente iludido em relação aos seus dotes futebolísticos), o parceiro ideal para meus desvarios.

Campo do Colégio Marista.
Torcedor fanático do Santos (de onde este chinês, perdão, Ivo, Taiwanês - maluco havia tirado essa idéia? Torcer pelo Santos?! Em plenos anos oitenta?!), Ivo era dono de um chute forte e sempre fazia alguns gols em nossas peladas, e como não precisava estudar nunca, pois sempre tirava dez em tudo, tinha todo o tempo livre do mundo para jogar pelada. Nós jogávamos bola sempre: no campo oficial do Marista, onde estudávamos; na quadra do Libanês, depois no campo de society; na velha e esburacada quadra de cimento do Sesiminas, descalços sob o sol escaldante de dez, onze da manhã; à tarde, até a chegada dos adultos que nos expulsavam; na chuva, escorregando, caindo e abrindo a cabeça; na praia...

Estádio da Desportiva, Engº Alencar de Araripe, Cariacica - ES
Até que, convencidos de nosso potencial, resolvemos fazer um teste em um dos times de futebol da cidade, que, naqueles tempos, ainda desfrutavam de algum prestígio junto à população capixaba. Descobrimos o horário do treino e, chuteiras a tiracolo, dinheiro da passagem contadinho no bolso e sonhos mirabolantes na cabeça, despencamos da Praia da Costa para Jardim América, para encarar a peneira da Desportiva.
Chegando ao clube, ansiosos, fomos à procura do treinador no vestiário, no momento em que ele fazia a preleção para o começo do treino. Lá, outros garotos, como Ivo e eu, novatos inexperientes, misturavam-se aos boleiros, ouvindo as orientações do técnico.
Esperei que o homem terminasse de falar e dirigi-me a ele, resoluto: eu era o próximo Zé Sérgio em pessoa (para quem nunca ouviu falar, Zé Sérgio era um ponta esquerda de novo, para quem nunca ouviu falar, ponta era um cara que jogava, com o perdão da redundância, pelas pontas, rápido, driblador, um craque!).
Toquei em seu ombro, pois ele estava de costas para mim, e comecei:
- Bicho, como é que eu faço para entrar no time...
Quando chamei o sujeito de bicho, despertei sua fera interior. O barbudo atarracado virou-se para mim furioso, como se eu tivesse acabado de xingar sua mãe, irmãs e tias, e vociferou:
- Bicho?! Que bicho, moleque?! Eu não sou nenhum bicho, eu sou é gente! E pode sumir da minha frente, porque no meu time quem fala gíria não joga!
Acho que foram essas as suas palavras, obviamente temperadas com alguns delicados palavrões. O Ivo, coitado, não abriu a boca, só olhava para o homem com os olhinhos orientais esbugalhados. Saímos dali enxotados, envergonhados, sob os olhares de espanto e deboche dos outros garotos. Saímos sem nem olhar para trás e voltamos para casa sem dizer palavra. 
Deixa estar que a história tem lá sua ironia: eu, que desde pequeno sempre me preocupei em falar bem, me expressar corretamente, fui barrado em um time de futebol, não pela falta de talento, mas por um deslize idiomático. Isso foi acontecer logo, repito, em um time de futebol, onde fluência verbal e formação acadêmica não são exatamente os requisitos mais exigidos para se alcançar o sucesso.
Ao invés de ser examinado pelo domínio de bola, fui barrado por não dominar o vernáculo...
De qualquer maneira, foi assim que eu encerrei minha promissora carreira de jogador de futebol profissional.

Surfistas
Crédito: http://blog.br.privalia.com

O que mais ocupa o tempo livre dos surfistas quando estão na praia (além do surfe, claro) é o sádico esporte de tirar um sarro uns dos outros, inventando os mais bizarros apelidos. E, diga-se, nessa modalidade, os surfistas são praticamente imbatíveis. Os apelidos vão surgindo aos borbotões durante as conversas, como de uma fonte inesgotável, e variam de acordo com as características da infeliz vítima da vez.
O apelido pode não ter relação com nada, ou nenhum significado aparente, como Ciabala (um dos apelidos mais misteriosos que já ouvi), ou Bobô. Ou podem aludir à origem do surfista, como Mineiro ou Jabá. Os apelidos podem também sobrepor-se uns aos outros. Assim, Marcus Bobô também atende pela alcunha de Jabá. O sujeito pode ter tantos sobrenomes que isso pode virar um apelido. Quem não conhece o famoso Homem dos Mil Apelidos?

