terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O palavrão no futebol brasileiro


Na série sobre o centenário de Nelson Rodrigues, uma dica de leitura obrigatória para aqueles que querem conhecer melhor a prosa do Nelson cronista esportivo. Em 2007, a editora Agir lançou “O berro impresso das manchetes”, uma coletânea das crônicas escritas por Nelson Rodrigues para a revista Manchete entre os anos de 1955 e 1959.

Destacamos abaixo uma delas, que mostra bem o olhar de Nelson Rodrigues sobre os diversos personagens e cenários do futebol brasileiro. Quem poderia melhor do que Nelson descrever a mania do torcedor e do jogador brasileiro de xingar e falar palavrões a torto e a direita, em casa, na frente da televisão, dentro dos gramados ou nas arquibancadas dos estádios?


O berro impresso das manchetes

Sinopse (da editora):

O homem que imortalizou o Fla X Flu escreveu também sobre outras modalidades esportivas: remo, boxe, alpinismo... Nelson Rodrigues cuidou das modalidades mais diferentes e conseguiu, de igual maneira, retratar o quadro épico nas glórias e derrotas de cada uma. Mais do que a aridez dos resultados, o que interessava ao cronista eram a atmosfera, os incidentes e os episódios que envolviam os atletas dentro e fora do palco de competição. Um gol de placa da crônica esportiva nacional.

Fonte:


Bocage no futebol

Quando eu tinha meus cinco, meus seis anos, morava, ao lado de minha casa, um garoto que era tido e havido como o anticristo da rua. Sua idade regulava com a minha. E justiça se lhe faça: – não havia palavrão que ele não praticasse. Eu, na minha candura pânica, vivia cercado de conselhos, por todos os lados: – “Não brinca com Fulano, que ele diz nome feio!”.

E o Fulano assumia, aos meus olhos, as proporções feéricas de um Drácula, de um Nero de fita de cinema. Mas o tempo passou. E acabei descobrindo que, afinal de contas, o anjo de boca suja estava com a razão. Sim, amigos: – cada nome feio que a vida extrai de nós é um estímulo vital irresistível. Por exemplo: – os nautas camonianos. Sem uma sólida, potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama, um Colombo, um Pedro Álvares Cabral não teriam sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão.

Mas, se nas relações humanas em geral, o nome feio produz esse impacto criador e libertário, que dizer do futebol? Eis a verdade: – retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível. Como jogar ou torcer se não podemos xingar alguém? O craque ou o torcedor é um Bocage. Não o Bocage fidedigno, que nunca existiu. Para mim, o verdadeiro Bocage é o falso, isto é, o Bocage de anedota. Pois bem: – está para nascer um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano. O craque brasileiro não sabe ganhar partidas sem o incentivo constante dos rijos e imortais palavrões da língua. Nós, de longe, vemos os 22 homens correndo em campo, matando-se, agonizando, rilhando os dentes. Parecem dopados e realmente o estão: – o chamado nome feio é o seu excitante eficaz, o seu afrodisíaco insuperável.

Jaguaré
Exagero? Nem tanto, nem tanto. A propósito, vou citar aqui o caso de Jaguaré. No seu tempo, os clubes não tinham Departamento Médico e um jogador podia andar com a boca em petição de miséria, desfraldando cáries gigantescas. Assim era Jaguaré: – não tinha dentes, só cáries. E seu riso sem obturações, docemente alvar, era largo, permanente e terrível. E acontece o seguinte: – a época de Jaguaré coincidiu com a infância do profissionalismo. Morria-se de fome no futebol. O sujeito que tinha pra a média, para o pão com manteiga, podia se considerar um Rockefeller, de tanga, mas Rockefeller.

Jaguaré e Fausto.
Até que, um dia, apareceu por aqui o emissário de um clube estrangeiro. E o homem esfregou na cara de Jaguaré propostas dignas de um rajá. A princípio, o nosso patrício opôs uma recusa inexpugnável. Não queria aceitar nem por um decreto. Acabou cedendo. Andou pela Espanha e até por Paris. Mas era outro, como homem e como craque. Como jogar sem a pornografia luso-brasileira? Sem as expressões obscenas que dinamizam, que transfiguram, que iluminavam os jogadores? Traduzi-las seria uma traição. E Jaguaré vivia sob a persistente, a dilacerada nostalgia dos nomes feios intransportáveis.


Finalmente, não pode mais: – voltou correndo para o Brasil. Aqui, agonizou e morreu na mais horrenda miséria. Mas feliz, porque pode soltar, no idioma próprio, seus últimos palavrões terrenos.

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