quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Eusébio: o Pantera Negra


Uma verdadeira “lenda” do futebol mundial, o craque português, Eusébio, apelidado de Pantera Negra, nos deixou às vésperas de completar 72 anos de vida. Para homenageá-lo, Literatura na Arquibancada resgata um trecho da obra “A Magia da Camisa 10” (Verus Editora, 2006). Talvez seja por sua inclusão na obra (o que seria imperdoável se não estivesse ali) que duas editoras portuguesas acabaram por lançar a obra no país. Eusébio era muito mais que um camisa 10. Como Pelé, um rei negro com sotaque bem português.

“...Eusébio, o Pantera Negra, não é um recordista com a camisa da seleção de Portugal, vestiu-a apenas 64 vezes, mas sua história é muito maior que essa camisa da seleção nacional. 

Sua vida não pode ser medida ou comparada com ninguém em números. Na Copa da Inglaterra, por exemplo, Eusébio foi o artilheiro da maior competição do futebol mundial com nove gols.

Ao ficar frente a frente com os donos da casa, a Inglaterra, em pleno Estádio de Wembley, em 1966, Eusébio já era dono de triunfos que o faziam ser visto como um assombro no ataque. 

Em 1962, um ano após ter estreado no Benfica e conquistado seu primeiro Campeonato Português, foi a Amsterdã para decidir a Copa dos Campeões contra o lendário Real Madrid, de Di Stéfano e Puskas. A vitória do Benfica, por 5 a 3 foi alcançada com dois gols marcados por ele, que já havia vencido também duas vezes a Copa de Portugal (1962 e 1964) e três vezes o Campeonato Português (1961/1963 e 1964).




Eusébio, o técnico Bella Gutman e seu companheiro de
equipe Coluna, com o troféu da Copa dos Campeões de 1963.
Ao perder o talento de Eusébio, o Sporting perdeu também a chance de encarar o Benfica de maneira igual, porque as atuações do atacante acabaram com o equilíbrio histórico entre a duas equipes, que até então somavam dez títulos cada. Nos quinze anos em que o Pantera Negra passou no Estádio da Luz, o Benfica venceria mais 11 vezes, e o Sporting, apenas quatro. Não é à toa que os portugueses mandaram levantar uma estátua com seu rosto na frente do Estádio da Luz, em Lisboa.


Estátua de Eusébio, em frente ao Estádio da Luz,
em Lisboa, Portugal.
Desde o início, a história não ocultou o talento de Eusébio. Apesar de não gostar das comparações com o maior craque brasileiro de todos os tempos, Eusébio deve tudo o que conquistou no futebol a dois brasileiros. Primeiro encantou um jogador brasileiro de passagem pela África, Bauer, ex-craque do São Paulo Futebol Clube, que o indicou ao treinador do Benfica, Bella Guttmann, profundo conhecedor do esporte e um apaixonado pelos esquemas ofensivos. Assim, Eusébio encontrou na figura do novo técnico a liberdade de que precisava. Depois teve Otto Glória como técnico – de Portugal, na Copa de 1966; e nos títulos portugueses de 1967 e 1968.

Otto Glória, ex-técnico da Seleção de Portugal.
Dois anos depois do duelo com os ingleses, na Copa da Inglaterra, o Benfica de Eusébio e o Manchester ficaram frente a frente. O jogo terminou em 1 a 1 e na prorrogação os ingleses venceram por 4 a 1. Em 1963, havia sido o Milan e Gianni Rivera. 

O Estádio de Wembley parecia a única coisa capaz de derrotar Eusébio, mas talvez fosse apenas uma compensação para fazê-lo mais parecido com os outros.

Ao contrário de muitos, não existiu um fundamento no futebol que Eusébio não tivesse sido capaz de dominar. 

Apesar de não gostar das comparações, era forte, rápido e com um faro de gol incomum, exatamente como Pelé. Os dois ultrapassaram a barreira dos mil gols. Pelé marcou 1.281, e Eusébio, 1.137. Pelé parou uma guerra; Eusébio virou herói e mito dos portugueses, e acabou impedido pelo ditador Antonio Salazar de deixar o país para ir jogar na Itália, mais precisamente na Juventus de Turim. 

O argumento do ditador, apesar de autoritário, carregava boa dose de verdade. Eusébio tinha virado, segundo Salazar, patrimônio nacional.


Eusébio (segundo agachado, da direita para a esquerda), aos
16 anos, quando jogava nos juniores do Sporting Clube
de Lourenço Marques (atual Maputo, capital de Moçambique).
Mas o Pantera Negra não era português, veio ao mundo em Moçambique, na costa oriental da África Austral, uma colônia portuguesa que só se libertou em 1975, mesmo ano em que ele deixou o Benfica, graças ao fim do regime ditatorial implantado 36 antes por Salazar.

Eusébio mexeu com o imaginário dos torcedores e também das mulheres. Em 1967, durante uma excursão do Benfica a Caracas, foi assediado pela Miss Venezuela, a quem tratou com indiferença.

Um empate por 2 a 2 com a Bulgária em 1973 marcou o fim da era Eusébio na seleção.

Ao deixar o Benfica em 1975, tinha sido o artilheiro português em seis temporadas e era o maior goleador da equipe nacional com 41 gols, em 64 jogos. Depois de ter sofrido seis operações no joelho esquerdo e uma no direito, passaria ainda por times do Canadá e dos Estados Unidos. Em 1976 seria campeão com o Monterrey, no México.

De volta a Portugal, despediu-se definitivamente em 1980 como jogador do Beira-Mar. 
Já aposentado, declarou certa vez que o grande segredo daquele Benfica era aliar o poder ofensivo ao cuidado na hora de se defender. 
E a melhor maneira de conseguir executar essa tarefa era marcar dois ou três gols no início do embate, para poder controlar o ritmo do jogo e manter a iniciativa de ataque.

Já não há duvida de que tudo parecia mais fácil quando havia um Eusébio em campo. 

Em 2004, Eusébio esteve no Brasil para ser homenageado. Pela primeira vez um estrangeiro era convidado a deixar a marca de seus pés na calçada da fama, do Estádio do Maracanã.


Emocionado, o craque moçambicano chegou a chorar e, em uma frase genial, demonstrou o completo fascínio que a camisa 10 exerce nesses homens poderosos:

Pelé é meu amigo, meu irmão. Hoje poderíamos jogar no mesmo time... Só não sei quem seria o camisa 10”.

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