Cláudio Tripa.
Foto: Vinicius Santos
Pode-se apelidar um surfista por alguma característica física. Os irmãos Valdetaro transformaram-se nos lendários Cláudio Tripa e Bruno Lua Cheia. O rotundo Handersen Fidalgo era o ainda mais lendário Gordinho Bororó. Por motivo inverso, Augusto era chamado de Caveirinha. Nuno, por sua cara redonda, transformou-se no famoso Bebê Moranguinho. Queixada, Beiçola, Batom, são apelidos que remetem a detalhes anatômicos de seus detentores. Os irmãos Cézar e Fernando são, respectivamente, Zóio de Boto e Popô. Cézar era ainda conhecido como Rei dos Mares, por sua avidez em remar em todas as ondas, deixando poucas para os colegas. Maurinho, por sua conhecida vontade de se tornar famoso, que fez com que se tornasse vocalista de uma certa banda, era o Rock Estrela. Enrico foi identificado como o personagem Quácula.

A partir da esquerda: Gustavo Grilo, Tiago Tibú,
Aloysio Goiamun e Marco Aurélio Buiú.
Equipe capixaba do Stand Up Paddle (SUP), modalidade
do surfe introduzida no Espírito Santo por Gustavo Grilo.
Também há os incontáveis diminutivos: Andrezinho, Betinho, Cezinha, Flavinho, Marcinho, Saulinho... às vezes, tem-se a impressão de que surfistas são da tribo dos pigmeus.
Muitos, incontáveis surfistas, recebem seus apelidos do reino animal. Talvez essa, digamos, categoria de apelidos seja a mais prolífera. Em um dia de boas ondas, é possível se deparar com Flávio Pulga (que tem mais de um metro e noventa de altura, nunca entendi o porque tal apelido), Gustavo Grilo, Mauro Macaco (ou General Urko), Ronaldo Cação, Luciano Cavalinho, Renato Xaréu, Lula, Luciano Caranguejo, Aloizio Goiamum, Léo Papagaio, todos disputando as melhores da série. Também existem variações de tamanho dos animais: assim, deparamo-nos com Antônio Carlos Ratinho, Marcos Rato e Alex Ratão. O zoológico surfístico ainda conta com os indefectíveis Fernando Peixe, Jair Chagas, o Ema, e Luiz Adalto, o Guaxinim. Encontramos ainda animais com adjetivos, como Dudu Cachorro Doido, Saulo Burro Branco e Foca Russa. Sem contar, é claro, o humilde Marreco que vos escreve, mas com um sobrenome desses, quem precisa de apelido para ser devidamente zoado?
Sobre Paulo Marreco:

Mineiro, moro no Espírito Santo há décadas; nem falo mais "uai" ou "sô"; mas ainda adoro pão de queijo e praia, mesmo com vento sul. Cristão. Torcedor fanático do Clube Atlético Mineiro, o GALO, Forte e Vingador. Surfista. Casado para sempre com Letícia.









Outras crônicas escritas por Paulo Marreco, acessar:
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Acessar também os blogs para os quais o autor colabora com crônicas interessantes:


2 comentários:

  1. paulo marreco15:32

    Olá! Não sei se mereço, mas muito obrigado pela divulgação! Abraços!

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  2. Que é isso, Paulo. Quem tem que agradecer sou eu (ou nós leitores do Literatura na Arquibancada). Seu post fez (e ainda faz) o maio sucesso.

    Parabéns pelo trabalho. E sinta-se a vontade de colaborar quando puder. Meu e-mail pessoal é a-ribeiro@uol.com.br.

    abração

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